Tartufo, O Pato Selvagem
Petersen
Não. Dão lhe coisas para copiar quando há pressa. Mas no seu tempo, podes
crer, era um notável tipo, o velho Ekdal.
JENSEN
De fato parece ter sido alguém.
PETERSEN
Se não era! Era tenente!
JENSEN
Ora essa! Ele foi tenente?
PETERSEN
Foi. Mas, depois disso, quis negociar em madeiras ou coisa que o valha. Foi
então que, segundo dizem, ele pregou uma formidável peça no patrão.
Compreendes, não? Eles foram sócios na exploração de Heydal. Ah! Conheço
bem o velho Ekdal. Temos tomado mais de um bitter e mais de um chope,
juntos, em casa da Senhora Eriksen18 .
PROF. MONIR: Pelo que tudo indica, essa exploração em Heydal é de madeira. Esses países nórdicos têm uma quantidade tão estúpida de madeira, que apesar de que a árvore lá demora trinta anos para crescer contra sete anos aqui – aqui o pinus, o eucalipto crescem a ponto de corte em sete anos – apesar dessa di-ferença incrível de tempo de maturação, com as técnicas de manejo, tirando as árvores que já estão plantadas com cuidados, eles conseguem produzir papel mais barato do que o Brasil. Esses países são uma floresta, tirando a Finlândia, 18 Nota do resumidor – Trata-se de uma casa noturna local.
124 Professor José Monir Nasser que tem muitos lagos. A Suécia é mais importante do que o Brasil na produção de papel e celulose. Antes de nossas duas maiores empresas, a Kablin e a Suza-no, há vinte empresas maiores no mundo e a maioria está no Canadá, Estados Unidos e nos países nórdicos - a Stora, por exemplo. São florestas incrivelmente ricas, essas dos países nórdicos.
JENSEN
O pobre não deve ter muitas vezes com que convidar...
PETERSEN
Bem... Está claro, Jensen, que sou eu quem paga. Acho que a gente deve ser
gentil com um homem de qualidade que teve as suas desgraças.
JENSEN
Abriu falência, não é?
PETERSEN
Pior do que isso: esteve na cadeia.
JENSEN
Na cadeia?
PETERSEN
Em resumo: esteve preso. (Aguçando o ouvido.) Estão se levantando. (págs.
167-168)
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 125 PROF. MONIR: Aí vocês já têm uma grande informação sobre a história. O velho Ekdal, pai de Hjalmar, havia sido sócio do velho Werle, pai de Gregers, num empreendimento que por alguma razão foi considerado ilegal e aí quem acabou indo preso foi o Ekdal, e não o Werle. Esse velhinho teve a sua vida destruída com isso e agora presta serviços para seu antigo sócio, fa-zendo cópias de documentos (provavelmente contábeis) quando é preciso aumentar a capacidade de trabalho no escritório.
Entra no escritório a senhora Berta Soerby com dois senhores. Aos poucos apa-recem os convidados. Por último entram os Werles e o fotógrafo Hjalmar Ekdal. O café seria servido na sala da música. O velho Werle comenta com o filho, Gre-gers, que eles haviam sido treze na mesa, quando normalmente o grupo era de doze pessoas.
HJALMAR (que ouviu as últimas palavras de Werle)
Não me devias ter mandado esse convite, Gregers.
GREGERS
Como? Então dizem que a festa é em minha honra e eu não teria o direito de
convidar o meu velho amigo?
HJALMAR
Não creio ter causado grande prazer ao teu pai: nunca venho por aqui.
GREGERS
Sei disso. Mas fiz questão de te ver e de te falar porque, com certeza, em breve
me irei e voltarei para lá. Pois é! Hjalmar, nós nos perdemos de vista desde a
escola. Já lá vão dezesseis ou dezessete anos que não te vejo. (pág. 169)
126 Professor José Monir Nasser Pondo o amigo em dia, Hjalmar diz que “tudo se esboroou para (ele) e para os (seus) desde que deixaram de (se) ver”. Dá como exemplo o caso do pai dele que mora em sua casa: “Só tem a mim no mundo”. Hjalmar lamenta se das “ruínas acumula-das pelo desastre do pai. A vergonha e o opróbrio”.
PROF. MONIR: Depois que o velho Ekdal sofre aquela condenação judicial, sai da prisão e vai morar com o filho, Hjalmar, que é fotógrafo.
Como não pôde continuar a estudar, Hjalmar havia se estabelecido como fotó-grafo com ajuda do velho Werle, pai de Gregers, que lhe havia emprestado di-nheiro. Gregers fica sabendo que Hjalmar havia casado com Gina Hansen. Como o velho Werle não havia comunicado o casamento de Hjalmar ao filho, Gregers estranha, porque Gina havia trabalhado na residência Werle. Curioso, Gregers quer saber como o amigo havia conhecido a moça:
PROF. MONIR: Gregers descobre que seu amigo de infância tinha virado fo-tógrafo ajudado com o dinheiro de seu pai. Descobre também que Gina, empregada da casa de seu pai, casou-se com o Hjalmar. Achou estranho que o pai nunca tivesse comunicado isso, já que a moça era da casa.
HJALMAR
De um modo muito simples: Gina tinha deixado a casa onde tudo estava em
reviravolta... desde a doença de tua mãe, compreendes? Ela não podia mais
aguentar. Despediu-se e retirou-se. Foi no ano que precedeu a morte de tua
mãe... ou talvez, no mesmo ano.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 127 PROF. MONIR: Portanto a morte da mãe de Hjalmar havia acontecido há uns quinze, dezesseis anos. Na verdade, Gregers não assistiu a muita coisa, por-que já estava lá na usina.
GREGERS
Sim, foi no mesmo ano da morte de mamãe. Nessa época eu já estava na
usina. Mas vamos, continua.
HJALMAR
Pois bem, Gina foi para a casa da mãe dela, uma mulher ativa e
empreendedora, que tinha um pequeno restaurante. Ao lado, ela tinha um
quarto para alugar, um lindo quarto, elegante e bem mobilado.
GREGERS
E, naturalmente, tiveste a sorte de ir morar nele.
HJALMAR
Sim. Um rapaz, uma rapariga... o amor vem depressa.
GREGERS (Levantando se e recomeçando a caminhar)
Escuta: foi depois disso – depois do teu noivado – que me pai te aconselhou...
enfim: foi então que resolveste ser fotógrafo?
HJALMAR
Justamente. Eu me quis criar uma situação e estabelecer-me o mais depressa
possível. Eu e teu pai concordamos em que a fotografia era o que havia de
mais fácil. Gina era da mesma opinião. Ah! é verdade! Havia ainda outro
motivo; Gina tinha feito alguns estudos de retoque.
128 Professor José Monir Nasser