Tartufo, O Pato Selvagem
Elmira
Não faz mal; por favor saí por um momento;
E observa! tudo ali com olho e ouvido atento. (págs. 101-102)
Cena VI
Quando Tartufo vai verificar se o marido estava perto, Orgon sai debaixo da mesa e confessa à mulher: “Não me refaço, está a arrasar-me o que ouvi! Confesso-o, homem mais nefando nunca vi!” Na volta de Tartufo, Orgon esconde-se atrás de Elmira.
Cena VII
Tartufo anuncia não ter encontrado pista do marido: “Ninguém se encontra ali, e minha alma encantada...” Quando o trapaceiro aproxima se de Elmira para abra-çá-la, percebe Orgon, que rapidamente detém o santarrão e tenta expulsá-lo.
ORGON
Calma! É acatar demais essa ânsia apaixonada.
Pudera! não deveis entusiasmar vos tanto.
Quereis algo impingir me, ai, ai, meu homem santo?
No rol das tentações vossa alma apenas ousa
Desposar minha filha e subornar me a esposa?
De início eu não quis crer em tal patifaria,
E pensei que ainda o tom se modificaria.
Mas por demais já é levar a prova avante:
Para ver onde estou é mais do que bastante.
(...)
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 77
Rua, sus! Arre! é não ter vergonha!
Vamos, pra fora, e já! sem qualquer cerimônia!
TARTUFO
Quis...
ORGON
Chega de discurso; é levantar a asa
E dar sem mais demora o fora cá de casa.
PROF. MONIR: Opa! Finalmente, né?
Mas Tartufo não está de acordo:
TARTUFO
O fora dareis vós, que vos fazeis de dono:
A casa é minha, e dá-lo a conhecer tenciono.
Vereis se pode aí da intriga e inveja o alarde
Fazer com que do céu a causa se abastarde;
Não está onde o crê quem quer causar-me injúrias;
Contra a fé sei punir maquinações espúrias,
Vingá-la, e ocasionar que do alto tom decaia
Quem ousa aqui falar de fazer com que eu saia. (págs. 103-104)
PROF. MONIR: Tartufo é o dono de tudo, não é? Ele recebeu em doação. Por-tanto ele é o dono da casa. Quem tem que sair é o Orgon e a família, ele não.
78 Professor José Monir Nasser Cena VIII
Sozinho com Elmira, Orgon confessa estar mais preocupado em saber se certo cofrinho “ainda está lá em cima”, do que com a doação dos bens da família que havia feito.
PROF. MONIR: Aí tem uma história que vocês não conhecem. Um amigo de Orgon, chamado Argaz, havia fugido da França e deixado aos cuidados dele um cofre com documentos que o comprometiam.
O fato histórico, que não está escrito na peça, se relaciona com o gover-no de Luís XIII. Existiram vários Luíses que governaram a França. Entre eles, São Luís – o Luís IX – foi um santo que fez a Sainte-Chapelle em Paris, e que conduziu cruzadas. Esses Luíses todos são da casa de Bourbon. Os últimos são Luís XVI, que foi guilhotinado, e Luís XVIII, que ainda fez o pequeno go-verno da Restauração, depois de Napoleão Bonaparte. Mas a casa Bourbon, a última casa real francesa, teve seu auge com Luís XIV e Luís XV – porque o Luís XVI, embora fosse um rei muito bom, acabou pagando o preço da Revolução Francesa.
Luís XIII era um homem fraco dirigido pelo Cardeal Richelieu. O cardeal li-dava com uma nobreza muito agressiva, muito exigente e havia feito uma porção de restrições de poder à nobreza quando mandava na França. Com a morte de Luís XIII começou o reinado de Luís XIV, que por ser muito jovem ficou sob a regência da mãe. A mãe por sua vez também não mandava nada; ela não era uma governante. Quem mandava era o Cardeal Mazarin, que se defrontou com uma rebelião da nobreza chamada La Fronde. Esta rebelião durou muitos anos, e teve várias consequências graves. Muita gente mor-
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 79 reu. Era a nobreza rebelada contra a tentativa que o rei fazia, obviamente influenciado por Mazarin, de continuar as limitações que Richelieu havia estabelecido à nobreza.
É dessa revolta aristocrática que Argaz havia participado, e os documentos sob a guarda de Orgon comprometiam o amigo. Como Tartufo havia se tor-nado o gestor espiritual do sr. Orgon, este havia entregue a caixa com os documentos de Argaz para ele. Quando vê que Tartufo está indo embora, Orgon fica com medo de que ele tenha levado os documentos que podiam não só ser comprometedores para Argaz como também para o próprio Or-gon, que havia escondido as provas. Assim como Argaz, Orgon podia ser visto como traidor. E é óbvio que o cofre foi levado embora pelo Tartufo.
Quinto Ato
Cena I
Orgon lamenta-se com o seu cunhado de ter entregue em confiança a Tartufo o cofre onde haveria documentos secretos de seu amigo Argaz: “E aquilo são papéis, ao que pôde dizer-me, que além dos bens também envolvem sua vida.”10 Cle-anto acusa seu cunhado de imprudência. Orgon, revoltado, promete mudar sua atitude para com devotos: “Ter-lhes-ei doravante horror e ódio medonho, e con-tra eles me vou tornar pior que um demônio”. Cleanto diz que ele está sempre a se “ lançar dum noutro excesso”.
10 Nota do resumidor – Os documentos incriminariam Argaz na conspiração La Fronde, entre 1648 e 1653, e poderiam mandá-lo para o cadafalso.
80 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: A Igreja Católica não entendeu que nessa frase vinda da boca do Cleanto está a inocentação do Molière. No fundo, ele não está falando da Igreja Católica; está falando contra os devotos. Ele põe na boca do Cleanto, que é quem tem bom senso nessa história, uma condenação ao fato de que agora Orgon quer acabar com todos religiosos, inclusive os verdadeiros.
CLEANTO
Vedes que a um erro mor vos havíeis cingido,
E que vos ludibriou do céu zelo fingido.
Mas onde anda a razão, para estar vosso emperro
A afundar doravante ainda em maior erro,
E, por vos ludibriar um mísero velhaco,
Com gente boa e honesta irdes dar o cavaco? (pág. 109)
PROF. MONIR: “Dar o cavaco” significa “mostrar zanga”, uma expressão an-tiga, dessas que não se usam mais, como “macacos me mordam”. Já não se usava mais mesmo em 1968, quando foi feita a tradução. Mas como é uma tradução em verso, às vezes a tradutora precisa buscar palavras antigas para poder fazer as rimas.
Cena II
Damis, sabendo da ameaça que pesa sobre seu pai, quer agredir Tartufo.
DAMIS
Deixai-me, vou cortar-lhe orelhas e nariz.
A punir lhe a insolência enfim não mais se fuja:
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 81
Devo vos libertar daquela cara suja;
E faz se jus que a pau o embusteiro amarrote. (pág. 110)
Cleanto diz que ele fala como “mero rapazote” e que aquele mal “pela violência não se emenda”.
Cena III
A senhora Pernelle, mãe de Orgon, chega e pede explicações, pois ouvira dizer que ali havia acontecido “trapalhada tremenda”. Seu filho explica:
ORGON
Sim, novidades há de que fui testemunha.
De benefícios meus veio-me pago à cunha.
PROF. MONIR: Ser “pago à cunha” significa ser pago com abundância. Ele está falando ironicamente que recebeu pagamento farto pela generosidade dele. Outra expressão antiga.
Em sua pior miséria um homem cá recolho;
Como meu próprio irmão alojo-o e por ele olho;
De favores e dons cumulo-o diariamente,
Dou-lhe a filha e o total de meus bens de presente:
E o salafrário aí, sem hesitar sequer,
Tem a desfaçatez de assediar-me a mulher,
E, para mais suprir seus cínicos ofícios,
Em sua ameaça inclui meus próprios benefícios;
Usa, a fim de que a fundo a minha ruína urda,
82 Professor José Monir Nasser
Vantagens com que o armou minha bondade absurda,
E escorraçar-me enfim de meus bens tem por alvo
E reduzir-me ao ponto em que por mim foi salvo. (pág. 111)
Prof, Monir: Orgon está explicando para a mãe que o objetivo de Tartufo é deixar Orgon tão pobre, tão pobre quanto Tartufo estava quando foi salvo pelo Orgon.
A Senhora Pernelle não acredita e insiste em que “sempre o povo inveja os que devotos são”. A matriarca faz defesa de Tartufo, apesar de seu filho afirmar: “Mas eu vos disse já que eu mesmo tudo vi”.... “com os próprios olhos vi lhe o temerário crime.” A Senhora Pernelle insiste na inocência de Tartufo: “Meu Deus, é a aparência o que mais leva a engano, e, pelo que se vê, julgar algo é leviano.” Os presentes a contra-dizem e se lamentam estarem nas mãos de Tartufo. Confessa Elmira: “Soubesse eu que ele tinha em mãos aquelas armas, não teria levado o caso a mais alarmes e...”
Chega o Senhor Leal, um sargento de polícia.
Cena IV
O sargento vem da parte do Senhor Tartufo. Apresenta-se e diz já ter sido servi-dor do pai de Orgon.
SENHOR LEAL
Às vossas ordens: Leal, da Normandia oriundo;
Sou alcaide de vara, e ainda que o inveje o mundo,
A dita hei, louvo o céu, de exercer sem embargo,
Há quarenta anos já, com toda a honra o meu cargo.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 83
E trago aqui, senhor, a orar que não discordem,
A citação legal decorrente de uma ordem...
ORGON
Como! vindes...
SENHOR LEAL
Senhor, sem barulho e paixão,
Está a se tratar de mera intimação.
A ordem de todo o mundo aqui evacuar a casa,
E dos móveis e o mais deixá-la livre e rasa,
Cedendo a outro o lugar sem demora ou fragor. (pág. 118)
PROF. MONIR: Que tal? Agora chegou o oficial de justiça com uma ordem de despejo para tirar tudo da casa, os móveis incluídos, para que o Tartufo vá morar lá na casa do Orgon.
O senhor Leal confirma que a casa agora pertence a Tartufo. Damis reage agres-sivamente e o sargento o ameaça com um “processo verbal”. Dorina, à parte, co-menta que aquele “senhor Leal tem carranca bem desleal”. Leal, com hipocrisia, diz que havia trazido para si o caso para evitar outro oficial, “cujo proceder talvez vos agravasse” e, para demonstrar tal “consideração”, dá à família um dia de prazo para desocupar a casa, contanto que possa passar a noite lá com “uns dez ho-mens” para colocarem para fora, logo na manhã seguinte, “até o último utensílio e objeto”. Os moradores reagem com insultos, mas Cleanto intervém: “Ponha-se a isto fim: já basta! Daí-me aí o vosso papelucho, e por favor, saí”.
84 Professor José Monir Nasser Cena V
A Senhora Pernelle está estupefata com a cena e “despenca das nuvens”. Começa um conselho de família.
PROF. MONIR: Esta agora convenceu-se de que o Tartufo não era o que ela achava que era.
Cena VI
Valério pede desculpas por trazer mais más notícias:
VALÉRIO
Senhor, ter que afligir vos ainda mais, eu sinto;
Mas o perigo o impõe do modo mais distinto.
Amigo meu, ao qual me prendem velhos nós,
E que inteirado está do que me liga a vós,
Infringiu para mim, por um passo arriscado,
O segredo devido aos negócios de Estado;
E o aviso que me veio por seu cuidado à luz,
A uma fuga imediata os passos vos reduz.
PROF. MONIR: Um amigo de Valério, ligado ao governo, disse a ele que Or-gon seria preso a qualquer momento. O Tartufo havia levado a caixinha para o rei e o rei mandou prendê-lo como cúmplice de conspiração. Orgon devia fugir o mais rápido possível para não ser preso, porque iam piorar muito as coisas.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 85
VALÉRIO
O cínico impostor que a fé vos ludibriava
Fez, há uma hora, ao monarca uma acusação brava,
E lhe entregou, a armar ainda essa infâmia nova,
Num cofre de papéis, de um réu de Estado a prova.
Do qual, disse, o dever de um súdito ignorando,
Quisestes ocultar o segredo nefando.
Ignoro o pormenor do que ele vos imputa,
Mas sei que de um mandato a ordem já se executa;
E, para a fim levá lo, ainda é ele quem se atreve
A acompanhar quem vem por vós prender em breve. (págs. 123-124)
Valério prepara Orgon para fugir: “Golpe tão fulminante só se apara a fugir sem perda de um instante”. Orgon dirige-se apressadamente para a saída.
Cena VII
Na saída, Orgon é interceptado por Tartufo, que chega acompanhado de um oficial de justiça.
TARTUFO (detendo Orgon)
Eh, nada aqui, senhor, de escapatória ousada;
Longe não tendes que ir para encontrar pousada;
Pois, da parte do rei, vos fazem prisioneiro. (pág. 125)
Quando lhe pedem que mostre gratidão à ajuda da Senhora Pernelle, Tartufo devolve:
86 Professor José Monir Nasser