Tartufo, O Pato Selvagem
Prefácio à segunda Edição
Reencontro com José Monir Nasser
Todo paranaense — todo brasileiro — interessado em alta cultura deveria agradecer a Deus pela vida e obra de José Monir Nasser. Durante uma trajetória de vida relativa-mente curta — apenas 56 anos — ele realizou trabalhos fundamentais nos campos da economia, do empreendedorismo, da editoração e da literatura. Mas, se precisás-semos resumir numa palavra o perfil desse homem multifacetário, poderíamos dizer simplesmente: — Professor.
A biografia intelectual do professor Monir foi a realização integral de uma de suas mais famosas frases: “Uma sociedade não pode ser rica antes de ser inteligente”. Grande divulgador do empreendedorismo cívico — tema de seu excepcional livro A Economia do Mais —, Monir dedicou grande parte dos seus últimos anos de vida ao projeto Expedições pelo Mundo da Cultura, com palestras luminares sobre obras literárias clássicas. Ele próprio tinha perfeita consciência do que esse trabalho repre-sentava: “O Expedições pelo Mundo da Cultura é um programa que tem por objetivo restaurar a verdadeira cultura brasileira, que nós de alguma maneira perdemos e que precisamos buscar a todo custo, porque é a única maneira pela qual nós con-seguiremos sair da terrível e profunda crise civilizatória em que nós nos metemos”. (Curitiba, 22/05/2010)
Este segundo box com palestras do professor Monir é apenas mais uma parte do imenso legado que ele deixou ao Brasil: uma enciclopédia educacional em que os clássicos da literatura são as bússolas que nos orientam no mar tenebroso da vida contemporânea. Nas palestras de Monir, a cultura não é sinônimo de belles-lettres ou pedantismo literário, mas uma força viva que nos orienta como indivíduos e per-mite a cada um ordenar a sua própria alma. Os dez livros aqui comentados não são vistos como meros registros históricos ou modelos estilísticos; constituem, muito mais do que isso, um “conjunto de intuições, formas e símbolos portadores de verda-de e valores universais”, para usar as palavras de um grande amigo e incentivador de Monir, o filósofo Olavo de Carvalho.
Os cinco volumes que você tem em mãos, caro leitor, são portais de sabedoria capa-zes de ampliar o horizonte intelectual de qualquer pessoa sinceramente interessada em fazê-lo. Ao promover um diálogo supratemporal com os gigantes da literatura, José Monir Nasser estende as possibilidades do futuro e enche os nossos corações de esperança pela felicidade definida por Aristóteles: a contemplação da verdade. Que este novo volume de sua admirável obra seja mais um passo rumo à consolação última imaginada por Boécio na prisão: a eternidade — “posse inteira e perfeita de uma vida ilimitada, tal como podemos concebê-la conforme ao que é temporal”. Reencontrar Monir é reencontrar a nós mesmos.
Paulo Briguet é escritor em Londrina.
Tartufo
de Molière (1622 - 1673)
Transcrição da palestra do professor José Monir Nasser em Curitiba, em 10/04/20101
1 Transcrição de Maria Cecília Noronha. Revisão da transcrição: Patrícia Nasser.
12 Professor José Monir Nasser
Tartufo
Um livro como Tartufo é facílimo de ler porque é pequeno. As peças de teatro de modo geral são muito acessíveis, porque são curtas. O teatro de Molière é agradabilíssimo, delicioso. Ele é um dos maiores dramaturgos comediantes da história da humanidade – quase o maior de todos. Acho que é o maior de todos – muito melhor do que Aristófanes, por exemplo, que é o maior dramaturgo satírico grego. Molière é muito mais talentoso e divertido.
Este programa é voltado para pessoas que querem obter mais cultura, no sentido usado por Cícero. Cícero queria que, além de se cultivar o campo, cultivássemos também o espírito. Nós não estamos usando “cultura” no sen-tido antropológico da palavra. A palavra cultura é cheia de significados. Em princípio, tudo aquilo que não está aí de modo natural é “cultura”. Vai desde o modo de como se engraxa o sapato, até o modo como se operam as co-ronárias. Tudo isso é cultura. Esse sentido amplo não nos interessa. Também não usamos a palavra no sentido antropológico: cultura europeia, cultura mineira, cultura hip-hop, etc. Não usamos nesse sentido idiossincrático, cul-tura como sendo a representação de um modo de ser de um tipo de po-
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 13 pulação específica. O conceito de cultura que se usa aqui é o conceito que Cícero desenvolveu - por analogia ao cultivar da terra, cultura é o cultivar do espírito. Esse é o sentido da palavra cultura na denominação do programa Expedições pelo Mundo da Cultura.
A peça é tão importante que a expressão “tartufo” está na maioria dos di-cionários do mundo, quase toda a língua moderna incorporou a palavra ao seu vocabulário. Quando alguém chamar você de tartufo, não se sinta muito lisonjeado, porque não é uma atribuição meritória. Um tartufo é um sujei-to hipócrita, santarrão, fingido. Se você procurar no Aurélio, está lá “tartufo”, significando hipócrita. É esse o sentido que se dá em português; a palavra se incorporou ao nosso vocabulário. Há algumas palavras que são assim, como no caso da palavra “ritz” que, sendo originalmente o nome de um hoteleiro, passou a ser sinônimo de hotel no mundo inteiro.
Molière inventou uma expressão chamada “tartufo” que é a denominação de um tipo humano. Aliás, todo o teatro de Molière é assim. Ele é o maior criador de tipos humanos específicos. Ele inventou o hipocondríaco, que é personagem de O Doente Imaginário, inventou o avarento típico, o misan-tropo – enfim, tipos humanos que marcam determinados comportamen-tos e passaram a ser entidades imortais, tendo se tornado sinônimo para aquele tipo de pessoa. Nem sempre o nome da personagem é o sinônimo, mas quando se pensa num avarento, sempre se pensa no avarento do Mo-lière, quando se pensa num hipocondríaco, todo o mundo pensa no Argan. Aliás, curiosamente, Molière morreu fazendo o papel de Argan na peça O Doente Imaginário. Ele sofria de uma tuberculose gravíssima e teve uma cri-se no palco, de onde saiu carregado para morrer em casa logo em seguida.
14 Professor José Monir Nasser Portanto Molière morreu fazendo papel de doente em uma peça que ele mesmo havia escrito, usando uma roupa amarela. Desde então na França nenhum ator ou atriz que se preza veste roupa amarela no palco, de jeito nenhum, com medo de um destino semelhante.
CRONOLOGIA
1606 – Nasce Pierre Corneille (1606-1684).
1616 – Morre William Shakespeare (1564-1616) em Stratford-upon-Avon.
1622 – Molière nasce em Paris no dia 15 de janeiro, numa família de comercian-tes ricos, e é batizado na Igreja de Santo Eustáquio com o nome de Jean-Baptis-te Poquelin, sendo seu pai, Jean Poquelin (1596 -1669), “tapissier ordinaire du roi”, ou fornecedor oficial de tapetes para a corte. Neste ano, Richelieu (1585-1642) torna-se cardeal.
1624 – Richelieu entra para o gabinete de Luís XIII (1610-1643) como chefe do Conselho Real e, na prática, governa a França, dedicando se, entre outras coisas, a destruir o protestantismo (partido huguenote) na França.
1627 – Fundada a Compagnie du Saint Sacrament, o partido dos devotos, socie-dade conservadora e secreta destinada a “construir Jerusalém na Babilônia”, se-gundo Bossuet (1627–1704).
1631 – Jean Poquelin confirma para Jean-Baptiste a transmissão do cargo de fornecedor oficial de tapetes (tapissier ordinaire du roi).
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 15 1632 – Em maio, morte de Marie Cresse (1600-1632), mãe de Molière.
1633 – Jean Poquelin casa se de novo e interna o filho no Collège de Clermont (hoje liceu Louis-le-Grand), importante escola jesuíta em Paris, de onde Jean-Baptiste sairá formado em 1639.
1638 – Instalado na França por Antoine Arnauld o movimento jansenista (con-vento de Port-Royal) de inspiração agostiniana para combater o excesso de oti-mismo humanista.
1639 – Nasce Jean Racine (1639–1699).
1642 – Morre o cardeal Richelieu. Jean-Baptiste teria se formado em direito em Orleans, questão polêmica até hoje. Nesta época, teria sido influenciado pelo filósofo epicurista Gassendi. Início da relação amorosa de Jean-Baptiste com Madeleine Béjart (1618-1672), filha de Joseph Béjart, cabeça de uma família de gente do teatro.
1643 – Morre Luís XIII e começa a regência de Ana da Áustria (1601–1666), mãe de Luís XIV (1638-1715), e do ministério do cardeal Jules Mazarin (1602–1661), que na prática governa a França. Jean-Baptiste forma, no dia 30 de junho, com a família Béjart, a companhia de teatro L’Illustre-Théâtre.
1644 – Primeira apresentação da companhia em Paris.
1645 – A companhia vai à bancarrota em maio e Jean-Baptiste Poquelin duas vezes vai à prisão por dívidas, de onde seu pai o resgata. Jean-Baptiste adota o
16 Professor José Monir Nasser sobrenome Molière inspirado numa pequena aldeia do sul da França, para não comprometer socialmente o pai.
1646 - Molière começa período de treze anos como ator itinerante pelo interior, encenando peças italianas, sob o patrocínio de diversas autoridades regionais, como o duque d’Épernon e o príncipe de Conti.
1648 – Começam os distúrbios da Fronda, uma rebelião da aristocracia com o objetivo de recuperar direitos usurpados por Richelieu. Os distúrbios iriam até 1653. A aristocracia é derrotada e perde mais poder. A monarquia francesa agora é absoluta, mas compensa os nobres com fausto nunca visto.
1653 – Molière forma nova companhia sob a proteção do príncipe de Conti até 1657, quando este torna se devoto.
1654 – Cede a seu irmão a prerrogativa de fornecedor oficial de tapetes.
1655 – Estreia em Lyon L’Étourdi (O Estouvado), a primeira comédia de Molière.
1656 – Estreia em Béziers Le Dépit amoureux (O despeito amoroso).
1657 – A companhia, agora sob a proteção de Monsieur, irmão do Rei, passa a chamar se Troupe de Monsieur.
1658 - Molière volta a Paris, apresentando no Louvre, no dia 24 de outubro, na presença do Rei, a tragédia Nicomède de Corneille e possivelmente a comédia Le Dépit amoureux. Luís XIV, impressionado, instala a companhia na sala do palácio
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 17 Petit Bourbon, ao lado do Louvre, onde divide o espaço com os comediantes “italianos”.
1659 – Estreia com sucesso a peça Les Précieuses ridicules (As Preciosas ridículas).
1660 – Estreia Sgaranelle ou le cocu imaginaire (O Corno imaginário). Com a morte de seu irmão, retoma a prerrogativa de fornecedor oficial de tapetes. Cresce a importância política do partido dos devotos. Mazarin tenta, sem sucesso, dissol-vê-lo.
1661 – Morre o Cardeal Mazarin. Assume Luís XIV, o “rei-sol”, com poderes absolu-tos, graças à obra centralizadora dos cardeais Richelieu e Mazarin. Seu principal ministro seria Jean-Baptiste Colbert (1619-1683), que havia sido secretário par-ticular de Mazarin desde 1651. Molière encena com fracasso a comédia heroica Dom Garcie de Navarre e com sucesso L’École de maris (Escola de Maridos). O grupo teatral de Molière começa a se apresentar no Palais-Royal, enquanto duram as reformas do Louvre, que exigiram a demolição do Petit-Bourbon. Em novembro, Molière apresenta ao Rei, em Vaux-le-Viscomte, sua primeira comédia balé Les Fâcheux (Os Importunos), durante as festas em homenagem ao novo Rei. Molière torna se comediógrafo oficial da corte.
1662 – Molière casa se com Armande Béjart (1642-1700), vinte anos mais jovem, acreditando ser irmã de sua amante Madeleine, mas que era, na verdade, filha dela com o duque de Modena. Sucesso espetacular da École des femmes (Escola de Mulheres), que estreia no dia 26 de dezembro. O Rei concede-lhe uma pensão.
18 Professor José Monir Nasser 1663 – Ataques do partido dos devotos, que acusa Molière de imoralidade e de ter casado com a própria filha. O Rei, no entanto, toma o partido de Molière e aceita ser padrinho de seu filho primogênito, que nasce no ano seguinte e morre bebê.
1664 – Molière anima a grande festa Os Prazeres da Ilha Encantada de Versalhes, com a peça A Princesa de Élis (ad hoc) e o Tartuffe que é, em seguida, censurada, porque a rainha mãe, devota, vê em O Tartufo ataque direto aos devotos. É o maior escândalo da carreira de Molière. Molière dirige a primeira tragédia de Racine, La Thebaïde. Início da cooperação com o compositor Jean-Baptiste Lully (1632-1687).
1665 – Molière encena Dom Juan ou O Festim de Pedra, baseado na obra de Tarso de Molina em torno da vida de Dom João Tenório. Após algumas sessões, a peça é censurada e só voltaria a ser apresentada 174 anos após a morte de Molière. Sucesso de público com a peça L’Amour médicin. Molière e Racine rompem re-lações após este último ter tirado de Molière a peça Alexandre le Grand e tê-la entregue à companhia rival do Hotel de Bourgogne.
1666 – Encenação de Le Misanthrope, com fracasso de público. Sucesso de públi-co com a peça Le Médicin malgré lui. Luís XIV dissolve a Companhia do Sagrado Sacramento.
1667 – Nova proibição do Tartuffe, mesmo usando o título L’Imposteur.
1668 – Encenado L’Avare (O Avarento).
1669 – Com a morte da Rainha-mãe, Luís XIV libera o Tartuffe.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 19 1670 – Molière produz duas comédias balés para a nobreza: Les Amants magni-fiques e Le Bourgeois gentilhomme, considerado por alguns um ataque pessoal a Colbert.
1671 – Encenada Les Fourberies de Scarpin (As Artimanhas de Scarpino).
1672 – Morre Madeleine Béjart. Estreia Les Femmes Savantes (As Sabichonas). Rompimento como o compositor Jean Baptiste Lully, após oito anos de trabalho conjunto. O Rei e os ministros instalam-se em Versalhes.
1673 – O segundo filho do casal Molière morre com menos de um mês. Durante a quarta encenação da peça Le Malade imaginaire, na noite de 17 de fevereiro, na qual faz o papel principal, Molière sofre grave hemorragia bucal associada à tuberculose. Morre em casa por volta das dez da noite. O fato de estar vestido de amarelo no palco expulsou esta cor para sempre dos figurinos teatrais na Fran-ça. Molière é enterrado na seção de não batizados, à noite, mesmo com a inter-venção de Luís XIV, porque atores não podiam ser enterrados em solo sagrado.
1680 - Luís XIV manda fundir a companhia de Molière com a do Hotel de Bour-gogne, sua antiga rival, criando a Comédie Française ou La Maison de Molière.
1710 – Destruído por Luís XIV o convento de Port-Royal e com ele o coração político do movimento jansenista na França.
1817 – Os restos de Molière são transferidos para o cemitério Père-Lachaise e enterrados ao lado dos despojos de La Fontaine.
20 Professor José Monir Nasser Molière teve uma vida interessantíssima. Ele fazia parte deste movimento chamado teatro clássico francês. O teatro clássico francês foi a última ten-tativa de se fazer tragédia no mundo. Depois do teatro clássico teve tam-bém o Regeldrama alemão, teve alguma coisa de tragédia. Mas a tragédia no sentido grego da palavra é um gênero que ficou restrito à tragédia grega e morreu – são trinta e três as tragédias gregas que sobraram praticamente inteiras, e que perfazem tudo o que sabemos sobre o assunto. O mundo moderno não conseguiu mais fazer tragédia daquele jeito.
Shakespeare não escreveu tragédias, rigorosamente falando. Ele é muito próximo de Molière, porque morre em 1616 e Molière nasce em 1622. Em-bora a diferença cronológica seja pequena, a diferença em termos de estilo e abordagem teatral é enorme, imensa. Em primeiro lugar porque Shakes-peare é um dramaturgo muitas vezes mais importante do que Molière. Shakespeare é um autor metafísico, enquanto Molière é um autor satírico. Do mesmo modo que no tempo de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes havia Aris-tófanes, um autor leve que fazia sátiras, também muito próximo de Shakes-peare há um autor leve chamado Molière, que faz sátiras. Molière não tem nem sombra da profundidade de Shakespeare.
Também há de se considerar o fato de que há uma diferença enorme entre a França e a Inglaterra: a Inglaterra sempre teve uma nobreza pobre, essa é a razão pela qual os ingleses são bons comerciantes, para não dizer muitas vezes até mesmo bons piratas - para poderem viver, os reis da Inglaterra ti-nham que assaltar os outros. Já os reis da França sempre foram riquíssimos. Quatro ou cinco anos depois da morte de Shakespeare, que morava numa Inglaterra em que quase não havia ruas calçadas e em que tudo era muito precário, você já tinha Luís XIV, ainda criança, numa França em que havia
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 21 uma pompa, uma grandeza e uma suntuosidade que na Inglaterra não tinha de modo nenhum. A França sempre foi muito mais rica, por isso tinha uma nobreza muito mais exuberante do que a da Inglaterra (de natureza muito mais franciscana).
Molière era um ser da corte e pertence cronologicamente ao teatro clássico francês, que é composto por Racine, Corneille e Molière. Racine e Corneille são dois trágicos.
ALUNA: [Faz pergunta sobre Pascal.]
PROF. MONIR: Pascal é um filósofo agostiniano. É o que parece mais com Santo Agostinho de todos os escritores. Não escreveu teatro.
Se não me engano temos primeiro Corneille, o mais velho dos três, depois Racine e por fim Molière. Racine e Corneille são dois autores clássicos no sentido de que foram capazes de fazer peças suntuosas imitando os clás-sicos gregos – é um teatro muito mais suntuoso do que o próprio clássico grego. Quando você lê o teatro grego, você vai se acostumando aos poucos e vai achando que aquilo é linguagem comum. Com Racine e Corneille não é assim. Há sempre um pouco de pastiche, mesmo quando o pastiche é ge-nial – porque se está tentando recuperar alguma coisa muito velha – o su-jeito quer fazer teatro do mesmo modo como era feito dois mil anos antes.
Vejam a arquitetura. O sujeito que inventou aquelas colunas que existem na frente da Universidade do Paraná estava querendo recuperar uma an-tiguidade clássica da qual ele não tinha a menor ideia. É o caso da Made-leine de Paris, também. O sujeito que depois do mundo grego tenta fazer
22 Professor José Monir Nasser colunas gregas sempre o faz meio “pastichado”, porque no fundo, no fundo, ninguém sabe muito bem como era aquilo, que vem de outra época... Quan-do é uma construção antiga, como no caso da Universidade do Paraná, as pessoas se impressionam muito - mas já era um pastiche horrendo na época em que foi feito. Eu me lembro de que quando morei em Joinville, baixaram lá uma regra dizendo que quem fizesse construção enxaimel ia ganhar um desconto no IPTU. Aí derrubaram tudo o que tinha de arquitetura legítima e maravilhosa que havia lá – tinha um mercado municipal magnífico em arquitetura colonial portuguesa – derrubaram tudo para fazer o enxaimel, que é assim: você faz um prédio comum e daí você cola na parede um con-tact que parece o enxaimel. A coisa mais medonha do mundo! Mas o turis-mo vive de breguices e pastiches.
O teatro francês clássico – o Corneille e o Racine – é genial, Racine é maravi-lhoso, mas é uma coisa que ficou meio fora de época. Como esse teatro tem quatrocentos anos de idade, para nós parece que era a linguagem da época, porque temos a tendência de considerar tudo o que tem trinta anos mais do que nós como igualmente velho. É uma tendência da nossa mente tentar resumir o passado numa categoria única, como se não houvesse diferenças intermediárias. Há certa dificuldade da nossa mente em compreender que o passado é algo complexo, com muita periodização interna. Um bom exer-cício para entender isso é começar a gravar algumas datas básicas - ter em mente duzentas datas (é o que dá para guardar) e com essas datas periodi-zar todo o passado. Se você não fizer isso, vai achar que São Tomás e Santo Agostinho ficavam discutindo filosofia juntos, quando eles têm oitocentos anos de diferença.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 23 Embora Racine, Corneille e Molière pertençam teoricamente à mesma épo-ca – os três possivelmente se conheceram, Racine e Molière escreveram pe-ças juntos – é muito difícil enquadrá-los numa mesma categoria com rela-ção à natureza das obras. Racine e Corneille são recuperadores do passado clássico. Por passado clássico compreenda-se o teatro clássico grego - que mesmo os romanos já não souberam reproduzir direito (o teatro romano é incomparavelmente menor do que o grego). Molière era diferente desses dois, porque era um satírico que aplicava na prática o velho adágio “Castigat ridendo mores” - usava o humor e a sátira para fazer crítica social. Molière é um moralista, por mais que não pareça.
Algumas pessoas parecem o contrário do que são. Nelson Rodrigues parece um sátiro, uma espécie de libertino, um velho pervertido, quando na verda-de era um sujeito absolutamente careta, implicante ao extremo, dificílimo – comenta-se que o cachorro dele teria se suicidado. [risos] Não tinha nada de libertino. Todas aquelas personagens rodrigueanas são personagens que ele abomina. Não bebia uma gota de álcool, só fumava desbragadamente. Mas era um sujeito chatérrimo que tinha uma visão extremamente mora-lista do mundo, embora o vulgo, a pessoa que não presta muita atenção, possa imaginar que ele fosse um adepto de Os Sete Gatinhos, de O Beijo no Asfalto, das coisas que ele apresentava apenas a título de crítica social.
Molière era mais ou menos assim, embora tenha tido uma vida de escânda-los. Casou-se com a filha da atriz Madeleine Béjart, com quem tinha parceria – e sua mulher era tida e havida como filha dele. Foi um escândalo muito grande. Embora não se tenha nunca provado que isso tivesse sido assim, ele passou por ter tido um casamento incestuoso com a própria filha. O que não era pouca coisa.
24 Professor José Monir Nasser Por causa de seu gênio expansivo e linguagem crua – Corneille e Racine jamais pensariam em escrever duas linhas como Molière; os dois escolhiam o francês castíssimo e Molière usava o francês do dia a dia –, foi acusado de ter todas as perversões que indicava nas suas próprias personagens. Foi uma vida de dificuldades políticas muito grandes. A sorte dele é que Luís XIV gostava dele e o protegia de alguma maneira.
Havia um fator importantíssimo na época de Luís XIV, que era a disputa en-tre jansenistas e jesuítas. Sobre isso é preciso falar alguma coisa, porque vai nos ajudar a entender O Tartufo. O catolicismo é uma religião muito antiga e, como toda instituição velha, tem hábitos e vícios arraigados. O catolicis-mo de matriz, romano, o catolicismo dos grandes arcebispados, do poder real, sempre esteve associado a conspirações, problemas políticos, etc. Em reação a isso foi que Lutero fundou o luteranismo. Sempre houve dentro do catolicismo reações contrárias ao catolicismo. Sempre houve um padre que se rebelava contra o baixo catolicismo do próprio catolicismo. A Igreja Católica resolvia isso com muita habilidade dando ao religioso revoltado a possibilidade de fundar uma ordem. O religioso montava a sua visão em uma ordem, que era abençoada pelo Papa.
Aqui também é assim. O arcebispo de Curitiba manda nos padres diocesa-nos, os padres que estão nas igrejas de Curitiba. Mas a ordem monástica x, y ou z responde direto ao seu superior em Paris, ou em Madri, ou em Roma. É claro que há relações muito amistosas por razões óbvias, mas o arcebispo não manda nas ordens monásticas. Sempre foi assim, pois era desta forma que Roma resolvia os problemas de resistência. Isso não aconteceu com Lu-tero porque havia interesse político dos príncipes alemães em romper com Roma. Então a dissidência doutrinária de Lutero se transformou em uma
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 25 dissidência política. Essa é a razão pela qual os protestantismos puderam se implantar – saíram da esfera religiosa e passaram para a esfera geopolítica.
No tempo de Molière, havia dentro do catolicismo um movimento chamado jansenismo, fundado pelo holandês Cornelius Jansen. O jansenismo nun-ca deixou de ser católico. Era um movimento de austeridade católica, na mesma base do protestantismo. Racine foi criado pelos jansenistas. Quando ficou órfão, foi colocado num convento jansenista por uma tia que tomava conta dele.
Tanto Jansen como Lutero eram monges agostinianos, e Santo Agostinho é o fundador de uma doutrina chamada predestinação – a ideia de que só nos salvaremos por um ato de bondade e deferência de Deus, porque desde a queda não somos mais capazes de buscar a salvação por mérito próprio. Santo Agostinho explicava a predestinação dizendo da cena de Jesus Cristo com os dois ladrões na cruz: “Alegrai-vos porque o primeiro ladrão foi salvo, mas não vos entusiasmeis, porque o segundo, não”. Queria dizer com isso que a salvação é um ato arbitrário de Deus, que da nossa parte é necessário pa-recer meritório do ato. Você não consegue a sua própria salvação, mas você consegue parecer “salvável”. Essa é a essência da predestinação.
Os jansenistas estavam tentando se infiltrar na Igreja Católica para reduzir os excessos, que no caso da França eram enormes. A França havia criado um sistema em que o clero tinha autoridade política muito forte. Qualquer romance do século XVIII ou XIX mostra o poder político dos governantes religiosos. O próprio Julien Sorel, de O Vermelho e o Negro, não sabia se ia ser padre ou general. Há uma famosa cena em que Julien encontra o bispo que vem visitar Verrières, a cidade onde ele mora. O bispo devia ter por vol-
26 Professor José Monir Nasser ta de vinte e cinco anos e já era poderosíssimo. Na França era muito forte a ligação política do clero com a realeza, e os jansenistas imaginavam poder consertar um pouco isso.
O centro do jansenismo na França é o famoso Convento de Port-Royal, que ficava perto de Paris, e que acabou sendo completamente destruído. Ali havia formação de padres de crença jansenista e isso incomodava muito a ordem jesuíta, a ordem mais envolvida com política. Os jesuítas foram fundados por Santo Inácio de Loyola, um militar que saiu para a vida mo-nástica para fazer justamente isso: ele queria recuperar o espaço perdido para o protestantismo. Os jesuítas, em princípio, são contra os reformistas da Igreja – é um braço de ação política e religiosa da Igreja Católica para ten-tar recuperar o espaço perdido para as Reformas que haviam tomado uma parte grande da Europa, sobretudo o Norte. Não tomaram tudo. A Áustria nunca foi protestante, é um país completamente católico. Na Bavária pega mal ser protestante. A França nunca foi protestante. Os poucos que havia lá, eles atiraram pela janela na Noite de São Bartolomeu e acabaram com o problema. Na Itália não há protestantismo relevante. Na Espanha, menos ainda; em Portugal, nem se pensar. Na Europa do Sul o protestantismo não entrou, e foi essa a área em que os jesuítas ficaram mais fortes. Tanto é que a história do Brasil é profundamente influenciada por essas encrencas com os jesuítas, entre elas a famosa briga com o Marquês de Pombal, responsável pela interrupção aqui no Brasil do processo de educação religiosa – que, bem ou mal, estava acontecendo. Teria sido melhor ter continuado com a educação religiosa dos jesuítas do que ficar sem educação nenhuma, como ocorreu na prática.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 27 Os jesuítas eram acusados pelos jansenistas de serem manipuladores. Há todo o tipo de ideia de conspiração jesuítica no mundo. Uma das conspira-ções que se atribuem aos jesuítas é a de que foram eles que afundaram o Titanic. [risos] Outra é de que haveria um Papa Negro – não o papa oficial, mas o verdadeiro papa, que mandaria de fato. Chama-se assim porque não está visível, está no escuro – e este seria o dirigente dos jesuítas.
Na época de Molière há na França uma briga entre jesuítas e jansenistas - os jansenistas querendo retomar um catolicismo mais puro, que tivesse menor envolvimento com as coisas do século, e os jesuítas sentindo-se ameaçados, porque tinham feito grandes avanços políticos dentro da França que não queriam perder. Os jesuítas fizeram ataques contra os jansenistas, levando Luís XIV a destruir o jansenismo na França com a demolição do Convento de Port-Royal.
Essa briga está profundamente associada à obra O Tartufo. Tartufo é um sujeito hipócrita, é a hipocrisia em pessoa. Alguns intérpretes da obra de Molière acham que ele criou uma personagem que representaria simboli-camente toda a religião, sem exceção. Outros julgam que ele só estaria cri-ticando o catolicismo. Outro grupo, que parece que tem razão, acha que o verdadeiro alvo de O Tartufo seriam os devotos. Os devotos eram um grupo de católicos muito influentes protegidos pela rainha Ana, a mãe de Luís XIV.
Luís XIV demorou a assumir o trono, era muito jovem quando o pai morreu. Antes de Luís XIV assumir, mandava na França o cardeal Mazarin, substituto do cardeal Richelieu (que mandava no tempo de Luís XIII). No final da vida, depois da morte de Molière, Luís XIV acabou destruindo o que havia de jan-senismo na França – o que foi uma pena – a título de que o jansenismo se
28 Professor José Monir Nasser parecia demais com o protestantismo. Um jansenista parecia um luterano no seu comportamento, no seu modo de ser.
Molière era sistematicamente perseguido por esses grupos religiosos. Os devotos formavam um grupo secreto – o mal dos devotos era o fato de tra-balharem secretamente. É o problema do pessoal do Opus Dei, por exem-plo, que tem dificuldade de se assumir com toda a clareza. Fazem um jogo de esconde-esconde.
Os devotos apresentavam ramificações em todos os lugares, querendo esta-belecer uma proteção ao verdadeiro cristianismo. Parecia aos devotos que Molière não era muito católico, para dizer o mínimo. Não que ele não fos-se. Embora não saibamos nada sobre aspectos religiosos de Molière, não é lendo suas peças que descobriremos qual é a religião dele, porque Molière é um moralista no sentido iluminista da palavra. Ainda não havia o ilumi-nismo, mas ele era aquele intelectual que acha que se pode ser bom sem que haja uma vinculação religiosa. É a mentalidade do intelectual moderno que quer fazer o catolicismo sem católicos, o cristianismo sem Cristo, a di-vindade sem Deus. É uma espécie de rebelião metafísica. Tolstoi fez isso, ele achava que havia inventado um cristianismo sem Cristo. Foi contar isso para um padre velhinho que indignado pegou um cacete e saiu correndo atrás de Tolstoi pela igreja.
Molière é um precursor do iluminismo no sentido positivo da palavra, pois não tem uma única tendência a totalitarismo, não é um endeusador do ser humano – é apenas uma espécie de indignado genial. E era genial mesmo. É um poeta de marca maior. Suas peças são todas rimadas. A poesia em francês é magnífica. A tradutora do livro de hoje, a Jenny Klabin Segall, que
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 29 foi mulher de Lasar Segall, fez uma tentativa muito bem-sucedida de dar ao texto a mesma musicalidade do original. É claro que em francês soa melhor.
Molière transforma tipos humanos em personagens estereotipadas - mas genialmente estereotipadas -, criando então tipos inesquecíveis. O nosso tipo de hoje é o hipócrita.
RESUMO DA NARRATIVA
Jean Baptiste Poquellin, aliás Molière, é o maior dramaturgo da comédia france-sa, tendo a Comédie Française, em Paris, sido batizada assim para homenageá-lo.
PROF. MONIR: Paris tem um prédio chamado La Comédie Française, em ho-menagem a Molière. Foi feito com a fusão de vários teatros, como aqui hou-ve a fusão de vários museus para se fazer o Museu Oscar Niemeyer. Molière tem uma unanimidade maior do que Corneille ou Racine.
Apresentado pela primeira vez (apenas os três primeiros atos) em 1664, O Tar-tufo foi proibido na sequência. Em 1667, Molière voltou à carga com uma nova versão da peça, com o título de Panulfo ou O Impostor. Esta versão também foi proibida no dia seguinte. Em 1669, a peça foi proposta pela terceira vez e final-mente conseguiu passar pela censura. O sucesso foi enorme.
PROF. MONIR: O Tartufo é a peça mais encenada de Molière. Até 1970 já havia tido na França mais de três mil encenações. Algumas peças são ence-nadas o tempo todo. Até hoje, por exemplo, passa-se todos os dias em Paris
30 Professor José Monir Nasser (exceto nos dias em que o teatro não abre normalmente) a peça A Cantora Careca (La cantatrice chauve) do Ionesco. Desde que foi lançada, na década de 1940, até hoje não saiu de cartaz.
Esta terceira versão do texto é a que passou para a modernidade. O Tartufo é tipicamente o modelo dramático de Molière, um dramaturgo polêmico e es-candaloso, características que não compartilham com ele seus dois colegas de teatro clássico, Racine e Corneille.
PROF. MONIR: É como se fossem escritores de uma outra época. O nome “te-atro francês clássico” não representa bem, não dá unidade para o conjunto. Molière só escreveu sátiras. No sentido moderno, peças cômicas. Racine e Corneille só escreveram teatro trágico. Há uma grande diferença entre eles.
Aliás, comparado com estes, a linguagem de Molière é, de modo geral, prosaica, parecendo fazer parte de outra época. Otto Maria Carpeaux concorda:
Molière é o clássico cartesiano da comédia; mas não por isso, e sim além
disso, é ele o maior dos comediógrafos. Não convém aproximá lo demais
dos seus amigos literários; o classicismo francês é conformista em todos os
sentidos; e Molière não é conformista – é até irreverente. 2
PROF. MONIR: Diria que é sobretudo irreverente.
Para o grande crítico, “franceses reconhecem em Molière o gênio nacional... Molière é, quase como Homero, objeto de admiração unânime”. Embora haja opiniões qua-2 Carpeaux, Otto Maria. História da Literatura Ocidental. Rio de Janeiro: Alhambra, 1980, p. 768.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 31 lificando O Tartufo como um ataque contra toda a religião ou contra o catolicis-mo em geral, o alvo satírico de Molière parece ser mais os “devotos”, membros da Companhia do Santo Sacramento (A Cabala dos Devotos), que o haviam perse-guido por ocasião da peça École des Femmes.
PROF. MONIR: Uma entidade secreta que reunia católicos, que faziam ma-çonicamente (no sentido de não serem conhecidos) perseguições ao que julgassem como atos anticristãos. Essa Cabala dos Devotos implicou imen-samente com uma peça anterior de Molière chamada Escola de Mulheres, perseguida até o limite. Eles boicotavam as peças de todos os modos possí-veis: impediam que o teatro aceitasse a peça, depois impediam que o ator fosse representar, depois impediam que o rei subvencionasse a peça... As peças de Molière na verdade não são anticristãs, mas vocês repararão ao longo dessa história como elas podem ser interpretadas assim.
No entanto, se Molière estava mirando alguém em especial, a Igreja Católica não viu bem assim e, em 1667, depois da segunda estreia, o arcebispo de Paris teria assim se manifestado sobre a peça:
Uma comédia muito perigosa que é muito capaz de prejudicar a religião, pois
sob o pretexto de condenar a hipocrisia ou a falsa devoção, permite acusar
indiferentemente todos os que fazem profissão da mais sólida fé e os expõe
deste modo ao deboche e às calúnias dos libertinos. 3
A mais representada das peças de Molière, O Tartufo passa se em Paris, na casa do Senhor Orgon (não confundir com Argan, o doente imaginário), um burguês completamente dominado por um tipo “untuoso” (segundo Paulo Ronái) que,
3 In Le Tartuffe. Tradução de José Monir Nasser.
32 Professor José Monir Nasser na casa, só tem apoio da Senhora Pernelle, mãe do Senhor Orgon, que havia salvado Tartufo da penúria e o instalado na casa do filho, que o tratava com regalias extravagantes.
Sobre a peça assim se expressa Paulo Ronái:
Pela estrutura magistral, pela ironia mordaz, pelo choque de caracteres
diversos, pela pintura de determinado ambiente, pela tendência moral
expressa de modo artístico, é essa, sem dúvida, uma das maiores comédias
de todos os tempos. Além de gênio, era preciso ter boa dose de coragem para
escrevê-la; como veremos, nem sequer a proteção do rei mais poderoso do
mundo foi suficiente para proteger o autor das investidas dos que se julgavam
visados pelo seu sarcasmo. 4
Em muitas línguas do mundo, incluindo o português, tartufo passou a significar impostor e hipócrita.
PROF. MONIR: Os nomes que Molière usa nas suas peças são nomes absolu-tamente fora de moda. Não tem nenhum francês moderno chamado Orgon. Os nomes que estão em Molière não são nomes estranhos de propósito, são nomes que as pessoas tinham naquela época. Tem a mesma coisa aqui - quem é que se chama Epaminondas ou Ambrosina, hoje em dia?
Orgon é casado em segundas núpcias, sendo viúvo do primeiro casamento. Com a primeira mulher ele teve dois filhos, uma moça e um rapaz. Na casa do Sr. Orgon mora o irmão da segunda mulher. Há também uma empregada doméstica muito linguaruda, um tipo tipicamente molieriano –malcriada e 4 Ronái, Paulo. O Teatro de Molière. Brasília: Editora UNB, 1981, p. 25.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 33 respondona – que é quase a personagem mais interessante da peça. O pro-blema que essa família vive é que a mãe de Orgon, a Sra. Pernelle, salvou da penúria um sujeito que se autodeclarava de família nobre em estado de desgraça financeira. Ela praticamente o retirou da rua e o pôs para morar na casa do Sr. Orgon onde ele é muito malvisto, porque é tipicamente o sujeito que se comporta hipocritamente. É santarrão, cheio de bons conselhos, de lições de moral. No entanto não parece que esteja sendo sincero. Há portan-to um conflito na casa. A única pessoa que gosta do Tartufo é a Sra. Pernelle, que o recolheu. Os outros têm grande antipatia por ele. E é então em torno deste conflito que se estabelece a trama. Há pouquíssimas personagens, vo-cês já vão entender todas e não as esquecerão jamais.
Primeiro Ato
Cena I
A Senhora Pernelle acha que ninguém na casa de seu filho Orgon leva sua opi-nião em consideração. Ela oferece seus conselhos a todos e acha que todos os desprezam. A cada um dos presentes, seus netos Damis e Mariana; sua nora Elmira; o irmão desta, Cleanto e a empregada Dorina, ela faz reparos:
DORINA
Se...
DAMIS
Sois, minha peralta, uma reles servente,
Dada a falar demais e muito impertinente,
E em tudo o que se dá meteis língua e nariz.
34 Professor José Monir Nasser