Tartufo, O Pato Selvagem
Gregers
Era sopa no mel.
HJALMAR (levantando-se, com ar satisfeito)
Não é? Não achas, meu caro, que era uma linda combinação?
GREGERS
E é forçoso convir em que meu pai foi uma espécie de providência para ti.
HJALMAR (comovido)
Ele não abandonou o filho do velho amigo em apuros. É um nobre coração,
podes crer.
PROF. MONIR: Gina e Hjalmar se casaram e o pai do Gregers emprestou di-nheiro para eles montarem um atelier de fotografia – que naquela época era algo muito mais sofisticado. Hoje é um negócio meio em destruição, por causa da fotografia digital, que banalizou a fotografia. Até pouco tempo não era assim; era preciso contratar um fotógrafo para se tirar uma fotografia. Ninguém se metia a lidar com todos aqueles ajustes da máquina, era com-plicado – até inventarem a Kodak Instamatic. Daí melhorou muito, mas isto também não foi grande progresso em termos tecnológicos. Mas na época da história fotografia era um negócio high-tech, sofisticado. Pouca gente en-tendia disso.
Os convidados conversam sobre amenidades. Do escritório saem o tesoureiro Graberg e o velho Ekdal. “Os risos e pilhérias cessam entre os convidados. Hjalmar estremece à vista do pai, descansa o copo, e vira se para a lareira”.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 129 PROF. MONIR: Fez de conta que não viu o pai. Não é uma coisa feia? Quando entra o velho Ekdal com o tesoureiro há um constrangimento geral, porque afinal o velho Ekdal ficou marcado pelo episódio da condenação. E o próprio filho dele presente ali não se sente bem com a presença do pai.
O velho Ekdal e Graberg saem pela porta dos fundos. Hjalmar faz de conta que não havia visto o pai. Gregers se escandaliza.
GREGERS (com emoção, com voz contida, a Hjalmar)
Então era ele?
HJALMAR
Sim.
GREGERS
E, não obstante, tu o renegaste.
HJALMAR (agitado, em voz baixa)
Como poderia eu?...
GREGERS
Não renegar teu pai?
HJALMAR (dolorosamente)
Oh! se tu estivesses no meu lugar, tu...(pág. 174)
130 Professor José Monir Nasser Gregers quer encontrar-se com Hjalmar mais tarde na casa dele, mas ele recu-sa: “Não, não venha à minha casa. Minha casa é triste, Gregers, sobretudo depois de uma festa brilhante como esta”. O jovem Ekdal parte sozinho.
Depois que Hjalmar sai, Gregers tem dura conversa com o pai.
GREGERS
Um momento, meu pai.
WERLE (detendo se)
Que há?
GREGERS
Eu queria falar-te.
WERLE
Não podes esperar que estejamos a sós?
GREGERS
Não, não posso. É possível que nunca mais estejamos a sós.
PROF. MONIR: Opa! Está aí o filho fazendo uma espécie de advertência ao pai, dizendo que alguma coisa de grave aconteceu com esta conversa entre Gregers e Hjalmar.
WERLE (aproximando-se)
Que queres dizer com isso?
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 131
(Durante a cena seguinte, ouve se ao longe o som de um piano).
GREGERS
Como puderam deixar essa família decair tão miseravelmente?
WERLE
É dos Ekdal de quem falas?
GREGERS
Sim, falo dos Ekdal. Houve, entretanto, uma época em que o tenente Ekdal
esteve bem ligado a ti.
WERLE
Sim, infelizmente estava ligado a mim... estreitamente ligado. Com isso sofri
bastante durante anos. Graças a ele, uma espécie de lama salpicou o meu
nome.
GREGERS
Era realmente ele o único culpado?
WERLE
Que queres dizer?
GREGERS
Aquela grande operação, aquela compra de florestas, vocês afinal tinham
feito juntos.
132 Professor José Monir Nasser