Tartufo, O Pato Selvagem

José Monir Nasser · Capítulo 21 de 62

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Tartufo, O Pato Selvagem

Gregers

Não é um pato turco.

EKDAL

Não senhor Werle, não é um pato turco: é um pato selvagem, aí está.

GREGERS

Realmente? Um pato selvagem?

EKDAL

Sim, um pato selvagem. Esse “pássaro” como o senhor o chamou é um pato

selvagem, ouviu? Nosso pato selvagem.

HEDVIG

Meu pato. Porque ele é meu.

GREGERS

E ele pode viver nessa mansarda? Ele se sente à vontade?

EKDAL

Claro! Tem uma tina cheia de água para se chafurdar nela!...

HJALMAR

E água fresca de dois em dois dias.

GINA (dirigindo se a Hjalmar)

Ekdal, está começando a fazer um frio de rachar. (pág. 191)

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 149 PROF. MONIR: A Gina ficou lá embaixo, mas deixaram a porta aberta e passa o frio da mansarda; supõe-se que esta história se passe no outono, porque não há menção a neve. Acabam mostrando para Gregers um pato selvagem, que é uma coisa importante, por razões que vocês ainda irão entender. O pato mora no sótão juntamente com galinhas e coelhos. O velho caça no sótão para manter em dia suas habilidades de caça. Não deve ser um sótão muito grande, portanto deve ser fácil de acertar os bichinhos. No máximo eles podem se esconder atrás de um pilar daqueles.

O pato selvagem havia sido ferido numa asa por João Werle, durante uma ca-çada:

EKDAL

Seja como for, é a João Werle que nós devemos, Gina. (À Gregers.) Ele estava

caçando num barco, compreende? Atirou nele... Mas o seu pai enxerga tão

mal... Só pôde estropiá-lo.

PROF. MONIR: Mais uma metáfora de visão: o Sr. Werle enxerga mal.

GREGERS

Alguns chumbos no corpo.

HEDVIG

Ele ficou ferido embaixo da asa, de modo que não podia mais voar.

GREGERS

Foi ao fundo, naturalmente.

 

150 Professor José Monir Nasser

EKDAL (meio adormecido, com a boca pastosa)

Naturalmente. Os patos selvagens sempre fazem assim. Vão ao fundo tanto

quanto podem, seguram se com o bico nas ervas marinhas e nos juncos e em

todas as sujeiras que acham lá embaixo... e nunca mais sobem.

PROF. MONIR: Entenderam isso? O pato, quando está se sentindo em perigo, mergulha, vai até o fundo da água, agarra-se com o bico num mato qual-quer e fica lá embaixo segurando a respiração, esperando que aquela ame-aça na superfície suma. É uma técnica característica dos patos selvagens. O pato selvagem tomou esta atitude defensiva quando foi atingido pelo velho Werle.

GREGERS

Mas, tenente, o seu pato selvagem, esse subiu.

EKDAL

Foi porque o seu pai tinha um bom cão. Ele mergulhou e trouxe o pato.

GREGERS (a Hjalmar)

Foi depois disso que o conseguiste?

HJALMAR

Não imediatamente: a princípio ele ficou em casa de teu pai. Mas não se dava

bem lá. Então Petersen recebeu ordem de matá-lo...

EKDAL (quase dormindo)

Sim, sim... Petersen – aquele estrepe.

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 151 PROF. MONIR: Um estrepe é um traste, um importuno. Esta história do pato selvagem é a maior de todas as metáforas individuais da história. Nós vamos entender mais tarde.

HJALMAR (baixando a voz)

Como vês foi assim que ele veio ter aqui. Meu pai que conhece um pouco

Petersen soube da coisa e arranjou-se de modo que ele nos cedesse o pato.

GREGERS

E agora ei-lo completamente feliz nesse sótão.

HJALMAR

Sim, meu caro, perfeitamente feliz. Engordou. É verdade de que está aí há

tanto tempo que já esqueceu a vida selvagem. Isso é tudo o que se quer. (págs.

191-192)

Gregers prontifica se a alugar o quarto vago na casa dos Ekdals. Hjalmar aceita “com prazer”, embora Gina o advirta de que o quarto é muito pequeno e inade-quado. Além disso, lembra o rapaz de que embaixo moravam outros dois inqui-linos, o candidato Molvik e o médico Relling. Este último Gregers diz conhecer: “Relling? Mas eu o conheço: foi, durante algum tempo, médico em Heydal”.

Gina diz tratar-se de um “par de farristas da pior espécie. Passam a vida na pân-dega, voltam muito tarde da noite, e, então, algumas vezes.. .” Gregers diz que não liga, fala mal de sua origem e diz que queria ser como o cão que busca o pato selvagem quando eles “mergulham até o fundo e enterram o bico na lama, agarrando-se aos sargaços ”.

 

152 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: Gregers, que tinha achado um objetivo para a vida dele, agora diz que quer ser o cão que vai buscar o pato lá escondido no fundo da água, nas profundezas onde o pato se sente seguro, e o puxa para a superfície. É esse o projeto do Gregers, ele acabou de se autodefinir.

Gregers parte para voltar de mudança no dia seguinte e a família cogita qual seria a reação do velho João Werle à hospedagem do filho ali e se o emprego do velho Ekdal poderia correr perigo. Levam o tenente para a cama com precaução.

Terceiro Ato

Hjalmar Ekdal trabalha no seu ateliê, retocando uma prova de fotografia. Gregers já havia chegado e, tentando aquecer o seu quarto, o havia enchido de fumaça. Tentando apagar o incêndio, tinha molhado o chão ao ponto de não poder usar o quarto antes da noite. O rapaz tinha ido dar um passeio. Era esperado para o almoço, juntamente com Relling e Molvik, os vizinhos “pândegos” de baixo. Hjalmar e seu pai vão cuidar de reparos no sótão. Hedvig retoca fotos no ateliê.

PROF. MONIR: Imaginem como eram as fotos naquela época. Eram todas retocadas, as fotos eram pintadas, os rostos ficavam rosados. Essa maneira de fotografar sumiu do mundo, não existe mais.

Chega Gregers e conversa com a menina. Ela conta não poder ir à escola por causa de seus olhos. Conta também que adora ler os livros deixados ali por um velho capitão (“o holandês voador”) que havia morado na casa.

PROF. MONIR: Hedvig gosta de ler, mas não tem olhos para ler. Ela não pode ler de noite, por exemplo.

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 153 Hedvig diz que o pato selvagem é seu, mas que deixa seu pai e avô pedirem emprestado “todas as vezes que eles quiserem”. A menina diz a Gregers que com o pato dá se uma coisa extraordinária: “ninguém conhece ele e ninguém sabe de onde ele veio”.

PROF. MONIR: Essa linguagem popular está na própria tradução. Vejam que importante é essa frase. A menina diz que ninguém conhece o pato, que ninguém sabe de onde ele veio. No entanto ele é um pato amado – por ela, pelo menos. O pato era cuidado, porque não estava no rol de caça. Era uma espécie de hóspede ilustre na casa. E isso pareceu notável à menina.

Chega Gina e conversam sobre o ofício de fotógrafo. Ouvem se tiros no sótão. Gregers aproxima-se da porta do sótão, Hjalmar aparece e explica que ele e seu pai estavam caçando os coelhos com uma pistola de cavalaria que mostra ao amigo, agora inquilino, e depois vai guardar com uma recomendação: “Não mexas na pistola, Hedvig: não te esqueças de que um dos canos está carregado.” Gre-gers, da porta do sótão, observa o pato:

HEDVIG (que se aproximou de Gregers)

Agora, o senhor já pode ver o pato selvagem.

GREGERS

Já o estou vendo. Parece me que ele arrasta a asa.

HJALMAR

Não é de admirar, porque ele foi ferido.

 

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