Tartufo, O Pato Selvagem

José Monir Nasser · Capítulo 11 de 62

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Tartufo, O Pato Selvagem

Tartufo

Sei que socorros dela eu pude receber;

Mas só do príncipe, hoje, ainda zelo o dever.

Não temo em tal dever sagrado a pior estafa;

A gratidão e o mais no coração me abafa.

Pois sacrificaria a laços tão potentes

Comigo próprio, esposa, amigos e parentes.

ELMIRA

Que impostor! (pág. 126)

Tartufo, indiferente às súplicas de todos, manda o oficial de justiça cumprir sua missão:

PROF. MONIR: Este momento é o clímax da peça, em que o oficial de justi-ça vai prender o Orgon. Tudo deu errado. Orgon será preso como traidor, possivelmente sendo condenado à morte. Ele teve a sua casa tirada e sua família toda está na rua. Nesse momento, toda a vida da família do Orgon desaparece da história. A plateia fica com o coração na mão imaginando a desgraça, que transformaria a história em uma tragédia. Mas a história não é uma tragédia, e vamos ver o que acontece.

TARTUFO (ao oficial de justiça)

Livrai-me, por favor, da gritaria aqui,

E sem tardardes mais vosso dever cumpri.

O OFICIAL DE JUSTIÇA

Sim, de fato demais já demorei naquilo;

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 87

E a propósito estais me incitando a cumpri-lo:

Segui-me, pois, por tal, à luz ainda do dia,

À prisão que há de ser a vossa moradia.

TARTUFO

Quem, senhor? Eu?

O OFICIAL DE JUSTIÇA

Sim, vós.

TARTUFO

Mas eu? como? a prisão?

O OFICIAL DE JUSTIÇA

Contas não vos darei, a vós, da decisão.

PROF. MONIR: O oficial de justiça, em vez de prender Orgon, acaba prenden-do o Tartufo. O pedaço a seguir foi posto aí por Molière para conseguir libe-rar a peça, que já havia sido proibida duas vezes. Agora Molière vai elogiar o rei. “Vivemos sob um rei honesto e justo” é referência ao Luís XIV. Os próximos dez versos são uma demonstração de apreço ao rei com as quais o autor garante a aprovação da obra. É o oficial de justiça discursando sobre o que aconteceu, falando bem do rei.

O OFICIAL DE JUSTIÇA

a Orgon)

Remetei-vos, senhor, daquele alerta e susto.

Vivemos sob a lei do príncipe mais justo.

88 Professor José Monir Nasser

À fraude adverso, lê nas almas: não o ilude

Toda a arte da impostura e da falsa virtude.

No critério sem par que sua alma registra,

Sobre os objetos lança em linha reta a vista;

Nenhuma hipocrisia encontra nele acesso,

E a luz de sua razão jamais permite o excesso.

Dá à gente devota uma glória imortal,

Mas sem cegueira faz refulgir zelo tal.

E o amor ao que é genuíno, a visão não lhe cerra

A todo o horror que o beato espúrio em si encerra.

Nem vingariam desse as tramas atiladas;

Sabe se subtrair as mais sutis ciladas.

De início penetrou com viva claridade

De coração tão negro o grau de iniquidade.

Da própria infâmia, aliás, traiu o homem o esquema,

E por lance feliz da equidade suprema,

Soube se ser falsário e notório embusteiro

Já procurado sob o nome verdadeiro,

E é um longo pormenor de torpezas e escórias

Que volumes, até, preencheriam de histórias.

PROF. MONIR: Então vejam. O rei, esperto como é, de acordo com a descri-ção do oficial de justiça, desconfiou que aquele homem era uma espécie de delinquente, já o conhecia de outras circunstâncias, e foi investigar a situa-ção. Molière está dizendo aqui que o rei é um gênio. Tendo descoberto que Tartufo usava um nome falso, que tinha dado outros golpes, manda então prender Tartufo no lugar de Orgon, que será perdoado pelo fato de ter reti-do a caixa consigo.

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 89 Molière queria a liberação da peça porque ele queria chutar a canela dos devotos, que são os tartufos. E ele precisava continuar fazendo isso. E fez, até 1970, duas mil e quinhentas vezes isso. Ele fez esse final absolutamente estratégico para que o rei liberasse a peça.

O OFICIAL DE JUSTIÇA

De início detestara aquele grão monarca

Nele da ingratidão e deslealdade a marca;

Seu novo crime à lista antiga acrescentou,

É a conduzi-lo aqui tão só me encarregou

Para ver se a impudência até o fim levaria

E para expor lhe aqui toda a patifaria.

Sim, de vossos papéis, de que ele se diz dono,

Quer que entre as vossas mãos faça o biltre o abandono.

Rompe todos os nós, com soberano tom,

Da escrita que lhe faz de vossos bens o dom.

E sobre a oculta ofensa enfim a esponja passa

Em que vos fez tombar de um amigo a desgraça:

PROF. MONIR: O rei desconsiderou o fato de que o Orgon andou guardan-do os documentos daquela conspiração e o papel da doação também foi destruído. Voltou tudo à estaca zero. Orgon está livre e de posse de seu pa-trimônio.

O OFICIAL DE JUSTIÇA

Tal prêmio à devoção de outrora outorga, quando

Dela destes penhor, seu direito apoiando.

 

90 Professor José Monir Nasser

Sabe assim sua fé, quando em tal nem se pensa.

Conferir à lealdade a justa recompensa.

E, sem que à punição do malfeitor se esquive,

O bem, mais do que o mal, em sua memória vive.

DORINA

Louvado seja o céu!

SENHORA PERNELLE

Ah, respiro afinal.

ELMIRA

Que favorável fim!

MARIANA

Quem pensaria tal?

ORGON (a Tartufo que o oficial está levando embora)

Pois sim, traidor!...

Cena VII

CLEANTO

Parai, ah! meu irmão: não se há de

Vossa ira rebaixar a alguma iniquidade.

A seu fado infeliz deixai o miserando

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 91

E ao remorso e amargor que agora o está prostrando.

Sim, votos formulai nesta hora, por que o ajude

O espírito a que torne ao seio da virtude;

A que, criando ódio ao vício, a sua vida corrija

E impetre ao grande rei justiça menos rija;

Enquanto aos pés lhe ireis render, vós, preito grato,

E exaltar-lhe a mercê de tão bondoso trato.

PROF. MONIR: Mais um pouco de bajulação do rei: Cleanto manda Orgon ir prostar-se aos pés do rei para agradecer.

ORGON

Sim, a seus pés eu vou, de joelhos, com alegria,

Louvar me da mercê que seu favor me envia

PROF. MONIR: Não achem por causa disso que Orgon é o Molière, porque não é. Cuidado.

E algo já quite, assim, com tão grato dever,

À justiça de um outro havemos de prover

E em Valério coroar, no himeneu com quem ama,

De um generoso amante a fiel e pura chama. (págs. 127-130)

 

(Resumo feito por José Monir Nasser, com excertos traduzidos por Jenny Klabin Segall, retirados de “O Tartufo”, Editora Martins Fontes, São Paulo, 2005)

 

92 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: E acabou a história. Gostaram do Molière?

ALUNA: [Faz comentário.]

PROF. MONIR: Tartufo tem um som italiano porque as personagens de Mo-lière eram muitas vezes baseadas na commedia dell’arte, que é uma mo-dalidade teatral extremamente caótica. Nós tínhamos aqui um ator genial que morreu há pouco tempo, o Mário Schoemberger, que fazia uma série de comédias sobre Curitiba com base no modelo da commedia dell’arte, a Trecentina (na época em que Curitiba fez 300 anos).

A commedia dell’arte é uma modalidade de teatro italiana, feita nas praças, o que chamamos hoje em dia de pastelão. Tenho um amigo que escreveu uma tese sobre isso, dizendo que os herdeiros desta modalidade são o Cha-crinha, o Ratinho, esses apresentadores caóticos. Na Idade Média era muito popular. Consiste num conjunto de personagens que são sempre as mes-mas – o Arlequim, a Colombina... São personagens fixas que todas as trupes têm, que apresentam sempre o mesmo comportamento: há o Polichinelo, que é o sujeito que não guarda segredos (o segredo de polichinelo todo o mundo sabe); há o marido traído, etc. Os atores se reúnem na praça e fazem qualquer coisa. É improvisado, não tem texto, não tem ensaio.

Molière tem muitas personagens assim. Por exemplo, Sgaranelle de Don Juan é uma personagem da commedia dell’arte. Tartufo também é uma personagem que lembra a commedia dell’arte. Tartufo era apenas uma per-sonagem, mas passou para o mundo da cultura como sendo sinônimo do hipócrita, do santarrão. Santarrão é alguém que prega o contrário do que

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 93 faz, que tem comportamento contraditório com a sua vida. Tartufo no di-cionário é um substantivo comum que significa sujeito mau caráter, e isso é resultante da peça do Molière.

Molière criou várias personagens assim. Há o hipocondríaco típico, o Ar-gan; há o Avarento, que é o avarento por excelência; o Misantropo, que não sabe lidar com as circunstâncias menos sinceras do mundo. Como Molière exagera nas tintas, criando personagens caricatas, as suas personagens se transformam em modelos da literatura. Quando você pensa num avarento, você pensa no Avarento de Molière, embora tenha outro muito famoso no Dickens, o Old Scrooge, um sujeito horroroso. Mas é o avarento de Molière que nos vem à cabeça mais rápido, porque o Molière fez daquele sujeito um indivíduo central na história.

Shakespeare também fez isso. Quando se pensa num judeu literário, pensa-se em Shylock. Nenhum judeu literário é mais forte do que esse. O que Mo-lière faz é nos ajudar a entender esses tipos. Comparado com Shakespeare, Molière está na epiderme da história. Não é possível interpretar uma peça de Molière com a profundidade com que se pode interpretar uma peça de Shakespeare.

ALUNA: Não existe um oposto de misantropo?

PROF. MONIR: Filantropo, o sujeito que gosta tanto da humanidade que dá todos os seus bens... Mas cuidado, porque o misantropo é sobretudo al-guém que tem dificuldade de adaptação à humanidade. Não é um exato contrário. O nome do misantropo do Molière é Celeste – é o sujeito que

 

94 Professor José Monir Nasser acha inadmissível falar qualquer coisa que ele não sinta de verdade, não seja verdade. Por exemplo, um poeta lhe mostra seu soneto e ele diz que é uma porcaria, um lixo total e que ele devia fazer qualquer outra coisa para viver. Celeste ofende o poeta, que estava esperando uma palavra de apoio. O mi-santropo do Molière é o sujeito que é incapaz de pregar uma mentira social.

Há vários tipos de mentira. Há um primeiro tipo de mentira, a mentira acei-tável, que é a mentira social. É a que você usa com o operador de telemarke-ting para ele parar de amolar: “Não, já comprei um canguru esta semana, não quero comprar um canguru novo”. Essa mentira permite que a vida continue e não há nada de errado com ela. É completamente branca. Há pessoas que não conseguem aceitar isso e transformam suas vidas num ver-dadeiro inferno, porque na ênfase de ser completamente sincero, o sujeito se torna insuportável. Há um grau de mentira social que é aceitável, e não é patológico. A mentira piedosa é uma variante.

Um segundo tipo de mentira é a mentira com objetivo concreto. Essa já é perigosa porque pode ser legítima ou ilegítima. Você mente não para se livrar de um chato, mas para obter um resultado concreto – como mentir para enganar alguém. Às vezes essa mentira pode ser moralmente aceitável, quando, por exemplo, você mente para o bandido sobre o lugar onde você escondeu o dinheiro, ou mentir para o inimigo numa situação de guerra. Mas a maior parte das mentiras ruins está nesta categoria.

Há um terceiro tipo de mentira que é a mentira patológica, que se chama de mitomania. É o sujeito que mente sistematicamente, porque é incapaz de não mentir. Vai assistir Ben-Hur e diz que viu Os Dez Mandamentos. Ele não tem nenhum ganho em mentir desse jeito, mas não consegue dizer a

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 95 verdade. Mentir é uma compulsão. É um sujeito doente. A parte boa é que essas pessoas são tão folclóricas que não são acreditadas – rapidamente são percebidas pelos outros como sendo doentes e se transformam em pessoas engraçadas. Quase todas elas são adeptas do esporte da pescaria [risos]. A figura literária que simboliza o mentiroso mitômano é o Pinóquio.

E o quarto tipo de mentira, o de todos o pior, é a mentira existencial. É a mentira do Dr. Jekyll, quando não quer admitir que também é o Mr. Hyde. À noite, o doutor sai de casa, mas não consegue admitir que é ele quem está fazendo isso. Ele mente para a sua própria identidade, não a admite. É o tipo mais interessante sob o aspecto psicanalítico. O literato que melhor trabalha esse foco chama-se Luigi Pirandello, ele escreveu toda a sua obra em torno desse problema da mentira existencial.

No Tartufo Molière nos apresenta um farsante, que é um tipo de mentiroso. Ele é um mentiroso de qual dos tipos?

ALUNOS: [Conversam entre si.]

PROF. MONIR: A mentira é uma coisa que acompanha a vida humana. Vocês vão ver isso em O Pato Selvagem do Ibsen, que é o maior estudo que alguém fez sobre uma mentira. É a história de uma mentira e de suas consequências.

A questão fundamental do livro é saber por que o Tartufo é um farsante, um mentiroso. Sabemos que Tartufo não é um mentiroso social. Sabemos que não é um mitômano. Então só restam essas duas possibilidades: ou ele é um mentiroso existencial ou um mentiroso por conveniência, com o objetivo concreto de ser mentiroso. Como saber qual dos tipos é Tartufo?

96 Professor José Monir Nasser ALUNA: Ele mente em causa própria.

PROF. MONIR: Como é que nós tiramos esta dúvida entre o mentiroso que quer alguma coisa e o mentiroso existencial?

ALUNO: Sabendo se ele mente para si mesmo ou não.

PROF. MONIR: É, muito bem. Ele mente para si mesmo?

ALUNOS: Não.

PROF. MONIR: Se ele não mente para si mesmo, ele é um mentiroso estraté-gico. Para obter o que deseja, usa a mentira como instrumento.

O Dr. Jekyll no fundo tem uma espécie de desejo. O que se imagina que ele faz de madrugada? Que caia na gandaia. É claro que irá produzir assassina-tos. O Mr. Hyde é um monstro, na verdade. Mas não devemos interpretar a obra pelo valor de face, pois estamos falando da Inglaterra puritana. Se fos-se o Oscar Wilde, e não o Stevenson, talvez fosse um outro jeito de contar a história. Mas a simbologia do Dr. Jekyll é de uma pessoa que tem vida dupla. Ele mente para si mesmo muito mais do que para o outro, pois ele passa a ter uma espécie de duplicidade existencial e não sabe mais qual dos dois ele é. Essa é a angústia do processo, ele tem uma existência quebrada em dois pedaços. O Pato Selvagem não lida com este assunto, lida com o primeiro tipo de mentira. O Mr. Hyde e o Dr. Jekyll são uma mesma pessoas com uma fratura de personalidade. No caso do Dr. Jekyll, trata-se de uma psicopatolo-gia grave. O Pirandello lida sobretudo com este problema.

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 97 Entre os livros do Pirandello tem o Henrique IV, um livro magnífico, uma peça de teatro que não tem tradução em português, infelizmente. Você acha com facilidade nas outras línguas. É a história de um homem comum que num belo dia acha que é o próprio imperador da Alemanha, Henrique IV. A prin-cípio, os empregados acham que ele é meio maluco e concordam com o patrão para não perderem o emprego. Na medida em que vai passando o tempo, todas as pessoas da casa começam a achar que o sujeito é mesmo Henrique IV. Quando chega a esse ponto, ninguém tem mais ideia de quem a pessoa é de fato. Houve uma fratura da personalidade tão forte, que a pessoa perdeu a capacidade de distinguir quem é. Esse é o desastre que acontece com Dr. Jekyll/Mr. Hyde; a pessoa passa a não ter mais controle sobre a própria existência.

Mas o Tartufo não parece ser isso de modo nenhum. Ele sabe muito bem que está mentindo, que está fazendo uma coisa errada, porque no fundo é apenas um vigarista.

Mas o mais notável nessa história – é isso o que devia nos chamar mais aten-ção na análise deste livro – é saber por que, afinal de contas, um vigarista como este consegue tanto sucesso?

ALUNA: Os nossos políticos conseguem também.

PROF. MONIR: Esse expediente tem capacidade de funcionar até certo pon-to? Tem. É claro que todos imaginam que essas pessoas serão desmascara-das num dia, como foi o Tartufo. Mas vocês devem ter percebido que seu desmascaramento na história foi quase como um deus ex-machina. Tinha uma figura no teatro grego que se chamava deus ex-machina. Chamava-se

98 Professor José Monir Nasser assim porque na peça de teatro havia uma espécie de grua que na hora H, quando estava tudo num impasse e não tinha solução para nada, era usada para levantar e trazer um deus qualquer para o palco, para resolver a ques-tão.

ALUNO: Talvez, se não fosse a censura, esse final fosse outro.

PROF. MONIR: Talvez. O deus ex-machina que há nessa peça é motivado pelo fato de que era preciso que o rei com sua clarividência, competência, inte-ligência e iluminação entrasse nessa história para colocar ordem na casa, então soa um pouco falso.

Molière queria dizer que existe um tipo humano chamado Tartufo que é o hipócrita profissional. Esse tipo humano é um problema. O hipócrita profis-sional que ele via como alvo de sua crítica era o devoto – um pessoal que vivia de maneira licenciosa e libertina, fazendo o que queria, mas que ficava perseguindo e patrulhando a vida alheia como exercícios de pequena mo-ral.

Aqui vemos a diferença entre Shakespeare e Molière. Shakespeare é um au-tor metafísico – então pede para você pular num abismo profundíssimo de sentido e, se você tiver coragem de fazer isso, você vai descobrir coisas in-críveis nas peças de Shakespeare. O Molière é um laguinho de baixa profun-didade. A interpretação possível de um livro de Molière é diferente de um de Shakespeare. Porque num livro de Shakespeare nós vamos interpretar a simbologia da história.

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 99 Aqui não há simbologia – há uma espécie de crônica, uma espécie de sis-tematização de um determinado tipo humano existente – o Tartufo. É mais ou menos o modelo do político moderno, do militante intelectual moderno – você só tem tartufos. É o Chico Buarque que faz discursos contra o capi-talismo, mas que ganha milhões vendendo discos pelo sistema capitalista.

Um adolescente normal entra em uma crise existencial porque acha que as crenças que ele tem foram implantadas pelos pais, pela escola, pelos outros. E aí ele fica com dúvidas sobre em que acreditar, porque joga fora tudo em que acreditava antes, mas não tem coisas novas para botar no lugar. Fica numa espécie de limbo de crenças e acha que os Rolling Stones vão resol-ver o problema, até que percebe que eles ganham milhões para contestar a sociedade de consumo – essa que ele acha que deveria largar. Como é que pode os contestadores cobrarem 500 reais por um ingresso? Ele começa a fazer perguntas, porque as soluções adolescentes que ele tinha para a vida passam a ser inconsistentes – e aí precisa procurar crenças novas. O passo seguinte é virar adulto, ou seja, reincorporar crenças mais maduras sobre a vida.

No entanto, no meio tempo, é possível que a pessoa seja alvo e vítima de uma grande quantidade de vigarice intelectual. Por exemplo, temos uma comunidade intelectual que vive falando mal do capitalismo, da economia de mercado, mas é paga pelos impostos recolhidos na economia de merca-do sem que tenha necessariamente que retribuir por eles com a necessária competência, podendo facilmente fazer-se uma carreira universitária com base numa absoluta e total enganação e tapeação dos outros.

 

100 Professor José Monir Nasser Aquele sujeito que está sentado numa cátedra pública fazendo discursos contra os outros, transformando-se numa espécie de regulador moral da sociedade, – por alguma razão estranhíssima, quando a imprensa quer sa-ber a opinião de alguém que está acima do bem e do mal pergunta para um professor universitário – essa gente que está pendurada neste status de estar acima do bem e do mal são tartufos.

Criou-se, como decorrência natural dessa percepção, a ideia errônea de que a opinião de um funcionário público é mais valiosa moralmente falando do que a de um funcionário privado – como se o funcionário público tivesse mais palavra e fosse mais honesto necessariamente do que alguém que tra-balha nas Lojas Americanas.

ALUNO: Isso é da natureza do argumento de autoridade. O argumento de autoridade não provém dos menos abastados intelectualmente, mas sim daqueles mais privilegiados.

PROF. MONIR: Por isso que o Tartufo é o Tartufo. Ele não consegue sê-lo se não tiver alguma espécie de autoridade. Que autoridade ele se arroga e lhe dá legitimidade para que ganhe o sr. Orgon? A autoridade religiosa, espiri-tual. O Tartufo não é o Tartufo por si só, mas porque representa um conjunto de valores que não são ele – os valores religiosos –, ele é uma espécie de modelo de cristão. Tanto é que a Sra. Pernelle, quando o elogia, diz que ele está fazendo a divulgação do verdadeiro cristianismo.

ALUNO: [Diz que Tartufo descarta o dilema do remorso.]

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 101 PROF. MONIR: Isso é na hora em que ele convence a Elmira a lhe dar prova cabal de afeição. Ele precisa retirar a culpa. E como é que ele lida com a culpa?

A culpa é o resultado de um conflito moral. Todo o ser humano normal tem necessariamente conflitos morais, não é possível imaginar uma existência humana que não tenha culpa. O maior de todos os sonhos brasileiros é uma vida sem culpa – nós criamos o adágio de que não existe pecado do lado de baixo do Equador. Mas o problema é que não dá para propor a Deus não ter mais culpa, porque Ele acaba transformando você numa samambaia. Se você não tem culpa, você não é mais ser humano. Ontologicamente falando, a culpa é obrigatória e verdadeira. Ela é um sofrimento moral que advém do fato de que você não sabe o que fazer.

O Dr. Jekyll vive um problema de culpa moral. Tanto é que ele sofre terri-velmente porque está dividido. Mas Tartufo não sente culpa porque é um vigarista intelectual.

Quais são os instrumentos que ele usa para ser Tartufo? Como se “tartufeia” os outros?

1. Ele tem que estar munido de valores que não são dele – valores maiores, e que os outros aceitem como tal. Se ele aparecesse como líder de uma seita satânica, não seria recebido na casa do Orgon. Ele só é recebido porque re-presenta os valores cristãos predominantes da época.

2. Ele tem que parecer não ter vantagens em defender isso. Por isso ele se faz de pobretão, perseguido, que dedica sua vida àquela causa.

102 Professor José Monir Nasser 3. Ele tem que contar a história certa, tem que ter alguma retórica. Ele deve ter a capacidade da linguagem certa. Ele não pode ser prepotente, deve pa-recer humilde. Tem que parecer devoto.

Se vocês quiserem aprender como manipular o mundo, basta aplicar esses três truques. Quando se faz isso bem feito, você consegue que as pessoas concordem com o contrário do que você está aparentemente propondo.

O governo federal no início do ano propôs um Plano Nacional de Direitos Hu-manos. De todas as barbaridades que se fez no Brasil até hoje essa é a maior, porque é uma peça de totalitarismo absoluto e completo. Tem uma regra que diz que os órgãos de comunicação serão ranqueados por um critério de envolvimento social. Ou seja, nasce a censura, sem que a gente saiba que é censura. Quando alguém invadir uma terra não é mais possível ir à Justiça pedir reintegração. Você terá que negociar com uma comissão composta justamente pelos “primos” dos sujeitos que invadiram a terra. O Plano Na-cional é uma somatória de barbaridades indescritíveis. Quando foi lançado, todo o mundo ficou brabo. Mas como é que o pessoal fica brabo? A Igreja não gostou da proibição de crucifixos nas salas de aula. Ela não aceita este item, mas quanto ao resto, não está em desacordo. O ruralista reclama que não quer o item que diz que o ruralista não tem mais acesso à Justiça, mas o resto, tudo bem.

Na medida em que há apenas uma reação pontual de contrapor-se a peque-nos itens, quem propôs as regras atenua um pouquinho cada um dos itens e faz passar o grosso. O que faz com que haja uma boa chance de o plano passar.

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 103 O que eu estou querendo mostrar a vocês é como esse plano é inspirado na técnica do Tartufo:

1. Primeiro você não pode propor o plano sem que ele pareça que é bom. Porque a primeira regra é: o plano tem que ter valores coletivos, ele não pode ser feito fora do contexto de valores coletivos. Haverá alguém nes-te mundo contra os direitos humanos? Portanto se você chamar o plano de Plano Nacional dos Direitos Humanos todo o mundo fica achando que é bom, liminarmente. Isso é uma abordagem tartúfica – no nosso mundo irreligioso, em que a maioria das pessoas não tem mais valores religiosos, os direitos humanos viraram a religião, substituíram os valores religiosos ante-riores. Então você diz que é direitos humanos, e todo o mundo já olha para você com bons olhos.

2. Mas aqueles que estão propondo o plano dizem que não é para eles não, que é para os outros. Ou seja, eles não serão beneficiados com isso porque não são sem-terra, porque eles não são jornalistas, não são do meio de co-municação, portanto você também está garantindo a segunda condição, de que você não é beneficiário daquilo. Você está inocente, necessariamente, porque afinal das contas não ganha nada com isso.

3. O terceiro golpe é fazer a redação disso de uma maneira extremamente benevolente, usando expressões do tipo: “para o avanço da relação social”, “para que haja a inclusão social”, “para que haja a sustentabilidade da socie-dade”.

Se você fizer isso bem feito, todo o mundo concorda. Ficam todos aneste-siados pelo método do Tartufo. Na verdade, quem fez o plano queria uma

104 Professor José Monir Nasser única coisa: assumir um poder extraordinário como nunca antes alguém teve. Aí você transforma o Estado em mediador universal de todas as ques-tões individuais. O Tartufo, aquele sujeito que era bonzinho e que parecia inocente, queria ficar com a casa, a filha e a mulher de Orgon. Ele queria ficar com as três coisas. E é isso com que eles ficarão se vocês não tiverem a capacidade de prestar atenção em quão tartúfica é essa estratégia que se faz politicamente nos dias de hoje.

ALUNA: Como é que nós vamos acabar?

PROF. MONIR: Eu não tenho a menor ideia. Só sei que há pouquíssima re-ação. Quem reclamou? O Estado de São Paulo fez editoriais contra, Denis Rosenfield escreveu artigos maravilhosos contra o plano...

ALUNA: A OAB, também.

PROF. MONIR: Mas a OAB é sempre aquela entidade meio sem-vergonha – é da sua natureza –, sempre meio governista, tentando contemporizar. Não vi nenhuma demonstração de repúdio verdadeiro, com a ênfase que devia ter dado. Até ouvi coisas muito ambíguas, para ser bem sincero.

Você tem uma quantidade tão pequena de anticorpos, que um Tartufo bem instrumentado é capaz de fazer o que bem entender. Portanto, não ache-mos que Orgon, cuja cretinice fiquei o tempo todo enfatizando, seja muito diferente do quadro do brasileiro médio moderno. Todos nós somos mais ou menos uns Orgons. O orgonismo é uma espécie de doença nacional que abateu o Brasil.

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 105 ALUNO: Uma doença internacional.

PROF. MONIR: É também internacional, eu concordo. Mas aqui é com uma gravidade, uma agudeza extraordinária. A quantidade de anticorpos aqui é muito menor. Se a gente acha que esse Orgon é um sujeito estúpido, acho que deveríamos considerar que é mais ou menos isso que é a sociedade brasileira de hoje, porque nós estamos nos comportando igualzinho.

ALUNA: [Faz comentário sobre a Dorina e a máquina governamental.]

PROF. MONIR: As nossas Dorinas deviam ser os nossos jornalistas, os nossos intelectuais.

ALUNA: [Comenta sobre a censura.]

PROF. MONIR: Não são nem um pouco censurados. O maior problema da censura não é o quanto censuram os jornais, mas o quanto os jornais cen-suram a realidade. É o contrário. Depois que você estabeleceu vinte, trinta anos de formatação ideológica de esquerda nos jornais e na publicidade, não há mais Dorinas capazes de dizer que isto é uma palhaçada, que isso está errado. E é por essa razão que nós seremos cada vez mais cronicamente orgônicos, e é isso que nós devíamos aprender com o Molière a não fazer igual. Mas parece sem muita possibilidade nesse momento.

Para terminar, gostaria de dizer que a grande literatura existe para ensinar as pessoas a serem normais. Somente para isto é que serve a grande literatura. O que acontece quando Tartufo é desmascarado? Volta-se à normalidade. É isso que nós precisamos fazer aqui.

106 Professor José Monir Nasser

O Pato Selvagem de Henrique Ibsen (1828 - 1906)

Transcrição da palestra do professor José Monir Nasser em Curitiba, em 24/04/201011

 

11 Transcrição de Maria Cecília Noronha. Revisão da transcrição: Patrícia Nasser.

108 Professor José Monir Nasser

O Pato Selvagem

 

 

O livro de hoje é praticamente desconhecido, não pelo fato de ser ruim, mas porque com Ibsen aconteceu um fenômeno interessantíssimo. Ele sempre esteve muito na moda. Ibsen é um teatrólogo do século XIX que teve muito sucesso em vida. Morou praticamente vinte e sete anos fora da Noruega, onde nasceu – na época um país muito complicado, porque havia passado centenas de anos sob o domínio da Dinamarca.

A Dinamarca, a Noruega, a Finlândia e a Suécia formam aquilo que se cha-ma de Escandinávia. A Dinamarca não fica na península escandinava, mas ela está tão ligada culturalmente à península que também é chamada de Escandinávia. Os três países da península (Noruega, Finlândia e Suécia) sem-pre tiveram ligações muito grandes entre si. Mas sobretudo entre a Noruega e a Dinamarca houve muita ligação, tanto que as línguas se parecem, por causa do domínio dinamarquês. A Dinamarca é a terra dos vikings; sempre foi a mais imperialista – tanto que a Inglaterra teve colonização dinamar-quesa. Os celtas ingleses foram empurrados para fora pelos dinamarqueses. Quando a Noruega finalmente se livrou da Dinamarca, caiu sob o domínio

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 109 sueco. E a Noruega do nascimento de Ibsen era um país de personalidade muito difusa – um lugar dominado por tantos estrangeiros vai perdendo um pouco de sua personalidade.

Foi o que aconteceu com a Polônia, para dar um exemplo mais próximo de nós. A Polônia uma hora era russa, outra hora era Polônia mesmo, depois ou-tra hora era russa de novo... Passou a vida inteira transformada em massa de controle dos seus vizinhos. Fica difícil saber de quem você é. Como alguém que nasce na Alsácia. Lá você não sabe se é alemão ou se é francês – a cada 50 anos pertence a um dos dois países (embora nos últimos tempos a região esteja aparentemente consolidada como território francês).

CRONOLOGIA

1814 – A Noruega liberta-se do jugo da Dinamarca, que começara em 1387, mas cai quase imediatamente sob o domínio da Suécia (sob a dinastia Bernadotte).

1828 – Henrik Ibsen nasce no dia 20 de março em Skien, Noruega. Filho de Knud Ibsen, um comerciante próspero, e de Marichen Altenburg, mulher culta que incentivou no filho o interesse pelas artes. Ibsen teria mais quatro irmãos mais novos. A família Ibsen vivia do comércio e de uma destilaria.

1834 – A destilaria é fechada pelo governo, trazendo a ruína financeira à família Ibsen.

1843 – Sem poder mais estudar, parte para Grimstad, para trabalhar como assistente de farmacêutico do Sr. Reimann. Com quinze anos, Ibsen inicia vida econômica autônoma.

110 Professor José Monir Nasser 1846 - Tem um filho com Else Jensdatter, a empregada doméstica do seu pa-trão. Ibsen sustenta a criança, batizada como Hans Jacob Henriksen, sem ter contato com ela. Ibsen pinta, sobretudo paisagens. Cogita de se tornar pintor profissional.

1848 – Onda revolucionária sacode a Europa e impressiona Ibsen.

1849 – Ibsen escreve sua primeira peça, Catilina, em que apresenta o célebre Catilina não como conspirador, mas como herói revolucionário.

1850 – Ibsen muda-se para Oslo (então chamada Cristiânia). Um amigo, Ole Schulerud, publica com recursos próprios Catilina. A obra vende muito pouco e os volumes remanescentes são vendidos como sucata. Tenta, sem êxito, entrar na universidade. Escreve panfletos para um jornalzinho socialista e corre o risco de ser preso.

1851 – Começa a trabalhar, como diretor artístico, com o violinista clássico e di-retor de teatro Ole Bull que queria montar em Bergen, onde havia mais riqueza, um teatro realmente norueguês e não dinamarquês. Começa o período de seis anos entre Copenhage (Dinamarca) e Bergen (Noruega), envolvido com todo o tipo de atividade teatral. Em princípio, teria de escrever uma peça por ano.

1852 – Visita grandes teatros em Hamburgo, Copenhague e Dresde e é influen-ciado por Shakespeare. Esta viagem eleva dramaticamente o nível de referência teatral de Ibsen.

1857 – Aceita convite para dirigir, em Cristiânia, o Teatro Norueguês.

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 111 1858 – Casa se em 18 de junho com Suzannah Daae Thoresen, com quem terá o filho Sigurd (nascido em 1859). Suzannah era filha da famosa escritora Magda-lena Thoresen.

1860 – Ibsen não consegue produzir peças “leves” e é pressionado pelo conselho diretor do teatro.

1862 – O Teatro Norueguês vai à falência. Ibsen fica sem trabalho.

1864 - Na guerra dos Ducados, a Prússia toma metade de seu território da Di-namarca. Ibsen muda-se para Roma, com o auxílio de uma bolsa de viagem do governo. A não ser por pequenas visitas, não voltaria à Noruega por vinte e sete anos.

Encenada Os Pretendentes à Coroa (Kongsemnerne), a mais shakespeariana das peças de Ibsen.

1865 - O editor Gyldendal publica na Dinamarca Brand, tratando de um pastor luterano fanático. A peça é a mais kirkgaardiana das escritas por Ibsen. O sucesso de Brand garante-lhe pensão do governo norueguês.

1867 - Escreve Peer Gynt, uma personagem de certo modo oposta a Brand.

1868 - Muda-se para Munique, onde ficaria até 1878. Já famoso, sua presença diária no café Maximilian viraria atração turística. Após sua partida, o dono do café contratou ator para fazer se passar por Ibsen.

1869 - Escreve a sátira A Aliança da Mocidade (Der Unges Forbund). O dramaturgo

 

112 Professor José Monir Nasser norueguês Bjoernstjerne Bjoernson, achando-se caricaturado, ficou indignado. Bjoerson e Ibsen passaram a vida se desentendendo.

1877 - Escreve Os Pilares da Sociedade (Samfundets Stoetter), primeiro dos oito dramas realistas que revolucionaria o teatro europeu.

1878 – Volta para Roma.

1879 – Escreve Casa de Bonecas (Et Dukkehjem), que eternizou a personagem Nora como símbolo feminista.

1881 - Escreve Espectros (Gengangere), tratando de temas polêmicos como do-enças venéreas, caricaturando a igreja e minando a autoridade paternal no lar.

1882 - Escreve Um Inimigo do Povo (En Folkefiende).

1884 - Escreve O Pato Selvagem (Vildanen).

1886 - Escreve Romersholm.

1888 - Escreve A Dama do Mar (Fruen fra Havet).

1890 - Escreve Hedda Gabler.

1891 – Volta à Noruega.

1892 - Escreve Solness, o Construtor (Bygmester Solness).

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 113 1898 - Recebe grande homenagem quando do seu aniversário de setenta anos, incluindo inauguração de estátua.

1899 - Escreve Quando Despertamos dos Mortos (Naar vi Doede Vaagner. En Dra-matisk Epilog), peça autobiográfica e última de Ibsen. Seu estilo minimalista an-tecipa Samuel Beckett.

1900 - Sofre o primeiro avc.

1902 - Sofre segundo e mais grave avc.

1906 - Morre no dia 23 de maio.

Ibsen nasceu numa família de classe média alta, uma família burguesa bem situada; o pai tinha uma destilaria e também trabalhava com comércio. Em seguida a família vai à falência. Uma das versões é que o governo proibiu a destilaria. Ibsen então teve que trabalhar muito cedo. Muda-se para outra cidade da Noruega, onde começa a se interessar por teatro. Lá escreve a sua primeira peça, Catilina. De modo geral uma peça de juventude, a não ser quando o jovem é genial, não tem grande valor artístico. A literatura exige certa maturidade.

Quando um artista – até para confirmar a arte da Noruega – resolve fundar um teatro norueguês em Cristiânia (atual Oslo) 12, chama Ibsen para dirigi-lo.

12 Nota da revisora de transcrição: O Teatro Norueguês Cristiânia foi uma iniciativa de Johan-nes Bendictus Klingenberg. Surgiu como escola dramática em 1852, e passou a funcionar como teatro em 1854. Ibsen trabalhou no teatro como diretor de 1857 até sua falência em

114 Professor José Monir Nasser O teatro vai à falência, não por culpa de Ibsen, mas porque o dinheiro estava em Bergen, e não em Cristiânia.

Bergen é o lugar onde há mais demanda de turismo para passear pelos fiordes. Um dos maiores artistas da Noruega é Edvard Grieg, compositor erudito, que também musicou a peça Peer Gynt, escrita por Ibsen baseada no folclore norueguês. A peça é poderosíssima, e a música é extraordiná-ria, notabilizou Peer Gynt para sempre. Aos poucos Ibsen vai vivendo só de teatro. Ele tinha um grande concorrente na época, o Björnson – mais velho que Ibsen, que fazia grande sucesso. Ibsen vai se notabilizando como um autor capaz de competir com Björnson. Não tem muito apoio no início, não consegue apoio governamental, nem que o ajudem com as peças. Mas ele vai mais ou menos superando até que um dia vai embora, em decorrência de uma guerra.

Houve uma guerra entre a Dinamarca e a Prússia – a Guerra dos Ducados13, envolvendo os ducados de Schleswig-Holstein –, guerra terrível que fez com que a Dinamarca perdesse metade do território para a Prússia de então – que hoje é o Norte da Alemanha, tecnicamente falando, com capital em Berlim.

Henrik Ibsen vai embora para a Itália, para Roma, fica lá muitos anos e de-1862. Em 1863 o teatro foi incorporado ao Teatro Cristiânia. Fonte: https://en.wikipedia.org/ wiki/Christiania_Norwegian_Theatre. Acesso em 21/07/2015. 13 Nota da revisora de transcrição: A Guerra dos Ducados do Elba começou em 1864. A Dinamarca, de um lado, e a Liga Alemã (Prússia e o império austríaco), de outro, queriam o controle dos ducados de Schleswig-Holstein. Schleswig Setentrional voltou à Dinamarca após a I Guerra Mundial.

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 115 pois vai para Munique, onde se torna uma celebridade. Durante essa fase de exílio autoimposto ele produz as obras que ficaram famosas. Já havia feito um teatro de grande qualidade antes, um teatro que se tende a chamar de teatro romântico porque tinha temas tipicamente do século XIX, como o nacionalismo.

Vejam, todos os nacionalismos nascem no século XIX. Wagner é um com-positor do século XIX. Então se tem alguém que vai fazer a recuperação da mitologia nórdica, vai ressuscitar as lendas dos Nibelungos, todo aquele folclore germânico que daria origem a uma base de referência para que a Alemanha passasse a existir como estado moderno no final do século XIX, este é o Wagner. É nesse espírito que Ibsen escreve Peer Gynt antes de ir para a Itália.

Fora da Noruega, Ibsen se torna uma celebridade. Ele mora em Munique durante dez anos e vai todos os dias ao Café Maximilian, onde fica sentado no mesmo lugar, lendo todos os jornais disponíveis. Ibsen não lia livros – sua biblioteca era ridiculamente pequena –, mas lia todos os jornais que con-seguia. Passava o dia inteiro lendo jornal e todo o mundo ia até o Café Ma-ximilian para vê-lo, porque Ibsen tinha escrito oito dramas moderníssimos que aparentemente lidavam com os assuntos mais candentes do século XX, como a libertação das mulheres, o feminismo, o problema da ecologia. En-tão no século XX Ibsen fez um sucesso medonho no mundo inteiro; parecia aos olhos de todos que ele era um precursor dessas coisas todas. Dá se a ele o título de Pai do Teatro Moderno por causa disso. Mas há que se tomar um cuidado imenso com o autor, porque ele engana. Na verdade, ele está que-rendo enganar você, não se deve comprá-lo pelo seu valor de face.

 

116 Professor José Monir Nasser Ibsen era aquele sujeito revolucionário que fazia as peças que a moderni-dade queria ver – abordavam os assuntos da mulher, das doenças venéreas (como em Espectros, por exemplo) e etc, e etc, o que dava a Ibsen uma cono-tação modernista. Quando alguns anos antes de morrer ele foi embora de Munique e voltou para a Noruega, o dono do Café Maximilian contratou um sósia que ficou lá mais cinco anos fingindo ser o Ibsen – tal era a demanda de admiradores. Era o jeito de o pessoal aparecer lá no café. Ficava lá um sujeito num canto, como se fosse um deus, lendo A Gazeta do Povo14. Como ninguém ia falar com ele, porque não se podia atrapalhar o grande drama-turgo, bastava ter lá um sósia, uma pessoa que fosse parecida com Ibsen.

Ele escreveu uma quantidade tão extraordinária de peças que é possível que seja o maior dramaturgo moderno, considerando a Revolução Francesa para cá – vejam que aí a concorrência é séria. Mas ele é muito melhor que George Bernard Shaw, ele é maior do que August Strindberg, que é o me-lhor de todos os dramaturgos suecos, ele é maior do que Pirandello – embo-ra Pirandello seja um gênio.

Ibsen morre sob o signo do espanto. É um homem que morre em 1906 cuja obra, ainda do século XIX, havia lidado com todos os temas que fariam parte da agenda do debate social do século XX. Por isso que quando se lê Ibsen com pouca atenção e profundidade (o que acontece frequentemente com o livro A Casa das Bonecas), acredita-se à primeira vista que se trata de uma espécie de escritor social, que está estabelecendo uma agenda de reivin-dicações sociais, entre elas a da libertação das mulheres (como no caso do episódio da vida de Nora, a principal personagem da história). Mas quando 14 Nota da revisora de transcrição: A Gazeta do Povo é o jornal mais tradicional de Curitiba e o mais antigo em circulação no Paraná (desde 1919).

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 117 você olha para Ibsen com um pouco mais de profundidade, você percebe que há muito mais coisas sob essa aparência que se possa imaginar.

A peça escolhida para ser lida aqui, de acordo com Otto Maria Carpeaux, é a mais profunda de Ibsen. É uma peça terrível, muito dura de se lidar. Terrível em termos emocionais. É muito cruel, muito dolorosa e tem um grau de competência teatral como poucas vezes você terá visto na vida. É absoluta-mente emocionante. Faz parte daquelas peças de conotação social.

Dizem, de modo geral, que Ibsen tem duas fases. A fase romântica ainda na Noruega, antes de ele viajar, que acaba mais ou menos com Peer Gynt, e a fase realista. Obviamente é uma questão que se atribui a Ibsen, porque ele mesmo não disse isso. Aliás, ele manda ler a obra na sequência rigorosa, da primeira à última. Ele acha que a obra só pode ser compreendida do começo ao fim. Para os brasileiros isso é difícil, porque tirando A Casa de Bonecas, só temos seis traduções, que são um terço, ou um quarto da obra. Então é difícil ler Ibsen, a não ser que você tenha alguma capacidade de ler língua estrangeira - em espanhol já tem a obra completa.

É um absurdo, sobretudo porque é um autor que estava em voga há trinta anos. Todo o mundo era entendido em Ibsen, todo o mundo ia assistir A Casa de Bonecas. A Tônia Carrero fez o papel de Nora durante anos. Era um autor muito vistoso publicamente, apesar de não ser mais contemporâneo.

 

118 Professor José Monir Nasser