Tartufo, O Pato Selvagem
Hjalmar
Ah! Gregers! É justamente disso que não tenho certeza. Quem sabe o que
Gina e essa Sra. Soerby puderam tramar aqui, tantas vezes? E Hedvig não tem
por hábito tapar os ouvidos. É capaz que essa doação, afinal de contas, não
tenha sido uma surpresa total.
PROF. MONIR: Agora Hjalmar coloca a filha de treze anos como conspiradora contra ele.
GREGERS
Que mau espírito te domina hoje, Hjalmar!
HJALMAR
Meus olhos se abriram. Presta atenção: verás que essa doação não é mais do
que um primeiro passo. A Senhora Soerby sempre teve um fraco por Hedvig.
Ela agora tem o poder de fazer tudo o que lhe agrade pela criança. Podem
tirar ma, desde que o queiram.
GREGERS
Hedvig nunca te deixará.
HJALMAR
Não te fies muito nisso. Se eles lhe fizerem um sinal, com as mãos cheias?... E
eu que tanto a quis!... Eu, cuja felicidade toda teria sido de pegá la suavemente
pela mão e de a conduzir como se conduz, num grande quarto vazio, uma
criança que tem medo das trevas! Tenho agora a dolorosa certeza de que o
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pobre fotógrafo alojado nas águas furtadas nunca foi nada para ela. Não
houve aí nada mais que um ardil para viver em boas condições com ele até
um momento dado.
GREGERS
Tu mesmo, Hjalmar, não crês no que está dizendo.
HJALMAR
O horrível é justamente isso: eu não sei o que devo pensar, jamais o saberei.
Mas tu crês que é impossível que assim seja? Meu bom Gregers, tu te fias
demasiado, parece me, na força do ideal. Que os outros venham, que
cheguem com as mãos cheias, que lhe gritem: “Vem conosco, a vida aqui está
à tua espera!...” e verás!
GREGERS (com vivacidade)
Vamos! Então tu crês?
HJALMAR
Se eu lhe pedisse: “Hedvig, queres dar a tua vida por mim?” (Ri sarcasticamente.)
Ah! Pois sim! Verias o que ela me responderia.
(Ouve se um tiro no sótão.)
PROF. MONIR: Ouve-se um tiro no sótão no momento em que Hjalmar faz sarcasmo consigo mesmo: “Se eu pedisse para Hedvig dar a vida por mim, ela diria que claro que não”. Nesse momento ouve-se um tiro no sótão.
220 Professor José Monir Nasser
GREGERS (com uma explosão de alegria)
Hjalmar!
HJALMAR
Bom! aí está o outro caçando agora.
GINA (entrando)
Ekdal, creio que o velho está outra vez sozinho no sótão a dar tiros de
espingarda.
HJALMAR
Vou ver.
GREGERS (impressionado, alegre)
Espera um pouco. Sabes o que é?
HJALMAR
Naturalmente que sei.
GREGERS
Não, tu não sabes. Eu, porém, sei! É a prova!
HJALMAR
Que prova?
GREGERS
Um sacrifício de criança: ela convenceu a teu pai que matasse o pato
selvagem.
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