Tartufo, O Pato Selvagem
Werle
Gregers!... Ah! Vejo-o bem: não há ninguém no mundo a quem respeites
menos do que a mim.
GREGERS (baixinho)
É que eu te vi de muito perto.
WERLE
Tu me viste através dos olhos da tua mãe. (Abaixando um pouco a voz.)
Deverias lembrar-te que esses olhos viam às vezes um pouco turvo.
PROF. MONIR: Durante toda a história existem metáforas com os olhos. Os olhos são a metáfora central da obra – mais importante que a metáfora do pato, é a metáfora dos olhos que reaparece o tempo todo.
GREGERS (com voz trêmula)
Compreendo a tua alusão. Mas sobre quem recai a responsabilidade dessa
desgraçada fraqueza de minha mãe? Sobre ti e sobre todas essas... A última,
era essa criatura com quem fizeste Hjalmar Ekdal casar se quando não
quiseste mais saber dela... Oh!
PROF. MONIR: Aqui está o filho acusando o pai de ter tido vários casos com diversas moças e de que Gina foi apenas a última. E acusa claramente o pai de ter arrumado um casamento de conveniência para que Gina desapare-cesse. Essa é a acusação que o filho faz ao pai.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 137
WERLE (dando de ombros)
Parece-me estar ouvindo tua mãe.
GREGERS (sem prestar lhe atenção às palavras)
E eis essa natureza confiante, essa criança grande, emaranhada numa rede
de perfídias, morando sob o mesmo teto que uma mulher dessa espécie, sem
suspeitar que o seu lar, como ele o denomina, repousa numa mentira.
PROF. MONIR: Quem é esse? O Hjalmar.
GREGERS (Dando um passo para o pai.)
Tua existência, quando a considero, aparece me como um campo de
carnificina, atravancado de cadáveres, a perder de vista.
PROF. MONIR: Vocês não acham que Gregers parece levar essas coisas um pouco a sério demais? Não sabemos ainda. Parece. É um começo muito do-loroso. Na festa de homenagem à sua vinda, o filho faz estas acusações to-das ao pai.
ALUNA: [Pergunta se ele não estava agindo de acordo com a moral rígida da época.]
PROF. MONIR: Certamente eram mais rígidos do que hoje, mas mesmo as-sim aqui há alguma hipérbole, uma espécie de exagero. Há um tipo humano que não admite nada que não seja certo, que tem uma exigência moral mui-to grande. Vocês verão que esse Gregers é mais ou menos assim, um tipo de militante moral.
138 Professor José Monir Nasser