Tartufo, O Pato Selvagem

José Monir Nasser · Capítulo 16 de 62

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Tartufo, O Pato Selvagem

Werle

Gregers!... Ah! Vejo-o bem: não há ninguém no mundo a quem respeites

menos do que a mim.

GREGERS (baixinho)

É que eu te vi de muito perto.

WERLE

Tu me viste através dos olhos da tua mãe. (Abaixando um pouco a voz.)

Deverias lembrar-te que esses olhos viam às vezes um pouco turvo.

PROF. MONIR: Durante toda a história existem metáforas com os olhos. Os olhos são a metáfora central da obra – mais importante que a metáfora do pato, é a metáfora dos olhos que reaparece o tempo todo.

GREGERS (com voz trêmula)

Compreendo a tua alusão. Mas sobre quem recai a responsabilidade dessa

desgraçada fraqueza de minha mãe? Sobre ti e sobre todas essas... A última,

era essa criatura com quem fizeste Hjalmar Ekdal casar se quando não

quiseste mais saber dela... Oh!

PROF. MONIR: Aqui está o filho acusando o pai de ter tido vários casos com diversas moças e de que Gina foi apenas a última. E acusa claramente o pai de ter arrumado um casamento de conveniência para que Gina desapare-cesse. Essa é a acusação que o filho faz ao pai.

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 137

WERLE (dando de ombros)

Parece-me estar ouvindo tua mãe.

GREGERS (sem prestar lhe atenção às palavras)

E eis essa natureza confiante, essa criança grande, emaranhada numa rede

de perfídias, morando sob o mesmo teto que uma mulher dessa espécie, sem

suspeitar que o seu lar, como ele o denomina, repousa numa mentira.

PROF. MONIR: Quem é esse? O Hjalmar.

GREGERS (Dando um passo para o pai.)

Tua existência, quando a considero, aparece me como um campo de

carnificina, atravancado de cadáveres, a perder de vista.

PROF. MONIR: Vocês não acham que Gregers parece levar essas coisas um pouco a sério demais? Não sabemos ainda. Parece. É um começo muito do-loroso. Na festa de homenagem à sua vinda, o filho faz estas acusações to-das ao pai.

ALUNA: [Pergunta se ele não estava agindo de acordo com a moral rígida da época.]

PROF. MONIR: Certamente eram mais rígidos do que hoje, mas mesmo as-sim aqui há alguma hipérbole, uma espécie de exagero. Há um tipo humano que não admite nada que não seja certo, que tem uma exigência moral mui-to grande. Vocês verão que esse Gregers é mais ou menos assim, um tipo de militante moral.

 

138 Professor José Monir Nasser