Tartufo, O Pato Selvagem
Gina
Que livros?
HJALMAR
Meus livros de ciência, naturalmente, minhas publicações tecnológicas, as de
que me sirvo para a descoberta. (pág. 230)
Enquanto Hjalmar recolhe suas coisas, Gina comenta: “Que Deus te perdoe o mal que pensas de mim”. O fotógrafo diz que seu pai irá deixar a casa com ele. Procura o seu chapéu. Gina quer saber onde ele havia estado com “aqueles dois libertinos”. A mulher traz um café com uma torrada e arenque defumado. Ele recusa.
HJALMAR (olhando furtivamente para a bandeja)
Um pouco de arenque defumado? Sob este teto? Nunca mais! Há quase vinte
e quatro horas não ponho nada de sólido na boca. Não importa! – Minhas
notas! As memórias da minha vida que eu tinha começado! Vejamos! Onde
botei o meu diário e o que há de mais importante nos meus papéis? (Abre a
porta do salão e recua.) Ah! Ainda está ali!
GINA
Meu Deus! A coitada da criança tem de estar em algum lugar.
HJALMAR
Vamos, sai!
(Afasta se para deixá la passar. Hedvig, assustada, entra no atelier.)
HJALMAR (com a mão na maçaneta da porta)
(A Gina.) Durante os últimos momentos que vou passar no meu antigo lar,
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desejo que me poupem a presença de intrusos.
(Passa para o salão.)
HEDVIG (correndo para a mãe, baixo, com voz trêmula)
É de mim que ele está falando?
GINA
Fique na cozinha, Hedvig. Ou antes: vai para o teu quarto, na saleta. (A
Hjalmar, para quem se encaminha.) Espere um pouco, Ekdal. Não desarruma
tudo na cômoda. Eu conheço o lugar de cada coisa.
(Hedvig, um momento imóvel, ansiosa, espantada, morde os lábios para não
chorar.)
HEDVIG (em voz baixa, com os punhos cerrados)
O pato selvagem!
(Aproxima se furtivamente do aparador, pega a pistola, desliza para o sótão
pela porta que entreabre, e fecha depois de entrar.) (págs. 231-323)
Hjalmar e Gina discutem. A mulher acha que o velho vai sentir falta dos coelhos. Hjalmar não quer a flauta, mas vai levar a pistola. Procuram na. Como não está na prateleira, supõem que o velho a teria levado. O fotógrafo come mecanicamen-te. Gina tenta convencê lo a ficar no salão, na casa de Relling ou de Molvik. Ele reage: “Não pronuncies o nome desses tipos. Só de pensar nisso, sou capaz de perder o apetite. Não! Terei de ir no meio da neve e da tormenta, de casa em casa, para pro-curar um abrigo para o meu velho pai e para mim. ”
216 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: Pouca coisa soa mais falsa do que isso. Essa última soou falsa. Ele não quer ir embora, mas está fazendo uma cena, uma espécie de teatro.
Hjalmar aceita ficar no salão por um dia ou dois, porque não vê como poderia “fazer a mudança de seu pai em tão pouco tempo”. Continuam a separar as coisas de Hjalmar. Encontram os pedaços do termo de doação. Hjalmar cola as partes e entrega o documento remendado a Gina. Chega Gregers. Gina pergunta ao marido se quer que ela prepare o quarto ou lhe arrume as malas. Ele escolhe os dois: “Arruma a mala e prepara o quarto”. A mulher sai para tomar as providências. Gregers e Hjalmar ficam sozinhos. O fotógrafo amaldiçoa Relling por tê lo feito crer que ele poderia fazer grande descoberta no terreno da fotografia e, mais grave ainda, conclui que Hedvig é o maior problema de sua vida.
HJALMAR
Que importa o que eu creia agora! É Hedvig quem se atravessa no meu
caminho. É ela quem obscurecerá toda a minha existência.
GREGERS
Hedvig! Tu referes a Hedvig? Como poderia ela obscurecer a tua existência?
HJALMAR (sem responder)
Quanto amor eu senti por essa criança! Quanta alegria, cada vez que ao
entrar na minha pobre casa, ela vinha correndo para mim com o piscar dos
seus lindos olhos! Ah! Louco confiante que eu era! Amei a tanto!... E, para mim,
era um sonho poético a ideia do amor que ela tinha por mim... Seu amor,
como eu o imaginava.
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