Tartufo, O Pato Selvagem
Relling
Não, não estou com disposição para isso. De resto estou bem informado: ele
disse bastante sobre esses dois “assassinos de sua alma”.
PROF. MONIR: Que são as tias.
RELLING
Aliás, não creio que ele lhes deva grandes obrigações.
A desgraça de Ekdal foi ter passado sempre por um fênix aos olhos dos que o
cercam.
GREGERS
E ele não o é? Refiro me ao que ele guarda no fundo da alma.
RELLING
Eu nunca o notei. Que o pai dele tivesse acreditado nisso, não me admira. O
velho tenente foi sempre um idiota durante toda a vida.
GREGERS
Teve uma alma de criança durante toda a vida, é o que você não percebe.
RELLING
Está bem, está bem! Mas depois disso, quando o pequeno Hjalmar se tornou
estudante, os colegas dele, também, apressavam se a ver nele uma das luzes
do futuro. Ele era bonito... a coisa ia... branco e rosa... tal como as jovens
senhoritas gostam de ver os rapazinhos. E como ele tinha o gênio sensível,
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 207
sedução na voz, como ele sabia declamar agradavelmente os versos dos
outros, e os pensamentos dos outros...
PROF. MONIR: Dos outros, não?
GREGERS (exaltando se)
É de Hjalmar Ekdal que está falando assim?
RELLING
Com sua licença, sim. É só para lhe mostrar o íntimo desse ídolo, ante o qual
você se prosterna com a cara no pó.
GREGERS
Entretanto, eu não me julgava completamente cego.
RELLING
Pois não está longe disso. Vou dizer lhe: você é um doente, você também.
GREGERS
Quanto a isso, tem razão.
RELLING
Oh! Se tenho. Seu caso é muito complicado. Para começar, essa febre maligna
da equidade. E depois, o que ainda é pior, esse delírio de adoração que o faz
vagar continuamente, com uma necessidade insatisfeita de admirar sempre
algum objeto fora de você mesmo.
208 Professor José Monir Nasser