Tartufo, O Pato Selvagem

José Monir Nasser · Capítulo 46 de 62

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Tartufo, O Pato Selvagem

Relling

Não, não estou com disposição para isso. De resto estou bem informado: ele

disse bastante sobre esses dois “assassinos de sua alma”.

PROF. MONIR: Que são as tias.

RELLING

Aliás, não creio que ele lhes deva grandes obrigações.

A desgraça de Ekdal foi ter passado sempre por um fênix aos olhos dos que o

cercam.

GREGERS

E ele não o é? Refiro me ao que ele guarda no fundo da alma.

RELLING

Eu nunca o notei. Que o pai dele tivesse acreditado nisso, não me admira. O

velho tenente foi sempre um idiota durante toda a vida.

GREGERS

Teve uma alma de criança durante toda a vida, é o que você não percebe.

RELLING

Está bem, está bem! Mas depois disso, quando o pequeno Hjalmar se tornou

estudante, os colegas dele, também, apressavam se a ver nele uma das luzes

do futuro. Ele era bonito... a coisa ia... branco e rosa... tal como as jovens

senhoritas gostam de ver os rapazinhos. E como ele tinha o gênio sensível,

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 207

sedução na voz, como ele sabia declamar agradavelmente os versos dos

outros, e os pensamentos dos outros...

PROF. MONIR: Dos outros, não?

GREGERS (exaltando se)

É de Hjalmar Ekdal que está falando assim?

RELLING

Com sua licença, sim. É só para lhe mostrar o íntimo desse ídolo, ante o qual

você se prosterna com a cara no pó.

GREGERS

Entretanto, eu não me julgava completamente cego.

RELLING

Pois não está longe disso. Vou dizer lhe: você é um doente, você também.

GREGERS

Quanto a isso, tem razão.

RELLING

Oh! Se tenho. Seu caso é muito complicado. Para começar, essa febre maligna

da equidade. E depois, o que ainda é pior, esse delírio de adoração que o faz

vagar continuamente, com uma necessidade insatisfeita de admirar sempre

algum objeto fora de você mesmo.

 

208 Professor José Monir Nasser