Tartufo, O Pato Selvagem

José Monir Nasser · Capítulo 6 de 62

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Tartufo, O Pato Selvagem

Tartufo

Ah! por ser um devoto, ainda assim, homem sou:

E em quem tem, de vos ver, a venturosa sina,

O coração se enleia e já não raciocina.

Sei que tal fala, em mim, parece aberração:

Mas, senhora, eu não sou anjo na terra, não;

Se me exprobrais o ardor que já não se suprime,

PROF. MONIR: Se me acusais do ardor.

Deve culpar em vós a sedução sublime;

Assim que lhe avistei a graça que lhe emana,

Ficastes de meu fado única soberana;

De vosso olhar formoso o brilho airoso e suave

Da devoção venceu me na alma o férreo entrave;

Tudo sobrepujou: preces, jejum e pranto,

E me lançou inteiro aos pés de vosso encanto. (págs. 70-71)

PROF. MONIR: Muito bem respondido. O Tartufo aqui agora deu a primeira de Garrincha, depois de várias de Cafuringa. Ele está dizendo que se acon-teceu alguma coisa de inconveniente entre eles, Elmira é que é culpada, por ser tão bonita assim. Está bem argumentado.

Elmira propõe nada dizer se, em retribuição, Tartufo influenciar Orgon para con-sentir a união de Valério e Mariana.

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 59 PROF. MONIR: Esse é o plano da Dorina. Criar uma situação de sedução para o Tartufo, que cairia na armadilha. Fazendo-se de indignada, Elmira ameaça-ria contar para o marido e negociaria não contar se o Tartufo convencesse o Orgon a casar a Mariana com o Valério.

 

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INTERVALO

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PROF. MONIR: Deixamos Tartufo na cena em que se declara apaixonado pela dona da casa, a Elmira, muito embora tenha recebido a promessa da mão de Mariana, a filha do dono da casa. Tartufo aparentemente cai no golpe que lhe é pregado pela empregada Dorina. Se Cleanto representa o polo de bom senso da história, Dorina representa o polo de sagacidade, ela é esperta. Dorina montou este plano para obrigar o Tartufo a lutar pelo casamento do Valério com a Mariana em troca de não sofrer a denúncia que a Elmira faria contra ele, por tê-la cortejado.

Cena IV

Furioso, Damis sai do esconderijo e interrompe a negociação:

DAMIS

Não, senhora, não; nisto eu não fico mudo.

Num canto estive, ali, de onde pude ouvir tudo;

E para lá levou me a proteção celeste,

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Para abater de vez a infâmia dessa peste,

E da vingança justa enfim abrindo a via,

Destruir de sua perfídia e infâmia a ação bravia

Desenganar meu pai, e à luz do dia expor

O celerado audaz que vos propõe amor. (pág. 73)

Elmira pede ao enteado para evitar o escândalo, mas Damis diz que outras ra-zões lhe convêm: “Faltava que o traidor seu perdão extorquisse”. O rapaz, volunta-rioso, decide “desenganar (seu) pai do infame em cheio”.

Cena V

Damis repassa o relatório que faria a seu pai, enquanto Elmira adverte em que é “sempre pernicioso turbar com falas vãs a calma de um esposo”.

PROF. MONIR: A solução de haver um escândalo também não é má porque isso iria resolver o problema do casamento da moça. Mas por alguma razão ela intuitivamente acha que isso não vai dar certo. Vamos ver se o Damis terá sucesso na sua denúncia.

Cena VI

Na frente de Orgon, já informado por seu filho dos acontecimentos com Elmira, Tartufo exagera grandemente as acusações contra si e faz se de pecador con-denável: “Como um meliante, um cão, tratai de me enxotar. Sim, por cruel que seja o opróbrio a que me exponha, eu sei que mereci ainda maior vergonha”. O estrata-gema funciona e Orgon, no lugar de expulsar o devoto, fica indignado com o

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 61 próprio filho: “Como! ousas tu, traidor, com bárbara impostura, tentar de tal virtude enxovalhar a alvura?” Tartufo manipula Orgon, fingindo compaixão por Damis:

PROF. MONIR: O plano não deu certo porque Tartufo se diz o pior dos monstros, exagera nas autoacusações, aumenta as acusações que lhe foram feitas, inventa outras, e aí o sr. Orgon vai achando aquilo irreal e rebela-se contra o Damis, como se o filho estivesse tentando caluniar o Tartufo. Deu completamente errado, Orgon é inacreditavelmente burro.

TARTUFO

Ah, fale! Não deveis culpar esse infeliz!

Seria um bem pra vós dardes crença ao que diz.

Secundar me em tal transe um bem qualquer vos traz?

Sabeis vós, afinal, do que eu seja capaz?

Ah, meu irmão, fiai-vos na aparência, e credes

Que eu sou melhor, tão só pelo que de mim vedes?

Não, não: é o exterior que vos engana assim.

Meu Deus, o que se pensa, eu não sou, ai de mim!

De homem honrado e bom deu me o mundo a nomeada,

Mas a verdade pura é que não valho nada.

(dirigindo-se a Damis)

Meu caro filho, sim, tratai-me de perdido,

De biltre, de ladrão. Facínora, bandido,

Marcai-me de algo pior, de um nome mais funesto.

Tudo isso mereci, e nada vos contesto;

De joelhos sofro a infâmia, e é punição devida

A todo o mal que fiz durante a minha vida. (págs. 76-77)

 

62 Professor José Monir Nasser Orgon continua a enxovalhar Damis (“Cala te, infame... ingrato”), põe-se de joe-lhos e abraça Tartufo, queixa-se de estar sendo vítima de uma conspiração para enxotar dali aquela “santa alma” e insiste em casar Mariana com Tartufo. Ameaça, logo mais naquela noite, “dar a saber quem manda na casa”. Como Damis não se rende, Orgon ameaça bater nele com um pedaço de pau, depois o expulsa e o deserda.

PROF. MONIR: Pronto! Expulsou e deserdou o filho em favor deste Tartufo.

Cena VII

Tartufo encena uma afetadíssima cena de misericórdia para com Damis: “Per-doai-o, ó Pai do céu! Como eu o estou perdoando.” Continuando o teatro, Tartufo ameaça abandonar a casa, “se for para o bem da família”:

TARTUFO

Ah, meu irmão, rompei debates tão cruéis.

Vejo que trago aqui a discórdia e a desgraça,

E sinto que é mister abandonar a praça.

(...)

Deixai que eu parta, e como um fugitivo,

A tirar lhes tão já de outro ataque o motivo. (págs. 81-82)

Orgon, perturbado com a possibilidade da partida do devoto, insiste em que ele seja visto próximo de sua mulher e decide doar todos os seus bens a Tartufo.

PROF. MONIR: E também decide pedir a Tartufo que seja visto a maior parte do tempo com sua mulher, para deixar claro que não teme a denúncia de

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 63 que ele possa estar querendo Elmira. Ninguém é tão burro como o Orgon. O autor satírico fará sempre uma caricatura da personagem. As personagens reais nunca são assim tão simplificadas.

ORGON

Não, quero que ao nariz do mundo a frequenteis.

Dar lhe ódio é meu prazer, e convosco é que insisto

Pra serdes a toda hora, ao lado dela visto.

E não é tudo: para enchê los de furor,

Sereis vós meu herdeiro e único sucessor;

E, neste instante, vou, da melhor forma em tal,

Fazer vos de meus bens a doação integral.

É me um tão bem amigo, e genro, brevemente,

Mais caro que mulher, filho e qualquer parente.

Não hei de ver por vós minha proposta aceita?

TARTUFO

Do céu seja a vontade em tudo e sempre feita!

ORGON

Coitado! Vinde, apresso a escritura a respeito;

E possa perecer a inveja de despeito. (págs. 82-83)

 

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Quarto Ato

Cena I

Cleanto conversa com Tartufo e pede lhe que interceda junto a seu

cunhado pelo deserdado Damis, mas Tartufo não cede:

TARTUFO

Quisera-o, quanto a mim, ali, crede-o, com fervor,

E não lhe conservei nem sombra de rancor.

Não o acuso, e em perdoar lhe em tudo não vacilo,

De fundo coração é meu afã servi-lo:

Mas do céu o interesse a tal não pode anuir;

E, se tornasse aqui, teria eu que sair.

Após a ação sem par que vimos neste dia,

O comércio entre nós escândalo seria:

PROF. MONIR: Ou seja, não é mais possível haver o convívio de Tartufo com Damis, por causa daquele escândalo. Ele não quer interceder para que o pai chame o filho de volta.

TARTUFO

Sabe Deus como o mundo o julgaria, e a crítica

Imputar me ia em tal mero ato de política.

Diriam eu fingir, por me sentir culposo,

Por quem me acusa, dó, e zelo, caridoso,

Por mais que as leis, assim, da verdade infringisse,

A fim de que destarte ao silêncio o adstringisse. (pág. 86)

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 65 Quando Cleanto o acusa de “tolerar posse de bens, nos quais manda a equidade e o jus que não vos imiscuais”,

PROF. MONIR: “E o jus” – o direito. Tartufo tem a posse de bens – o patrimô-nio do Orgon – que tanto a justiça quando o direito dizem que ele não devia ter, que isso não é legítimo.

Tartufo diz que “sabem que (ele é), e assim não haverá quem queira ver naquilo a ambição de uma alma interesseira”. Cleanto insiste em chamá lo à responsabili-dade moral:

CLEANTO

Em muita sutileza o escrúpulo se enfeixa,

Mas poderá causar de um justo herdeiro a queixa;

Deixai, sem vos cansar com interferência vossa,

Que a seu perigo e risco auferir seus bens possa.

Será melhor, por mais que desses bens abuse,

Que, de estar a espoliá lo, o mundo vos acuse.

E o que me admira mais é que sem confusão

Pudeste admitir, vós, tal proposição.

A máxima, onde está, do zelo verdadeiro,

Que autorize o esbulhar se um legítimo herdeiro?

PROF. MONIR: Diz o Cleanto: “Como é que você pode ter feito isso, sendo um devoto como você é?”

CLEANTO

E se em vossa alma o céu na conjuntura quis

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Influir tal repugnância a viver com Damis,

Não conviria, então, daqui vos retirardes

Como um homem de bem, discreto, e sem alardes?

Sem deixar, numa ação que o jus e a praxe arrasa,

Que se enxote por vós quem o filho é da casa?

É levar demais longe o zelo, e a bom ouvinte

Digo senhor.... (págs. 87-88)

Tartufo desconversa.

PROF. MONIR: “Numa ação que o jus e a praxe arrasa”: tanto o direito quanto os costumes estão contrários a essa ação. O Cleanto é sempre o oráculo do bom senso. A Dorina é parecida com o Tartufo porque ela também é esper-ta. Só que a Dorina não é má como o Tartufo. Mas o Cleanto faz justamente o contrário do Tartufo. É o sujeito que não joga, que quer levar as coisas de uma maneira correta.

Cena II

Elmira, Mariana, Cleanto e Dorina esperam a chegada de Orgon para mais uma vez insistir junto ao chefe da família.

Cena III

Chega Orgon portando um contrato de casamento entre Tartufo e Mariana, que lhe suplica só por um instante desistir “dos direitos de pai” e a liberar daquele compromisso. A moça implora a Orgon:

 

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