Tartufo, O Pato Selvagem

José Monir Nasser · Capítulo 5 de 62

Páginas do PDF

Tartufo, O Pato Selvagem

Elmira

Minha mãe...

SENHORA PERNELLE

Minha nora, aqui não vos iludo,

O vosso proceder de todo é ruim e em tudo:

Devíeis vós lhes dar bons exemplos de vida,

Mas era bem melhor sua mãe falecida.

Sois perdulária, e me ira, o digo com franqueza,

O ver que andais vestida assim que nem princesa.

Quem tão só agradar a seu marido visa

De tanta arrumação e enfeite não precisa.

PROF. MONIR: A Sra. Pernelle está infeliz com todo o mundo da casa. O neto é um néscio, a neta é uma mosca morta, a nora é uma espécie de exibida e saliente – todo o mundo tem algum problema.

CLEANTO

Mas, senhora, afinal ...

SENHORA PERNELLE

Meu senhor, seu irmão,

Amo-vos e por vós tenho veneração;

Mas, se eu fosse meu filho, ainda que vos despreza,

Não vos deixava pôr os pés em minha casa.

Pregais da vida amiúde ímpios e maus conceitos

 

36 Professor José Monir Nasser

Que por gente de bem não podem ser aceitos.

Falo-vos bruto, mas, em tal meu gênio sigo,

E o que no coração me pesa, não mastigo. (págs. 4-5)

A única pessoa que ela elogia é Tartufo, um pobretão devoto recolhido pela família: “É um santo e homem de bem, forçoso é ouvir-lhe as falas”. Damis e a criada Dorina não gostam de Tartufo, como aliás ninguém mais na casa.

DAMIS

Como! Ei de tolerar que um beato provinciano

Venha fazer papel aqui de amo e tirano,

Sem que possamos algo ainda nos divertir,

Se aquele bel senhor em tal não consentir?

DORINA

Se o formos escutar e adotar lhe o regime,

Tudo o que se fizer, será tido por crime;

Anda a controlar tudo o raio do carola.

PROF. MONIR: A Dorina é a empregada doméstica, que é muito malcriada para ser empregada doméstica. Ela fará o que bem entende o tempo todo. A Dorina é um tipo realmente molieriano. Molière tem uns tipos assim, sem papas na língua.

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 37

(...)

DORINA

É escândalo, decerto, ao fato não se fuja,

Ver se que um socarrão5 daqueles cá se intruja;

Que um biltre que aqui veio sem sapatos, nem bens,

E de quem não valia o traje uns dez vinténs,

Desconheça em tal grau o que ele é como gente,

E qual patrão da casa os pés aqui assente.

(...)

O homem passa por santo em vossa fantasia:

Mas todo o seu farol é só hipocrisia. (págs. 6-7)

PROF. MONIR: Não é boa a tradução da Jenny Klabin Segall? Todo o mundo acha que Tartufo é um hipócrita e um sujeito sem vergonha, exceto a Sra. Pernelle e o Orgon.

A Senhora Pernelle acusa os que não gostam de Tartufo: “Quereis lhe mal e dele as lições repelis, só porque a todos vós verdades meras diz”. Cleanto, irmão de Elmira, a contesta: “Contra a maledicência é que não é baluarte: forçoso é pois deixar co-chichos tais de parte, viver honradamente da melhor maneira. E deixar que ande o mundo a falar como queira”.

 

5 Nota do resumidor: Socarrão é um velhaco.

38 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: Cleanto funciona como uma espécie de contraponto ao Tar-tufo e sempre terá uma opinião de bom senso, de critério, de onde vem o bom entendimento das coisas.

Dorina acusa a Senhora Pernelle de ter ciúmes da nora e de estar amargurada com a velhice: “Enquanto dos galãs auferia homenagens, desfrutava a valer todas suas vantagens”.

PROF. MONIR: Vocês não acham um pouco de má criação demais uma em-pregada falar assim com a mãe do patrão? É um pouco fora de propósito, convenhamos. Mas essa Dorina é mesmo linguaruda.

A Senhora Pernelle, ofendida com as palavras da criada, sai discursando para Elmira, sua nora:

SENHORA PERNELLE (à Elmira)

Deve vos agradar tanta bobagem oca,

Minha nora; é mister, aí, calar a boca,

Já que essa dama solta a fio o seu palreado;

Mas pretendo afinal discorrer por meu lado:

Meu filho provas deu de alta sabedoria,

Quando ele recolheu aqui essa alma pia,

E em boa hora vos foi pelo céu ele enviado,

Pra vos endireitar o espírito transviado.

Por vossa salvação, ao que diz, se subscreva:

Nada está a repreender que repreender não deva.

Danças, festas, reuniões, tudo isso sob o signo

Está das invenções do Espírito Maligno.

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 39

Nunca se podem lá ouvir palavras pias,

Canções são, boatos vãos, frívolas ninharias,

Ao próximo é que ali cabe o quinhão mais farto,

E é um rir se e um maldizer do terceiro e do quarto.

Gente sensata até sai com a cabeça tonta

Da confusão que em tais tropelias se aponta:

Lá surge a cada instante uma outra invencionice,

E, como ainda outro dia um doutor mui bem disse,

Aquilo é como a torre, a tal de Babilônia.

Babel de perdição da pior que se suponha,

E a se contar a história a que o levou o ponto...

(mostrando Cleanto)

Veja se este senhor, a chacotear já pronto!

Pois riam se os bocós, mestres da palhaçada,

Sem... Adeus, minha nora, eu não digo mais nada.

E aqui não me verão repor tão cedo os pés

(dando uma bofetada em Flipota6 )

Eh! No mundo da lua a vista torta esguelhas?

Com a breca! arreda! vai! ou te esfrego as orelhas.

Anda, sua lerda, vai. (págs. 10-11)

PROF. MONIR: Vocês têm uma impressão boa da Sra. Pernelle? Primeiro ela fala mal de todo o mundo da casa, depois ela defende o Tartufo, dizendo que é ele que está com a razão, porque está sendo perseguido por dizer a verdade, e para terminar vai embora dando um safanão, um sopapo na coitada da criada, que não tinha nada a ver com isso.

6 Nota do resumidor – Flipota é a criada da senhora Pernelle.

40 Professor José Monir Nasser ALUNA: Compara a sra. Pernelle às bruxas das histórias infantis de antigamen-te.

PROF. MONIR: Temos que tomar um pouco de cuidado com Molière porque ele faz algo muito perigoso, que é simplificar as pessoas. As pessoas reais são muito complexas e quase sempre você vai encontrar algo de bom numa pessoa má. Em Shakespeare existem pouquíssimas personagens que são completamente más. Iago, por exemplo, é completamente mau. Aarão, o namorado da rainha Tamora, em Titus Andronicus, é a pior de todas as perso-nagens shakespearianas, o mal encarnado. Mas de modo geral em Shakes-peare você encontrará personagens complexas, com pontos positivos e negativos. Porém alguns autores tendem a tornar as personagens muito es-tereotipadas. Simplificam tanto a personagem que ela se transforma numa coisa meio unilateral. Quando você lê um livro com muitas personagens assim você tem que tomar um pouco de cuidado porque, se não for uma sátira, trata-se na verdade de literatura panfletária. E aí você desconsidera.

Eu fui ver uma vez uma adaptação de Nelson Rodrigues para o teatro. Tinha um cenário em que de um lado moravam os ricos e do outro moravam os pobres. Os ricos eram calhordas, ladrões, delinquentes absolutos. Do outro lado os pobres eram maravilhosos, bons e lindíssimos. Isso não é literatura de gente adulta, isso é literatura panfletária.

Brecht é assim, mas ele não é um escritor de verdade, e sim um militante revolucionário. Ele criava tipos encapsulados para representar determina-dos aspectos. Não criava personagens verdadeiras, mas sim teorias políticas e econômicas que viravam personagens. Isso é má literatura, é mau sinal. Personagens muito estereotipadas sinalizam falta de talento literário, a não

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 41 ser que venham de um gênio habilidoso como Aldous Huxley. E quando se trata de uma sátira. Para explicar Aldous Huxley, deve-se dizer que ele é um pouco satírico. A sua literatura é marcada pela sátira, por isso suas persona-gens às vezes são simplificadas demais.

O grande escritor é aquele que faz a personagem ter muitos matizes – cada vez que você olha para a personagem, você percebe coisas diferentes. Como são as pessoas na vida real. Aqui estamos falando de um autor satírico, e sempre há uma simplificação para dar graça à sátira, que vive de estereó-tipos. As personagens da commedia dell’arte, como o palhaço, o mordomo safado, o conquistador, são todos estereótipos. São criaturas que têm até um modo de vestir próprio. Essas personagens da commedia dell’arte, como o arlequim e o polichinelo, caberão em qualquer época porque foram trans-formadas em modelos de comportamento humano. Isso é coisa da sátira. A obra de Molière é uma obra satírica, é preciso sempre levar isso em conside-ração para não ficar com raiva das personagens de alta resolução de Molière – porque quando o sujeito é burro, é burro demais, como esse Orgon.

Cena II

Cleanto não quer levar a senhora Pernelle até a porta, para não ter de ouvir mais sermões. Ele não entende como a velha mãe de Orgon é capaz de se deixar en-ganar àquele ponto. Dorina, contudo, acha o caso de Orgon, seu patrão e filho da Senhora Pernelle, muito mais grave:

DORINA

Oh, nada isso ainda é; é ver se o filho nisto!

 

42 Professor José Monir Nasser

Aí diríeis, sim, que é bem pior, pelo visto.

Nas questões do país teve atuação sagaz,

E, em bem servir o rei, mostrou bravura assaz.

PROF. MONIR: Dorina, a empregada, está dizendo que o patrão, o Orgon, é um sujeito de importância social, que serviu bem o rei (Luís XIV).

DORINA

Mas agora ele está como que embasbacado,

Após se ter com o tal Tartufo encasquetado.

Chama o de seu irmão, e cem vezes lhe quer

Mais do que à própria mãe, aos filhos e à mulher.

PROF. MONIR: A crítica literária moderna de “cultural studies” acha que entre o Orgon e o Tartufo há um caso homossexual. Não se assustem se lerem isso por aí, porque hoje em dia acha-se que essa é a agenda secreta que está por trás de tudo. Mas isto está absolutamente fora da cabeça de Molière, que não pensou nem um minuto numa coisa dessas. É apenas uma pressupo-sição moderninha, não é uma boa maneira de interpretar a obra. Achando isso não vamos a lugar nenhum.

DORINA

De seus segredos fá lo o único confidente,

E de suas ações o diretor prudente.

Abraça-o, mima-o: amante, até, pra com o benzinho,

Não pode demonstrar mais ternura e carinho.

No lugar de honra, à mesa o assenta, e com afinco

O serve e o vê comer com gosto que nem cinco.

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 43

Tudo o que há de melhor no prato do homem bota,

E diz: Deus vos ajude! a cada vez que arrota.

Tem-lhe loucura, enfim: seu todo é sua mira;

Tudo o que diz ecoa, e a todo instante o admira;

Quer que em tudo o que faz se veja algum milagre,

E de tudo o que diz, o oráculo se sagre.

Disso o homem se aproveita, e a par do que é o trouxa,

Tapeia o com a bioquice7 e a hipocrisia chocha;

Dinheiro anda a extorquir lhe, aliás, que não é droga,

E glosar todos nós é prazer que se arroga.

O paspalhão, até, que de criado lhe serve,

Vem nos pregar lições com língua e olhar que ferve,

E pouco se lhe dá em que a valer se intruje,

A nos jogar no lixo as pintas, pó e o rouge.

Há dias nos rasgou com as mãos o sacripanta

Um lenço que encontrou na História de uma Santa,

Por misturarmos, disse, o que é crime medonho,

Com odor de santidade alfaias do demônio. (págs. 12-13)

PROF. MONIR: Tartufo encontrou um lenço marcando uma página da Bíblia e disse que era um crime medonho misturar o “odor de santidade” do livro com “alfaias (enfeites) do demônio”, que é o lencinho bordado. Esse Tartufo é um tipo ridículo, insuportável, que o Orgon meio que diviniza. Diz a Dorina que o Orgon prefere o Tartufo à família; vocês verão que isso não está muito longe da verdade. Há uma outra tradução muito boa do Guilherme de Fi-gueiredo, feita em 1959, mas a linguagem poética desta tradução da Jenny Klabin Segall é uma delícia.

7 Nota do resumidor: Bioquice é falsidade.

44 Professor José Monir Nasser Cena III

Elmira e Cleanto preparam se para cumprimentar Orgon, que já havia chegado do campo.

Cena IV

Damis pede a Elmira e Cleanto que intercedam em favor do casamento de sua irmã Mariana com Valério, a que Tartufo parece opor-se. Damis deseja casar-se com a irmã de Valério e depende da realização do casamento de Marina para obter o seu.

PROF. MONIR: Chegam a mulher e o cunhado do Orgon. Damis e Mariana são filhos do primeiro casamento de Orgon, portanto são enteados da Elmi-ra. Mariana está meio que prometida para um rapaz de boa índole, o Valério, e o irmão dela quer se casar com a irmã do Valério. Mas para sair o casamen-to dele tem que sair primeiro o casamento da irmã, que é a ordem como coisas funcionavam. No entanto parece que Tartufo está fazendo a cabeça do Orgon para não cumprir esse plano que já estava combinado há tempos.

Cena V

Orgon quer saber de Dorina se as coisas haviam andado bem na sua ausên-cia. Dorina inventa doenças para madame Elmira (“Madame ardeu em febre an-teontem à tarde”), mas Orgon só quer saber da saúde de Tartufo, apesar de ele ter passado muito bem durante o período, comendo como um glutão. Dorina tranquiliza o patrão: “Tartufo! É da saúde espelho, nutrido e gordo, tez em flor, beiço vermelho.” No entanto, toda a vez que Dorina relata os “graves problemas” de saú-

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 45 de da patroa e as extravagâncias culinárias do devoto, Orgon comenta: “Coitado do homem”.

Cena VI

Quando Dorina sai, Cleanto tenta abrir os olhos do cunhado: “Pode hoje um ho-mem ter encanto tão funesto, que estejais a esquecer, por ele, todo o resto?” Mas Or-gon não admite reparos a Tartufo: “Alto lá, meu cunhado, estais falando aqui de quem não conheceis”. Orgon defende o devoto:

PROF. MONIR: A palavra “devoto” aparece o tempo todo porque Molière está se referindo àquele grupo de católicos radicais que o perseguem. É claro que é contra os devotos e não contra o catolicismo a história aqui. Com toda a certeza.

ORGON

Ah, ser vos á encanto conhecê lo, até,

Meu mano, e não terá vosso deleite fim.

É um homem... que homem, ah!... é homem que... homem, sim.

PROF. MONIR: É por causa desse tipo de comentário que os críticos moder-nosos ficam achando que eles têm um caso, que essa peça é uma peça gay. Tem que ter uma paciência gigantesca para aturar crítico moderno de arte.

ORGON

Quem lhe segue as lições, da paz respira o cume;

Do mundo o resto fica a olhar que nem estrume;

Torno me outro a lhe ouvir a eloquência abençoada,

46 Professor José Monir Nasser

Que me ensina a não ter afeto por mais nada;

Em amizade alguma a alma já se me pousa,

E veria morrer mãe, filho, irmão e esposa,

Sem mais ligar a tal que à unha de uma mão. (pág. 18)

PROF. MONIR: Está aí o Orgon dizendo que considerando as coisas que ele ouve do Tartufo, o resto todo vale menos do que uma unha. Que podia mor-rer todo o mundo, que eles não valiam nada comparados aos tão grandes ensinamentos do Tartufo. O Orgon é tão burro que dá raiva dele ao longo da peça. Mas isso é o que Molière quer; ele quer estereotipar as personagens para que lidemos com elas da maneira mais emocional possível. É a regra da sátira. É a simplificação que o cinema aprendeu a fazer. Quando você tem no cinema uma personagem complexa? Nunca. Um ou outro filme de algum gênio, como Kubrick. De modo geral, o cinema de Hollywood faz o quê? O mocinho é sempre bacana, um sujeito simpático, de boa aparência, enquanto o bandido é sempre um sujeito horroroso, que palita os dentes no restaurante, faz umas coisas mal educadas... Não é assim? Essa fórmula da sátira é a fórmula que passou depois para o cinema, que tem que contar a história com pressa, em duas horas, e para isso faz uma simplificação tre-menda das personagens. Na tragédia, as personagens são complexíssimas. Por exemplo, eu tenho que chegar à conclusão de que Creonte, que é o tio da Antígona, apesar de condená-la à morte tinha alguma razão, como diz Albert Camus.

A personagem do teatro trágico é por natureza complexa, tanto que nin-guém ali, por mais que tenha feito uma coisa errada e ruim, é visto como sendo uma pessoa monstruosa. No teatro grego dificilmente há persona-gens monstruosas, porque mesmo alguém que faz uma coisa muita grave,

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 47 mata outro, por exemplo, o faz de uma maneira parcialmente defensável. Porque há uma complexidade na situação que está sempre presente. Na sátira não. A sátira é uma caricatura. O pintor Luiz Carlos de Andrade Lima costumava dizer que, para um retrato dar certo, é preciso esboçá-lo como uma caricatura. Essa tentativa de caricatura é suficiente para caracterizar a pessoa que vai ser retratada. A sátira é uma caricatura em que você pega um sujeito com nariz maior do que a média e transforma a cabeça daquela per-sonagem em um nariz. Na sátira literária, assim como na caricatura, há um exagero. As personagens parecem muito mais simples do que de fato são.

Orgon começa a listar os vários atos pios que Tartufo havia feito, como recusar se a receber dinheiro de Orgon. Cleanto mostra lhe tratar se tudo de “bobagem”, Orgon o acusa de “libertino”, “livre pensador” e de estar associado aos “inimigos da piedade”.

PROF. MONIR: A expressão “livre pensador” é muito negativa nessa época. Significa ser ateu.

Cleanto se defende dizendo que, para Orgon, “quem adoração nega a vãs pa-lhaçadas não é crente e profana instituições sagradas.” Orgon ironiza o cunhado: “Sois um grande doutor, ao qual rendo homenagem.” Cleanto insiste em que os verdadeiros devotos “não tomam a si o arrogante mister de defender o céu mais que ele mesmo quer”.

PROF. MONIR: Olhem que maravilha de frase: “Os verdadeiros devotos são aqueles que não trazem para si a missão de defender o céu mais do que o pró-prio céu quer.” Os verdadeiros devotos são pessoas que não querem impor sua vontade aos outros.

48 Professor José Monir Nasser Depois de descrever o verdadeiro devoto, o cunhado conclui:

CLEANTO

Para mim o que vale é gente dessa sorte,

Esse é o modelo ao qual se deve dar suporte,

Mas vosso homem não veio usando exemplos tais.

Sei que é de boa fé que o zelo lhe gabais.

Mas é um falso fulgor que vos deslumbra assim. (pág. 23)

Antes de sair, Cleanto relembra Orgon de sua promessa de entregar a mão de Mariana a Valério. Orgon, no entanto, responde com evasivas, dizendo que iria fazer “o que quiser o céu”. Cleanto sai para avisar Valério de que seu casamento corre perigo.

PROF. MONIR: Parece que o casamento não vai sair. Parece que Orgon, in-fluenciado por Tartufo, decidiu outro destino para a sua filha Mariana, em-bora Valério não tenha feito nada para desmerecer o acordo.

O Tartufo é considerada a melhor peça de Molière sob o ponto de vista es-trutural. O Doente Imaginário, por exemplo, é uma peça com defeitos. Nota-se a perda de densidade dramática vez ou outra. Já esta aqui funciona como um thriller, mantém um grau alto de emoção.

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 49 Segundo Ato

Cena I

Orgon acha sua filha sozinha e pergunta lhe se ela o obedeceria em todas as circunstâncias. Ela diz que sim, com ênfase: “É no que vejo, aliás, minha glória mas viva.”

PROF. MONIR: Mas que coisa mais perigosa, concordar com uma coisa des-sas.

Cena II

Orgon então manda a filha dizer que acha Tartufo um homem de grande mérito e que gostaria de casar com ele.

PROF. MONIR: E agora? Orgon agora resolveu casar a filha com o monstro do Tartufo. Há também uma diferença enorme de idade entre os dois; tudo indica que Tartufo tem trinta anos a mais do que Mariana.

Mariana responde que se fizesse isto estaria dizendo “uma impostura”, mas Or-gon quer que, por meio daquela união, Tartufo entre para a família. Dorina in-terrompe a conversa, dizendo ter ouvido uma piada. Diz a Mariana: “Chi! Não acrediteis no senhor vosso pai; está brincando.” Como Orgon insiste na tese, Dorina lembra o patrão de que Tartufo não tem fazenda, tampouco “alianças sociais”.

PROF. MONIR: Entendam “fazenda” aqui por patrimônio.

 

50 Professor José Monir Nasser A criada repara que Tartufo gaba se de sua pobreza mas, ao mesmo tempo, vive declarando sua origem8, o que lhe parece contraditório. Termina sua argumen-tação sugerindo que uma mulher obrigada a casar naquelas circunstâncias seria infiel ao marido:

DORINA

É raro uma mulher ter da virtude o zelo,

Se o esposo que lhe impõem for de um certo modelo,

E quem à sua filha homem que odeia traz,

É quem responde ao céu por erros que ela faz.

Pensai a que perigo a arrasta vosso intuito. (pág. 34)

Orgon tudo faz para não prestar atenção em Dorina, mas acaba mandando a calar e continua a conversa com sua filha, mas Dorina não desiste. Orgon, furio-so, faz menção de esbofetear a criada. Dorina foge desviando do golpe. Orgon, enfurecido, sai para dar uma volta e acalmar-se.

PROF. MONIR: A Dorina não dá uma folga para o Orgon. Ela tem razão, mas é meio malcriada, convenhamos.

Cena III

Sozinhas, Dorina insiste em que Mariana não aceite casar com Tartufo. A moça, no entanto, não quer afrontar o pai. Mariana ralha com ela: “Propõem-vos em união de causar arrepio, e, para a repelir, não soltais nem um pio?” Mariana argu-menta: “Contra um pai absoluto, o que queres que eu faça?” Dorina pressiona Ma-riana para revelar se gosta mesmo de Valério. Ela confirma (“É extrema a minha 8 Tartufo declara se descendente de uma família nobre arruinada.

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 51 chama”) e diz que recorrerá ao suicídio, se for forçada a casar com Tartufo. Dorina ironiza a solução de Mariana:

DORINA

Mui bem: não me ocorreu recorrer se a tal passo.

Tendes só que morrer pra sair do embaraço.

Sem dúvida o remédio é de arromba. Arre, estrilo

Quando me dão a ouvir sandices desse estilo. (pág. 42)

PROF. MONIR: Cá entre nós, não é divertida, esta Dorina? É ótima, uma per-sonagem divertidíssima. E é engraçado, ela não tem o prestígio que tem o Tartufo. Devia ser quase a personagem principal da obra. Deveria ser levada em consideração pela crítica literária com o mérito que ela tem.

Mariana declara que era Valério quem deveria impedir o casamento, mas Dorina não a deixa transferir a culpa para o namorado e lembra Mariana que Orgon é um “raio de carrasco que tem o seu Tartufo e nada mais no casco...” Como Mariana insiste em que não pode desobedecer o pai, Dorina ridiculariza o casamento com Tartufo: “Hás de viver demais feliz com tal marido”... “E como haveis de sentir na alma o gozo de serdes mulher de tão distinto esposo.” Horrorizada com a perspec-tiva, Mariana declara se rendida e pede ajuda para evitar o casamento. Neste momento, chega Valério.

PROF. MONIR: Dorina armará um truque para ver se consegue fazer o Orgon desistir da ideia de casar sua filha com o tal do Tartufo. No entanto nesta altura já correu a notícia de que Mariana vai casar com o Tartufo, e chegou agora o namorado, que acabou de ouvir a notícia por aí. Não chega muito feliz, como vocês podem imaginar.

52 Professor José Monir Nasser Cena IV

Valério diz se surpreso com a notícia do casamento de Mariana com Tartufo. A moça explica que “não sabia” o que fazer. Valério, com ironia, a aconselha a a “acolher o esposo”.

PROF. MONIR: Dizendo algo do tipo: “Ah, é? Então case! Não sabe o que fazer? Então case com ele!”

O casal faz jogo de braço, ele fingindo que quer que ela aceite, ela fingindo que pensa que ele quer que ela aceite. Dorina comenta: “Vamos ver até onde os leva essa disputa”. Valério, despeitado, faz menção de sair, mas de fato não quer partir.

PROF. MONIR: É uma briga de mentira, só para fingir que estão brigando.

O teatro continua. Dorina interfere: “Quero vos pôr de bem e vos tirar do embrulho”. Os namorados se reconciliam. Dorina propõe um plano.

DORINA

Usaremos de tudo em múltiplas feições.

Vosso pai anda tonto, e aquilo são canções.

Mas é melhor opor lhe à loucura a aparência

Da submissão filial e de doce aquiescência,

Já que em caso de alarma, aqui far se á mister

Protelar se o himeneu9 o mais que se puder.

Quando se ganha tempo, há remédio pra tudo.

Acometer vos á, um dia, um mal agudo,

9 Nota do resumidor: O himeneu é o casamento.

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 53

A exigir longo trato: outra vez, num degrau

Tropeçareis; tereis tido um presságio mau:

Talvez feito de um morto o encontro numa curva,

Derramado algum sal, sonhado com água turva.

O bom de tudo aí é que a outros que ele enfim

Não vos possam ligar sem que digais o sim.

Mas, para um bom final, é imperativo nisto

Que a conversar convosco ele não seja visto.

(a Valério)

Vossos amigos vede e os ponde a agir à pressa

Pra que venham cobrar de seu pai a promessa.

Vamos também instar esforços de seu mano,

E pedir que a madrasta apóie o nosso plano.

Adeus. (págs. 58-59)

PROF. MONIR: O projeto é assim: vai ter um plano, mas enquanto isso se adia o casamento com desculpas. Então ela diz que sonhou que derrubou sal no pé. Poucas coisas são tão graves quanto derrubar sal no pé, sinal de que o casamento vai dar errado. E com isso ela vai adiando o casamento, e cansando o Tartufo e o pai.

Terceiro Ato

Cena I

Damis, irmão de Mariana, está furioso com a presença de Tartufo na casa: “Não, tenho de impedir desse infame as conjuras, e lhe dizer na cara umas verdades duras.” Dorina aconselha o a deixar “nesta questão agir vossa madrasta”, com quem Tartu-

54 Professor José Monir Nasser fo iria ter em seguida uma conversa, parte de um plano que Damis não conhece. Dorina acha que o santarrão estaria apaixonado por Elmira e montou uma arma-dilha. Para ouvir a conversa, Damis se esconde num gabinete no fundo da sala.

PROF. MONIR: Pela primeira vez, vocês vão ouvir agora o Tartufo. O Tartufo ainda não tinha aparecido em cena.

Cena II

Assim que avista Dorina, Tartufo, para parecer beato, diz em voz alta ao seu cria-do Aurélio:

TARTUFO

Recolhe me o cilício, Aurélio, e as disciplinas,

E invoca a luz do céu, com que tua alma iluminas.

Se vier alguém, é a hora em que vou entre os pobres

De um óbolo espalhar os meus escassos cobres. (pág. 63)

PROF. MONIR: Ele só diz isso porque a empregada está ouvindo. Então ele está se fazendo aqui de santarrão.

ALUNA: [Pergunta o que é cilício.]

PROF. MONIR: É uma espécie de cinto cheio de pregos que as pessoas anti-gamente amarravam na cintura para passarem o dia inteiro sofrendo, para purgar os seus pecados. Os padres, as freiras, quando sentem tentações de todos os tipos correm lá e põem o cilício para que a dor provocada seja

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 55 maior do que a perspectiva da tentação. A ideia é usar na hora que a tenta-ção aparece, como uma maneira de mortificar o corpo. É uma coisa muito fora de moda, me parece.

Dorina comenta à parte: “Que afetação? é ver se esta fanfarronada”. Ao se apro-ximar da criada, Tartufo pede lhe que cubra o colo: “Causam prejuízo à mente objetos tais, e em nós influem noções culpadas e fatais”.

PROF. MONIR: Colo é a parte superior do peito, cuja visão, através do decote, é completamente insuportável como tentação, diz Tartufo, o sem-vergonha. Alguém aqui tem simpatia por este canalha?

ALUNOS: [Dizem que não, entre risos.]

Cena III

Chega Elmira. Tartufo a recebe com cumprimentos exagerados.

TARTUFO

Do céu a benquerença e a imensa mansuetude

Para sempre vos dê ao corpo e à alma saúde

E o dia vos resguarde: é a bênção a que aspira

O humilde servidor que em seu amor se inspira. (pág. 65)

PROF. MONIR: Isso dito do jeito certo é capaz de conquistar qualquer mu-lher! Às vezes a gente lê teatro, não vai ao teatro. O Eugène Ionesco nunca ia ao teatro, achava chato. Preferia ler a peça do que ir ao teatro. Diz Mortimer Adler que o jeito para ler teatro é sempre ficar imaginando como você orien-

56 Professor José Monir Nasser taria um ator para ler aquele trecho que você está lendo. É você ler teatro colocando-se na posição do diretor da peça e fazendo a orientação da ento-nação certa. Então este trecho o diretor mandaria o ator ler com exagerada ênfase, beirando o ridículo. A palavra certa é afetação.

Elmira diz tê lo chamado para tratar de um assunto em que a alma “se exprima”. Tartufo pega a mão de Elmira e a aperta. Ela reage: “Aí é apertar demais”. Tartufo põe a mão sobre os joelhos de Elmira. Ela recua na poltrona, mas ele se aproxima dela e acaricia o seu xale. Começa uma conversa altamente comprometedora.

ELMIRA

É fato. Mas convém, ora, irmos ao assunto.

Desfaz, pois, meu marido o antigo compromisso

E vos dá sua filha. É verdadeiro isso?

TARTUFO

Ele mo mencionou, mas devo, neste ensejo

Vos confessar ser outro o alvo feliz que almejo,

E alhures vejo, rapto, o encantador engodo

Da ventura a que aspira o meu ardor de todo.

(...)

Brilham seus lindos dons em vossas semelhantes,

Mas em vós derramou seduções mais possantes.

Gravou vos no semblante uma atração sem par

Que o coração transporta e que surpreende o olhar.

E não vos pude ver, astro, anjo de beleza,

Sem admirar em vós o autor da natureza,

E sem que de um fervente amor me ardesse o peito,

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA Tartufo 57

Vendo estampado em vós seu quadro mais perfeito.

De início apreendi que o ardor de que era a presa,

Do Espírito do Mal fosse uma hábil surpresa,

E até vos quis fugir meu pobre coração,

Vendo em vós um entrave à minha salvação.

Mas compreendi enfim, ó celeste beldade,

Não ter que ser rebelde ao fogo que me invade,

Que é fácil ajustá-lo à pureza e ao pudor,

E assim me entrego inteiro e grato ao seu fervor.

Sem dúvida, confesso, é audácia tremenda,

Ousar eu vos fazer de meu voto a oferenda;

Mas tudo espero em tal de vossa caridade,

Nada do esforço vão de minha enfermidade.

Vejo em vós minha luz, meu bem, minha quietude,

De vós fluem meu penar e minha beatitude;

E enfim será conforme a vossa diretriz,

Feliz, se vos prouver, se vos praz, infeliz. (págs. 68-70)

PROF. MONIR: Vejam que coisa. Ele fez uma declaração de amor à Elmira.

ALUNA: [Pergunta sobre a situação social do Tartufo.]

PROF. MONIR: Ele não era mendigo, era um sujeito quebrado. Um sujeito que tem cultura religiosa. Não é uma pessoa analfabeta, ignorante. É um pobretão, alguém sem eira nem beira.

Ela ameaça relatar aquela confissão ao marido, mas ele pede que ela trate com “benignidade” sua “temeridade”.

58 Professor José Monir Nasser