Tartufo, O Pato Selvagem

José Monir Nasser · Capítulo 34 de 62

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Tartufo, O Pato Selvagem

Hjalmar

Todo alicerce moral de um homem pode esboroar se sob os seus pés... Eis o

que é horrível!

RELLING

Com franqueza, como, propriamente falando, eu nunca fui casado, me é

impossível dar opinião a respeito. Mas o que eu sei é que a união conjugal

compreende também a criança. E, quanto à criança, vocês a devem deixar

em paz.

HJALMAR

Hedvig, minha pobre Hedvig!

RELLING

Sim, vocês terão a bondade de não meter Hedvig nessa mixórdia. Vocês dois

estão maduros: vocês podem esquadrinhar e chafurdar nos negócios de

vocês, se é que isso lhes agrada. Quanto à Hedvig, porém, é preciso tomar

cuidado. Do contrário, vocês podem atrair uma desgraça sobre a cabeça

dela. (pág. 216)

PROF. MONIR: Palavras proféticas. Vocês acham sinceramente que Ibsen ia se dar ao trabalho de escrever esse livro para apoiar a descoberta da verda-de, fazendo um libelo contra a hipocrisia do mundo? Vocês imaginam que Ibsen fosse primário a esse ponto? Essa é uma interpretação panfletária de Ibsen, de que ele estaria chicoteando os defeitos do mundo com um teatro pedagógico, um teatro para colocar as coisas em seus devidos lugares. Acho que aqui tem mais do que conseguimos imaginar à primeira vista.

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 187 A conversa desloca-se para Hedvig. Hjalmar quer saber se os olhos dela estavam em perigo. O médico esclarece: “Não se trata dos olhos dela. Mas Hedvig atingiu uma idade crítica. Ela é suscetível de todas as más inspirações”. Chega a senhora Berta Soerby para se despedir de Gina. Ela seguiria no dia seguinte para Heydal. O senhor Werle já havia partido. Na prática, ela anuncia o casamento dos dois, deixando claro que não era por amor (“Aliás eu sempre tomei cuidado de não obe-decer a meus impulsos. Porque, afinal, uma mulher não deve sacrificar inteiramente.”)

PROF. MONIR: Está aí o exemplo contrário do que Gregers acha que é um ca-samento feliz. É uma mulher e um homem, ambos viúvos, que se casam por conveniência social. Os dois fazem companhia um para o outro, vão casar e morar em Heydal, nas usinas. Ela vem para anunciar isso e dizer que ela não o faz por grande amor, não. Que é preciso ser prático na vida.

Quando Gregers comenta a franqueza dela, ela devolve: “Sempre fui franca. Ainda é isso o que nos dá melhores resultados, a nós mulheres”.

SENHORA SOERBY

Quanto a isso, Gina, o que há de mais seguro é fazer como eu fiz. Hoje tenho

certeza disso. Werle também nada me escondeu do que lhe diz respeito. Foi

mesmo isso o que nos ligou mais solidamente um ao outro. Agora, ele pode

passar o tempo sentado junto de mim, conversando sobre tudo, com uma

franqueza de criança. Isso foi uma coisa que sempre lhe faltou. Um homem

cheio de força e saúde como ele, condenado a passar a mocidade e os

melhores anos da vida a ouvir recriminações e, muitas vezes, pelo que estive

sabendo, recriminações que se referiam a faltas imaginárias.

 

188 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: Que é talvez o exagero que Gregers está pondo nas suas re-clamações contra o pai.

GINA

É bem verdade o que ela está dizendo.

GREGERS

Se essas senhoras querem abordar esse assunto, é melhor que eu me vá.

SENHORA SOERBY

Oh! não! Pode ficar. Nada mais direi. Mas fiz questão que soubesse que nunca

fiz uso de mentiras, nem de subterfúgios. Julgam, talvez, que estou tendo uma

sorte grande... e até certo ponto é verdade. Entretanto, parece me que não

recebo mais do que dou. Nunca o abandonarei, é certo. E lhe posso ser mais

útil, mais necessária, do que quem quer que seja, quando ele não puder mais

agir por si, o que acontecerá breve.

HJALMAR

Não poderá mais agir por si?

GREGERS (à Sra. Soerby)

Está bem, está bem. Não fale nisso, Senhora Soerby. – Não é possível esconder

por mais tempo, embora ele o deseje: Werle está em vésperas de perder a vista.

HJALMAR (estremecendo)

Em vésperas de perder a vista? É singular... Cego, ele também? (págs. 218-219)

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 189 PROF. MONIR: Agora descobrimos que o Werle está em vésperas de perder a vista e a menina tem um problema de visão hereditário. Isso não ficou muito pior? Este Ibsen é diabólico.

Antes de sair, a Senhora Soerby põe o senhor Graberg à disposição dos Ekdals. Hjalmar diz que vai procurar o tesoureiro sim, mas para saber o quanto estava devendo. “Em resumo: quero pagar tudo, com cinco por cento de juros”. Quando a mulher sai, Hjalmar orgulha se de si mesmo e é apoiado por Gregers: “És o ho-mem que eu sempre julguei”.

PROF. MONIR: “Meu garoooooto!”

ALUNOS: [risos]

PROF. MONIR: Não sei se vocês estão percebendo isso, mas a relação que se estabeleceu agora entre Gregers e Hjalmar é tipicamente diabólica. Gregers faz-se de conselheiro diabólico, ou seja, produz conselhos disfarçados de conselhos bons, sob uma casca moral boa, enquanto Hjalmar vai destruin-do totalmente a sua vida por trás disto. É como se o diabo estivesse dando conselhos e o outro estivesse atendendo, porque os conselhos são bem em-balados, nas embalagens certas.

HJALMAR

Existem casos em que a gente não pode fugir às exigências do ideal.

PROF. MONIR: Olhem aí a versão kantiana de novo.

 

190 Professor José Monir Nasser