Tartufo, O Pato Selvagem
Gregers
Então ele não é demoníaco?
RELLING
Que diabo quer você que signifique isso: “um demoníaco”? É uma pilhéria que
eu inventei para manter lhe a vida. Do contrário, há muitos anos que o meu
infeliz amigo estaria entregue ao desespero e se desprezaria a si mesmo. E o
velho tenente, então? Ah! esse achou o tratamento, por si mesmo.
GREGERS
O tenente Ekdal? Como assim?
RELLING
Sim. Que me diz você desse matador de ursos que vai caçar coelhos num
sótão? Não há caçador mais feliz do que esse pobre diabo, quando tropeça na
mixórdia que há aqui. Árvores de natal secas, que ele guarda cuidadosamente,
representando, exatamente, para ele, a grande floresta de Heydal em todo o
seu fresco esplendor! Os galos e as galinhas são as grandes aves pousadas no
cimo dos pinheiros. Os coelhos que atravessam o salão saltando, são os ursos
contra os quais ele se atira, ele, o ancião desempenado, o homem do ar livre...
GREGERS
Pobre velho! Teve de desbastar o que servia de ideal para a sua mocidade.
RELLING
Ouça, senhor Werle filho, por favor não empregue esse termo elevado de ideal,
quando para isso temos na linguagem usual excelente expressão: mentira.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 211