Tartufo, O Pato Selvagem

José Monir Nasser · Capítulo 20 de 62

Páginas do PDF

Tartufo, O Pato Selvagem

Hjalmar

Sim. Até agora só aparecem os primeiros sintomas. Isso pode durar algum

tempo ainda. Mas fomos avisados pelo médico que é irremediável.

GREGERS

Que desgraça horrível! De onde lhe vem isso?

HJALMAR (com um suspiro)

Provavelmente é hereditário.

GREGERS (impressionado)

Hereditário?

GINA

A mãe de Ekdal tinha a vista fraca.

HJALMAR

É o que meu pai afirma. Quanto a mim, não me lembro nada dela.

GREGERS

Pobre criança! E como suporta ela isso?

HJALMAR

Como deves compreender, não temos coragem de lhe dizer tal coisa. Ela não

suspeita o perigo. Entrará na noite eterna alegre e despreocupada, gorjeando,

esvoaçando como um passarinho. (Em tom acabrunhado). Oh! Meu amigo,

que tortura para mim! (págs. 187-188)

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 145 PROF. MONIR: Hedvig tem essa perspectiva triste de ficar cega através de uma doença degenerativa para a qual não há remédio. Ela não sabe disso.

Hedvig iria fazer catorze anos em dois dias.

GREGERS

Ela é bastante alta para a idade que tem.

GINA

Sim, ela cresceu muito o ano passado.

GREGERS

É ao ver as crianças crescerem assim que a gente percebe que envelhece. Há

quanto tempo estão casados?

GINA

Estamos casados há... sim, há quase quinze anos.

GREGERS

Realmente, faz tanto tempo assim?

GINA (olhando o com mais atenção)

Certamente que sim.

HJALMAR

Com certeza, quinze anos, mês mais, mês menos. (pág. 188)

 

146 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: Se a menina ia fazer quatorze anos em dois dias, ela teria nas-cido um pouco depois do casamento do Hjalmar e da Gina.

O velho Ekdal entra com o velho quepe de militar e encontra o filho do velho Werle, seu ex-sócio. Começam a trocar reminiscências sobre as caçadas de anta-nho. O velho tenente declara ter matado nove ursos. Continuam as lembranças e Gregers quer saber como o velho suporta a vida fora da floresta. O velho Ekdal quer lhe mostrar alguma coisa:

GREGERS

Mas... E todas as condições a que o senhor estava acostumado lá em cima? O

ar fresco e vivificante, a vida livre das florestas e dos grandes planaltos, a caça

de pena e de pelo?

EKDAL (sorrindo)

Que dizes, Hjalmar, queres que lhe mostremos?...

HJALMAR (com vivacidade e um pouco embaraçado)

Não, não, pai. Hoje não.

GREGERS

Que é que ele quer me mostrar?

HJALMAR

Ora, nada. Verás isso outra vez. (págs. 189-190)

Hjalmar convida Ekdal para voltar com ele à usina. O velho insiste com o filho: “Hjalmar, temos que lhe mostrar”.

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 147 PROF. MONIR: Há um mistério nesta história, que está prestes a ser desven-dado, relacionado àquela história de estarem todos dormindo juntos e ago-ra a insistência do velho Ekdal em mostrar à visita alguma coisa na casa.

Finalmente decidido, o grupo, menos Gina, desloca se para o sótão, onde o luar atravessa as claraboias. No sótão há galinhas, pombos e coelhos. Num canto, um “cesto cheio de pasto”, dentro do qual Gregers pensa ter reconhecido um “pássa-ro”.

EKDAL

Hum!... “Um pássaro!”

GREGERS

É um pato, não é?

EKDAL (um tanto ofendido)

Evidentemente, é um pato.

HJALMAR

Mas que qualidade de pato pensas tu que é?

HEDVIG

Não é um pato comum.

EKDAL

Cala a boca!

 

148 Professor José Monir Nasser