Tartufo, O Pato Selvagem
Hjalmar
Sim. Até agora só aparecem os primeiros sintomas. Isso pode durar algum
tempo ainda. Mas fomos avisados pelo médico que é irremediável.
GREGERS
Que desgraça horrível! De onde lhe vem isso?
HJALMAR (com um suspiro)
Provavelmente é hereditário.
GREGERS (impressionado)
Hereditário?
GINA
A mãe de Ekdal tinha a vista fraca.
HJALMAR
É o que meu pai afirma. Quanto a mim, não me lembro nada dela.
GREGERS
Pobre criança! E como suporta ela isso?
HJALMAR
Como deves compreender, não temos coragem de lhe dizer tal coisa. Ela não
suspeita o perigo. Entrará na noite eterna alegre e despreocupada, gorjeando,
esvoaçando como um passarinho. (Em tom acabrunhado). Oh! Meu amigo,
que tortura para mim! (págs. 187-188)
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 145 PROF. MONIR: Hedvig tem essa perspectiva triste de ficar cega através de uma doença degenerativa para a qual não há remédio. Ela não sabe disso.
Hedvig iria fazer catorze anos em dois dias.
GREGERS
Ela é bastante alta para a idade que tem.
GINA
Sim, ela cresceu muito o ano passado.
GREGERS
É ao ver as crianças crescerem assim que a gente percebe que envelhece. Há
quanto tempo estão casados?
GINA
Estamos casados há... sim, há quase quinze anos.
GREGERS
Realmente, faz tanto tempo assim?
GINA (olhando o com mais atenção)
Certamente que sim.
HJALMAR
Com certeza, quinze anos, mês mais, mês menos. (pág. 188)
146 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: Se a menina ia fazer quatorze anos em dois dias, ela teria nas-cido um pouco depois do casamento do Hjalmar e da Gina.
O velho Ekdal entra com o velho quepe de militar e encontra o filho do velho Werle, seu ex-sócio. Começam a trocar reminiscências sobre as caçadas de anta-nho. O velho tenente declara ter matado nove ursos. Continuam as lembranças e Gregers quer saber como o velho suporta a vida fora da floresta. O velho Ekdal quer lhe mostrar alguma coisa:
GREGERS
Mas... E todas as condições a que o senhor estava acostumado lá em cima? O
ar fresco e vivificante, a vida livre das florestas e dos grandes planaltos, a caça
de pena e de pelo?
EKDAL (sorrindo)
Que dizes, Hjalmar, queres que lhe mostremos?...
HJALMAR (com vivacidade e um pouco embaraçado)
Não, não, pai. Hoje não.
GREGERS
Que é que ele quer me mostrar?
HJALMAR
Ora, nada. Verás isso outra vez. (págs. 189-190)
Hjalmar convida Ekdal para voltar com ele à usina. O velho insiste com o filho: “Hjalmar, temos que lhe mostrar”.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 147 PROF. MONIR: Há um mistério nesta história, que está prestes a ser desven-dado, relacionado àquela história de estarem todos dormindo juntos e ago-ra a insistência do velho Ekdal em mostrar à visita alguma coisa na casa.
Finalmente decidido, o grupo, menos Gina, desloca se para o sótão, onde o luar atravessa as claraboias. No sótão há galinhas, pombos e coelhos. Num canto, um “cesto cheio de pasto”, dentro do qual Gregers pensa ter reconhecido um “pássa-ro”.
EKDAL
Hum!... “Um pássaro!”
GREGERS
É um pato, não é?
EKDAL (um tanto ofendido)
Evidentemente, é um pato.
HJALMAR
Mas que qualidade de pato pensas tu que é?
HEDVIG
Não é um pato comum.
EKDAL
Cala a boca!
148 Professor José Monir Nasser