Tartufo, O Pato Selvagem

José Monir Nasser · Capítulo 27 de 62

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Tartufo, O Pato Selvagem

Relling

Infelizmente não. Não está mais louco do que a maioria dos mortais. Mas o

que é certo, é que ele tem uma doença no corpo.

GINA

Mas afinal, que é que lhe falta?

RELLING

Eu lhe digo, Sra. Ekdal: ele está atacado de febre de justiça aguda.

PROF. MONIR: Taí a doença de Gregers. Ele tem febre de justiça aguda, tem que fazer justiça a qualquer custo. Largou toda a história de sua vida, empre-go, sociedade com o pai, a própria herança, com o objetivo de fazer justiça naquela situação. Há alguma coisa boa sobre Gregers? É um sujeito corajo-so.

GINA

Uma febre de justiça aguda?

HEDVIG

Isso é doença?

RELLING

Sim, uma doença nacional, mas que só aparece em estado esporádico. (Com

um gesto de cabeça para Gina.) Até a vista. (Sai pela porta do saguão.)

GINA (inquieta, a rogar pelo quarto)

Ah! Esse Gregers Werle!... Foi sempre uma ave agourenta...

170 Professor José Monir Nasser

HEDVIG (olhando a atentamente, de pé, junto à mesa)

E tudo isso me parece tão estranho... (pág. 210)

PROF. MONIR: Essa é a opinião da Hedvig, que acha aquela conversa estra-nhíssima... O que será que está acontecendo que ela de fato não entende?

ALUNO: [Faz pergunta sobre a “doença nacional”.]

PROF. MONIR: É uma crítica que Ibsen faz à Noruega do seu tempo. Isso pode não ter significado maior. Os curitibanos, por exemplo, são muito cruéis uns com os outros, mas toda a vez que alguém fala mal de Curitiba, ficamos ofendidos e furiosos e a defendemos. Os nacionais entre si têm o direito de se criticarem, às vezes de modo excessivo; mas com os estrangeiros, você se comporta de outro modo. Aqui há uma crítica à Noruega do tempo dele, porque Ibsen passou a vida meio que brigado com Noruega. Ela era um lu-gar difícil de se amar, porque era um país que não era um país; primeiro era Dinamarca, e depois Suécia. Por isso Ibsen no início da carreira usa temas folclóricos para ajudar a construir a nacionalidade, como com Peer Gynt. Ib-sen tem uma mágoa do seu próprio país, mas esta mágoa passa muito lon-ge do conteúdo do livro - esse livro não é para falar mal da Noruega - mas de vez em quando ele aproveita para dar uma cotovelada no fígado de algum inimigo, solta umas pérolas pintadas aqui e ali de ironia.

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INTERVALO

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EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 171 PROF. MONIR: Um resumo: Gregers resolveu contar a seu amigo de infância Hjalmar aquilo que supõe ser verdade sobre a situação em que Hjalmar está – que sua esposa Gina havia sido amante do pai de Gregers, Werle, e que ela não teria sido o único caso de Werle. Ao se cansar dela, Werle resolveu arranjar-lhe um casamento com Hjalmar; por isso teria financiado a instala-ção do atelier de fotografia. Além disso, Werle teria deixado seu sócio, pai de Hjalmar, levar toda a culpa no episódio que o levou à prisão. Para compensar essa culpa, Werle estaria pagando todo o mês uma quantia a título de remu-nerar seu trabalho como copista, embora estivesse pagando mais do que devia. Gregers sai com Hjalmar para ter com ele essa conversa.

Quarto Ato

A ação se passa, ao início da noite, no ateliê de fotografia dos Ekdals. Gina des-pede se de uma cliente que desce as escadas para ganhar a rua. Hjalmar Ekdal ainda não havia voltado do passeio com Gregers. O jantar do fotógrafo estava esfriando. Hedvig se impacienta: “Oh! Se ele pudesse vir de uma vez! Estou achando tudo tão esquisito...” Hjalmar finalmente chega.

GINA (com um grito)

Aqui está ele.

(Hjalmar entra pela porta do saguão)

HEDVIG (correndo para ele)

Papai! Como nós te esperamos. Se tu soubesses!

 

172 Professor José Monir Nasser

GINA (olhando o)

Demoraste tanto tempo fora, Ekdal...

HJALMAR (sem olhá la)

Demorei um pouco, sim.

(Tira o casaco, Gina e Hedvig querem ajudá lo. Ele as afasta.)

GINA

Jantaste com Werle?

HJALMAR (pendurando o casaco.)

Não.

GINA (dirigindo se para a cozinha)

Neste caso, vou te servir o jantar.

HJALMAR

Não, deixe disso. Não comerei agora.

HEDVIG (aproximando se)

Não estás te sentindo bem, papai?

HJALMAR

Bem? Não, não estou muito mal. Demos um passeio cansador, Gregers e eu.

(pág. 211)

 

EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Pato Selvagem 173 PROF. MONIR: Ele voltou esquisitíssimo. Em todos os países frios, com exce-ção da França, todo o mundo janta cedo.

Hjalmar está agressivo. Diz que não porá mais os pés no sótão. Quando Hedvig cobra lhe sua festa de aniversário no dia seguinte, ele desconversa:

HEDVIG

Mas, papai, tu me prometeste que amanhã ia haver festa.

HJALMAR

É verdade. Pois bem! Será a partir de depois de amanhã. Esse maldito pato!...

Tenho vontade de lhe torcer o pescoço.

PROF. MONIR: Agora Hjalmar diz à menina que quer matar seu pato. Ele está com raiva do pato por quê? Porque o pato veio do Werle, que caçava o pato. Lendo simbolicamente este trecho, ele tem raiva do pato porque o pato é o segredo.

HEDVIG (dando um grito)

Do pato selvagem!

GINA

Já se viu semelhante coisa!

HEDVIG (sacudindo o)

Ora essa, papai. É o meu pato.

 

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