Corações na Atlântida
Por que Estivemos no Vietnã
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
manhã; subiram o volume até onze então puxaram as maçanetas, como
Mims gostava de dizer. O tiroteio das moitas ao redor dos helicópteros em
chamas havia sido como uma chuva forte ao invés de uma ducha.
Havia cigarros no porta-luvas do Caprice, um velho maço de Winstons que
Sully guardava para emergências, transferindo-os de um carro para o
outro quando quer que ele precisasse trocar de máquina. Aquele cigarro
que ele pegara de Dieffenbaker havia acordado o tigre, e agora ele se
inclinou para a velha mamasan, abriu o porta-luvas, tateou entre os papéis, e achou o maço. O cigarro tinha um gosto quente de mofado, mas tudo bem.
Era meio isso que ele queria.
– Duas semanas de tiroteios e pressão. – ele disse a ela, pegando o
isqueiro. – Batidos e queimados, e não olhem para a porra do Exército da República do Vietnã, querida, porque eles sempre parecem ter coisas
melhores para se fazer. Putas, churrasco, e torneios de boliche, Malenfant costumava dizer. Continuávamos a ter baixas, a cobertura de ar nunca
estava onde deveria estar, ninguém dormia, e parecia que quando os
outros caras da A Shau icavam mais próximos de nós as coisas pioravam.
Eu me lembro que um dos caras de Willie, Havers ou Haber, algo assim,
levou uma bala bem na cabeça. Levou bem na maldita cabeça e então icou
lá deitado no caminho com os olhos abertos, tentando falar. O sangue saia
do buraco. . – Sully bateu o dedo contra seu crânio um pouco acima da
orelha. – . .e não conseguíamos acreditar que ele ainda estava vivo,
tentando falar. Então as coisas com os helicópteros. . aquilo foi algo saído de um ilme, toda a fumaça e as balas, bam-bam-bam-bam. Foi aquilo que nos
levou, sabe, pra sua Vila. Chegamos lá, e cara. . havia uma cadeira na rua, como uma cadeira de cozinha, com o assento vermelho e as pernas
apontando para o céu. Parecia um monte de merda, me desculpe, mas parecia, se não vale a pena, deixe morrer. Seus rapazes, o VER, eles não queriam morrer por lugares como aquele, por que nós iríamos? O lugar
fedia, fedia como merda, mas todos eles tinham esse cheiro. Assim parecia.
Eu não me importava muito com o cheiro, de qualquer forma. Acho que a
coisa que mais me chamou a atenção foi a cadeira. Aquela cadeira disse
tudo.
Sully sacou o isqueiro, começou a puxar o gatilho para acender o cigarro, e
então se lembrou que estava num carro de demonstração. Ele poderia
fumar lá, inferno, era de sua própria loja, mas se algum cliente cheirasse a
fumaça e concluísse que o chefe estava fazendo o que era uma ofensa de fogo para qualquer um, isso não seria bom. Você tinha que andar na
calçada, assim como tinha falar o que tinha que falar. . ao menos se você quisesse ter um pouco de respeito.
– Excusex-moi. – ele disse a velha mamasan. Ele saiu do carro, que ainda estava ligado, acendeu seu cigarro, então se inclinou na janela para
devolver o isqueiro ao seu lugar no painel. O dia estava quente, e o mar de carros nas quatro pistas o fez parecer ainda mais quente. Sully podia
sentir a impaciência ao seu redor, mas o seu era o único rádio que ele conseguia ouvir, todo mundo estava sob o vidro, dentro de seus casulos de
ar-condicionado, ouvindo centenas de diferentes tipos de música, de Liz
Phair até William Ackerman. Ele imaginou que qualquer um dos veteranos
pegos no engarrafamento que não tinha Allman Brothers em CD, ou Big Brother and the Holding Company em ita provavelmente estariam ouvindo a WKND, onde o passado nunca havia morrido, e o futuro nunca havia
chegado. Tu-tu, bipe-bipe.
Sully subiu no capô de seu carro, e icou na ponta dos dedos, protegendo os olhos contra o brilho do sol no cromo, e procurando pelo problema. Ele,
é claro, não conseguia vê-lo.
Putas, churrasco, e torneios de boliche, ele pensou, e o pensamento veio com a voz ina e irritante de Malenfant. Aquela voz de um pesadelo sob o azul e
fora do verde.
Vamos, rapazes, quem tem O Otário? Estou com menos de noventa e
acordado, o tempo é curto, vamos botar esse maldito show na maldita estrada!
Ele deu uma forte tragada no Winston, então tossiu com a fumaça mofada e
quente. Pontos negros começaram a subitamente dançar no brilho da
tarde, e ele olhou para o cigarro entre seus dedos com uma expressão de quase horror cômico. O que ele estava fazendo, começando novamente com
essa merda? Ele estava louco? Bem, sim, é claro que ele estava louco, qualquer um que visse velhas senhoras mortas sentadas ao seu lado em
seus carros tinha que estar louco, mas isso não signi icava que ele tinha que começar com essa merda de novo. Cigarros eram o Agente Laranja
que você pagava.
Sully jogou o Winston fora. Pareceu a decisão certa, mas isso não diminuiu
a batida acelerada em seu coração, ou sua sensação (que ele tão bem se lembrava de suas patrulhas), que o interior de sua boca estava seco e
grudado, contraindo-se e enrugando como pele queimada. Algumas
pessoas tinham medo de multidões (agorafobia, era o nome, medo de
lugares cheios de gente), mas as únicas vezes em que Sully tinha aquela sensação de coisas demais, e de gente demais, era em vezes como essa. Ele icava bem em elevadores e saguões cheios no intervalo, e em plataformas
de trem lotadas, mas quando o tráfego parava ao seu redor, ele
enlouquecia. A inal, não havia nenhum lugar para se correr, querida,
nenhum lugar para se esconder.
Algumas outras pessoas estavam saindo de seus casulos de ar-
condicionado.
Uma mulher em um severo terno marrom ao lado de uma severa BMW
marrom, um bracelete dourado e brincos de prata resumindo a luz do
Verão, estava batendo o pé em seu cordovan de salto alto, com impaciência.
Ela percebeu que Sully a via, e girou os olhos pra cima como se para dizer
isso não é típico, e então olhou para seu relógio de pulso (também de ouro, também reluzente). Um homem montado em sua Yamaha verde desligou o
motor, apoiou a moto, removeu o capacete, e o colocou no pavimento sujo de óleo ao lado do pedal. Ele estava vestindo shorts pretos de motoqueiro,
e uma camisa sem manca em que estava escrito em sua frente
PROPRIEDADE DOS KNICKS DE NOVA YORK. Sully imaginou que o
cavalheiro iria perder aproximadamente setenta por cento da pele se ele
batesse a moto a uma velocidade superior a dez quilômetros por hora
enquanto usasse esse tipo de roupa.
– Putz grilla, cara. – o motoqueiro disse. – Deve ter sido um acidente.
Espero que não seja nada radioativo. – e riu para mostrar que estava brincando.
Mais acima na pista da esquerda (que seria a pista mais rápida quando o tráfego estivesse se movendo normalmente), uma mulher de tênis brancos
estava parado ao lado de uma Toyota com um adesivo SEM BOMBAS grudado à esquerda da placa de licença, e uma que dizia HOUSECAT: A
OUTRA CARNE BRANCA à direita. Sua saia era muito pequena, sua coxas
eram longas e morenas, e quando ela empurrou os óculos escuros para
cima, os prendendo em seus cabelos loiros, Sully pôde ver seus olhos. Eles
eram grandes e azuis, e de algum modo estavam alarmados. Era um olhar
que fazia você querer beliscar sua bochecha (ou talvez dar a ela um
abraço fraternal de um braço só), e dizer a ela que não se preocupe, tudo
vai icar bem. Era um olhar que Sully se lembrava bem. Era aquele que o virou pelo avesso. Era Carol Gerber ali, Carol Gerber em tênis, e vestida com roupas de tênis. Ele não a havia visto desde uma noite no im de 1966,
quando ele havia ido a sua casa, onde sentaram no sofá (com a mãe de
Carol, que fedia fortemente a vinho), assistindo TV. Eles acabaram
discutindo sobre a guerra, e ele havia ido embora. Eu vou voltar a vê-la quando eu tiver certeza de que estou frio, ele se lembrou de ter pensado enquanto dirigia seu velho Chevrolet (mesmo naquela época ele havia sido
um homem de Chevrolets). Mas ele nunca mais a vira. No im de 66 ela já
havia colocado seu rabo naquela merda anti-guerra (que ela aprendeu
durante seu semestre no Maine, com certeza), e apenas pensar nela era o
bastante para fazê-lo icar furioso. A idiota cabeça de vento era o que era,
ela iria engolir todas as iscas da propaganda anti-guerra comunista, linhas
e varas. Então, é claro, ela havia se juntado àquele grupo louco, aquele EMP, e havia descambado completamente.
– Carol! – ele chamou, começando a ir a sua direção. Ele passou pelo
motoqueiro da moto verde, cortou caminho entre o motor de uma besta e
um sedan, temporariamente perdeu-a de vista enquanto se apressava ao
lado de um caminhão de dezesseis rodas, então a viu de novo. – Carol! Ei, Carol! – ainda assim quando ela se virou para ele, ele imaginou o que havia
de errado com ele, o que o havia possuído. Se Carol ainda estivesse viva, ela teria mais ou menos cinqüenta anos, que nem ele. Essa mulher parecia
ter talvez trinta e cinco.
Sully parou, ainda alguns metros longe. Carros e caminhões rosnavam em
toda parte. E um estranho som de relincho habitava no ar, que no começo ele achou que era o vento, embora o ar da tarde estivesse quente e
perfeitamente parado.
– Carol? Carol Gerber?
O barulho icou mais alto, um som de alguém batendo a língua contra o céu
de boca, como o som de um helicóptero à distância. Sully olhou para cima e
viu um abajur caindo do céu azul, diretamente na sua direção. Ele recuou em um instintivo re lexo assustado, mas ele havia passado sua carreia
colegial inteira fazendo esportes atléticos de um tipo ou de outro, e mesmo
enquanto ele recuava sua cabeça, ele estendia os braços. Ele pegou o
abajur bem habilmente. Desenhado nele estava um bote agitado descendo
um rio contra um lúgubre pôr-do-sol vermelho. ESTAMOS INDO BEM
NO MISSISSIPPI estava escrito acima do bote em letras antigas. Abaixo
dele, na mesma caligrafia: COMO ESTÁ A CACHOEIRA?
De onde caralho veio isso? Sully pensou, e então a mulher parecia uma
versão adulta de Carol Gerber gritou. Suas mãos abaixaram como se para
ajustar seus óculos escuros presos em seu cabelo, e então abraçou a si
mesmo, tremendo como as mãos de um maestro em uma sinfonia maluca.
Era como a velha mamasan havia parecido enquanto vinha correndo de sua barraca de merda até a rua de merda daquela pequena vila de merda
da Província de Dong Ha. Sangue desceu pelos ombros do vestido branco
da tenista, primeiro em borrifos e então jorrando. O sangue correu em
seus braços bronzeados e pingou de seus cotovelos.
– Carol? – Sully perguntou estupidamente. Ele estava entre a picape Dodge
Ram e um Mack Semi, vestido em um terno azul marinho, aquele que ele vestia em funerais, segurando um abajur, uma lembrancinha do Rio
Mississippi (como está a cachoeira) e olhando para a mulher que agora
tinha algo saindo de sua cabeça. Enquanto ela deu um passo para frente, seus olhos azuis ainda bem abertos, mãos trêmulas no ar, Sully percebeu
que era um telefone sem io. Ele poderia dizer isso pela ponta da antena, que balançava a cada passo que ela dava. Um telefone sem io havia caído
do céu, caído só Deus sabe de quantos metros, e agora estava na cabeça dela.
Ela deu outro passo, e se jogou no capô de um Buick verde escuro, e
começou a deslizar lentamente atrás dele enquanto seus joelhos enfraqueciam. Era como ver um submarino afundar, Sully pensou, só que
ao invés do periscópio, tudo o que estaria aparecendo em cima dela depois
que ela estivesse fora de vista era a ponta de uma antena de um telefone sem fio.
– Carol? – ele sussurrou, mas não poderia ser ela; ninguém que ele havia conhecido na infância; ninguém com quem ele tinha dormido, estava
destinado a morrer por ferimentos causados por um telefone voador, com
certeza.
As pessoas começaram a gritar, chorar, e berrar. A maioria dos gritos
pareciam perguntas. Buzinas eram tocadas. Motores religados, como se de
repente houvesse algum lugar para se ir. Ao lado de Sully, o motorista do Mack de dezesseis rodas, começava a religar sua máquina em grandes e
ritmados roncos. Um alarme de carro foi acionado. Alguém berrou ou por
dor, ou por surpresa.
Uma única mão trêmula se agarrou ao capô do Buick verde escuro. Havia
um bracelete de tenista no pulso. Lentamente a mão e o bracelete
deslizaram para longe de Sully. Os dedos da mulher que parecia Carol se irmaram na ponta do capô por um momento, então desapareceram. Algo
mais caiu, assoviando, do céu.
– Pro chão! – Sully gritou. – Ah, porra, pro chão!
O assovio diminuiu para um som estridente, de ensurdecer, então parou
enquanto o objeto em queda atingiu o capô do Buick, o amassando como
um punho, e fazendo-o pular do pára-brisas. A coisa espetada no
compartimento do motor do Buick parecia ser um microondas.
Por todos os seus lados vieram sons de objetos caindo. Era como ser pego
em um terremoto que de algum modo estava acontecendo acima da terra,
ao invés de nela.
Uma inofensiva chuva de revistas passou por ele ( Seventeen, GQ, Rolling Stone, Stereo Review). Com suas páginas abertas lutuando, elas pareciam pássaros abatidos. À sua direita uma cadeira de escritório caiu do céu,
girando em sua base quando veio. Atingiu o teto de um Ford Station
Wagon. O pára-brisa do Wagon explodiu em pedaços leitosos. A cadeira
ricocheteou no ar se inclinando, e então repousou no capô do Station Wagon. Além disto, uma TV portátil, uma cesta de roupas de plástico, o que
pareciam algumas câmeras com alças enroladas, uma prata da casa de
borracha caiu na pista lenta para a pista separada. A prata da casa foi seguida pelo que pareceu um bastão de beisebol Louisville Slugger. Uma
pipoqueira se despedaçou em cacos quando atingiu a estrada.
O cara com a camisa dos Knicks, aquele da moto verde, já tinha visto o bastante.
Ele começou a correr pelo estreito corredor entre o tráfego parado na
terceira pista, e o tráfego parado na pista rápida, girando como um
esquiador evitando os vidros laterais salientes, com uma mão na cabeça
como um homem cruzando uma rua durante uma chuva de Primavera.
Sully ainda estava segurando o abajur, embora o cara tivesse se saído
melhor se tivesse pegado seu capacete e o recolocado, mas é claro que
quando as coisas começam a cair ao seu redor, você ica esquecido e a
primeira coisa que você está apto a esquecer é onde jazem seus melhores
interesses.
Algo mais estava caindo agora, se aproximando, e era grande. . maior do
que o microondas que havia estraçalhado o capô do Buick, certamente.
Desta vez o som não era um assovio, como uma bomba ou munição de
morteiro, mas o som de um avião caindo, ou um helicóptero, ou mesmo
uma casa. No Vietnã, Sully estivera por perto quando todas essas coisas
caíram do céu (a causa icara em pedaços, com certeza), e ainda assim esse
som era diferente de um modo crucial: também era musical, como a mais
pesada melodia do mundo.
Era um grande piano, branco com a cinzelagem dourada, o tipo de piano
que você espera ser tocado por uma mulher em vestido preto, tocando
“Night and Day”, no barulho do tráfego, no silêncio de meu quarto solitário,
tu-tu, bipe-bipe. Um grande piano branco caindo do céu de Connecticut,
girando e girando, fazendo uma sombra como uma alga-viva nos carros
amassados, projetando uma música no ar com seus cabos enquanto o ar é
expelido através de sua arca roliça, suas teclas se agitando como as teclas
de um piano automático, o sol obscuro tremeluzindo nos pedais.
Ele caiu em ciclos preguiçosos, e o som pesado de sua queda era como o
som de algo vibrando interminavelmente em um túnel de lata. Caiu na direção de Sully, sua sombra nervosa agora começando a centralizar e
diminuir, sua face virada para seu alvo pretendido.
– CUBRAM-SE! – Sully gritou, e começou a correr. – CUBRAM-SE!
O piano se estatelou na rodovia, o banco branco caindo logo depois, e atrás
do banco venho uma cauda de cometa musical, discos 45-rpm com gordos
buracos no meio, pequenos aparelhos, e um casaco amarelo lutuante que
parecia um espanador, um pneu da Goodyear, um grill de churrasco, um cata-vento, um armário de arquivo, e uma caneca de chá com as palavras A
MELHOR VÓ DO MUNDO impressas na lateral.
– Posso pegar um desses? – Sully havia perguntado a Dieffenbaker do lado
de fora do salão do funeral onde Pags estava deitado em sua caixa
adernada de seda. – Eu nunca fumei um Dunhill.
– Como quiser. – Dieffenbaker soara espantado, como se nunca houvesse
estado assustado em sua vida.
Sully ainda conseguia se lembrar de Dieffenbaker parado na rua ao lado
daquela cadeira de cozinha virada: o quão pálido ele estivera, como seus lábios tremiam, como suas roupas ainda cheiravam a fumaça, e pingava
combustível de helicóptero.
Dieffenbaker olhando de Malenfant e a velha senhora para os outros que
começavam a tacar fogo nas cabanas, e para a criança berrante que Mims
acertara com um tiro; ele podia se lembrar de Deef olhando para o
Tenente Shearman, mas não havia ajuda ali.
Nem ajuda do próprio Sully. Ele também se lembrava de Slocum olhando
para Deef, Deef, o tenente agora que Packer estava morto. E inalmente
Deef havia olhado de volta para Slocum. Sly Slocum não era o icial, nem mesmo um daqueles generais de boca frouxa que estavam sempre
palpitando em tudo, e nunca seria. Slocum era apenas um soldado de
classe E3 ou E4 que pensava que um grupo que soava como Rare Earth
tinha que ser negro. Apenas um falastrão, em outras palavras, mas um
preparado para fazer o que os outros não podiam. Nunca perdendo a vista
dos olhos perturbados do novo tenente, Slocum havia virado a cabeça para
o outro lado só um pouco, na direção de Malenfant, Clemson, Peasley, Mims
e os outros, auto-intitulados justiceiros cujos nomes Sully não mais se lembrava. Então Slocum estava de volta ao contato total com Dieffenbaker novamente. Havia seis ou oito homens ao todo que haviam enlouquecido,
trotando pela rua lamacenta, passando pela criança ensangüentada que
berrava, e para dentro daquela Vila desesperada, gritando enquanto iam;
torcida de futebol, cadências de um treinamento básico, o refrão de “Hang
On Sloopy”, merdas assim, e Slocum estava falando com seus olhos, Ei, o que você quer? Você é o chefe agora, o que você quer?
E Dieffenbaker assentira.
Sully imaginou se ele poderia ter assentido. Ele achou que não. Ele achou que se dependesse dele, Clemson, Malenfant e todos aqueles outros idiotas
teriam matado até icarem sem munição (não era quase o que aqueles
homens sob o comando de Galley e Medina haviam feito?). Mas
Dieffenbaker não era William Galley, pode apostar.
Dieffenbaker havia sinalizado com a cabeça. Slocum sinalizou de volta,
ergueu seu rifle e estourou a cabeça de Ralph Clemson.
Na época Sully pensara que Clemson levara a bala porque Slocum conhecia
Malenfant muito bem, Slocum e Malenfant haviam fumado mais do que
algumas ervas da boa juntos, e Slocum também estiveram passando o
tempo caçando a Puta com os outros jogadores de Copas. Mas enquanto ele
estava sentado aqui rolando o cigarro Dunhill de Dieffenbaker entre os
dedos, ocorreu a Sully que Slocum não dava a mínima para Malenfant e
suas ervas; e tampouco para o jogo de cartas favorito de Malenfant.
Não havia carência de ervas ou jogos de cartas no Vietnã. Slocum escolheu
Clemson porque atirar em Malenfant não teria funcionado. Malenfant,
berrado todas as suas merdas sobre colocar cabeças em varas para
mostrar ao congues o que acontecia a quem fodesse com o Relâmpago
Delta, estava longe demais para atrair a atenção dos homens correndo, e atirando pela rua de lama. Além disso, a velha mamasan já estava morta, então, mas que porra, deixe-o continuar a espetá-la.
Agora Deef era Dieffenbaker, um velho vendedor de computadores que
ofereceu a Sully luz de seu Zippo, então assistiu Sully dar uma tragada e tossir.
– Faz um tempo, não? – Dieffenbaker perguntou.
– Dois anos mais ou menos.
– Quer saber o que é assustador? O quão rápido você volta a se acostumar.
– Eu te falei sobre a velha senhora, hein?
– Sim.
– Quando?
– Acho que foi na última reunião em que você foi. . aquela na costa de Jersey, aquela quando Durgin rasgou a camisa da garçonete. Aquele foi
uma cena feia, cara.
–Foi? Eu não me lembro.
– Você já estava intoxicado naquela época.
É claro que já estava, essa parte era sempre igual. Pensando nisso, todas as
partes das reuniões são iguais. Havia um DJ que sempre saia mais cedo
porque alguém queria lhe dar uma sova por tocar os discos errados. Até
que isso acontecesse os alto-falantes cuspiam coisas como “Bad Moon
Rising”, “Light my Fire”, “Gimme Some Lovin”, e “My Girl”, canções de todas
as trilhas sonoras de todos aqueles ilmes sobre o Vietnã feitos nas
Filipinas. A verdade sobre a música era que a maior parte dos grunhidos da qual Sully se lembrava icavam engasgados ao som de The Carpenters
ou “Angel of the Morning”. Aquilo era a verdadeira trilha sonora da moita,
sempre tocando enquanto os homens comiam suas comidas gordurosas e
viam as fotos de suas namoradas, icando de pau duro, e então chorando
com “One Tin Soldier”, popularmente conhecido no verde como “O Tema do Fodido Billy Jack”. Sully não conseguia se lembrar de ter ouvido The Doors
uma vez no Vietnã; era sempre The Strawberry Alarm Clock cantando
“Incense and Peppermints”. Em algum nível ele soube que a guerra estava
perdida quando ouviu aquele pedaço de merda do caralho pela primeira
vez no jukebox do comissário.
As reuniões começaram com música e cheiro de churrasco (um cheiro que
sempre lembrava vagamente a Sully o combustível queimado de
helicóptero) e com garrafas de cerveja em baldes de gelo, e quanto a essa parte, tudo bem, essa parte era legal de verdade, mas então já era a manhã
seguinte e a luz queimava seus olhos, e sua cabeça parecia ser a morada de um tumor, e seu estômago estava cheio de veneno. E uma dessas
“ressacas”, Sully teve a vaga memória de pedir para o DJ tocar “Oh! Carol”
de Neil Sedaka de novo e de novo, ameaçando matá-lo se ele parasse. Em outra, Sully acordou ao lado da ex-esposa de Frank Peasley. Ela estava
roncando porque seu nariz estava quebrado. Seu travesseiro estava
coberto de sangue, suas bochechas estavam cobertas de sangue também, e
Sully não conseguia se lembrar se ele havia quebrado o nariz dela, ou se havia sido o puto do Peasley. Sully queria que fosse Peasley, mas sabia que
poderia ter sido ele; às vezes, especialmente nestes dias antes do Viagra, quando ele broxava tanto quanto conseguia levantar, ele se enfurecia.
Felizmente, quando a mulher acordou, ela tampouco conseguia se lembrar.
Porém, ela se lembrava de como ele era sem cuecas.
– Como é que você só tem um? – ela perguntou a ele.
– Tenho sorte de tê-lo. – Sully havia respondido. Sua dor de cabeça estivera
maior do que o mundo.
– O que eu disse sobre a velha senhora? – ele perguntou a Dieffenbaker enquanto sentavam fumando na viela ao lado da capela.
Dieffenbaker deu de ombros.
– Só que você costumava vê-la. Você disse algumas vezes que ela mudava
de roupas, mas era sempre ela, a velha mamasan que Malenfant matou. Eu
tive que te calar.
– Porra. – Sully disse, e pôs a mão que não segurava o cigarro no cabelo.
– Você também disse estava melhor quando você havia chegado à Costa
Leste. – Dieffenbaker disse. – E olhe, o que há de ruim em ver uma velha senhora de vez em quando? Algumas pessoas vêem discos voadores.
– Não as pessoas que devem a dois bancos quase um milhão de dólares. –
Sully disse. – Se eles soubessem. .
– Se soubessem, e daí? Eu digo. Nada. Enquanto você continuar a fazer seus pagamentos, Sully-John, enquanto continuar a lhes trazer aquela cesta
doce de cajus, ninguém se importa com o que você vê quando apaga a luz. .
ou o que vê quando a acende. Eles não se importam se você se veste com
calcinhas ou se bate em sua mulher, e fode o labrador. Além disso, não acha que há alguns caras naqueles bancos que passaram algum tempo no
verde?
Sully deu mais uma tragada no Dunhill e olhou para Dieffenbaker. A
verdade era que ele nunca havi a pensado nisso. Ele negociou empréstimos
com dois deles que tinham a idade certa, mas eles nunca falaram sobre
isso. É claro, tampouco ele falou. Da próxima vez que eu os vir, ele pensou, eu terei que perguntar a eles se eles carregam Zippos. Sabe, ser sutil.
– E quanto a você, Deef? Você tem uma velha senhora? Não quero dizer
sua namorada, quero dizer uma velha senhora. Uma mamasan.
– Ei cara, não me chame de Deef. Ninguém me chama assim agora. Eu
nunca gostei.
– Você tem uma?
– Ronnie Malenfant é minha mamasan. – Dieffenbaker disse. – Às vezes eu o vejo. Não do modo como você vê a sua, como se ela estivesse aqui, mas a
memória é uma coisa real também, não é?
– É.
Dieffenbaker balançou a cabeça lentamente.
– Se a memória fosse tudo. Você sabe? Se a memória fosse tudo.
Sully icou em silêncio. Na capela o órgão tocava algo que não soava como
um hino, mas apenas como música. O recesso, ele achou que eles o
chamariam assim. Um jeito musical de dizer às pessoas de luta para darem
o fora. Volte, Jo-Jo. Mamãe está esperando.
– Há memória e então há o que você na verdade vê em sua mente. Como
quando você lê um livro de um bom autor e ele descreve um quarto e você
vê este quarto. Eu estarei cortando a grama ou sentado em nossa mesa de
conferência ouvindo uma apresentação ou lendo uma história para meu neto antes de colocá-lo na cama, ou talvez até dando uns amassos em Mary
no sofá, e bum, lá está Malenfant, aquela maldita cabeça cheia de acne com
os cabelos rebeldes. Lembra-se de como os cabelos dele costumavam ir
para todos os lados? – perguntou Dieffenbaker.
– Sim.
– Ronnie Malenfant, sempre dizendo caralho, porra, boceta e essas coisas.
Piadas racistas para todas as ocasiões. E aquele boné. Lembra-se dele?
– Claro. O pequeno boné de couro que ele prendia no cinto. Ele mantinha suas cartas lá. Dois baralhos Bikes. “Ei, nós vamos caçar a Puta, rapazes!
Níquel por ponto!
Quem vem?”, e é claro que eles iam.
– É. Você se lembra. Lembra-se. Mas eu o vejo, Sully, toda a sua fuça branquela.
Eu o escuto, eu posso sentir o cheiro da porra da erva que ele fumava. . mas na maioria das vezes eu o vejo, como ele a nocauteou e ela caiu no chão, ainda mexendo os punhos contra ele, ainda falando. .
– Pare.
– . .e eu não conseguia acreditar que aquilo ia acontecer. No começo achei
que Malenfant tampouco acreditava. Ele apenas cutucou a baioneta nela
algumas vezes pra começar, espetando-a como se a coisa toda fosse uma
piada. . então ele foi e fez, enfiou a coisa nela. Um caralho de nota dez, Sully;
quero dizer nota dez mesmo. Ela berrou e começou a se debater e ele tinha
os pés, lembra-se, nos lados dela, e o resto deles estava correndo, Ralph Clemson, Mims, e não sei quem mais. Eu sempre odiei aquele escroto do
Clemson, bem mais do que Malenfant porque ao menos Ronnie não era
sonso, com ele você logo via o que tinha arranjado. Clemson era louco e sonso. Eu estava assustado, Sully, assustado pra caralho. Eu sabia que
deveria por um im naquilo, mas tinha medo de que me estrangulassem se
eu tentasse, todos eles, todos vocês, porque naquele momento preciso havia
todos vocês, e havia eu. Shearman. . nada contra ele, ele entrou naquela
clareira onde os helicópteros haviam caído como se não houvesse amanhã, mas na Vila. . eu olhei para ele e não havia nada ali.
– Ele salvou minha vida mais tarde, quando fomos emboscados. – Sully
disse quietamente.
– Sei disso. Pegou você e te carregou como o fodido Super-Homem. Ele teve
aquilo na clareira, conseguiu de volta na trilha, mas no meio, na Vila. . nada.
Na Vila a coisa era comigo. Era como se eu fosse o único adulto, só que eu
não me sentia como um.
Sully não tentou pedir para que ele parasse novamente. Dieffenbaker
queria dizer isso. Nada menos do que um murro na boca o pararia.
– Lembra-se de como ela gritava quando ele a empalou? A velha senhora?
E
Malenfant em cima dela, continuando a falar, seus putos isso, seus merdas
aquilo, e foda-se tudo. Graças a Deus por Slocum. Ele olhou para mim e aquilo me fez fazer algo. . exceto que tudo o que eu iz foi dizer para ele atirar.
Não, Sully pensou, você nem mesmo fez isso, Deff. Você apenas assentiu. Se
você estivesse na corte eles não te deixariam escapar com uma merda
dessa, eles te fazem falar em bom e claro som. Eles te fazem depor para registro.
– Eu acho que Slocum salvou nossas almas naquele dia. – Dieffenbaker
disse. – Você sabia que ele se matou, não é? – Sim. Em 1986.
– Eu pensei que havia sido um acidente de carro.
– Se dirigir em uma ponte a 110 por hora em uma noite clara é um
acidente, então foi um acidente.
– E quanto a Malenfant? Alguma idéia?
– Bem, ele nunca veio a nenhuma dessas reuniões, é claro, mas da última vez que soube, ele estava vivo. Andy Brannigan o viu no sul da Califórnia.
– Porco-Espinho o viu?
– Sim, porco-espinho. Você sabe onde foi?
– Não, é claro que não.
– Isso vai te matar, Sully-John, vai estourar sua cabeça. Branning está nos Alcoólatras Anônimos. É sua religião. Ele diz que salvou sua vida, e
suponho que salvou mesmo. Ele costumava beber muito mais do que nós,
talvez muito mais do que todos nós juntos. Então agora ele está viciado no
AA ao invés de na tequila. Ele vai a uma dúzia de reuniões por semana, ele
é um RSG (não me pergunte, é algum tipo de posição política no grupo), ele
maneja uma linha telefônica para conversar com os alcoólatras. E todo ano
ele vai à Convenção Nacional. Cinco anos, mais ou menos, atrás os bêbados
se reuniram em San Diego. Cinqüenta mil alcoólatras estiveram no Centro de Convenções de San Diego, cantando a Oração da Serenidade. Pode
imaginar isso?
– Mais ou menos. – Sully disse.
– O maldito Brannigan olha para sua esquerda e quem ele vê, a não ser Ronnie Malenfant. Ele mal pode acreditar, mas é Malenfant, com certeza.
Depois da grande reunião, ele pega Malenfant e os dois vão tomar uns
drinques. – Dieffenbaker pausou. – Alcoólatras também fazem isso, eu
acho. Limonada, coca-cola e coisas assim. E Malenfant diz ao Porco-Espinho
que já faz dois anos que ele está limpo e sóbrio, ele achou um poder maior
que ele escolheu chamar de Deus, ele havia renascido, tudo está bem, ele estava vivendo nos termos, ele estava deixando a bebida sair e Deus
entrar, e todas essas coisas que eles falam. E Brannigan, ele não pôde
evitar. Ele perguntou a Malenfant se ele havia dado o Quinto Passo, que é confessar as coisas que você fez de errado e icar inteiramente pronto
para fazer reparações. Malenfant nem pestaneja, apenas diz que tomou o
Quinto um ano atrás e se sentia bem melhor.
– Mas que porra. – Sully disse, surpreso por estar furioso. – A velha
mamasan certamente vai icar feliz de saber que Ronnie passou por cima disso. Eu direi a ela na próxima vez em que a vir. – sem saber que a veria
mais tarde naquele dia, é claro.
– Faça isso.
Eles icaram sentados sem falar muito por um tempo. Sully pediu a Dieffenbaker outro cigarro, e Dieffenbaker lhe deu um, e outra chama do
velho Zippo. Próximo ao canto veio o som de conversas e algumas risadas
baixas. O funeral de Pags terminara. E em algum lugar na Califórnia,
Ronnie Malenfant estava talvez lendo seu Grande Livro dos AA e se
comunicando com a força maior que ele escolhera chamar de Deus. Talvez
Ronnie também fosse um RSG, o que quer que fosse era merda. Sully desejou que Ronnie estivesse morto. Sully desejou que Ronnie Malenfant
tivesse morrido na toca de aranha dos vietcongues, com seu nariz cheio de
catarro, e fedendo a merda, sangrando internamente e vomitando pedaços
de seu próprio estômago. Malenfant com seu boné e suas cartas, Malenfant
e sua baioneta, Malenfant e seus pés plantados nos dois lados da velha
mamasan e suas calças verdes, camisa laranja e tênis vermelhos.
– Por que estivemos no Vietnã pra começar? – Sully começou. – Sem
querer icar ilosó ico ou qualquer coisa, mas você já descobriu a resposta
disso?
– Quem disse “Aquele que não aprender as lições da história, está
condenado a repeti-la”?
– Richard Dawson, o apresentador de Family Feud.
– Vá se foder, Sullivan.
– Eu não sei quem disse. Isso importa?
– Pode apostar. – Dieffenbaker disse. – Porque nunca superamos. Nunca
passamos por cima do verde. Nossa geração morreu lá. .
– Isso soa um pouco. .
– Um pouco o quê? Um pouco pretensioso. Pode crer. Um pouco tolo. Pode
crer.
Um pouco boçal? Sim, senhor. Mas isso fomos nós. Está tudo em nós. O que
izemos desde que saímos do Vietnã, Sully? Nós que fomos, aqueles que
marcharam e protestaram, aqueles de nós que apenas icaram sentados
em casa assistindo ao Dallas Cowboys e bebendo cerveja, e peidando no
sofá?
As bochechas do novo tenente começavam a icar vermelhas. Ele tinha a aparência de um homem que encontrou seu cavalo, e agora está montando nele, sem poder fazer nada a não ser cavalgar. Ele levantou as mãos do jeito que Sully havia feito quando estavam falando sobre os legados da
experiência no Vietnã.
– Bem, vamos ver. Nós somos a geração que inventou Super Mario
Brothers, a ATV, sistemas a laser de mísseis teleguiados, e cocaína. Nós descobrimos Richard Simmons, Scott Peack, e o programa da Martha
Stewart. Nossa idéia de uma grande guinada na vida é comprar um
cachorro. As garotas que queimaram seus sutiãs agora compram suas
lingeries da Victoria’s Secret e os rapazes que foderam sem medo pela paz
são agora gordos que sentam à frente de suas telas de computadores até a
madrugada, batendo uma punheta enquanto vêem fotos de garotas nuas
de dezoito anos na Internet. Isso somos nós, irmão, nós gostamos de
assistir. Filmes, vídeo-games, perseguições de carro ao vivo na TV, lutas no
The Jerry Springer Show, Mark McGwire, WFW, audições de impeachment,
não nos importamos, só gostamos de assistir. Mas houve um tempo. . não
ria, mas houve um tempo onde na verdade estava tudo em nossas mãos.
Sabia disso?
Sully assentiu, pensando em Carol. Não a versão dela sentada no sofá com
ele e sua mãe fedida, não aquele fazendo o sinal da paz para a câmera enquanto sangue corria ao lado de seu rosto, tampouco, aquela já estava
perdida e doida demais, você podia ver isso em seu sorriso, ler na placa, onde palavras gritantes proibiam todas as discussões.
Ao invés disso ele pensou em Carol no dia em que a mãe dela os havia levado ao Savin Rock. Seu amigo Bobby havia ganhado algum dinheiro de
um cara em uma banca de cartas de três montes, naquele dia em que Carol
usava seu maiô azul na praia, e às vezes dava a Bobby aquele olhar, aquela
que disse que ele a estava matando e que a morte era doce. Estivera em suas mãos naquela época; ele tinha certeza disso. Mas as crianças perdem tudo, as crianças têm dedos escorregadios, e buracos em seus bolsos, e
elas perdem tudo.
– Enchemos nossas carteiras no super mercado, e vamos à academia fazer
sessões de terapia para entrar em contato com nós mesmos. A América do
Sul está queimando, Malásia está queimado, a porra do Vietnã está
queimado, mas nós ilnalmente superamos aquela coisa de nos auto-odiarmos, inalmente começamos a gostar de nós mesmos, então isso é bom.
Sully pensou em Malenfant entrando em contato consigo mesmo,
aprendendo a gostar do Ronnie interior, e suprimiu um arrepio.
Todos os dedos de Dieffenbaker estavam eretos na frente de seu rosto;
para Sully ele parecia Al Jolson pronto para cantar “Mammy”. Dieffenbaker
pareceu perceber isso no mesmo momento em que Sully percebeu, e
baixou as mãos. Ele parecia cansado, distraído e infeliz.
– Eu gosto de várias pessoas de nossa idade individualmente. – ele disse. –
Mas eu desprezo minha geração, Sully. Tivemos a oportunidade de mudar
tudo. Tivemos mesmo. Ao invés disso, nós ganhamos desenhistas de jeans,
dois ingressos para o show de Mariah Carey no Radio City Music Hall,
horas de vôo freqüentes, Titanic de James Cameron, e álbuns de
aposentadoria. A única geração perto de nós em auto-indulgência pura e
egoísta é a tão chamada Geração Perdida dos anos vinte, e ao menos a
maioria deles tinha a decência de icarem bêbados. Nós nem podíamos
fazer isso. Cara, nós éramos uma merda.
O novo tenente estava perto das lágrimas, Sully viu.
– Deef. .
– Você conhece o preço por vender o futuro, Sully-John? Você nunca
poderá deixar o passado de verdade. Você nunca pode superar. Minha tese é que você não está em Nova York de verdade. Você está em Delta, apoiado a uma árvore, duro, esfregando a nuca. Packer ainda é o homem
porque ainda é 1969. Tudo o que você pensa como “sua vida de mais
tarde” é um grande e fodido pote de bolhas. E é melhor desse jeito.
Vietnã é melhor. É por isso que ainda estamos aqui.
– Você acha?
– Absolutamente.
Uma mulher, de cabelos negros, olhos castanhos, e de vestido azul,
apareceu do lado de fora da viela.
– Então aí estão vocês.
Dieffenbaker se levantou enquanto ela vinha até ele, andando devagar e
bonito em seus salto-altos. Sully se levantou também.
– Mary, este é John Sullivan. Ele serviu comigo e Pags. Sully esta é minha boa amiga Mary Theresa Charlton.
– Prazer em conhecê-la. – Sully disse, e estendeu sua mão.
Sua força era irme e segura, dedos frios e longos, mas ela estava olhando
para Dieffenbaker.
– A Sra. Pagano quer vê-lo, querido. Por favor?
– Tudo bem. – Dieffenbaker disse. Ele começou a ir para frente do prédio,
então se virou para Sully. – Segure aí um pouco. – ele disse. – Vamos sair para beber. Eu prometo não dar uma de padre. – mas seus olhos saíram
dos de Sully quando ele disse isso, como se soubessem que era uma
promessa que ele não poderia cumprir.
– Obrigado, Tenente, mas é realmente preciso voltar. Quero escapar do
engarrafamento.
***
Mas ele não havia escapado do engarrafamento, a inal de contas, e agora um piano estava caindo na direção dele, ofuscando o sol e cantarolando
enquanto vinha.
Sully sentiu seu estômago achatado e rolou para baixo do carro. O piano caiu a menos de um metro e meio de distância, detonando e cuspindo ilas
de teclas como dentes.
Sully saiu de debaixo do carro, queimando as costas no quente cano de
escape usando os pés. Ele olhou para o norte na direção do pedágio, os olhos esbugalhados, sem acreditar. Uma grande feira de quintal estava
caindo pelo céu: gravadores, tapetes, cortadores de grama, daqueles que
você pode dirigir, com uma lâmina manchada de grama rolando em seu eixo, um anão de jardim, um aquário com o peixe ainda nadando nele. Ele
viu um velho de cabelos cômicos correr pela pista e então um lance de
escadas cair nele, arrancando seu braço esquerdo, e fazendo ele cair de
joelhos. Havia relógios, escrivaninhas, mesas de café, e um elevador com
seu cabo solto no ar atrás dele como um cordão umbilical besuntado. Uma
rajada de livros caiu no estacionamento de um complexo industrial nas
proximidades; suas capas que batiam soavam como aplauso.
Um casaco de pele caiu em uma mulher que corria, fazendo-a tropeçar, e
então um sofá aterrissou nela, esmagando-a. O ar icou carregado com uma
tempestade de luz enquanto grandes painéis de vidro de uma estufa caiam
do céu azul. Uma estátua de um soldado da Guerra Civil se estatelou no painel de um caminhão. Um ferro de passar ricocheteou na grade da
estrada acima e então veio voando para o engarrafamento como uma
hélice. Um leão empalhado caiu na traseira de uma picape. Em todos os
lugares havia pessoas gritando e correndo. Em todos os lugares havia
carros com os tetos amassados e os pára-brisas quebrados; Sully viu uma
Mercedes com estranhas pernas rosas de um manequim de loja saindo do teto solar dela. O ar tremia com assovios e lamentos.
Outra sombra caiu nele, e mesmo quando ele se abaixou e levantou as
mãos, sabia que era tarde demais, se fosse um ferro, ou uma torradeira, ele iria fraturar o crânio. Se fosse algo maior ele não seria nada a não ser
uma geléia no meio da estrada.
O objeto em queda bateu em sua mão sem machucá-la, ricocheteou e caiu
em seus pés. Ele olhou para baixo primeiro surpreso, e então maravilhado.
– Puta merda. – ele disse.
Sully se abaixou e pegou a luva de beisebol que havia caído do céu,
reconhecendo-a depois de todos esses anos: o arranhão profundo no
último dedo, e os nós enrolados comicamente em seus laços eram boas
como impressões digitais. Ele olhou a lateral, onde Bobby havia escrito seu
nome. Ainda estava lá, mas as letras pareciam mais claras do que
deveriam, e o couro aqui parecia maltratado e arranhado, como se outros
nomes houvessem sido pintados no mesmo local e então apagados.
Próximo ao seu rosto, o cheiro da luva era tão intoxicante quanto
irresistível.
Sully o colocou em uma mão, e quando ele o fez, algo foi amassado pelo seu
dedo mindinho (um pedaço de papel en iado lá). Ele não prestou a atenção.
Ao invés disso ele pôs a luva na cara, fechou os olhos, e inalou. Couro, graxa, suor, e grama. Todos os odores do Verão estavam lá. O Verão de
1960, por exemplo, quando ele havia voltado de seu acampamento e
descoberto que tudo mudara: Bobby rabugento, Carol distante e
palidamente pensativa (ao menos por um tempo), e o velhinho legal que
morava no terceiro andar do prédio de Bobby, Ted, se fora. Tudo havia
mudado. . mas ainda era Verão, ele ainda tinha onze anos, e tudo ainda
parecia. .
– Eterno. – ele murmurou na luva, e inalou profundamente seu aroma
novamente, enquanto, nas proximidades, um suporte de vidro cheio de
borboletas se espatifou no teto de uma van, e uma placa de PARE, cravou na pista como uma lança.
Sully se lembrou de sua raquete com a bolinha presa em um cordão, e seus
sapatos pretos e o gosto do chiclete, como pedaços de doce iriam bater no
céu de sua boca e então ricochetear em sua língua; ele se lembrou de sua
máscara de apanhador se quebrando enquanto ele sentava em cima dela,
do som dos irrigadores da Broad Street, e o quão furiosa a Sra. Conlan icava quando você andava perto de suas lores preciosas, e a Sra. Godlow
no Asher Empire querendo ver sua certidão de nascimento se ela achasse
que você era alto demais para ter doze anos, e do cartaz da Brigitte Bardot
( se ela é um lixo, eu adoraria ser o lixeiro ) em sua toalha, mascando chiclete, jogando mico preto, fazendo peidos com as axilas no fundo da sala
de aula da Sra. Sweetser no quarto ano, e. .
– Ei, Americano. – só que ela disse Amelicano, e Sully sabia o que ia ver antes mesmo de levantar sua cabeça da luva Alvin Dark de Bobby. Era a
velha mamasan, de pé entre a moto, que havia sido esmagada por um freezer (carne congelada estava caindo de sua tampa rachada em blocos
congelados), e uma Subaru com um lamingo de jardim caído no teto. A
velha mamasan em suas calças verdes, camisa laranja e tênis vermelhos, a
velha mamasan parecendo uma placa de neon em um bar do inferno.
– Ei americano, você vir aqui, eu proteger. – ela estendeu as mãos.
Sully andou em sua direção através das barulhentas quedas de televisões, piscinas de cigarro, maços de cigarro; sapatos de salto-alto, grandes
secadores de cabelo e telefones públicos que ao atingirem o chão
vomitavam uma cachoeira de moedas. Ele caminhou na direção dela com
aquela sensação de alívio, aquela sensação que você só sente quando está
voltando para casa.
– Eu proteger. – estendendo os braços agora. – Pobre menino, eu proteger.
– Sully pisou no círculo morto de seu abraço enquanto as pessoas
gritavam, corriam, e todas as coisas da América caiam do céu, iluminado a
I-95 norte de Bridgeport com seus brilhos. Ela o abraçou.
– Eu proteger. – ela disse, e então Sully estava em seu carro. O tráfego estava parado ao seu redor, as quatro pistas. O rádio estava ligado na
WKND. The Platters cantavam “Twilight Time”, e Sully não conseguia
respirar. Nada parecia ter caído do céu, exceto pelo engarrafamento, tudo
parecia em ordem, mas como podia ser isso?
Como podia ser isso quando ele ainda tinha a velha luva de Bobby Gar ield
em sua mão?
– Eu proteger. – a velha mamasan estava dizendo. – Pobre menino, pobre Americano, eu proteger.
Sully queria sorrir para ela. Ele queria dizer a ela o quanto ele sentia muito, que alguns deles havia ao menos querido o bem dela, mas ele não tinha ar e estava muito cansado. Ele fechou os olhos e tentou levantar a luva de Bobby uma última vez, dar uma última cheirada e sentir aquele
aroma de verão oleoso, mas ela estava pesada demais.
***
Dieffenbaker estava no balcão da cozinha na manhã seguinte, usando um
par de jeans e nada mais, servindo-se com um copo de café, quando Mary
entrou vindo da sala de estar. Ela vestia seu suéter PROPRIEDADE DOS
BRONCOS DE DENVER e tinha um New York Post na mão.
– Eu acho que tenho más notícias para você. – ela disse, e então pareceu pensar.
– Moderadamente falando.
Ele se virou para ela cautelosamente. Más notícias sempre deveriam vir
depois do almoço, ele pensou. Ao menos a pessoa estaria meio preparada
para más notícias depois do almoço. A primeira coisa da manhã era que
tudo deixava uma marca.
– O que é?
– O homem a quem você me apresentou ontem no funeral de seu amigo,
você disse que ele era um negociante de carros em Connecticut, certo?
– Certo.
– Eu queria ter certeza, sabe, porque John Sullivan não é o nome mais
comum do. .
– Do que está falando, Mary?
Ela lhe entregou o jornal, que estava aberto em uma página no meio do
tablóide.
– Eles disseram que aconteceu enquanto ele voltava para casa. Sinto muito,
querido.
Ela tinha que estar errada, esse foi seu primeiro pensamento; as pessoas não podiam morrer logo após você tê-las visto e falado com elas, parecia uma regra básica, de algum modo.
Mas era ele, pode crer, e em triplicata: Sully em um uniforme colegial de beisebol, com uma máscara de apanhador empurrada para o topo de sua
cabeça, Sully em seu uniforme do exército com um distintivo de sargento
na manga, e Sully em um terno de negócios que deveria ser do im dos
anos setenta. Abaixo da ila de fotos estava o título da matéria que você encontraria apenas no Post:
SENTIDO!
VETERANO ESTRELA DE PRATA DO VIETNÃ MORRE
EM ENGARRAFAMENTO EM CONNECTICUT
Dieffenbaker leu a história rapidamente, tendo aquela sensação de nervoso e traição que ele sempre sentia nestes dias quando ele lia uma
notícia de morte de alguém de sua idade, de alguém que ele conhecia.
Ainda estamos jovens demais para mortes naturais, ele sempre pensou , sabendo que era uma idéia tola.
Sully havia aparentemente morrido de um ataque do coração enquanto estava preso em um engarrafamento causado por um caminhão
acidentado. Ele também poderia ter morrido ao ter descoberto o preço de
seu próprio produto, o artigo lamentava. Como o título SENTIDO, tais
epifanias só poderiam ser encontradas no Post. O Times era um bom jornal se você fosse inteligente; o Post era um jornal para bêbados e poetas.
Sully deixara uma ex-esposa e nenhum ilho. Os preparativos do funeral
estavam sendo feitos por Norman Oliver, do Primeiro Banco de Con iança
de Connecticut.
Enterrado por seu banco! Dieffenbaker pensou, suas mãos começando a tremer.
Ele não tinha idéia do porquê deste pensamento enchê-lo de terror, mas
ele o fez. Pela porra do seu banco! Oh, cara!
– Querido? – Mary olhava um pouco nervosa para ele. – Tudo bem?
– Sim. – ele disse. – Ele morreu em um engarrafamento. Talvez nem
tenham podido levá-lo em uma ambulância. Talvez nem tenham percebido
até que o tráfego começou a andar novamente. Cristo.
– Não. – ela disse, e tirou o jornal dele. Sully havia ganhado sua Estrela de
Prata por resgate, é claro, o resgate do helicóptero. Os congues estiveram atirando, mas Packer e Shearman lideraram um bando de soldados
Americanos, a maioria deles Delta 2-2. Dez ou doze soldados da Companhia
Bravo havia feito uma cobertura confusa e provavelmente não muito
efetiva enquanto a operação de resgate acontecia. . e para o espanto geral,
dois dos homens nos helicópteros destroçados estavam vivos, ao menos até
saírem da clareira. John Sullivan havia carregado um sem cobertura, o cara
do helicóptero berrando em seus braços, coberto de bolhas.
Malenfant havia corrido para a clareira também. Malenfant carregando um
dos extintores como um grande bebê vermelho, e gritando para os congues na moita para atirarem nele se pudessem, exceto que não puderam, ele sabia que não poderia, eles eram apenas um bando de merdas de olhos
puxados e não conseguiriam atingi-lo, não poderiam acertar um maldito
elefante se estivessem em sua frente. Malenfant também havia
“concorrido” a uma Estrela de Prata, e embora Dieffenbaker não pudesse
dizer com certeza, ele supôs que o cuzão assassino com a cara coberta de
espinha tivesse ganhado uma. Sully sabia ou tinha adivinhado? Ele teria
mencionado enquanto estavam sentados juntos do lado de fora do salão do
funeral? Talvez; talvez não. Medalhas têm um jeito de parecerem inúteis
com o passar do tempo, mais e mais como um prêmio que você ganhou na
escola por memorizar um poema ou uma carta que você ganhou no colégio
por ser um corredor, e bloquear a prata da casa quando o arremesso era
feito.
Apenas algo que você guardava na gaveta. Elas eram coisas que os velhos
usavam para impressionar crianças. As coisas que eles usavam para te
fazer pular mais alto, correr mais rápido, fazer você voar. Dieffenbaker
achou que o mundo provavelmente seria um lugar melhor sem velhos
(essa revelação chegando no momento em que ele já estava pronto para
ser um). Deixe as velhas viverem, velhas nunca machucaram ninguém
como uma regra, mas velhos são mais perigosos do que cães raivosos.
Atirem em todos eles, então molhem seus corpos com gasolina, e então
taquem fogo. Deixem as crianças juntarem as mãos e dançarem ao redor
da fogueira, cantando músicas melosas do interior.
– Você está realmente bem? – Mary perguntou.
– Sobre Sully? Sim. Eu não o via há anos.
Ele bebericou o café e pensou sobre a velha senhora de tênis vermelhos, a que Malenfant havia matado, a que veio visitar Sully. Ela não iria mais visitar Sully; havia pelo menos isso. Os dias de visita da velha mamasan haviam terminado. Era como as guerras realmente terminavam,