História e Memória
Antigo/moderno
1. Um par ocidental e ambíguo
O par antigo/moderno está ligado à história do Ocidente, embora possamos encontrar equivalentes para ele em outras civilizações e em outras historiografias. Durante o período pré-industrial, do século V ao XIX, marcou o ritmo de uma oposição cultural que, no fim da Idade Média e durante as Luzes, irrompeu na ribalta da cena intelectual. Na metade do século XIX transforma-se, com o aparecimento do conceito de 'modernidade', que constitui uma reação ambígua da cultura à agressão do mundo industrial. Na segunda metade do século XX generalizase no Ocidente, ao mesmo tempo que é introduzido em outros locais, principalmente no Terceiro Mundo, privilegiando a idéia de 'modernização', nascida do contato com o Ocidente.
A oposição antigo/moderno desenvolveu-se num contexto equívoco e complexo. Em primeiro lugar, porque cada um dos termos e conceitos correspondentes nem sempre se opuseram um ao outro: 'antigo' pode ser substituído por 'tradicional' e moderno, por 'recente' ou 'novo') e, em seguida, porque qualquer um dos dois pode ser acompanhado de conotações laudatórias, pejorativas ou neutras. Quando o termo 'moderno' aparece no baixo latim, só tem o sentido de 'recente' que mantém por muito tempo, ao longo da Idade Média; 'antigo' pode significar 'que pertence ao passado' e, com mais precisão, à época da história a que o Ocidente, desde o século XVI, chama Antiguidade, ou seja, a época anterior ao triunfo do Cristianismo no mundo greco-romano, da grande regressão demográfica, econômica e cultural da Alta Idade Média, marcada pela diminuição da escravatura e pela intensa ruralização.
Quando, a partir do século XVI, a historiografia dominante no Ocidente, a dos eruditos secundada pela dos universitários, divide a história em três Idades: Antiga, Medieval e Moderna (neuere, em alemão), cada um dos adjetivos apenas remete, na maior parte dos casos, a um período cronológico e o termo 'moderno' opõe-se mais a 'medieval' do que a 'antigo'. Finalmente, esta grelha de leitura do passado nem sempre corresponde ao que os homens desse passado pensavam. Stefan Sviezanwski, referindo-se ao esquema via antiqua-via moderna que, a partir do século XIX, domina a análise dos historiadores do pensamento do fim da Idade Média, considera que este modelo não é "utilizável pela historiografia doutrinária desta época, com inúmeras reservas e restrições" e acrescenta: "Este esquema não é geral, nem no tempo, nem no espaço; o conceito de progresso e de vitalidade então vigentes nem sempre coincidem com o que na época se considerava novo e, o par de conceitos "moderno/antigo" comporta, então, ambigüidades que deixam o historiador perplexo" (em "Miscellanea Mediaevalia, nº 9, pp. 492-93).
Finalmente, a modernidade pode camuflar-se ou exprimirse sob as cores do passado, entre outras, as da Antiguidade. É uma característica das "renascenças" e, em especial, do grande Renascimento do século XVI. A moda retro é hoje uma das componentes da modernidade.
Neste par, o principal problema está do lado do 'moderno'. Se 'antigo' complica o jogo porque, a par do sentido de remoto, se especializou na referência ao período da Antiguidade, quem conduz o par é 'moderno'. O pôr em jogo do antagonismo antigo/moderno é constituído pela atitude dos indivíduos, das sociedades e das épocas perante o passado, o seu passado. Nas sociedades ditas tradicionais, a Antiguidade tem um valor seguro; os Antigos dominam, como velhos depositários da memória coletiva, garantes da autenticidade e da propriedade. Estas sociedades voltam-se para os conselhos dos antigos, os senadores, a gerontocracia. Nos Aladianos da Costa do Marfim, antes da colonização, o chefe supremo da fratria era o nanan, o mais antigo da mais antiga classe de idades e os akoubeote, chefes da aldeia, eram provavelmente designados automaticamente pelo critério da idade. Na Idade Média, nos países de direito consuetudinário, a antiguidade de um direito, confirmada pelos membros mais velhos de uma comunidade, constitui um argumento jurídico de peso. Não podemos, porém, pensar que mesmo nas sociedades antigas ou arcaicas não existia também uma face nefasta da idade, da antiguidade. A par do respeito pela velhice, há o desprezo pela decrepitude. Fez-se justiça à etimologia que aproximava a palavra grega géron 'velho' do termo géras 'honra'. Émile Benveniste [1969] lembrou que géron devia ser relacionado com o sânscrito jarati 'ser decrépito'; e acrescenta: "É certo que a velhice está rodeada de respeito; os velhos formam o conselho dos antigos, o Senado; mas nunca lhes são prestadas honras reais, nunca um velho recebe um privilégio real, um géras no sentido rigoroso do termo" (pp. 48-49). Nas sociedades guerreiras o adulto é exaltado por oposição à criança e ao velho. O mesmo acontece na Grécia antiga, tal como nos mostra Hesfodo. As Idades do Ouro e da Prata são idades de vitalidade, as Idades do Bronze e dos Heróis são idades que ignoram a juventude e a velhice, enquanto que a Idade do Ferro é a da velhice que, se se abandonar à hybris, acabará com a "morte impressionante dos homens que nasceram velhos de têmporas brancas". Na metáfora das idades da vida, o 'antigo' participa, assim, da ambigüidade de um conceito que oscila entre a sabedoria e a senilidade.