História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 31 de 74

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História e Memória

2. As Idades Míticas na Antiguidade greco-romana

 

A preocupação com os últimos tempos parece ter sido secundária, quer nos Gregos, quer nos Romanos da Antiguidade. Em contrapartida, a especulação sobre as origens, a crença numa Idade do Ouro primitiva e as esperanças de retorno a esse paraíso original eram muito fortes. Os mitos que exprimem estas concepções chegaram até nós quase sempre através de textos literários, muitos dos quais da autoria dos maiores escritores gregos e latinos e outros, de poetas considerados de segunda ordem, porque foram tratados injustamente pela tradição humanista ocidental dos tempos modernos.

2.1 Hesíodo

Encontramos a primeira expressão coerente de uma série de idades míticas no poema Os trabalhos e os dias de Hesíodo (meados do século VII a.C.). Constatou-se que Hesíodo tinha misturado dois temas já existentes, o de um mito das quatro idades com nomes de metais, por ordem decrescente de excelência e a lenda de uma Idade dos Heróis, inserida entre a terceira e quarta idades.

"De ouro foi a primeira raça de homens mortais, / que os Imortais, habitantes do Olimpo, criaram / Era o tempo de Cronos, que reinava no Céu. / Viviam como deuses, o espírito livre e despreocupado, / à margem de penas e misérias; / a terrível velhice não lhes pesava, sempre de membros vigorosos, deleitavam-se nos festins, longe de todo o mal. / Quando morriam, pareciam vencidos pelo sono. Todos os bens lhes pertenciam: o solo fértil oferecia-lhes por si / abundantes e saborosos frutos; e eles, na glória e na paz, viviam da terra, rodeados de inúmeros bens" [vv. 109-19].

Este texto, de capital importância, deu, senão o tema, pelo menos o nome a essa idade primitiva de felicidade, que é preciso reencontrar. Da raça evocada por Hesíodo, os nostálgicos da era paradisíaca fizeram uma Idade do Ouro. A metáfora dos metais foi muitas vezes retomada. Já aqui vemos aparecer os principais caracteres das idades míticas e, sobretudo, da Idade do Ouro. Voltaremos a este tema.

"As três raças restantes (que se tornaram o símbolo das idades) estão marcadas com os estigmas da decadência. Depois, uma raça inferior, uma raça de prata, foi criada mais tarde pelos habitantes do Olimpo. Estes homens não se assemelhavam, nem pela estatura, nem pela inteligência, aos da raça de ouro. A criança crescia durante cem anos, brincando dentro de casa, junto da sua digna mãe, mantendo-se com o espírito completamente pueril. E quando, crescendo em idade, atingia o tempo que marca a adolescência, vivia pouco tempo e, por causa da sua loucura, sofria mil penas. Não conseguiam abster-se de loucos excessos. Recusavam-se a prestar culto aos imortais... Então Zeus, filho de Cronos, envelheceu-os..." [vv. 127-38].

"E Zeus, pai dos deuses, criou uma terceira raça de homens mortais, a do bronze, muito diferente da raça de prata, provinda do freixo, terrível e poderosa. Só pensavam nos trabalhos funestos de Ares e eram insolentes. Não comiam pão. O seu ânimo era firme como o aço; eram inquebrantáveis. Poderosa era a sua força, invencíveis os braços ligados pelos ombros, aos seus corpos vigorosos. As suas armas eram de bronze, em bronze as casas, em bronze trabalhavam, pois não havia o negro ferro. Sucumbiam à sua própria força" [vv. 143-521.

"E praza ao céu que eu não tivesse de viver entre os da quinta raça e a minha morte tivesse sido mais cedo ou pudesse ter nascido mais tarde. Porque esta é a raça do ferro. De dia, sofrerão fadigas e misérias e, de noite, serão consumidos por duras angústias que os deuses lhes enviarão. Mas, no entanto, algum bem será misturado aos seus males.

"Zeus aniquilará também esta raça de mortais... Então o pai não será igual aos filhos, nem estes ao pai, nem o hóspede ao hospedeiro, o amigo ao amigo, não haverá amor entre irmãos, como era antigamente. Pelos pais, logo que envelheçam, só sentirão desprezo... Não terá mais valor um juramento, a justiça, ou o bem; honrarão antes o criminoso e o insolente. O único direito será a violência e a vergonha não existirá... Contra o mal, não haverá recurso" [vv. 174-202].

Entre a raça de bronze e a raça de ferro, sabe-se que Hesíodo intercalou, vinda sem dúvida de um outro mito, outra raça, a dos Heróis: "Zeus, filho de Cronos, modelou ainda outra raça sobre a terra fecunda, mais justa e mais corajosa, a raça divina dos heróis, chamados semideuses. Alguns morreram nas guerras; a outros, Zeus, filho de Cronos, e pai dos deuses, concedeu uma vida e uma morada longe dos homens, colocando-os nos confins da terra. É aí que eles habitam, com o espírito livre de cuidados, na Ilha dos Bem-aventurados, nas margens do Oceano, de profundas correntes. Felizes heróis para quem a terra fecunda, florindo três vezes por ano, produz doces e abundantes frutos" [vv. 156-73].

Este texto fundamental de Hesíodo é complexo. Em primeiro lugar, se é certo que há deterioração contínua, da primeira à quinta raça, não só a quarta raça introduz uma descontinuidade nesta decadência, como permite supor a criação de uma raça melhor e depois da Idade do Ferro, a vinda de uma idade mais feliz, pois que Hesíodo se lamenta de "ter morrido muito tarde" ou "ter nascido muito cedo". Portanto, mais do que de um verdadeiro declínio contínuo, fala-se em Os trabalhos e os dias de um retorno à Idade do Ouro. Sabe-se que Hesíodo, longe de se entregar ao desespero nesta Idade do Ferro, exorta a uma vida de coragem e trabalho e, na primeira parte do poema, apresenta um outro mito, que não exalta o fiar niente da Idade do Ouro, mas sim a atividade criadora do homem, o mito de Prometeu. Note-se ainda que um elemento, que habitualmente faz parte da Idade do Ouro, aparece aqui na Idade dos Heróis – o tema da Ilha dos Bem-aventurados.

Assim, o poema de Hesíodo apresenta distorções essenciais, quanto aos temas das Idades Míticas: quatro idades que são cinco, se assim se pode dizer; uma Idade do Ouro, um ciclo de decadência que conhece altos e baixos e não acaba, nem numa catástrofe final, nem num retorno ao tempo primitivo. E, se o tema da idade do ouro apresenta os caracteres habituais e correntes, os valores exaltados por Hesíodo estão mais marcados do que é habitual, pela ideologia e ética da Grécia arcaica: a fertilidade agrícola, a recusa do excesso (hybris) a piedade para com os pais, os hóspedes, os amigos e os deuses, a consciência individual (aidós), a justiça (dikê) e o bem (agathón).

Hesíodo permanece, pois, o primeiro testemunho do que Lovejov e Boas [1935] chamaram o primitivismo cronológico.

Após Hesíodo, na literatura greco-latina, o tema da Idade do Ouro perderá grande parte do seu caráter mítico, para se tornar essencialmente ético para alguns autores, enquanto que, para outros, as quatro idades se reduzem a duas, estando a Idade de Cronos (ou Saturno) em nítida oposição com a Idade de Zeus (ou Júpiter).

Na Idade do Ouro, diz-nos o poema de Aratos, os Fenômenos (século IV a.C.), a Virgem, que simboliza a Justiça, vivia com os homens que eram pacíficos, vegetarianos e viviam com simplicidade; ignoravam o comércio marítimo e a sua prosperidade vinha-lhes da agricultura ("dos bois e da charrua"). Mas, com a Idade da Prata e a Idade do Bronze, os homens tornaram-se guerreiros e carnívoros e a Justiça foi-se afastando deles progressivamente. Não se trata aqui de criações sucessivas, mas da evolução da mesma raça humana ao longo de três idades.

2.2. Ovídio

O ponto de chegada das concepções de Hesíodo sobre as Idades Míticas na Antiguidade é Ovídio, cuja difusão na Idade Média e no Renascimento assegurou a fortuna perene da concepção de uma felicidade primitiva, simbolizada, não por uma raça de ouro, mas, mais propriamente, por uma Idade do Ouro (aurea aetas) da humanidade.

A descrição de Ovídio da Idade do Ouro encontra-se no livro I das Metamorfoses [vv. 76-215], mas o tema reaparece no livro XV [vv. 75-142] e no livro III dos Amores [VIII, vv. 35-56].

"A primeira idade foi a do ouro / em que, sem lei nem castigo, espontaneamente / os homens praticavam a boa-fé e a justiça. / Não temiam os castigos, nem estavam escritas no bronze / ameaçadoras leis, e a turba suplicante / Não temia as palavras dos juízes. / Sentiam-se seguros, sem precisar de proteção. / Os pinheiros não se cortavam das montanhas / e não desciam as correntes dos rios / para visitar outras terras; e os mortais / não conheciam outras margens, além das suas; / ainda não havia profundos fossos em volta dos castelos; / não havia trombetas, nem corno de bronze, nem espadas, nem elmos. / E, sem guerras, viviam tranqüilos num doce repouso. / A terra era virgem, sem precisar de enxadas ou charruas / nem ser sulcada pelo arado, produzia tudo, em liberdade: / alegres, com os alimentos que ela dava, sem trabalho / colhiam os frutos das árvores, os morangos dos bosques, os mirtilos / as amoras pendentes das noites espinhosas / e as landes caídas da grande árvore de Júpiter. / A Primavera era eterna, e os doces zéfiros acariciavam / com seus tépidos sopros, as flores aparecidas sem prévia sementeira. / Embora por arar, a terra abundava de cereais e o campo / não desbravado ondulava de pesadas espigas: / rios de leite e néctar corriam e o loiro mel escorria do verde carvalho" [Metamorfoses, I, vv. 89-112].

Zeus, depois de ter mandado Saturno para Tártaro, criou as quatro estações, o calor e o frio: os homens vivem em casas, o pão é cortado pela família, os bois gemem sob o jugo. É a Idade da Prata. E a Idade do Bronze ainda é pior. Aparecem todas as espécies de males; o pudor, a verdade e a boa-fé desaparecem; a mentira, a astúcia, a covardia e a violência desencadeiam-se. Os barcos aparecem pela primeira vez, ao mesmo tempo que a propriedade privada. Os homens revolvem as entranhas da terra para extraírem o ouro e o ferro, construir armas e fazer a guerra. A hospitalidade e a piedade familiar desaparecem e nasce o desprezo pelos deuses. A piedade é vencida e a justiça foge para longe. No livro dos Amores [III, VIII, vv. 35-56] Ovídio sublinha a ausência da prata (dinheiro) na Idade do Ouro e opõe a Idade de Saturno à Idade de Júpiter, como a Idade da Agricultura à Idade do Comércio.

Segundo a análise de Lovejoy e Boas [1935, p. 47], a Idade do Ouro de Ovídio apresenta as seguintes características: 1) um regime anárquico sem poder, sem leis, sem propriedade privada; 2) o reino da paz; 3) ausência de comércio e de viagens; 4) o arcaísmo tecnológico; 5) o vegetarianismo; 6) uma moral de inocência primitiva, numa espécie de País da Abundância (variante do Paraíso e do país da Idade do Ouro, aparecida na Idade Média, como se verá). Em algum lugar, nas Metamorfoses [XV, vv. 75-142], Ovídio só opõe duas idades míticas: a Idade do Ouro e uma Idade injusta e sangrenta, aparecida quando um inovador, que a humanidade bem dispensaria (non utilis auctor), comete o primeiro crime, matando os animais selvagens para os comer. Em parte alguma, porém, Ovídio alude ao retorno à Idade do Ouro.

As mal conhecidas festas gregas das Cronia e as romanas das Saturnalia, só no âmbito das práticas religiosas gregas e romanas, podem ser interpretadas, são a instauração efêmera de um mundo invertido que, como indica explicitamente um texto de Trogo Pompeu (início do século I d.C.) conservado por Justino [Historiaram Philippicarum epitome, XLIII; 1, 3-4], era considerado um regresso à idade do Ouro, em que os escravos, se não eram senhores, eram pelo menos iguais aos homens livres, as guerras estavam suspensas e os tribunais não funcionavam.

2.3 A teoria dos ciclos

Mas, a par das concepções de uma Idade do Ouro seguida de uma ou várias idades de decadência, a Idade do Ouro aparece em filósofos e escritores da Antiguidade num outro contexto – o de ciclos de idades que implicam o retorno da Idade do Ouro.

Na Antiguidade, a paternidade da teoria dos ciclos foi atribuída a Heráclito que, segundo Actuius, atribuiu a cada ciclo uma duração de 18 000 anos. Sob a ação do fogo, elemento fundamental, o mundo conhece, através dos contrários em perpétuo fluxo de interação, fases alternadas de criação (génesis) e de desintegração (ekpûrosis) que se exprimem por uma alternância de períodos de guerra e de paz.

Empédocles distingue, no interior de um ciclo, uma fase a que chama a "Idade do Amor" (kúpris basileia 'a rainha Amor'): "Os homens veneravam-na com estátuas sagradas, pinturas e perfumes sabiamente misturados, oferendas de mirra pura e incenso perfumado, espalhando no solo libações de mel. O altar não brilhava do sangue dos touros, pois que tirar a vida e devorar as vísceras era o mais abominável dos atos" [Empédocles, em Diels e Kranz, 1951, 31, B.128]. "Todos eram amáveis e obedientes aos homens, animais -e pássaros e todos revelavam um doce afeto recíproco" [ibid., B.130]. Os filósofos estóicos (Zenão, Cleonte, Crisipo e Possidônio) difundiram a teoria dos ciclos. Segundo Eusébio e Nemésio, autores da Antiguidade, os estóicos pensavam que, durante longos períodos, tudo se dissolveria num fogo aéreo, para voltar a tomar forma e assim sucessivamente. A palavra 'destruição' significava só 'mudança' e todas as idades voltariam a existir com as mesmas coisas e os mesmos homens.

Mas os que deram ao primitivismo (e através dele à Idade do Ouro) as formas mais provocantes foram os cínicos no século IV a.C. Não podendo praticar todas as formas de vida primitiva que defendiam, esforçavam-se por viver o mais próximo possível do que pensavam ser o estado natural, a Idade original. Queriam bastar-se a si próprios, vendendo todos os bens e vivendo frugalmente. Consideram inúteis as artes e as ciências, comendo os alimentos crus, defendendo a comunidade de mulheres e crianças, o incesto, a antropofagia, um comportamento semelhante ao dos animais.

Um escritor grego do século II d.C., Massimo de Tiro, identificou o ideal de vida dos cínicos com o da Idade do Ouro, na sua Dissertação XXXVI. Este Rousseau do século II, apresentando Diógenes como modelo, imagina uma discussão entre um "bom selvagem", praticante da vida dos cínicos e primitivos do tempo de Saturno, e um "civilizado". Toda a sua simpatia vai para o selvagem, o homem que vive "nu, sem casa, sem artes nem ofício, que substitui a casa e a família pelo mundo inteiro". A vida civilizada é uma prisão onde os homens pagam frívolos prazeres com terríveis males. Quem é tão estúpido, pergunta Massimo de Tiro, que prefira pobres e efêmeros prazeres, bens duvidosos e incertas esperanças, equívocos sucessos, a uma vida que é, com certeza, um estado de felicidade?

2.4 A Écloga IV de Virgílio

O mais célebre texto da Antiguidade que evoca a eventualidade, ou mesmo, a eminência de um retorno à Idade do Ouro, é a Écloga IV de Virgilio [cf. Carcopino, 1930; Jeanmaire, 1939]. Virgílio, identificando a Idade de Saturno com a Idade de Ouro, equiparou-a, na Eneida [VIII, vv. 314-27], ao reino mítico de Saturno na Itália, no Lácio, "onde civilizou uma raça indócil e dispersa pelas altas montanhas e lhe deu leis" e, em seguida, "governou o seu povo em paz até que, pouco a pouco, a idade se foi deteriorando lentamente, dando lugar ao furor bélico e ao amor da propriedade". Assim se forma uma Idade do Ouro não primitiva: uma idade de civilização e de progresso, o que não nos surpreende num poeta que, nas Geórgicas [I, vv. 125-55], depois de ter apresentado um quadro condescendente da Idade do Ouro, faz o elogio da Idade de Júpiter, em que o homem teve de aprender o efeito benéfico da lei sagrada do trabalho.

Resta, pois, a famosa Écloga IV. Virgílio considera eminente o regresso da Virgem e da Idade de Saturno, o regresso da Idade do Ouro, que substituiria a Idade do Ferro. As expressões usadas por Virgilio – ultima aetas 'a idade do fim', magnus saeculorum ordo 'o grande ciclo dos séculos', nova progenies 'uma nova raça', ferrea gens et aurea gens 'raça de ferro e raça de ouro', saturnia regna 'o reino de Saturno', redit Virgo 'o regresso da Virgem', magni menses 'os grandes meses' – constituem uma referência à sucessão das raças de Hesíodo e ao tema da Idade do Ouro, semelhante ao do reino de Saturno, mas também, uma referência à Virgem da Idade do Ouro de que fala Aratos (de quem foram feitas várias traduções latinas, inclusive do próprio Cícero), à teoria estóica dos ciclos, tendo, porém, em vista um retorno eminente da Idade do Ouro, entendida como idade do fim, como fim da história.

Virgílio faz uma descrição da Idade do Ouro semelhante às já mencionadas. A paz reinará, os animais selvagens confraternizarão com os domésticos, as serpentes e as ervas venenosas desaparecerão, os campos abundarão de colheitas, frutos e mel. Ficarão, no entanto, ainda alguns traços de imperfeição das idades anteriores: os homens continuarão a navegar, construirão muralhas e trabalharão a terra. Mas, dentro em pouco, já não serão precisos barcos, porque cada país produzirá tudo em abundância, não será preciso trabalhar a terra, nem tingir as peles, porque os felinos e os cordeiros terão peles coloridas.

Virgílio alude expressamente aos oráculos da Sibila e aos textos sagrados de Cuma. Verificou-se que a principal fonte de Virgílio, na Écloga IV, foi a literatura profética chamada sibilina que, pelo menos desde o século III a.C.,se tinha espalhado pelo Oriente, sobretudo nos meios judaicos, mas já depois de ter sofrido fortes influências helenísticas, principalmente no Egito, e dado origem a uma teoria cíclica de dez idades ou Eous, terminava com o retorno a uma Primeira Idade feliz, identificada, por vezes, especialmente no Egito, como o reino do Deus-Sol.

Virgílio diz: "Eis que reina Apolo". Verificou-se que, entre o fim da República Romana e o princípio do Império, predominava uma mentalidade e, até, uma mística de "renovação", especialmente perceptível nos símbolos e inscrições das moedas, com a presença dominante dos símbolos solares (como, por exemplo, as moedas de Antônio). Este segundo século, que voltaria a ser o primeiro, iniciava-se sob os auspícios da "Senhora dos últimos Tempos".

Embora o Judaísmo e o Cristianismo tenham rompido com as concepções do eterno retorno e do tempo cíclico dos Gregos, atribuindo à história um sentido e um fim, a literatura sibilina, transmitida aos cristãos pelos judeus, imbuída de influências gnósticas, favoreceu a crença hebraica na vinda de um Messias e a concepção apocalíptica cristã de um Milênio. Nos primeiros séculos da Era Cristã, a noção de Idade do Ouro encontrou-se numa encruzilhada de concepções e tendências pagãs, judaicas, cristãs e gnósticas. É pois evidente e certo que, contrariamente a ulteriores interpretações cristãs (as profecias sibilinas conhecerão também grande relevo na Idade Média cristã e no Renascimento), Virgílio, quando fala da Virgem ou da criança, de modo algum anuncia Maria, Jesus ou a religião cristã.

2.5 Platão e Aristóteles

Encontramos, por fim, a teoria dos ciclos e uma certa concepção da Idade do Ouro, na obra de dois grandes filósofos da Antiguidade grega, Platão e Aristóteles, sob uma forma que se afasta dos mitos tradicionais.

Platão fala das Idades Míticas e das várias fases da civilização, em quatro diálogos: Político, Timeu, Críticas e Leis.

No Político, Platão imagina duas espécies de ciclos: quando o sol, os astros e as coisas humanas são guiados pelos Deuses predomina o Bem; quando os Deuses descuram as coisas, a matéria, princípio do Mal, tudo arrasta consigo. Todavia os Deuses reassumem o controle das coisas e a ordem é restaurada. Depois, o caminho do mundo inverte o seu sentido, os velhos tornam-se jovens, os jovens crianças e as crianças cada vez menores até que, por fim, desaparecem. Certamente, diz Platão, que no tempo de Cronos os homens viviam mais perto do estado natural; mas nenhum documento nos permite dizer se eram felizes. De qualquer modo, na atual Idade de Zeus, as primeiras fases não foram perfeitas, porque os homens não tinham artes, nem capacidades de invenção e o alimento acabou por lhes faltar. Felizmente, alguns deuses e heróis, principalmente Prometeu, Hefesto e Atena, deram aos homens o fogo, a arte de trabalhar os metais e a agricultura e, assim, a humanidade conseguiu progredir e tomar em mãos o seu destino. Não há, pois, em Platão, idealização da Idade do Ouro, nem sequer a aspiração de um retorno a essa idade.

Também nas Críticas e no Timeu, o mito da Atlântida, ilha afortunada que prefigura um estado utópico, é ambíguo. Se é certo que reinam a justiça, a paz e a abundância, o que se descreve não é um estado de supernatureza, mas de hipercivilização. "Muitas coisas... oferecia então a própria ilha para as necessidades da vida; em primeiro lugar, todas as substâncias sólidas e líquidas que se escavam nas minas: e o metal que agora só se nomeia, auricalco, era então mais que um nome, pois em muitos lugares da ilha se extraía da terra e era, naquele tempo, mais precioso que o ouro... Além disso, quantos perfumes hoje existem na terra, de raízes ou ervas, madeiras ou sumos, destilados das flores e dos frutos, todos ela produzia então com abundância" [Críticas, 114e-115a]. Os habitantes da Atlântida têm leis (excelentes, para dizer a verdade, pois foram-lhe dadas por Poseidon), cidades, templos, palácios e são muito ricos. Por outro lado, quando, também lá, os deuses abandonaram os homens à sua sorte, estes tornaram-se cúpidos e imperialistas, conquistaram um grande império e atacaram a Grécia, mas Atenas resiste-lhes e vence-os. Os deuses, irritados com os habitantes da Atlántida, provocaram um cataclismo e a ilha afundou-se no mar. "Quando a essência divina, misturada com a natureza mortal, neles [os habitantes] se extinguiu, e prevaleceu a natureza mortal, degeneraram por não poderem suportar a prosperidade e aqueles que sabiam ver, tornaram-se torpes por terem perdido as coisas mais belas e mais preciosas; mas principalmente aqueles que não sabiam ver a verdadeira vida, para obter a felicidade, julgaram-se belíssimos e bons, cheios, no entanto, de injusta soberba e prepotência. Mas Júpiter, o próprio deus que governa segundo as leis, tendo compreendido, como só aqueles que sabem ver compreendem, a degeneração de uma estirpe outrora boa, pensou em puni-los, para que, depois de castigados, se tornassem melhores" [ibid., 121b-c].