História e Memória
5. Evolução da relação passado/presente no pensamento europeu da Antiguidade grega ao século XIX
a) "O espírito histórico acredita na realidade do passado e considera que o passado, tal como é, e até certo ponto, no seu conteúdo, não é, por natureza, diferente do presente. Ao reconhecer o passado como já tendo existido, considera que o que aconteceu outrora existiu, teve um lugar e uma data, exatamente da mesma maneira que o que existe, que este acontecimento que hoje tenho debaixo dos olhos... Isto significa que não é permitido, de forma alguma, tratar o acontecido como fictício ou irreal, que a não-atualidade do que teve lugar (ou terá) não pode ser identificada com a sua não-realidade!" [1962, I, p. 11];
b) O passado e o presente são não só diferenciados, como por vezes se opõem: "Se o passado e o presente pertencem à esfera do mesmo, estão também na esfera da alteridade. Se é um fato que o acontecimento passado está acabado e que esta dimensão o constitui fundamentalmente, também é verdade que "a sua qualidade de passado" o diferencia de qualquer outro acontecimento que se lhe pudesse assemelhar. A idéia de que há repetições (res gestae) na história... que "não há nada de novo sob o sol" ou mesmo de que há lições do passado, só tem sentido para uma mentalidade não-histórica" [ibid., I, p. 12].
c) Finalmente, a história, ciência do passado, deve recorrer a métodos científicos de estudo do passado. "É indispensável que o passado, considerado como real e decisivo, seja estudado seriamente: na medida em que os tempos passados são considerados dignos de atenção e lhes é atribuída uma estrutura, em que lhes são dados traços atuais, todo o discurso significativo do passado deve poder estabelecer claramente por que razão – em função de quais documentos e testemunhos – ele dá, de uma dada sucessão de acontecimentos, uma versão e não outra. Convém principalmente que a datação e localização do acontecimento seja muito cuidada, tanto mais que o passado só adquire caráter histórico na medida em que recebe semelhantes determinações" [ibid., pp. 21-22].
"A preocupação de precisão, no estudo do que outrora aconteceu, só no princípio do século passado aparece claramente" com "o impulso decisivo dado por L. von Ranke", professor da Universidade de Berlim entre 1825 e 1871 [ibid., p. 22].
5. Evolução da relação passado/presente no pensamento europeu da Antiguidade grega ao século XIX
Podemos esquematizar as atitudes coletivas perante o passado, o presente (e o futuro) ao dizermos que na Antiguidade pagã predominava a valorização do passado, paralelamente à idéia de um presente decadente; que na Idade Média, o presente está encerrado entre o peso do passado e a esperança de um futuro escatológico; que no Renascimento, o investimento é feito no presente e que, do século XVII ao XIX, a ideologia do progresso volta para o futuro a valorização do tempo. (Apenas se encontrará aqui uma evocação esquemática das atitudes perante o passado e o presente. Ver os artigos "Antigo/moderno", "Escatologia", "Idades míticas", "Memória", "Progresso/reação", "Decadência", "História", nesta mesma Enciclopédia).
O sentimento do tempo, na cultura grega, volta-se para o mito da Idade do Ouro e para as recordações da época heróica. O próprio Tucídides não vê, no presente, mais que um futuro passado [Romilly, 1947; 1956] e abstrai totalmente do futuro, mesmo quando o conhece, para mergulhar no passado [Finley, 1967]. A historiografia romana está dominada pela idéia de moralidade dos antigos e o historiador romano é sempre, de certo modo, um "laudator temporis acti", para usar a expressão de Horácio. Tito Lívio, por exemplo, que escreveu no contexto da obra de restauração de Augusto, exalta o passado mais remoto e indica, no Proêmio da sua obra, os motivos da decadência, do passado, no presente: "Quereria que cada um de vós me seguisse com o espírito, para verdes como, diminuindo pouco a pouco a disciplina moral, os costumes de outros tempos começam por se relaxar, vão descendo cada vez mais baixo, e, finalmente, desde que se chegou a estes tempos, estão prestes a cair no precipício" [I, 9].
Pierre Gibert, ao estudar na Bíblia as origens da história, pôs em evidência uma das condições necessárias para que a memória coletiva se torne história, o sentido da continuidade, e julga poder identificá-lo com a instituição da monarquia (Saul, David, Salomão): "É à instituição monárquica que Israel deve o sentido da continuidade, em relação ao conhecimento do seu passado; mesmo tendo ela possuído, de certo modo, através do conjunto das suas lendas, o sentido desse passado, mesmo tendo tido uma certa preocupação de exatidão, só com a monarquia aparece o sentido de uma continuidade sem rupturas" [1979, p. 391]. Mas com a Bíblia a história hebraica está, por um lado, fascinada pelas suas origens (criação, a aliança de Yavéh com o seu povo) e, por outro, voltada para um futuro igualmente sagrado: a vinda do Messias e da Jerusalém celeste que, com Isaías, se abre a todas as nações.
O Cristianismo, por entre as origens obscuras do pecado original e da queda, e o "fim do mundo", a parousia, cuja espera não deve perturbar os cristãos, vai esforçar-se por centrar a atenção no presente. De S. Paulo a Santo Agostinho até os grandes teólogos da Idade Média, a Igreja procurará orientar o espírito dos cristãos para um presente que, com a encarnação de Cristo, ponto central da história, inicia o fim dos tempos. Mircea Eliade mostrou, através de diversos textos de S. Paulo [Epístola aos Tessalônicos, 4,16-17; Romanos, 13, II-12; II Tessalônicos, 3, 8-10; Romanos, 13, 1-7], a ambigüidade desta valorização do presente: "As conseqüências desta valorização ambivalente do presente (na espera da parousia, a história continua e deve ser respeitada) não deixam de se fazer sentir. Apesar das inúmeras soluções propostas a partir do fim do primeiro século, o problema do presente histórico mantém-se, ainda hoje, no pensamento contemporâneo" [Eliade, 1978, p. 336].
De fato, o tempo medieval vai bloquear o presente entre uma retro-orientação para o presente e um futuro-tropismo, especialmente acentuado no milenarismo (cf. o artigo "Escatologia"). A Igreja, ao reprimir ou condenar os movimentos milenaristas, favorecia a tendência para privilegiar o passado, reforçada pela teoria das seis idades do mundo, segundo a qual o mundo teria entrado na sexta e última idade, a da decrepitude, da velhice. No século XII Guillaume de Conches declarava que não passamos de comentadores dos antigos, não inventamos nada de novo. O termo 'antiguidade' (antiquitas) era sinônimo de 'autoridade' (auctoritas), 'valor' (gravitas), 'grandeza', `majestade' (maiestas).
Stelling-Michaud sublinhou que, oscilando entre o passado e o futuro, procuraram viver o presente de modo atemporal num instante que corresponde a um átomo de eternidade [1959, p. 13]. Santo Agostinho a isso exorta os cristãos nas Confissões e na Cidade de Deus: "Quem o parará, a este pensamento (flutuante, ao sabor das ondulações do passado e do futuro), quem o imobilizará, para lhe dar um pouco de estabilidade, para o abrir à intuição do esplendor da eternidade sempre imóvel?" [Confissões, XI, 13]. E ainda: "Os anos são como um só dia... e o teu hoje não dá lugar a um amanhã, tal como não sucede a um ontem. O teu hoje é a eternidade..." [ibid., 13-16]. Ou ainda: "Comparada com um momento da eternidade, a mais longa duração não é nada" [De civitate Dei, XII, XII].
Dante exprimirá magnificamente esta idéia [Paraíso, XXXIII, vv. 94-96] com a ajuda da imagem do ponto, como esclarecimento da eternidade: "Un punto solo m'è maggior letargo/che venticinque secoli a Ia 'empresa/ che fé Nettuno ammirar l'ombra d'Argo".
Também os artistas da Idade Média revelam atração pelo passado, o tempo mítico do Paraíso, a procura do momento privilegiado, que arrasta para o futuro a salvação ou a danação. Estes artistas procuraram fundamentalmente exprimir o atemporal. Movidos por um "desejo de eternidade" recorreram com freqüência ao símbolo, que faz comunicar as diferentes esferas: o passado, o presente e o futuro. O Cristianismo é uma religião da intercepção [cf. Morgan, 1966].
O presente é também saboreado pelo homem da Idade Média, que atualiza constantemente o passado, nomeadamente o passado bíblico. O homem da Idade Média vive num constante anacronismo, ignora a cor, reveste as personagens da Antiguidade de hábitos, sentimentos e comportamentos medievais. Os cruzados acreditavam que iam a Jerusalém vingar os verdadeiros carrascos de Cristo. Mas talvez possamos dizer: "O passado não é estudado enquanto passado; ele é revivido e incorporado no presente" [Rousset, 1951, p. 631]? O presente já não é absorvido pelo passado, pois só este lhe dá sentido e significado?
Mas, no final da Idade Média, o passado é apreendido cada vez mais através do tempo das crônicas, dos processos de datação e medição do tempo, marcado pelos relógios mecânicos. "Passado e presente distinguem-se na consciência da Baixa Idade Média, não só através do seu aspecto histórico, mas através de uma sensibilidade dolorosa e trágica" [Glasser, 1936, p. 95]. O poeta Villon encara tragicamente essa fuga do tempo, esse afastamento irremediável do passado.
O Renascimento parece ser percorrido por duas tendências contraditórias. Por um lado, os progressos feitos na medição, datação e cronologia permitem uma perspectiva histórica do passado [Burke, 1969]. Por outro lado, o sentido trágico da vida e da morte [Tenenti, 1957] pode conduzir ao epicurismo, à fruição do presente que os poetas exprimem, desde Lorenzo, o Magnífico, a Ronsard: "Però, donne gentil, giovani adorni,/ che vi state a cantare in questo loco, / spendete lietamente i vostri giorni,/ ché giovinezza passa a poco a poco" [Lorenzo, il Magnifico, Canzoni a bailo, IX, vv. 21-24].
O progresso científico a partir de Copérnico e sobretudo com Kepler, Galileu e Descartes, serviu de fundamento ao otimismo iluminista que afirma a superioridade dos modernos sobre os antigos (cf. o artigo "Antigo/moderno', neste volume da Enciclopédia) e a idéia de progresso torna-se o fio condutor do historiador que se orienta para o futuro.
O século XIX está dividido entre o otimismo econômico dos partidários do progresso material e as desilusões dos espíritos abatidos pelos efeitos da Revolução e do Império. O Romantismo volta-se deliberadamente para o passado. O pré-romantismo do século XVIII tinha-se interessado pelas ruínas e pela Antiguidade. O seu grande mestre, Winckelmann, historiador e arqueólogo, propôs como modelo de perfeição a arte greco-romana (História de arte da Antiguidade (Geschichte der Kunst des Altertuncs, 1764)) e lançou uma célebre coleção da arqueologia, os Monumenti antichi inediti spiegati ed illustrati, publicados em Roma no ano de 1767. Foi a época das primeiras escavações em Herculano e Pompéia. A Revolução Francesa consagrou o gosto pela Antiguidade. Chateaubriand com Le génie dá Christianisme (1802), Walter Scott com o romance histórico (Ivanhoé, 1819; Quentin Durward, 1823), Novalis com o ensaio A Cristandade e a Europa (Die Christenheit oder Europa, 1826) contribuíram para orientar para a Idade Média o gosto pelo passado. É o grande momento da moda troubadour no teatro, na pintura, na água-forte, na gravura em madeira, na litografia. Durante este período, a França revela, nas suas manifestações artísticas, uma verdadeira "manufatura do passado" [Haskell, 1971]. Podemos distinguir então três períodos distintos: em 1792 a abertura (no ex-convento dos grandes-Agostinhos) de um Museu que, em 1796, se transformou no Museu dos Monumentos Franceses e impressionou vivamente muitos dos seus contemporâneos (por exemplo, Michelet, que lá descobriu o passado da França). Em seguida, Napoleão deu grande impulso à pintura histórica, dedicada à história da França. Os quadros que tratavam da história da França passaram de dois, nos salões de 1801 e 1802, para oitenta e seis, em 1818. Finalmente, Luís Filipe decidiu, em 1833, restaurar Versailles e transformá-lo num museu dedicado "a todas as glórias da França".