História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 6 de 74

Páginas do PDF

História e Memória

4. A história como ciência: o ofício de historiador

 

A melhor prova de que a história é e deve ser uma ciência é o fato de precisar de técnicas, de métodos, e de ser ensinada. Lucien Febvre, restringindo, disse: "Qualifico a história de estudo cientificamente orientado e não de ciência" [1941]. Os teóricos mais ortodoxos da história positivista, Langlois e Seignobos, exprimiram numa fórmula notável que constitui a profissão de fé fundamental do historiador, que é a base da ciência histórica: "Sem documentos não há história" [1898, ed. 1902, p. 2].

No entanto, a dificuldade começa aqui. Se o documento é mais fácil de definir e referenciar que o fato, histórico que nunca é dado tal e qual, mas construído, não são menores os problemas que se põem ao historiador.

Em primeiro lugar, só passa a ser documento na seqüência de uma investigação e de uma escolha – em geral, a investigação não é um assunto do próprio historiador mas de auxiliares que constituem reservas de documentos onde o historiador escolherá a sua documentação: arquivos, investigações arqueológicas, museus, bibliotecas, etc. As perdas, a escolha dos compiladores de documentos, a qualidade da documentação são condições objetivas, mas limitativas do ofício de historiador. Mais delicados são os problemas que se põem ao próprio historiador a partir desta documentação.

Antes. de mais nada, deve decidir-se sobre aquilo que ele irá considerar como documento e o que ele irá rejeitar. Durante muito tempo os historiadores pensaram que os verdadeiros documentos históricos eram os que esclareciam a parte da história dos homens, digna de ser conservada, transmitida e estudada: a história dos grandes acontecimentos (vida dos grandes homens, acontecimentos militares e diplomáticos, batalhas e tratados), a história política e institucional. A idéia de que o nascimento da história estava ligado ao aparecimento da escrita levava a privilegiar o documento escrito. Ninguém mais que Fustel de Coulanges privilegiou o texto como documento histórico. No primeiro capítulo da Monarchie franque, escreveu: "Leis, cartas, fórmulas, crônicas e histórias, todas estas categorias de documentos precisam ser lidas, sem omitir uma única... [O historiador] não tem outra ambição que analisar bem os fatos e compreendê-los com exatidão. Não pode procurá-los na imaginação ou na lógica; procura-os e atinge-os através da observação minuciosa dos textos, como o químico encontra os seus, em experiências minuciosamente conduzidas. A sua única habilidade consiste em tirar dos documentos tudo o que eles contêm e nada acrescentar ao que neles não esteja contido. O melhor historiador é o que se mantém mais perto dos textos, que os interpreta com mais correção, que só escreve e pensa segundo eles" [1888, pp. 29, 30, 33].

Mas em 1862, numa lição na Universidade de Estrasburgo, o próprio Fustel declarara: "Quando os monumentos escritos faltam à história, ela deve pedir às línguas mortas os seus segredos e, através das suas formas e palavras, adivinhar os pensamentos dos homens que as falaram. A história deve prescrutar as fábulas, os mitos, os sonhos da imaginação, todas essas velhas falsidades sob as quais ela deve descobrir alguma coisa de muito real, as crenças humanas. Onde o homem passou e deixou alguma marca da sua vida e inteligência, aí está a história" [1862, p. 245; cf. também Herrick, 1954].

Toda a renovação da história hoje em curso fez-se contra as idéias de Fustel em 1888. Não voltaremos a falar da necessidade de imaginação em história.

Quero todavia referir aqui o caráter multiforme da documentação histórica. Replicando, em 1949, a Fustel de Coulanges, Lucien Febvre afirmava: "A história fez-se, sem dúvida, com documentos escritos. Quando há. Mas pode e deve fazer-se sem documentos escritos, se não existirem... Faz-se com tudo o que a engenhosidade do historiador permite utilizar para fabricar o seu mel, quando faltam as flores habituais: com palavras, sinais, paisagens e telhas; com formas de campo e com más ervas; com eclipses da lua e arreios; com peritagens de pedras, feitas por geólogos e análises de espadas de metal, feitas por químicos. Em suma, com tudo o que, sendo próprio do homem, dele depende, lhe serve, o exprime, torna significante a sua presença, atividade, gostos e maneiras de ser" [1949, p. 4281. Marc Bloch tinha também declarado: "A diversidade dos testemunhos históricos é quase infinita. Tudo o que o homem diz ou escreve, tudo o que fabrica, tudo o que toca pode e deve informar-nos sobre ele" [1941-42, p. 63].

Voltarei a falar da grande extensão da documentação histórica contemporânea, em especial da multiplicação da documentação audiovisual, o recurso ao documento iconográfico em sentido próprio ou figurado, etc. Mas é útil insistir em dois aspectos particulares desta dimensão da investigação documental.

O primeiro diz respeito à arqueologia. O meu problema não é saber se ela é uma ciência auxiliar da história ou uma ciência independente. Apenas faço notar como o seu desenvolvimento renovou a história. Mal deu os seus primeiros passos, no século XVIII, ganhou logo para a história o vasto território da Pré-história e da Proto-história e renovou a história antiga. Intimamente ligada à história de arte e às técnicas, ela é uma peça-chave do alargamento da cultura histórica que se exprime na Enciclopédie. "É na França que os "antiquários" dedicam, pela primeira vez, ao documento arqueológico, objeto de arte, utensílio ou vestígio de construção, um interesse tão vivo como objetivo e desinteressado", diz P. M. Duval que destaca o papel de Peiresc, conselheiro no parlamento de Aix. Mas são os Ingleses que fundam a primeira sociedade científica, onde a arqueologia ocupa um lugar essencial, a Society of Antiquaries de Londres (1707). E é na Itália que começam as primeiras escavações, relativas à descoberta arqueológica do passado em Herculano (1738) e Pompéia (1748). Um francês e um alemão publicam as duas obras mais importantes do século XVIII sobre a introdução do documento arqueológico em história:. Winckelmann, com a História de arte antiga (Geschichte der Kunst des Alterturns, 1764) e o conde de Caylus, com o Recueil dantiquités égyptiennes, étrusques, grecques, romaines et gauloises (1752- 67). Na França, o Museu dos monumentos franceses, de que Alexandre Lenoir foi o primeiro conservador, em 1769, despertou o gosto pela arqueologia e contribuiu para ultrapassar a -visão negativa da Idade Média. Faço notar que a arqueologia foi um dos setores da ciência histórica que mais evoluiu nos últimos decênios: evolução do interesse do seu objeto e do monumento pelo local global, urbano ou rural, depois pela paisagem, arqueologia rural e industrial, métodos quantitativos, etc. [cf. Schnapp, 1980; Finley, 1971]. A arqueologia evoluiu também em direção à constituição de uma história da cultura material que é primeiro "a história dos grandes números e da maioria dos homens" [Pesez, 1978, p. 130; ver também o artigo "Cultura material", no volume XVI da Enciclopédia Einaudi], e que deu origem a uma obra-prima da historiografia contemporânea: Civilisation matérielle et capitalisme, de Fernand Braudel [1967].

Faço também notar que a reflexão histórica se aplica hoje à ausência de documentos, aos silêncios da história. Michel de Certeau analisou com sutileza os "desvios" do historiador para as "zonas silenciosas" das quais dá como exemplo "a feitiçaria, a loucura, a festa, a literatura popular, o mundo esquecido do camponês, a Occitânia, etc." [1974, p. 27]. Falar dos silêncios da historiografia tradicional não basta; penso que é preciso ir mais longe: questionar a documentação histórica sobre as lacunas, interrogar-se sobre os esquecimentos, os hiatos, os espaços brancos da história. Devemos fazer o inventário dos arquivos do silêncio, e fazer a história a partir dos documentos e das ausências de documentos.

A história tornou-se científica ao fazer a crítica dos documentos a que se chama "fontes". Paul Veyne disse [1971] que a história devia ser "uma luta contra a ótica imposta pelas fontes", que "os verdadeiros problemas de epistemologia histórica são problemas de crítica", e que o centro de toda a reflexão sobre o conhecimento histórico deveria ser o seguinte: "O conhecimento histórico é o que dele fizeram as fontes" (p. 265-66). Veyne acrescenta aliás a esta constatação a nota que "não se pode improvisar historiadores... é preciso saber que questões devem ser levantadas, que problemáticas estão ultrapassadas; não se escreve história política, social ou religiosa com as opiniões respeitáveis, realistas ou avançadas que temos, em privado, sobre este assunto" [ibid.].

Os historiadores, sobretudo do século XVII ao XIX, aperfeiçoaram uma crítica de documentos que hoje está adquirida, continua a ser necessária, mas é insuficiente [cf. Salmon, 1969, ed. 1976, pp. 85-140]. Tradicionalmente, distingue-se entre uma crítica interna ou de autenticidade e uma crítica externa ou de credibilidade.

A crítica externa visa essencialmente encontrar o original e determinar se o documento examinado é verdadeiro ou falso. É uma atuação fundamental e exige sempre duas observações complementares.

A primeira é que um documento "falso" também é um documento histórico e que pode ser um testemunho precioso da época em que foi forjado e do período durante o qual foi considerado autêntico e, como tal, utilizado.

A segunda é que um documento, nomeadamente um texto, pode sofrer, ao longo das épocas, manipulações aparentemente científicas que de fato obliteraram o original. Foi brilhantemente demonstrado que a carta de Epicuro e Heródoto conservada nas Vidas, Dogmas e Apotegmas de Filósofos Ilustres, de Diógenes Laércio, foi alterada por uma tradição secular que encheu a letra do texto de notas e correções que, voluntária ou involuntariamente, o sufocaram e deformaram com "uma leitura incompreensível, indiferente ou parcial" [Bollack e outros, 1971].

A crítica interna deve interpretar o significado dos documentos, avaliar a competência do seu autor, determinar a sua sinceridade, medir a exatidão do documento, controlá-lo através de outros testemunhos. Também aqui, e principalmente aqui, este programa é insuficiente.

Quer se trate de documentos conscientes ou inconscientes (traços deixados pelos homens sem a mínima intenção de legar um testemunho à posteridade), as condições de produção do documento devem ser minuciosamente estudadas. As estruturas do poder de uma sociedade compreendem o poder das categorias sociais e dos grupos dominantes ao deixarem, voluntariamente ou não, testemunhos suscetíveis de orientar a história num ou noutro sentido; o poder sobre a memória futura, o poder de perpetuação deve ser reconhecido e desmontado pelo historiador. Nenhum documento é inocente. Deve ser analisado. Todo o documento é um monumento que deve ser desestruturado, desmontado. O historiador não deve ser apenas capaz de discernir o que é "falso", avaliar a credibilidade do documento, mas também saber desmistificá-lo. Os documentos só passam a ser fontes históricas depois de estarem sujeitos a tratamentos destinados a transformar a sua função de mentira em confissão de verdade [cf. o artigo "Documento/monumento", neste volume da Enciclopédia; e Immerwahr, 1960]. 1 Jean Bazin, ao analisar a produção de um conto histórico – a história do aparecimento do célebre rei de Segú (Mali), no início do século XIX, feita por um literato muçulmano apaixonado pela história de Segú, em 1970 –, adverte que "na medida em que não se considera a si próprio ficção, um conto histórico é sempre uma armadilha: poderíamos acreditar com facilidade que o seu objeto lhe dá um sentido, que não ultrapassa aquilo que conta", enquanto que na realidade "a lição da história oculta outra, política ou ética, que, digamos assim, está por fazer" [Bazin, 1979, p. 446]. É necessário, com a ajuda de uma sociologia da produção narrativa, estudar as "condições de historização". Por um lado, deve conhecer-se o estatuto dos "fazedores" de história (esta observação é válida para os vários tipos de produção de documentos e para os próprios historiadores nos diversos tipos de sociedade) e, por outro, reconhecer os sinais do poder, pois "este gênero de conto derivaria de uma metafísica do poder". Quanto ao primeiro ponto, Jean Bazin nota que "entre o soberano e os seus súditos, os especialistas do conto ocupam uma espécie de posição intermediária de ilusória neutralidade: eles são constantemente solicitados a fabricar a imagem que os seus súditos têm do soberano, tal como a que este tem daqueles" [ibid., p. 456]. Jean Bazin aproxima, assim, a sua análise da efetuada por Louis Marin apoiada no Projet de l'histoire de Louis XIV, com o qual Pellisson-Fontanier se esforçava por obter o cargo de historiador oficial. "O rei precisa do historiador pois o poder político só pode atingir a plenitude, o absoluto, com um certo uso da força que é o ponto de aplicação da força do poder narrativo" [Marin, 1979, p. 26; cf. Marin, 1978].

A atualização dos métodos que fazem da história um ofício e uma ciência foi longa e contínua. No Ocidente, conheceu paragens, atrasos e acelerações, por vezes recuos; não avançou em todos os seus aspectos no mesmo ritmo, nem sempre deu o mesmo conteúdo às palavras pelas quais procurava definir os seus objetivos, mesmo o que é aparentemente mais "objetivo", o da verdade. Seguirei as grandes linhas do seu desenvolvimento, do duplo ponto de vista das concepções e dos métodos e, por outro lado, dos instrumentos de trabalho. Os momentos essenciais parecem-me ser o período greco-romano do século V ao I a.C., que inventa o "discurso histórico", o conceito de testemunho, a lógica da história, e funda a história na verdade; o século IV, em que o Cristianismo ilumina a idéia de acaso cego, dá um sentido à história, difunde um conceito de tempo e uma periodização da história; o Renascimento começa por esboçar uma crítica dos documentos, fundada na filosofia e acaba na concepção de uma história perfeita, o século XVII, com os Bolandistas e os Beneditinos de S. Mauro, lança as bases da erudição moderna; o século XVIII cria as primeiras instituições consagradas à história e alarga o campo das curiosidades históricas; o século XIX afina os métodos de erudição, constitui as bases da documentação histórica e vê a história em tudo; o século XX, a partir dos anos trinta, conhece ao mesmo tempo uma crise e uma moda da história, uma renovação e um alargamento considerável do território do historiador, uma revolução documental. A última parte deste trabalho será consagrada a esta fase recente da ciência histórica. Seria aliás errado pensar que as longas fases de tempo, em que a história não deu saltos qualitativos, não conheceram o ofício de historiador, como Bernard Guenée o demonstrou brilhantemente em relação à Idade Média [1980; 1977].

Com Heródoto, o que conta na narração histórica não é a importância do testemunho. Para ele, o testemunho por excelência é o testemunho pessoal, aquele em que o historiador pode dizer: vi e ouvi. Isto é especialmente verdade, na parte da sua investigação dedicada aos bárbaros cujo país percorreu durante as suas viagens [cf. Hartog, 1980]. E também o é quanto à narração das guerras medas, acontecimento da geração que o precedeu, cujo testemunho recolhe diretamente, por ouvir dizer. Esta primazia dada ao testemunho oral e vivido manter-se-á em história, esbater-se-á mais ou menos quando a crítica dos documentos escritos, pertencentes a um passado longínquo, passar a um primeiro plano, mas conhecerá importantes ressurgências. Assim, no século XIII, os membros de novas ordens mendicantes, Dominicanos e Franciscanos, privilegiam, no seu desejo de aderir à nova sociedade, o testemunho oral pessoal, contemporâneo ou muito recente, preferindo inserir nos seus sermões exempla cuja matéria pertence mais à sua experiência (audivi) que à sua ciência libresca (legimus). As Memórias tornaram-se pouco a pouco elementos paralelos à história, mais do que história propriamente dita, pois que a complacência dos autores perante si mesmos, a procura de efeitos literários, o gosto pela pura narração desviam-nos da história e transformam-se num material – relativamente suspeito – da história: "Agrupar historiadores e memorialistas só é concebível numa perspectiva puramente literária", notaram Jean Ehrard e Guy Palmade [1964, p. 7], que retiraram o gênero memorialístico do seu excelente estudo e recolha de textos sobre a História. O testemunho tende a reentrar no domínio da história mas levanta problemas ao historiador com o desenvolvimento dos media, a evolução do jornalismo, o nascimento da "história imediata", o "regresso do acontecimento" [cf. Lacouture, 1978; Nora, 1974].

Arnaldo Momigliano [1972, ed. 1975, pp. 13-15] sublinhou que os "grandes" historiadores da Antiguidade greco-romana trataram, exclusivamente ou de preferência, do passado recente. Depois de Heródoto, Tucídides escreveu a história da Guerra do Peloponeso, acontecimento contemporâneo; Xenofonte tratou a hegemonia de Esparta e de Tebas, de que foi testemunha; Políbio dedicou a parte essencial das suas Histórias ao período que vai da segunda guerra púnica à sua época. Salústio e Lívio fizeram o mesmo; Tácito examinou o século anterior ao seu e Ammiano Marcellino interessou-se sobretudo pela segunda metade do século IV. A partir do século V a.C., os historiadores antigos conseguiram recolher uma boa documentação sobre o passado, o que não os impediu de se interessarem preferencialmente pelos acontecimentos contemporâneos ou recentes.

A prioridade dada aos testemunhos vividos ou recolhidos diretamente não impediu os historiadores antigos de se deterem na crítica destes testemunhos. Assim, Tucídides diz: "Quanto à narração dos acontecimentos da guerra, pensei não dever escrevê-los confiando em informações de qualquer um nem nas minhas impressões pessoais; falo apenas por testemunhos oculares ou depois de uma crítica, tão apurada e completa quanto possível das minhas informações. Isso não se faz sem dificuldades, pois em cada acontecimento, os testemunhos divergem segundo as simpatias e a memória de cada um. A minha história terá menos encantos que o mito; mas quem quiser pôr a claro a história do passado e reconhecer no futuro as semelhanças e analogias da condição humana, basta-me que a considere útil. Esta história é uma conquista definitiva e não uma obra aparatosa para um auditório de momento" [A Guerra do Peloponeso, I, p. 22].

Com Políbio, o objetivo do historiador ultrapassa uma lógica da história. É constituído pela investigação das causas. Preocupado com o método, Políbio consagra todo o livro XII das Histórias a procurar definir o trabalho do historiador, através da crítica de Timeu. Tinha definido previamente o seu objetivo. Em vez de uma história monográfica, escrever uma história geral, sintética e comparativa: "Ninguém, pelo menos que eu saiba, tentou verificar a estrutura geral e total dos fatos passados... Só partindo da ligação e da comparação dos fatos entre si, das suas semelhanças e diferenças, podemos então, após o seu exame, tirar proveito e ter prazer com a história" [I, 4]. E, acima de tudo, a afirmação essencial: "Quando se escreve ou lê história, deve dar-se menos importância à narração dos fatos em si, que ao que precedeu, acompanhou e se seguiu aos acontecimentos; porque, se se tirar à história o porquê, o como, a finalidade da existência de um ato, ou a sua lógica, o que resta não é mais que espetáculo e não pode tornar-se objeto de estudo; distrai por momentos, mas não tem aplicação nenhuma no futuro... Afirmo que os elementos mais necessários à história são as conseqüências, as circunstâncias que rodeiam os fatos, e principalmente, as suas causas" [ibid., III, 31-32]. Dito isto, não devemos esquecer-nos que Políbio coloca no primeiro plano da causalidade histórica a noção de Fortuna, que o seu principal critério para avaliar um testemunho ou um destino é de ordem moral e que os discursos ocupam um grande espaço na sua obra [cf. Pédech, 1964].

Os historiadores antigos basearam a história na verdade. "E próprio da história começar por contar a história com verdade", assegura Políbio. E Cícero dá definições que continuam válidas durante a Idade Média e o Renascimento. Principalmente esta: "Nam quis nescit primam esse historiae legem, ne quid falsi dicere audeat? Deinde ne quid veri non audeat?" 'Quem ignora que a primeira lei da história é não dizer nada falso? E a segunda, ousar dizer toda a verdade?' [De oratore, II, 15, 62]. E na célebre apóstrofe em que reclama, para o orador, o privilégio de ser o melhor intérprete da história, o que assegura a imortalidade e onde lança a definição da história "mestra da vida" (magistra vitae), esquecemo-nos muitas vezes que, neste texto em geral não citado na íntegra, Cícero chama à história "luz da verdade" ("Historia vero testis temporum, lux veritatis, vita memoriae, magistra vitae, nuntia vetustatis, qua voce alia nisi oratoris immortalitati commendatur?" [ibid., 9, 36]).

Embora Momigliano tenha insistido com razão no gosto dos historiadores antigos pela história nova, é um exagero a afirmação de Collingwood [1932] que "o seu método estava de tal modo ligado à tradição oral, que apenas tinham conseguido escrever a história da geração imediatamente precedente". Tácito, por exemplo, no Diálogo dos Oradores XV, faz o elogio dos modernos – o que vai contra a tradição romana – mas mostra o seu conhecimento e domínio cronológico do passado; de um passado que, para falar verdade, ele lineariza e aproxima do presente: "Quando ouço falar de antigos, penso em pessoas de um passado longínquo, muito anteriores a nós, e perante os meus olhos passam Ulisses e Nestor, cuja época se situa mil e trezentos anos antes do nosso século. Vós, pelo contrário, citais Demóstenes e Hipérides que, segundo me consta, foram contemporâneos de Filipe e Alexandre, a quem ambos sobreviveram. Acontece que não passaram mais de trezentos anos entre a nossa época e a de Demóstenes. Este intervalo, comparado com a fraqueza dos nossos corpos, pode parecer-nos longo; comparado com a verdadeira duração dos séculos e a consideração do tempo sem limites, é muito breve e Demóstenes está perto de nós. Se, de fato, como Cícero escreve no Hortensius, o verdadeiro ano é aquele em que se reproduz exatamente a posição atual do céu e dos astros, compreendendo esse ano doze mil novecentos e cinqüenta e quatro divisões a que chamamos anos, acontece que o nosso Demóstenes, que colocais no passado e considerais velho e antigo, viveu no mesmo ano e, direi mesmo, no mesmo mês que nós" [Dialogus de oratoribus, 16, 5-7].

Mais que a finalidade dada à história, parece-nos importante na historiografia cristã, do ponto de vista dos instrumentos o do método do historiador, o seu impacto sobre a cronologia. Essa sofreu uma primeira elaboração por historiadores antigos – que, de modo geral, não figuram entre os grandes – que os historiadores cristãos utilizaram. Diodoro da Sicília (século I a.C.) estabeleceu uma concorrência entre os anos consulares e as Olimpíadas. Trogo Pompeu, conhecido através de um resumo de Justino, defendeu o tema dos quatro impérios sucessivos. Mas os primeiros historiadores cristãos tiveram influência decisiva no trabalho histórico e no enquadramento cronológico da história.

Eusébio de Cesaréia (início do século IV), autor de uma Crônica e depois de uma História eclesiástica, foi "o primeiro historiador antigo a manifestar a mesma atenção que um historiador moderno à citação fiel do material copiado e à identificação correta das suas fontes" [Chesnut, 1978, p. 245]. Esta utilização crítica dos documentos permitiu a Eusébio e aos seus sucessores caminharem com segurança, para além da memória dos testemunhos vivos. Eusébio, "cuja obra é uma tentativa paciente, escrupulosa e profundamente humana, para sistematizar as relações entre o Cristianismo e o século " [Sirinelli, 1961, p. 495], não procurou privilegiar uma cronologia especificamente cristã, e a história hebraico-cristã que faz começar com Moisés foi para ele apenas uma história entre outras [ibid., pp. 59-61]; o "seu projeto um pouco ambíguo de uma história sincrônica situa-se entre uma visão ecumênica e um mero aperfeiçoamento da erudição" [ibid., p. 63].

Os historiadores cristãos retomaram do Antigo Testamento (sonho de Daniel [Daniel, 7]) e de Justino, o tema da sucessão dos quatro impérios: babilônico, persa, macedônico e romano. Eusébio, cuja crônica foi retomada e atualizada por S. Jerônimo e Santo Agostinho, expõe uma periodização da história segundo a história sagrada, que distinguia seis idades (até Noé, até Abraão, até David, até o cativeiro da Babilônia, até Cristo, depois de Cristo) e que Santo Isidoro de Sevilha no Chronicon (início do século VII) e Beda na Opera de temporibus (início do século VII) tentaram calcular. Os problemas de datação, de cronologia, são fundamentais para o historiador. Os historiadores e as sociedades antigas também os tinham considerado básicos. As listas reais da Babilônia e do Egito tinham fornecido os primeiros quadros cronológicos, o cômputo anual do reino tinha-se iniciado em 2000 a.C., na Babilônia. Em 776 começa o cômputo por Olimpíadas, em 754 a lista dos éforos de Espana, em 686-685 a dos arcontes epônimos de Atenas, em 508 o cômputo consular de Roma. Em 45 a.C., César tinha instituído em Roma o calendário juliano. O cômputo eclesiástico cristão refere-se à datação da festa da Páscoa. As hesitações quanto à fixação do início da cronologia e do início do ano duraram muito tempo. As atas do Concilio de Nicéia são datadas quer com o nome dos cônsules, quer dos anos da era dos Seleucidas (312-311 a.C.). Os cristãos latinos adotaram inicialmente, em geral, a era de Diocleciano ou dos mártires (284); mas, no século VI, o monge romano Dinis, o Pequeno, propôs-se adotar a era da Encarnação, fixando o início da cronologia na data do nascimento de Cristo. Este hábito só foi definitivamente adotado no século XI. Mas todas as investigações sobre o conceito eclesiástico cuja expressão mais notável foi o tratado De temporum ratione de Beda (725), apesar das suas hesitações e falhas, constituíram uma etapa importante em direção ao domínio do tempo [cf. o artigo "calendário"; Cordoliani, 1961; Guenée, 1980, pp. 147-65].

Bernard Guenée mostrou como o Ocidente medieval teve historiadores apostados em reconstruir o seu passado e detentores de uma lúcida erudição. Estes historiadores que, até o século XIII, foram sobretudo monges, começaram por beneficiar de um acréscimo de documentação. Vimos que os arquivos são um fenômeno muito antigo, mas a Idade Média acumulou documentos nos mosteiros, igrejas e administração real e multiplicou as bibliotecas. Constituíram-se dossiês, generalizou-se o sistema de citações, que referiam com precisão livro e capítulo, por influência do monge Graciano, autor de uma compilação de direito canônico, o Decretam, em Bolonha (c. 1140) e do teólogo Píer Lombardo, bispo de Paris, morto em 1160. Pode considerar-se o final do século XI e a maior parte do XII como "o tempo de uma erudição triunfante". A escolástica e a universidade, indiferentes ou mesmo hostis à história, que não foi ensinada [Borst, 1969], denotaram um certo retrocesso da cultura histórica. Todavia, "um vasto público laico continuou a amar a história"; no fim da Idade Média estes amadores – cavaleiros e mercadores – multiplicaram-se e o gosto pela história nacional passou ao primeiro plano, enquanto que se afirmavam os estados e as nações. Mas o lugar da história no saber era modesto, pois que, até o século XV, não era considerada uma ciência auxiliar da moral, do direito e da teologia [cf. Lammers, 1965], embora Hugo de S. Victor, na primeira metade do século XII, tenha dito num texto relevante (De tribus maximis circumstancüs gestorum) que ele era fundamentum omnis doctrinae 'o fundamento de toda a ciência'. Mas a Idade Média não representa um hiato na evolução da ciência histórica; pelo contrário, conheceu "a continuidade do esforço histórico" [Guenée, 1980, p. 367].

Os historiadores do Renascimento prestaram à ciência histórica alguns serviços eminentes: fizeram a crítica dos documentos com a ajuda da filologia; começaram a "laicizar" a história e a eliminar-lhe os mitos e as lendas; lançaram as bases das ciências auxiliares da história e estreitaram a aliança da história com a erudição.

Tem-se feito remontar a Lourenzo Valla o início da crítica científica de textos; na sua De falso credita et ementita Constantini donatione declaratio (1440), escrita a pedido do rei aragonês de Nápoles, em luta com a Santa Sé, prova que o texto é falso, pois a linguagem usada não se pode identificar com a do século IV, mas data de quatro ou cinco séculos mais tarde: assim, a pretensão do papa aos Estados da Igreja, fundada sobre esta pretensa doação de Constantino ao papa Silvestre, baseava-se num falso carolíngeo. "Assim nasce a história, como filologia, e também como consciência crítica de si e dos outros" [Garin, 1951, p. 115]. Valia aplicou a crítica de textos aos historiadores da Antiguidade, Lívio, Heródoto, Tucídides, Salústio e também o Novo Testamento, nas suas Adnotationes, que Erasmo prefaciou na edição de Paris de 1505. Mas a sua Historiae Ferdinandi regis Aragoniae, pai do seu protetor, terminada em 1445 e editada em Paris em 1521, não passa de uma série de acontecimentos relativos à vida privada do soberano [cf. Gaeta, 1955]. Se Biondo é o primeiro erudito dos historiadores humanistas, Valia é o primeiro crítico.

Depois dos trabalhos de Bernard Guenée talvez não seja possível manter uma afirmação tão radical. Biondo, nos seus manuais sobre Roma antiga (Roma instaurata, 1446, publicada 1 em 1471; Roma triumphans, 1459, publicada em 1472) e na sua Romanorwn decades, uma história da Idade Média de 412 a 1440, foi um grande recolhedor de fontes, mas não há nas suas obras nem crítica de fontes, nem sentido da história. Os documentos são publicados uns ao lado dos outros; quando muito, nas Decades, a ordem é cronológica; mas Biondo, secretário do Papa, foi o primeiro a inserir a arqueologia na documentação histórica.

No século XV, os historiadores humanistas inauguram uma ciência histórica profana, sem fábulas nem intervenções sobrenaturais. O grande nome é Leonardo Bruni, chanceler de Florença, cuja Historiae florentini populi (até 1404) ignora as lendas sobre a fundação da cidade e nunca fala da intervenção da Providência. "Com ele se inicia o caminho para uma explicação natural em história" [Fueter, 1911, I, p. 20]. Hans Baron [1932] pode falar da Profanisierung da história.

A recusa dos mitos pseudo-históricos deu origem a uma longa polêmica sobre as pretensas origens troianas dos Francos. Cada um por sua vez, Etienne Pasquier nas Recherches de Ia France (o primeiro livro é de 1560; dez livros na edição póstuma de 1621), François Hotman na sua Franco-Gallia (1573), Claude Fauchet nas Antiquités gauloises et françoises jusqu'à Clovis (1599) e Lancelot-Voisin de la Popelinière, no Dessein de l'Histoire nouvelle des François (1599) põem em dúvida a origem troiana, enquanto Hotman defende de modo convincente a origem germânica dos Francos.

É preciso sublinhar nestes progressos do método histórico o papel da Reforma. Suscitando polêmicas sobre a história do Cristianismo e livres da tradição eclesiástica autoritária, os reformistas impulsionaram a evolução da ciência histórica.

Por fim, os historiadores do século XVI, sobretudo os franceses da segunda metade do século, retomaram a flâmula da erudição dos humanistas italianos do Quatrocento. Guillaume Budé dá uma contribuição importante para a numismática, com o seu tratado sobre moedas romanas: De asse et partibus eius (1514). Giuseppe Giusto Scaligero partiu da cronologia em De emendatione temporum (1583). O protestante Isaac Casaubon, "a fênix dos eruditos", replicou nos "Annales ecclesiastici" do catolicíssimo cardeal César Baronio (1588-1607) com as suas Exercitationes (1612); também o flamengo Justo Lípsio enriquece a erudição histórica, nomeadamente nos domínios filológico e numismático. Os dicionários multiplicam-se: o Thesaurus linguae latina de Robert Estienne (1531) e o Thesaurus grecae linguae do seu filho Henri (1572). O flamengo Jan Gruter publicou o primeiro Corpus inscriptionum antiquarum, cujo índice Scaligero organizou. Não é necessário lembrar que o século XVI dá à periodização histórica a noção de século (cf. o artigo "Calendário", nesta Enciclopédia).

Enquanto que os humanistas – imitando a Antiguidade –, não obstante os progressos de erudição, tinham mantido a história no campo da literatura, alguns dos historiadores do século XVI e início do XVII distinguem-se explicitamente dos homens de letras. Muitos são os juristas (Boden, Vignier, Hotman) e estes "sábios de saias" anunciam a história dos filósofos do século XVIII [Hupert, 1970]. Donald Kelly mostrou [1964] que a história das origens e natureza do feudalismo não data de Montesquieu, mas dos debates entre os eruditos do século XVI.

A história nova que os grandes humanistas do século XVI, princípio de XVII, quiseram promover foi asperamente combatida na primeira metade do século XVII e alinhada entre as manifestações de libertinagem – a conseqüência desse fato foi a crescente separação entre erudição e história (no sentido de historiografia) notada por Paul Hazard [1935] e George Hupert [1970]. A erudição fez progressos durante o século de Luís XIV, enquanto que a história conhecia um profundo eclipse.

"Os sábios do século XVI desinteressaram-se das grandes questões da história geral. Compilam glossários, como esse grande legista, que foi Du Cange (1610-88). Escrevem vidas de santos, como Mabillon. Publicam fontes de história medieval, como Baluze (1630-1718), estudam as moedas como Vaillant (1632-1706). Em resumo, tendem mais para ás investigações de antiquários que de historiador" [ibid., p. 178].

Houve duas iniciativas que se revestiram de especial importância. Situam-se no quadro de uma investigação coletiva: "A grande novidade é que, no reinado de Luís XIV, se começou a fazer erudição coletivamente" [Lefebvre, 1945-46, p. 101), que é, de fato, uma das condições exigidas pela erudição.

A primeira é obra dos Jesuítas, cujo iniciador foi o padre Héribert Roswey (Rosweyde), morto em Antuérpia em 1629, que tinha feito uma espécie de repertório das vidas dos santos, manuscritos conservados nas bibliotecas belgas. Com base nas suas notas, o padre Jean Bolland levou à aprovação dos seus superiores o plano de uma publicação de vidas de santos e documentos hagiográficos, apresentados pela ordem do calendário. Assim nasceu um grupo de jesuítas especializados em hagiografia a que se deu o nome de Bolandistas e que publicaram, em 1643, os dois primeiros volumes do mês de janeiro das "Acta Sanctorum". Os Bolandistas ainda hoje estão em plena atividade num domínio que continua em primeiro plano na erudição e na investigação histórica. Em 1675, um Bolandista, o padre Daniel van Papenbroeck (Papebroch) publicou, no início do tomo II das "Acta Sanctorum", uma dissertação "sobre o discernimento do verdadeiro e do falso em velhos pergaminhos". Papenbroeck não foi feliz na aplicação do seu método. Coube a um beniditino francês, Dom Mabillon, ser o verdadeiro fundador da diplomática.

Jean Mabillon pertencia a outro grupo que dava à erudição as suas cartas de nobreza, o dos beneditinos da congregação reformada de S. Mauro, que nessa altura fundaram Saint-Germainde-Prés, em Paris, "a cidadela da erudição francesa", tendo Luc d'Achéry redigido, em 1648, o seu programa de trabalho. O seu campo abrange os padres da Igreja grega e latina, a história da Igreja, a história da ordem beneditina. Em 1681, Mabillon, para refutar Papenbroeck, publicou o De re diplomatica, que estabelecia regras de diplomática (estudo dos "diplomas") e critérios para discernir a autenticidade de atos públicos ou privados. Marc Bloch, não sem exagero, vê em "1681, o ano da publicação do De re diplòmatica, uma grande data na história do espírito humano" [1941-42, p. 77]. A obra ensina que a concordância de duas fontes independentes estabelece a verdade e, inspirando-se em Descartes, aplica o princípio "de fazer decomposições tão inteiras e revisões tão gerais" que se ficasse "seguro de nada omitir" [Tessier, 1961, p. 641]. Contam-se duas anedotas que mostram até que ponto, entre os séculos XVII e XVIII, se tinha tornado profundo o divórcio entre a história e a erudição. O padre Daniel, historiógrafo oficial de Luíz XIV, a quem Fueter [1911] chama "um consciencioso trabalhador", tendo-se proposto escrever a sua Histoire de la milice française (1721), foi levado à biblioteca real onde lhe mostraram mil e duzentas obras que lhe poderiam ser úteis. Consultou algumas durante cerca de uma hora ao fim da qual declarou "que todos esses livros eram papeladas inúteis, de que não precisava para escrever a sua história". O abade de Vertot tinha acabado uma obra sobre o cerco de Rodes pelos Turcos. Trouxeram-lhe novos documentos. Recusou-os, dizendo: "O meu cerco está feito" [Ehrard e Palmade, 1964, p. 28].

Este trabalho de erudição prossegue e alarga-se ao século XVIII. O trabalho histórico, que tinha abrandado, despertou, nomeadamente na altura do debate sobre as origens – germânicas ou romanas – da sociedade e das instituições francesas. Os historiadores empenham-se na procura de causas, mas aliam a preocupação de erudição a essa reflexão intelectual. Esta aliança justifica – embora cometa uma certa injustiça para com o século XVI – a opinião de Collingwood: "No sentido estrito em que Gibbon e Mommsen são historiadores, não existem historiadores li antes do século XVIII", isto é, autores de um "estudo crítico, e ao mesmo tempo, construtivo, cujo campo é formado integralmente por todo o passado humano e cujo método consiste em reconstruir o passado a partir de documentos escritos ou não-escritos, analisados e interpretados com espírito crítico" [citado em Palmade, 1968, p. 432].

Por sua vez, Marrou sublinhou que "o valor de Gibbon [célebre autor inglês da History of the Declin and Fall of the Roman Empire, 1776-88] consiste precisamente em ter realizado a síntese entre a contribuição da erudição clássica, tal como se foi pouco a pouco formulando, desde os primeros humanistas até os beneditinos de São Mauro e seus êmulos, e o sentido dos grandes problemas, vistos de cima e com amplitude, como poderia ter desenvolvido na sua convivência com os filósofos" [1961, p. 27].

Com o racionalismo filosófico – que, como já se viu, não teve felizes conseqüências na história –, a rejeição definitiva da Providência e a procura de causas naturais, os horizontes da história alargam-se a todos os aspectos da sociedade e a todas as civilizações. Fénelon, no Projet d'un traité sur l'histoire (1714), pretende que o historiador faça "o estudo dos costumes e do estado de todos os corpos da natureza" e que mostre a verdade, a originalidade – do que os pintores chamam os costumes – ao mesmo tempo que as mudanças: "cada nação tem os seus costumes diferentes daqueles dos povos vizinhos, cada povo muda com freqüência os seus próprios costumes" [citado em Palmade, 1968, p. 432]. Voltaire, nas suas Nouvelles considérations sur l'histoire (1744), pretendera uma "história econômica, demográfica, das técnicas e dos costumes e não só política, militar e diplomática. Uma história dos homens, de todos os homens e não só dos reis e dos grandes. Uma história das estruturas e não só dos acontecimentos. História em movimento, história das evoluções e das transformações e não história estática, história-quadro. História explicativa e não apenas história narrativa, descritiva – ou dogmática. Enfim, história oral..." [Le Goff, 1978, p. 223].

Ao serviço deste programa – ou de programas menos ambiciosos – o historiador põe, daqui em diante, uma preocupação de erudição que procura satisfazer empreendimentos cada vez mais numerosos e, o que é novo, das instituições. Neste século das academias, e das sociétés savantes, a história e o que lhe diz respeito não foram esquecidos.

No plano das instituições escolherei a Académie des Inscriptions et Belles-Lettres da França. A "pequena academia", fundada por Colbert em 1663, só tem quatro membros e a sua missão é puramente utilitária: redigir as divisas das medalhas e as inscrições dos monumentos que perpetuarão a glória do Rei-Sol. Em 1701 os seus efetivos elevaram-se para quarenta e tornou-se autônoma. Foi rebatizada com o nome atual em 1716, e a partir de 1717 publicou regularmente memórias dedicadas à história, arqueologia e lingüística e empreende a edição do Recueil des ordonnances des rois de France.

No plano dos instrumentos de trabalho, citarei a Art de vérifier les dates, cuja 1º edição foi publicada pelos Mauristas em 1750, a constituição dos arquivos reais em Turim entre 1717-20, cujos regulamentos são a melhor expressão da arquivística da época e a impressão do catálogo da Biblioteca Real de Paris (1739-53).

Como representante da atividade erudita ao serviço da história, citarei Lodovico Antonio Muratori, nascido em 1672, bibliotecário da Ambrosiana de Milão em 1694, bibliotecário e arquivista do duque de Este em Modena em 1700, morto em 1750. Publicou entre 1744 e 1749 os Annali d'Italia, precedidos em 1738-50 das Antiquitates italiae Medii Aevi. Manteve relações nomeadamente com Leibniz [cf. Campori, 1892].

Muratori teve como modelo Mabillon, mas, como laico que era, liberta a história dos milagres e dos presságios, à maneira dos humanistas do Renascimento. Leva mais longe que o maurista a crítica das fontes mas, também ele, não é um verdadeiro historiador. Não há elaboração histórica da documentação e a história reduz-se à história política. O que diz respeito às instituições, costumes e mentalidades foi rejeitado pelas Antiquitates: "Os seus Annali... deveriam antes chamar-se estudos para a história italiana cronologicamente ordenada, do que obra histórica" [Fueter, 1911, p. 384].

Do ponto de vista que aqui me ocupa, o século XIX é decisivo porque atualiza definitivamente o método crítico dos documentos que interessa ao historiador desde o Renascimento, difunde este método e os seus resultados através do ensino e das publicações e une história e erudição.

Sobre o equipamento erudito da história, tomarei como exemplo a França. A Revolução e o Império criam os Arquivos Nacionais que, colocados sob a autoridade do Ministro do Interior em 1800, passam para a do Ministro da Instrução Pública em 1883. A Restauração criou a École de Chartres em 1821, para formar um corpo especializado de arquivistas que deveriam ser mais historiadores que administradores, aos quais foi reservada a partir de 1850 a direção dos Arquivos departamentais. A investigação arqueológica das principais estâncias da Antiguidade foi favorecida pela criação das Escolas de Atenas (1846) e , de Roma (1874) e o conjunto da erudição histórica pela fundação da École Pratique des Hautes Études (1868). Em 1804 nasceu em Paris a Academia Celta para estudar o passado nacional francês. Em 1814, transformou-se em Sociedade dos Antiquários da França. Em 1834 o historiador Guizot, então ministro, institui um Comitê de Trabalhos Históricos encarregado de publicar uma coleção de Documentos Inéditos sobre a história da França. Em 1835 a Sociedade Francesa de Arqueologia, fundada em 1833, tem o seu primeiro congresso. A Sociedade da História da França nasce em 1835. Daqui em diante existe uma "armadura" defensora da história: cadeiras de faculdade, centros universitários, sociedades culturais, coleções de documentos, bibliotecas, revistas. Depois dos monges da Idade Média, os humanistas e legistas do Renascimento, os filósofos do século XVIII, os professores burgueses instalaram a história na Europa e no seu prolongamento, os Estados Unidos da América, onde, em 1800, se fundou a Library of Congress, em Washington.

O movimento era europeu e fortemente tingido de espírito nacional, senão de nacionalismo. Um sintoma evidente foi a criação imediata de uma revista (nacional) na maior parte dos países europeus. Na Dinamarca, a "Historisk Tidsskrift" (1840), na Itália, o "Archivio Storico Italiano" (1842), seguido da "Rivista Storica Italiana" (1884); na Alemanha, "Historische Zeitschrift" (1859); na Hungria, "Századok" (1867); na Noruega, "Historisk Tidsskriff ' (1881); na Inglaterra, "English Historical Review" (1886); nos Países Baixos, "Tijdschrift voor Geischiedenis" (1886); na Polônia, "Kwartalnik Historyczny" (1887); e, nos Estados Unidos, "The American Historical Review" (1895).

Mas o grande centro, o farol, o modelo da história erudita, no século XIX, foi a Prússia. Não só a erudição criou aí instituições e coleções de prestígio, tais como os "Monumenta Germaniae Historiae" (a partir de 1826), como também a produção histórica aliou, melhor que em qualquer outro lado, a erudição e o ensino, sob a forma de seminário e assegurou a continuidade do esforço de erudição e de investigação históricas: surgem alguns grandes nomes: o germano-dinamarquês Niebuhr, com a sua História romana (Rõmische Geschichte, 1811-32); o erudito Waitz, aluno de Ranke, autor de uma História da constituição alemã (Deutsche Verfassungsgeschichte, 1844-78) e diretor dos "Monumenta Germaniae Historica", desde 1875; Mommsen, que dominou a história antiga, onde utilizou a epigrafia, na história política e jurídica (Rõmische Geschichte, 1854-57); Droysen, fundador da escola prussiana, especialista em história grega e autor de um manual de historiografia: Sumário de história (Grundriss der Historik, escrito em 1858 e publicado em 1868); a escola dita "nacional-liberal" com Sybel, fundador da "Historische Zeitschrift", Haüsser, autor de uma História da Alemanha (Deutsche Geschichte,185457), no século XIX, Treitschke, etc. O maior nome da escolha histórica alemã do século XIX é Ranke, cujo papel ideológico no historicismo já analisamos. Recordo-o aqui como fundador, em 1840, do primeiro seminário de história em que professores e alunos se entregavam em conjunto à crítica de textos.

A erudição alemã tinha exercido uma forte sedução sobre os historiadores europeus do século XIX, incluindo os franceses, que não estavam longe de pensar que a guerra de 1870-1871 tinha sido ganha pelos mestres prussianos e os eruditos alemães. Um Monod, um Jullian, um Seignobos, por exemplo, completaram a sua formação em seminários de Além-Reno. Marc Bloch deveria defrontar-se também com a erudição alemã, em Leipzig. Um aluno de Ranke, Godefroide Kurth, fundou na Universidade de Liège um seminário, onde o grande historiador belga Henri Pirenne, que iria contribuir, no século XX, para fundar a história econômica, fez a sua aprendizagem.