História e Memória
2 O Céu e a Terra a Lua, o Sol, os homens
A oposição concentrou-se na novidade mais traumatizante: a passagem da semana de sete a dez dias e a substituição do domingo pelo decadí. Um documento significativo é citado, entre outros, por Mona Ozouf [ 1976, p. 188].
O comissário da polícia de Chateauroux escreve à municipalidade daquela comuna no ano VII (1799-1899): "Só aos domingos e nos dias feriados do velho calendário se observa o repouso: nestes dias, todas as oficinas, quer em locais fechados, quer ao ar livre, estão hermeticamente fechadas; os locais públicos, tais como os passeios, os cafés, os bilhares, as tabernas e os outros locais são freqüentados com notável afluência, concentrações numerosas formam-se nas vias públicas e fazem-se jogos de péla (jogos com bola de borracha) ignorando o vosso decreto. Pelo contrário, nos dias de decadí o artesão fecha a loja e trabalha dentro de casa. Também o negociante se dedica a trabalhos internos, os fabricantes têm abertas as numerosas oficinas que não são visíveis da via pública; do mesmo modo, não são interrompidos os trabalhos que se fazem sobretudo ao ar livre, tais como o cultivo das terras, os trabalhos de pedreiro, a carpintaria, a fiação de lã e outros; há uma espécie de solidariedade para proteger os transgressores à lei e para subtraí-los à minha vigilância..."
Assim, o calendário republicano instaurado pelo decreto da Convenção a 5 de outubro de 1793 (14 do vindimário do ano II) foi abolido por um decreto de Napoleão em 9 de dezembro de 1805 e o calendário tradicional entrou novamente em vigor a 1 de janeiro de 1806. 0 calendário republicano durara 13 anos.
Voltar-se-á mais tarde, a propósito das divisões do calendário, às relações entre este e os ritmos do trabalho, do tempo livre e das festividades. Os que controlam o calendário controlam indiretamente o trabalho, o tempo livre e as festas. Pelo momento, limitar-nos-emos a dois exemplos que permitem pôr melhor em evidência a extensão das relações entre tempo e poder.
Nos diversos sistemas sócio-econômicos e políticos, o controle do calendário toma mais fácil a manipulação de dois instrumentos essenciais do poder: o imposto, no caso do poder estatal, e os tributos, no caso do poder feudal.
Uma pequena tábua babilônica do tempo de Hammurabi (1728-1686 a.C.) reporta o seguinte edito: "Hammurabi, ao seu ministro Sin-Idinnam, diz: o ano está fora do lugar. Faz registrar o próximo mês com o nome de ulãlu II" (segundo mês ulillu). O pagamento dos impostos a Babilônia, em vez de terminar a 25 de tishritu, deverá concluir-se a 25 de ulillu II [Courdec, 1946, p. 57]. A própria designação de 'calendário' deriva do latim calendarium que queria dizer 'livro de contas', porque os juros dos empréstimos eram pagos nas calendae, o primeiro dia dos meses romanos.
O outro exemplo é referente ao tempo dos senhores do Ocidente medieval: "O tempo dos senhores é também o tempo dos tributos camponeses. O ano é marcado por grandes festas. Entre estas, há umas que catalizam a sensibilidade temporal da massa rural: os prazos feudais em que se pagam os tributos em produtos naturais ou em dinheiro. Estas datas variam conforme as regiões e os domínios, mas uma época ressalta nesta cronologia dos prazos: o fim do Verão em que se cobra o essencial do imposto senhorial sobre as colheitas. A grande data do "prazo"é São Miguel (29 de setembro), às vezes substituída por São Martinho no Inverno (11 de novembro)" [Le Goff, 1964]. Tudo conspira aqui para apanhar o camponês na armadilha do calendário: o tempo da natureza e do trabalho, o tempo do senhor, o tempo da Igreja.
2 O Céu e a Terra a Lua, o Sol, os homens
Sociólogos e antropólogos insistiram sobre a origem social dos calendários desde as sociedades mais antigas.
Hubert e Mauss [1909], por exemplo, sublinharam a discordância entre os calendários sagrados e os ritmos cósmicos. Mircea Eliade [1948] chamou a atenção para o fato de tal discrepância vir sobretudo das dificuldades das sociedades arcaicas em medir o tempo natural e do interesse pelos fenômenos naturais, não enquanto tais, mas pelo seu significado religioso. Parece que ambos, ao mesmo tempo, têm e não têm razão. O calendário depende do tempo cósmico, regulador da duração que se impõe a todas as sociedades humanas; mas estas captam-no, medem-no e transformam-no em calendário segundo as suas estruturas sociais e políticas, seus sistemas econômicos e culturais e seus instrumentos científicos e tecnológicos.
A grande complexidade dos problemas do calendário não deriva apenas da relação, já por si complexa, entre calendário e sociedade global, mas, em primeiro lugar, das dificuldades com que deparam todas as sociedades no controle do tempo natural. A primeira divisão do tempo natural que se apresenta aos homens, o dia, é uma unidade demasiado pequena para permitir o controle da duração. Querendo encontrar unidades maiores, os dois pontos de referências naturais são a Lua e o Sol. O Antigo Testamento diz de Yahwéh: "Fez a lua para marcar as estações, o sol conhece o seu ocaso" [Salmos, 104, 19].
Ao olhar para o céu, o ciclo mais fácil de observar é o da Lua, o que leva a privilegiar o mês, pois que a lunação – duração da revolução sinóptica, isto é, o tempo que separa duas voltas da Lua em conjunção com o Sol – dura em média cerca de vinte e nove dias e meio. Por outro lado, se se é mais sensível ao ciclo estacional da vegetação e aos aspectos climáticos, o ritmo que se impõe é o do ano. O indicador celeste é então o Sol, pois que o ano é o tempo de uma revolução da Terra em torno do Sol. Esta revolução dura em média 365,24220 dias.
O papel da Lua apareceu muito cedo nas sociedades antigas, mas só pouco a pouco foi compreendido. No século IV a.C., os Gregos descobriram o mecanismo dos eclipses e compreenderam assim o papel do movimento do Sol na sucessão dos dias e das noites, apesar do seu nascer e do seu caso estarem defasados em relação à claridade diurna e de poder ser ocultado pelas nuvens. Em 1543, a revolução copernicana fez reconhecer que é a Terra que gira em volta do Sol e não vice-versa, e que o dia estava ligado à rotação da Terra sobre si própria; mas, pelo que diz respeito ao calendário, tratava-se apenas de precisar o modo como o Sol exerce a sua influência nos ciclos terrestres.
Mas a elaboração de um calendário, mesmo pondo à parte a importância dos elementos religiosos, culturais e políticos, é complicada em virtude do próprio cálculo dos movimentos dos corpos celestes, de que o calendário depende e isto por três motivos: 1) estes movimentos não são completamente regulares; 2) as sociedades humanas só gradualmente chegaram ao conhecimento exato destas medidas; 3) para terem calendários utilizáveis, aquelas devem poder aplicar aos movimentos naturais sistemas artificiais de cálculo e de numeração que não são feitos para esse fim e que comportam cifras simples e inaplicáveis com exatidão àqueles fenômenos.
A duração do mês lunar varia desde cerca de vinte e nove dias e seis horas a cerca de vinte e nove dias e vinte horas. Esta irregularidade põe não só delicados problemas de cálculo, mas implica também a necessidade de observações freqüentes e de decisões autoritárias para fixar ou retificar as datas, reforçando assim o poder daqueles que detêm o controle do tempo.
Na antiga Caldéia, o início do mês era em parte empírico, determinado pelo aparecimento, constatado pelos sacerdotes, da Lua Nova. Normalmente, esta tem lugar dois dias após a conjunção da Lua com o Sol. Se no vigésimo nono dia do mês se vê o crescente da Lua quando se observa a parte ocidental do céu ao pôr-do-sol, é proclamado o início de novo mês. Senão, repete-se a observação no dia seguinte. Se, passado o trigésimo dia, o estado do céu não permite avistar a Lua, o grande sacerdote proclama igualmente o início do novo mês ao som de trompa.
Para remediar a irregularidade dos meses lunares na organização do ano, os Caldeus fixavam então a duração dos meses em vinte e nove ou trinta dias e contavam doze meses por ano, num total de trezentos e cinqüenta e quatro dias. O atraso em relação ao ano cósmico atingia em geral um mês a cada três anos e, nessa altura, um decreto real ordenava que se acrescentasse um décimo terceiro mês, com a conseqüência de uma grande confusão quando se instaurava este mês suplementar e mais ainda no seu registro nos atos oficiais (por vezes era decretado dois anos em seguida).
Os Hebreus adotaram o seguinte sistema: para eles, o grande problema era a determinação da data da Páscoa, que devia começar num dia de Lua Cheia durante o equinócio da Primavera. Além disso, no terceiro dia da Páscoa era preciso oferecer ao Senhor as primícias da ceifa da cevada. Os três dias da Páscoa deviam calhar a 14, 15 e 16 do mês de nisán, o mês das flores, que depois de Moisés foi o primeiro mês do ano religioso (o ano civil começava no Outono no mês de tishri), porque era a época do êxodo do Egito. Se a cevada parecia não estar madura em 16 de nisãn, o grande sacerdote decretava a reduplicação do mês de adãr (o décimo terceiro mês chamava-se veodãr, quer dizer, o segundo adãr) e a Páscoa era celebrada trinta dias depois.
Este exemplo mostra a complexidade dos fatores que presidem à elaboração do calendário: a dependência da natureza, o papel do poder dominante (aqui na sua expressão religiosa e sacerdotal), o peso da história, a força do enraizamento econômico-social, o prevalecer ocasional do fenômeno agrícola, as conseqüências da insuficiência de um instrumental científico que não permita a previsão.
Na Grécia antiga, os erros de cálculo sobre a duração da lunação, por excesso ou por defeito, levaram a uma grande confusão no uso dos meses intercalares, até a descoberta, lendariamente atribuída a Meton, do fato de dezenove anos conterem exatamente duzentas e trinta e cinco lunações, ou seja, a cada dezenove anos recomeça o mesmo ciclo de lunações. Segundo Diodoro de Sicília, o ciclo metônico teria sido proclamado nos jogos olímpicos de 432 a.C.; os Atenienses teriam mandado gravar em letras de ouro o ciclo metônico nas colunas do templo de Minerva e ao número de ordem de um ano no ciclo chamar-se-ia "número de ouro". Outros autores atribuem a descoberta a Calipo, enquanto que a sua introdução em Atenas teria tido lugar em meados do século IV a.C. Um documento testemunha o seu emprego em 342 a.C.
Os Hebreus, que entraram em contato com a cultura grega na época helenística, adotaram o ciclo metônico e aperfeiçoaram-no definitivamente no século IV, intercalando um décimo terceiro mês no terceiro, sexto, oitavo, décimo primeiro, décimo quarto e décimo nono ano do ciclo de dezenove anos. Enfim, na época moderna, o início dos meses hebraicos não estava ainda dependente da observação da Lua Nova, mas sim de um cálculo teórico. Eis como se adaptou, no decurso dos séculos, um calendário lunar.
O calendário muçulmano foi sempre lunar e o é ainda hoje; mas enquanto os Árabes antigos, como os Caldeus e os Hebreus, usavam os meses intercalares, Maomé proibiu esta prática, assim como qualquer calendário solar era considerado tabu. O ano muçulmano compreende então doze meses alternativamente de trinta e vinte e nove dias, num total de 354 dias. Neste sistema, os ciclos de lunação são de trinta anos. O último mês dos anos 2, 5, 7, 10, 13, 16, 18, 21, 24, 26 e 29 destes ciclos de trinta anos é acrescido de um dia. Trinta e três anos do calendário juliano-gregoriano, de que fazem uso as nações ocidentais, correspondem a trinta e quatro anos nas nações que usam o calendário muçulmano.
Todavia, as grandes dificuldades que este sistema cria à administração por causa da diferença entre calendário e ano solar levaram no passado, ou, mais recentemente, os estados muçulmanos mais fortes ou "laicizados", de tendência unificadora, a adotar medidas de correção.
Na Idade Média, no Egito dos Fatímidas, para determinar o início e o fim do mês, muito importantes sobretudo para o mês de jejum (ramadan), substituiu-se a proclamação por observação da Lua Nova pelo cálculo astronômico. Para o pagamento dos impostos e das remunerações dos funcionários, o Tesouro turco adotou o calendário juliano. A proclamação do início do mês, com base na observação em todas as localidades da Lua Nova por dois homens dignos de confiança, tende hoje a ser substituída pela difusão feita pelo rádio e pela televisão em escala nacional.
O uso que os Hebreus fizeram de um calendário lunar teve importantes conseqüências para o calendário cristão, sobretudo para o propriamente eclesiástico. Os três dias da Páscoa compreendem o 14 de nisãn, dia da Lua Cheia, com o sacrifício do cordeiro e um festim ritual, o 15, que começa ao pôr-do-sol com a celebração da Páscoa, e o 16 com a oferta de espigas de cevada. Quando a Páscoa calhava numa sexta-feira, para evitar dois dias de festas consecutivos, era celebrada na noite de sábado. O que aconteceu também no ano da paixão de Jesus. Por isso ele instituiu a Eucaristia na noite de 14 de nisãn, durante o repasto ritual, a ceia, mas como ressuscitou no domingo, os Cristãos fixaram a Páscoa num domingo, conservando, no entanto, a ligação com a Lua Cheia. A Páscoa cristã foi fixada no primeiro domingo após o plenilúnio de Primavera e, como vimos, o Concílio de Nicéia, em 325, fixou a Páscoa no "domingo que segue o décimo quarto dia da Lua que chega a tal idade a 21 de março ou imediatamente depois". Assim, não só a Páscoa foi uma festa móvel, mas o calendário eclesiástico cristão é na realidade um calendário lunar do septuagésimo ao último domingo depois do Pentecostes, e torna-se solar apenas perto do Natal, fixado pela Igreja, em 376, no dia 25 de dezembro, data de uma antiga festa solar. O caráter lunar deste calendário esteve na origem de dificuldades de uma extraordinária complexidade: limitar-nos-emos a observar que, de um modo não muito claro, a Igreja cristã dos primeiros séculos conseguiu fazer adotar uma técnica de previsão dos plenilúnios, e que no século VI, com a introdução dos números de ouro do ciclo metônico no cômputo juliano e a determinação (errada) que Dionísio, o Pequeno, fez em 532 da data do nascimento de Cristo e portanto do início da era cristã, foi instituído um quadro perpétuo do cômputo juliano das luas novas que permitiu estabelecer a longo prazo a data da Páscoa. Este cálculo não foi geralmente adotado pelo cristianismo latino antes do século IX e o cristianismo ortodoxo grego manteve até os nossos dias um sistema tradicional para a fixação da data da Páscoa. Quando, em 1582, o papa Gregário XIII reformou o calendário juliano, reformou também o calendário lunar eclesiástico, substituindo os números de ouro do ciclo metônico pelas epactas, sendo "a epacta gregoriana a idade da Lua no 1º de janeiro diminuída de uma unidade" [Couderc, 1946, p. 90].
Os calendários solares não apresentam tantas dificuldades como os calendários lunares, visto que a duração de um ano solar se adapta melhor aos ritmos da vida das sociedades, sendo o movimento do Sol mais regular do que o da Lua e portanto calculado com relativa precisão desde a Antiguidade. O calendário juliano, instituído por Júlio César no dia 1º de janeiro do ano 45 a.C., com a ajuda do astrônomo grego Sosígenes, representou uma reforma notável e radical. O total abandono de qualquer referência à Lua, e a escolha do ano como unidade de base conduziram à simplificação. O cálculo de 365,25 dias como duração do ano era uma ótima aproximação do valor real, que é de cerca de 365 dias, 5 horas, 49 minutos (Sosígenes estimara-o em 365 dias, 5 horas, 55 minutos), e a decisão de compensar o atraso deste ano de calendário em relação ao verdadeiro ano solar, acrescentando um dia suplementar todos os quatro anos, foi uma correção insuficiente mas aceitável. Este dia suplementar foi – por razões religiosas – acrescentado ao 24° dia de fevereiro que – também por razões religiosas – tinha no calendário romano tradicional o nome de sexto antes do início de março. Por isso, foi chamado bis-sexto e o ano correspondente também bis-sexto. Com efeito, o mês de fevereiro era um mês nefasto, consagrado aos deuses infernais, com uma duração de vinte e oito dias (número par, também ele nefasto, como então se convinha) e não podia todos os quatro anos tomar-se fasto por efeito do número ímpar do dia 29. O dia suplementar ficou portanto sem nome; foi simplesmente considerado o duplicado do sexto dia antes das calendas de março.
Todavia, o ano juliano acumulou um atraso em relação ao ano solar real, e o calendário juliano começou a afastar-se relativamente ao equinócio da Primavera fixado em 21 de março no Concílio de Nicéia de 325 d.C. Durante toda a Idade Média discutiu-se uma reforma do calendário juliano. O papa Gregário XIII concluiu-a em 1582, depois de consultar uma comissão de sábios. Em 1582, o equinócio da Primavera foi a 11 de março em vez de a 21, com uma diferença de dez dias. Estes dez dias foram suprimidos do ano de 1582, fato que alguns consideraram um sacrilégio. À quinta-feira 4 de outubro seguiu-se sexta-feira 15. Além disso, era necessário suprimir três dias todos os quatrocentos anos para que o reajustamento se mantivesse. Foi decidido que os anos seculares cujo milésimo terminasse em dois zeros não seriam bissextos, excetuando-se aqueles cujo número do século fosse divisível por quatro. Assim, depois de 1582 apenas 1600 foi bissexto; 1700, 1800, 1900 não o foram; o ano 2000 sê-lo-á de novo. Todavia, o ano gregoriano tem ainda em excesso três milésimos de dia, pelo que em dez mil anos o calendário gregoriano terá três dias a mais: será por isso necessário suprimir um dia entre os próximos três mil anos, mas esta perspectiva não faz inquietos os homens dos nossos dias.
Na China, a grande preocupação na instituição do calendário foi a de conciliar, o mais possível, os movimentos da Lua com os do Sol. Mas, de fato, "os dois grandes luminares" não são conciliáveis num só calendário: os calendários lunares não permitem que se prevejam as estações, os solares são incapazes de prever os plenilúnios. "Toda a história da reforma do calendário foi uma série de esforços para conciliar o inconciliável" [Needham, 1959, p. 390]. Em 1912, a República chinesa adotou o calendário juliano-gregoriano, ver-se-á em seguida com que sucesso.
Se, no mundo celeste, o problema do calendário é dominado pela Lua e pelo Sol, é preciso não esquecer o papel que tiveram as estrelas, sobretudo no passado. Com efeito, os homens que adotaram um calendário lunar tentaram também seguir, tanto quanto possível, o movimento anual das estações. Voltaram-se então para as estações: a aparição de uma constelação em função do movimento do Sol fornecia o ponto de referência desejado. No seu movimento anual, o Sol passa por um certo número de constelações que formam, no seu conjunto, um sistema de doze (tantas quantos são os meses) a que os astrônomos do Oriente antigo deram o nome de zodíaco. Os Caldeus, por exemplo, demonstraram um grande interesse na observação da constelação do Leão e na da sua estrela principal, Régulo. Quando o Sol se encontra no mês correspondente à constelação do Leão, a sua luminosidade torna Régulo dificilmente visível, mas em compensação, no mês seguinte, quando o Sol se desloca para Este, para a constelação vizinha, Virgem, descobre-se Régulo na esteira do Sol. Ora, há um dia em que, observando ao alvorecer o setor do céu onde o Sol está para surgir, se vê Régulo: é o nascimento helíaco de uma estrela. Quando o nascèr helíaco de um astro acontecia numa constelação outra, em vez de naquela onde se deveria ter verificado, significava que o calendário estava atrasado e que convinha introduzir um décimo terceiro mês intercalar [Couderc, 1946, p. 57].
A observação das estrelas não foi o monopólio dos astrônomos e dos governantes. Muitas vezes os camponeses e os marinheiros orientavam seu trabalho segundo as previsões que os nascer e os ocasos helíacos lhes permitiam. A grande importância conferida à observação das estrelas foi particularmente posta em relevo no célebre poema de Hesíodo, Os trabalhos e os dias (século VII a.C.): "Quando as Plêiades, filhas de Atlante, dealbam, tu começa a colheita, e quando se põem começa a cultivar o campo. Estas escondem-se por quarenta dias e outras tantas noites, depois de novo com o passar do ano, reaparecem quando se afia a foice" (vv. 383-87). "No tempo em que o açoite do sol pungente perde o ardor que torna o homem mole de suor, quando Zeus onipotente faz chegar as chuvas outonais, e os membros do homem se tomam muito mais ágeis – então, na verdade, a estrela Sirius passa sobre a cabeça dos homens destinados a morrer, só por pouco tempo durante o dia, e gosta de ficar mais tempo durante a noite –, naquele tempo a madeira do bosque é completamente imune à picada do caruncho... naquele tempo tu deves cortar a madeira do bosque..." (vv. 414-22)."Quando Zeus fez que se cumprissem sessenta dias invernais depois do solstício, a estrela de Arcturo, depois de ter abandonado a corrente sagrada do Oceano, aparece pela primeira vez no céu ao cair das trevas. E depois dela, a filha de Pandio de agudo lamento, a andorinha, lança-se para a luz entre os homens, no início da Primavera. Tu antes da sua chegada poda as vinhas, porque assim é melhor" (vv. 564-70).
Seria absolutamente falso e parcial limitar as relações do calendário com o Sol e a Lua a estes cálculos e reformas, apesar da grande complexidade dos fatores que entram em jogo. Se estes "luminares dos céus" presidiram à criação e à ação dos calendários, é porque inspiravam à humanidade sentimentos que iam muito além de uma simples observação científica e utilitária.
No mito das origens dos índios Pueblo, já citado, eles estão onipresentes: "O panteão pueblo é dominado por um Ser supremo, criador original, cuja figura muito vaga é substituída na vida cotidiana pela do Sol, pai da humanidade e protetor da caça, ao qual a aldeia dedica, na época do solstício, "paus de oração" plantados nos campos. A Lua é invocada da mesma maneira" [Bolens, 1971].
Para os povos lagunares da Costa do Marfim o calendário é lunar e, como na Caldéia e na Palestina antigas, o mês lunar tem início com a observação e a saudação do quarto crescente da Lua Nova. O grupo das crianças tem uma particular importância nestas manifestações: "Para as crianças a Lua é o astro que as faz crescer, portadora de saúde e de bom tempo. Para as mulheres, qualquer esposa que dê à luz naquele dia terá uma bela criança. A Lua é também o astro da beleza, objeto de um importante culto hoje desaparecido, de que apenas restam sobrevivências... [Para os camponeses] a Lua é símbolo de vida, de abundância e de riqueza" [Niangoran-Bouah, 1964, p. 39]. Estas crenças aproximam-se das dos Astecas, para os quais "a Lua preside ao nascimento da vegetação. Talvez fosse mais correto falar de renascimento, pois que a Lua, que aparece e desaparece no céu, simboliza para os antigos Mexicanos a morte e o renascimento das plantas" [Soustelle, 1940, p. 18]. Os antigos Egípcios acreditavam também na influência benéfica da Lua na germinação das sementes e na fecundidade dos animais: na época baixa modelavam-se quartos crescentes com terra úmida e grãos, assim que se encontrava Osíris, a água do Nilo [Frankfort, 19481.
Na Roma arcaica, o calendário lunar combinou-se desde muito cedo com um sistema quase solar: a renovação do ano festejava-se no primeiro plenilúnio depois de 15 de março, sob a proteção de uma deusa cujo nome, Anna Perenna, evocava a continuidade dos tempos, enquanto que Júpiter, deus predominante, era o deus do céu luminoso, a que pertenciam todos os idos, logo o ponto máximo de todos os ciclos mensais, "em que o esplendor da Lua Cheia sucede ao do Sol" [Bayet, 1957].
Na China, o Sol e a Lua disputam entre si os pontos de referência no calendário. O calendário é eminentemente lunar e, depois da reforma do final do século II a.C., o fim do ano calha no dia da primeira Lua Nova depois de o Sol ter entrado na constelação de Aquário, em fevereiro, enquanto que os dois solsticios e os dois equinócios são assinalados por festas especiais. Marcel Granet insiste sobre o fato de o princípio diretor do estabelecimento do calendário ser a alternância de um princípio masculino e de um principio feminino, o yang e o yin, que devem conjugar-se. Quando a Lua está cheia e de frente para o Sol, o rei e a rainha devem unir-se, mas, assim como a Lua tem a sua luz emprestada pelo Sol, a rainha não possui senão o reflexo da autoridade do rei, o qual é "o pai e a mãe" do povo.
Segundo Mircea Eliade [1964, p. 1401, a Lua é "por excelência o astro dos ritmos da vida": a antiga raiz indo-européia me, que designa a Lua, i também a de qualquer medida. "O tempo controlado e medido pelas fases da Lua é um tempo "vivo", refere-se sempre a uma realidade biocósmica, chuva ou marés, sementeira ou ciclo menstrual".
O cristianismo não é muito favorável à Lua. A mulher apocalíptica assimilada à Virgem Maria na iconografia medieval pousa o pé num quarto crescente de Lua que simboliza a precariedade das coisas humanas, e ao louco chama-se lunático. As crenças populares européias atribuem à Lua um grande poder, como atestam inumeráveis provérbios e ditos, mas trata-se quase sempre de um poder maléfico [cf. para a França, Sébillot, 19041907].
No que se refere ao Sol, limitar-nos-emos a recordar, com base nos trabalhos de Soustelle [19401, o papel essencial que teve no pensamento cosmológico dos antigos Mexicanos. Se a Lua e o planeta Vênus estão estreitamente ligados às crenças e às práticas solares, se a Lua, em particular, é ao mesmo tempo um deus sacrificado e uma deusa que representa o lado feminino da natureza, a fecundidade, a vegetação, a embriaguez, e constitui com o Sol o antigo par primordial, no entanto é o Sol o dominador do jogo. Este identifica-se com o universo, pois o mundo onde os Mexicanos viviam tinha sido, segundo eles, precedido por quatro mundos ou "sóis": "Sol de Tigre", "Sol de Vento", "Sol de Chuva ou de Fogo" e "Sol de Água". O Sol atual tinha nascido no ano 13 acutl, um ano que pertencia ao Oriente, isto é ao renascimento. Este sol era por outro lado o deus supremo, Quetzalcóatl ressuscitado. Aliás, cada classe social tem o seu Sol, talvez segundo um esquema funcional, do gênero daquele que Georges Dumézil pôs em evidência para os Indo-europeus.
Quetzalcóatl-Nanauatzin era o Sol – deus dos sacerdotes, que sé sacrifica para renascer; Huitzilopochtli, o Sol – herói dos guerreiros, combatente e triunfante. Havia enfim um Sol – pai dos camponeses, pouco conhecido, mas que era provavelmente um deus da fertilidade. A função deste Sol-deus refletia-se em mitos ao longo de todo o seu movimento anual.