História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 22 de 74

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História e Memória

6. O século XX entre a vivência do passado, a história do presente e o fascínio do futuro

O gosto romântico pelo passado, que alimenta os movimentos nacionalistas europeus do século XIX e foi incrementado pelos nacionalismos, incidiu também sobre a antiguidade jurídica e filosófica e a cultura popular. O melhor exemplo desta tendência é, sem dúvida, a obra dos irmãos Jakob e Wilhelm Grimm, autores dos célebres Contos para crianças e famílias (Kinder-und Hausmãrchen , 1812 ss.), da História da língua alemã (Geschichte der deutschen Sprache, 1848) e de um Vocabulário alemão (Deutsches Wõrterbuch, 1852 ss.).

 

6. O século XX entre a vivência do passado, a história do presente e o fascínio do futuro

 

O Milenarismo, longe de ter desaparecido na Europa do século XIX, oculta-se no seio do próprio pensamento marxista, que se considera científico, assim como do pensamento positivista: quando Auguste Comte, na Sommaire appréciation de l'ensemble du passé moderne (1820), defende a ultrapassagem de um sistema teológico e militar e a aurora de um novo sistema científico e industrial, surge-nos como um novo Joaquim da Fiore.

O século XIX continuou a fazer reviver o passado medieval para além do Romantismo (Graus, 1975).

Contudo, no início do século XX, a crise do progresso que se esboça, determina novas atitudes em face do passado, do presente e do futuro.

A ligação ao passado começa por adquirir formas inicialmente exasperadas, reacionárias; depois, a segunda metade do século XX, entre a angústia atômica e a euforia do progresso científico e técnico, volta-se para o passado com nostalgia e, para o futuro, com temor ou esperança. Entretanto, na esteira de Marx, os historiadores esforçam-se por estabelecer novas relações entre presente e passado.

Marx tinha já denunciado o peso paralisante do passado – de um passado reduzido à exaltação das "memórias gloriosas" – sobre os povos, por exemplo, o Francês: "O drama dos franceses, tal como o dos operários, são as grandes memórias. É necessário que os acontecimentos ponham fim, de uma vez por todas, a este culto reacionário do passado" [1870, p. 147], culto que, no fim do século XIX e início do século XX, foi um dos elementos essenciais das ideologias de direita e uma das componentes das ideologias fascistas e nazis.

Ainda hoje, o culto pelo passado se alia ao conservantismo social, identificando-o Pierre Bourdieu com categorias sociais em declínio: "Uma classe ou uma fração de classe está em declínio e, portanto, voltada para o passado, quando já não está à altura de reproduzir, com todas as suas propriedades, condições e posições..." [1979, p. 530].

A aceleração da história, por outro lado, levou as massas dos países industrializados a ligarem-se nostalgicamente às suas raízes: daí a moda retro, o gosto pela história e pela arqueologia, o interesse pelo folclore, o entusiasmo pela fotografia, criadora de memórias e recordações, o prestígio da noção de patrimônio.

Também em outros domínios a atenção pelo passado desempenhou um papel importante: na literatura, com Proust e Joyce, na filosofia com Bergson e, finalmente, numa nova ciência, a psicanálise. Nela, o psiquismo é representado como sendo dominado pelas recordações inconscientes, pela história oculta dos indivíduos e, principalmente, pelo passado mais longínquo, o da mais tenra infância. A importância atribuída ao passado pela psicanálise foi, no entanto, negada, por exemplo,por Marie Bonaparte, citando Freud: "Os processos do sistema inconsciente são atemporais; isto é, não são ordenados temporalmente, nem são modificados pelo tempo que passa, não têm relação nenhuma com o tempo. A relação com o tempo está ligada ao trabalho do sistema consciente" [1939, p. 73].

Jean Piaget faz outra crítica ao "freudismo", o passado que a experiência psicanalítica apreende não é um verdadeiro passado, mas um passado reconstruído: "O que esta operação nos dá é a noção atual do sujeito sobre o passado e não o seu conhecimento direto. E como Erikson afirmou (um psicanalista não-ortodoxo com o qual estou inteiramente de acordo), "o passado aparece reconstruído em função do presente, da mesma forma que o presente é explicado em função do passado. Há uma interação entre eles, enquanto que para o freudismo ortodoxo, é o passado que determina o comportamento atual do adulto. Como se conhece, então, esse passado? Através de recordações que são reconstruídas num contexto, que é o do presente e em função desse mesmo presente" [citado em Bringuier, 1977, p. 181]

Concluindo, a psicanálise freudiana inscreve-se num vasto movimento anti-histórico que tende a negar a importância da relação passado/presente e que tem, paradoxalmente, as suas raízes no positivismo. A história positivista que, através de métodos cada vez mais científicos de datação e crítica de textos, parecia permitir um bom estudo do passado, estava imobilizando a história no acontecimento e a eliminar a temporalidade. Na Inglaterra, a historiografia oxoniense chegava, por outras vias, ao mesmo resultado. O aforismo de Freeman "A história é a política do passado e apolítica é a história do presente" pervertia a relação passado/presente; quando Gardiner declarava que "o que estuda a sociedade do passado prestará grandes serviços à sociedade do presente na medida em que não a toma em consideração", estava seguindo a mesma orientação [Marwick, 1970, pp. 47-48].

Estas afirmações, ou constituem apenas uma defesa contra o anacronismo e, nesse caso, são banalidades; ou então, são uma ruptura com todas as ligações racionais entre presente e passado. O positivismo teve também outra atitude que, nomeadamente na França, levou à negação do passado que afirmava venerar. É ela o "desejo de eternidade" reaparecido sob forma laica. Tal como Otão de Freising, no século XIV, pensava que com a realização do sistema feudal, controlado pela Igreja, a história atingiria os seus fins e acabaria; também na França se pensava que, depois da Revolução e da República, para além de 1789 e 1880, apenas existiria a eternidade (como disse com pertinência Alphonse Dupront) "de tal modo a forma republicana consagrava o gênio revolucionário da França". Os manuais escolares pareciam defender que a história tinha atingido então o seu fim e adquirido estabilidade perpétua: "República e França: tais são, meus meninos, os dois nomes que devem manter-se gravados no mais fundo dos vossos corações. Que eles sejam objeto do vosso amor constante e do vosso eterno reconhecimento". Alphonse Dupront acrescenta: "A marca da eternidade está agora sobre a França" [1972, p. 1466].

De modo diferente, os nossos domínios científicos – a psicanálise, a sociologia e o estruturalismo – partem à procura do intemporal e procuram esvaziar o passado. Philip Abrams mostrou que, se os sociólogos (e os antropólogos) se reclamassem do passado, a sua atividade seria na realidade an-histórica: "O essencial não era conhecer o passado, mas fazer uma idéia dele, da qual nos pudéssemos servir como termo de comparação para compreender o presente" [1972, p. 28]. Alguns especialistas de ciências humanas reagem hoje contra esta eliminação do passado. O historiador Jean Chesneaux pôs a seguinte questão: fazemos tábua rasa do passado? Esta é a tentação de muitos revolucionários ou de jovens preocupados em se libertarem de todos os constrangimentos, incluindo o do passado. Jean Chesneaux não ignora a manipulação do passado feita pelas classes dominantes. E, por isso, pensa que os povos, em especial os do Terceiro Mundo, deviam "libertar o passado". Mas não podemos rejeitá-lo, temos é de colocá-lo a serviço das lutas sociais e nacionais: "Se o passado tem importância para as massas sociais é num outro aspecto da vida social, quando se insere diretamente nas suas lutas" [1976]. Esta integração do passado na luta revolucionária ou política estabelece uma confusão entre as duas atitudes que o historiador deve ter perante o passado, mas que deve manter distintas uma da outra: a sua atitude científica de homem do ofício e o seu compromisso político enquanto homem e cidadão.

O antropólogo Marc Augé parte da constatação do aspecto repressivo da memória, da história, da chamada à ordem do passado, ou melhor, do futuro: é "o passado como constrição". Quanto ao futuro, "os messianismos e os profetismos também confirmam o constrangimento ao futuro passado, diferindo a aparição de sinais que exprimem, uma vez chegado o momento, uma necessidade radicada no passado" [1977, p. 149]. Mas "que a história tenha um sentido, é a exigência de toda a sociedade atual... a exigência do sentido passa sempre por um pensamento do passado" [ibid., pp. 151-52]. O que acontece é fazerem-se, em função do presente, re-leituras constantes do passado, que deve sempre poder ser posto em causa.

Este pôr em questão do passado, a partir do presente, é aquilo a que Jean Chesneaux chama "inverter a relação passado/presente" e atribui a sua origem a Marx. Partindo de uma afirmação de Marx nos Grundrisse ("A sociedade burguesa é a organização histórica de produção mais diversificada e desenvolvida. As categorias que as relações desta sociedade exprimem e asseguram, a compreensão da sua estrutura, permitem-nos também compreender a estrutura e as relações de produção das sociedades passadas" [1857-58]. Henri Lefebvre observou: "Marx indicou claramente o processo do pensamento histórico. o historiador parte do presente... a sua atuação é, de início, recorrente. Vai do presente ao passado. Daí volta ao presente, que é então melhor analisado e conhecido e já não oferece à análise uma totalidade confusa" [1970].

Marc Bloch propôs também ao historiador, como método, um duplo movimento: compreender o presente pelo passado, compreender o passado pelo presente: "A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado. Mas é talvez igualmente inútil esgotar-se a compreender o passado, se nada se souber do presente" [1941-42, p. 47]. Daí a importância da recorrência em história: "Seria um erro grave acreditar que a ordem adotada pelos historiadores nas suas investigações se deve modelar necessariamente pela dos acontecimentos. Para restituir à história o seu verdadeiro movimento, seria muitas vezes proveitoso começar por lê-la "ao contrário", como dizia Maitland" [ibid., p. 48].

Esta concepção das relações passado/presente desempenhou um grande papel na revista "Annales" – fundada em 1929 por Lucien Febvre e Marc Bloch –, que inspirou e deu nome à revista britânica de história "Past and Present", a qual, no primeiro número, em 1952, declarou: "A história não pode, logicamente, separar o estudo do passado, do estudo do presente e do futuro".

O futuro, tal como o passado, atrai os homens de hoje, que procuram suas raízes e sua identidade, e mais que nunca fascina-os. Mas os velhos apocalipses, os velhos milenarismos renascem, alimentados por um novo fortificante, a ciência-ficção: desenvolve-se a futurologia. Filósofos e biólogos trazem contribuições notáveis para a inserção da história no futuro. Por exemplo, o filósofo Gaston Berger perscrutou a idéia de futuro e a atitude prospéctica. Partindo da constatação que "os homens só muito tardiamente têm consciência da significação do futuro' [1964, p. 227] e da frase de Paul Valéry "Entramos no futuro às arrecuas", recomendou uma conversão do passado em futuro e uma atitude perante o passado que não desvie nem do presente, nem do futuro e que, pelo contrário, ajude a prevê-lo e a prepará-lo.

O biólogo Jacques Ruffié, no fim de De la biologie à la culture, examina a perspectiva e o "apelo do futuro". Para ele, a humanidade está à beira de um "novo salto evolutivo" [1976, p. 579]. Estamos talvez assistindo ao início de uma transformação profunda das relações do passado com o presente.

A aceleração da história tornou insustentável a definição oficial da História Contemporânea. É necessário fazer nascer uma verdadeira história contemporânea, uma história do presente que pressupõe que não haja apenas história do passado, que acabe "uma história que assenta num corte nítido do presente e do passado" e que se recuse a "demissão perante o conhecimento do presente, no preciso momento em que este muda de natureza e se enriquece com os elementos de que a ciência se mune para conhecer o passado" [Nora, 1978, p. 468]. [J. Le G.].

Tradução: Irene Ferreira