História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 64 de 74

Páginas do PDF

História e Memória

6. A semana

de dias bem definido (30, 36 ou 42), que regula a vida social e religiosa. Assim, o mês tem sobretudo um caráter econômico, enquanto regula a atividade do trabalho dos campos e da pesca. O mês ritual é, por outro lado, essencial, para todo um conjunto de cerimônias que têm lugar apenas uma vez no ciclo mensal.

Esta incerteza sobre a delimitação dos meses permitiu aos Chineses criar, num certo sentido, meios meses, dividindo o ano em vinte e quatro seções ou "nós" (chieh) essencialmente meteorológicos, cujos nomes, a partir de 6 de fevereiro, são: Início da Primavera, Água de chuva, Despertar dos insetos, Equinócio da Primavera, Pura limpidez, Chuva de cereal, Início do Verão, Abundância de grãos, na espiga, Solstício de Verão, Ligeiro calor, Grande calor, Início do Outono, Fim do calor, Orvalho branco, Equinócio de Outono, Orvalho frio, Queda do gelo, Início do Inverno, Pequena neve, Grande neve, Solstício de Inverno, Ligeiro frio, Grande frio.

Enfim, os meses estiveram por vezes na base de um sistema de períodos fastos e nefastos. Para os Babilônicos, durante as festas do ano-novo, o akftu (que durava doze dias como o ciclo de doze dias que, no calendário tradicional, abre o ano na Europa: do Natal à Epifania, a twelfth night inglesa), celebrava-se o zakmuk 'festa das sortes', durante a qual era sorteado o caráter fasto ou nefasto de cada um dos doze meses do ano sucessivo.

Para os Romanos, o calendário juliano atribuía um significado de fasto e de nefasto aos números ímpares ("gaudet impari numero deus") e pares. A um mês fasto de trinta e um dias (a partir de janeiro) sucedia-se um mês nefasto de trinta dias; o mais nefasto – como se viu – era o mês de fevereiro, que tinha só vinte e oito dias, número par – isto é, nefasto – mesmo nos anos bissextos, graças à convenção que evitava que se nomeasse o vigésimo nono dia.

Numa grande parte da Europa, maio, mês de pleno retorno da Primavera, foi caracterizado por práticas mágicas destinadas a festejar a natureza que se renova: árvores de maio, designação de uma rainha ou beleza de maio. No século XVIII, a Igreja fez do mês de maio o mês de Maria e da virgindade, mês em que não era conveniente casar-se, reevocando assim o caráter nefasto que o mês de maio tinha para os Romanos, sobretudo do ponto de vista sexual.

Em certos povos africanos encontra-se uma variante do sistema dos meses fastos e nefastos, havendo entre os meses uma hierarquia estabelecida. Os Gueré, por exemplo, consideram que "os melhores meses são os meses de trabalho" e põem em primeiro lugar o mês das primeiras chuvas, em que se planta o arroz, depois os três meses da estação seca.

Mas a hierarquia dos meses vem sobretudo da sua ligação às atividades econômicas, a que voltaremos. O mês, ligado sobretudo à atividade rural, veio a adquirir um novo significado sócio-econômico nos países em que, depois do pagamento mensal dos empregados, dos criados, dos aluguéis, etc., se instaura o pagamento mensal dos operários e dos impostos (por exemplo, na França).

 

6. A semana

 

A semana é a grande invenção humana no calendário; a descoberta de um ritmo que tem cada vez mais peso nas sociedades contemporâneas desenvolvidas. Poucos povos ignoram a semana. Todavia, este é o caso, como vimos, de certos povos africanos.

Na Antiguidade, os Egípcios, os Chineses, os Gregos contaram primeiro por décadas. A semana parece ter sido uma invenção dos Hebreus, que, neste caso, como em muitos outros ligados à astronomia, ficaram a dever muito aos Caldeus. Ainda que, para estes, 7 fosse um número nefasto, eles interessavam-se todavia pelos sete astros móveis que tinham descoberto e a que chamavam planetas: a lua (na realidade, um satélite da Terra), de onde veio lundi; Marte, de onde mardi; Mercúrio, de onde mercredi; Júpiter, de onde jeudi; Vênus, de onde veio vendredi; Saturno, de onde veio saturday em inglês (substituído em italiano e em francês pelo dia do shabbãt); o Sol (na realidade uma estrela) de onde sunday e Sonntag, respectivamente em inglês e em alemão (enquanto que os italianos e os franceses o consagraram ao Senhor: respectivamente domenica e dimanche).