História e Memória
12. Os calendários utópicos
Apesar do seu êxito, os homens não se contentaram em controlar o tempo por meio dos calendários utilitários. Fizeram-nos também depositários dos seus sonhos e das suas esperanças, levados às vezes ao nível da quimera e da utopia.
Houve, pelo menos, um grande calendário utópico que funcionou durante um certo período: o calendário revolucionário. Inspirado pela natureza, pela história e pela razão, foi uma magnífica construção a que nada faltou, a não ser as bases sólidas da tradição nas quais qualquer calendário deve inscrever-se.
Utopia retomada por Michelet num surpreendente texto de 1896, com o título Ce que je rêvais dans l'Eglise d'Engelberg (publicado no suplemento literário, n° 44, do "Figaro", 29 de outubro de 1892): "Quanto aos pequenos livros, o Almanaque seria um excelente meio de educação. Bastaria substituir o velho calendário, no que este tem de confuso e muitas vezes de absurdo, pelo calendário que falasse dos verdadeiros santos, sobretudo os da Pátria. Uma página para cada um, não seria muito, nem difícil de recordar. Desejaria que a maior parte destas vidas fosse escrita por penas jovens, por almas ingênuas, dotadas daquela simplicidade que só ela permite falar ao povo. Se fosse eu a fazer este almanaque, dos santos cristãos escolheria apenas aqueles que tiveram um papel positivo na história da humanidade, que serviram a causa do progresso. Continuaria, assim, através das idades, sem interrupções, a série de patronos que cada um, à sua escolha, poderia imitar. Imitar! Jamais esta palavra teria sido mais apropriada e mais fecunda de resultados imensos, duráveis, do ponto de vista da educação religiosa e cívica do povo, e de todos. Mas por que ordem dispor estes santos do dever, do heroísmo, da devoção? A que mês, por exemplo, destinar Marco Aurélio, para a antiguidade? E Turgot, para os tempos modernos?... Escolhê-los por séculos, por noções? Porque este novo almanaque, o primeiro verdadeiramente educativo, poderia convir ao mundo inteiro".
Utopia do calendário fixo concebido por Auguste Comte, em 1849, com treze meses iguais de vinte e oito dias seguido de um dia branco, cada mês com quatro semanas e todos idênticos. O dia branco seria o Ano-Novo, a 29 de dezembro: única fantasia no meio do mais monótono dos calendários que, não contente em violar as tradições mais legítimas, se baseia no número treze, que os astrônomos e os medidores do tempo desaconselham formalmente por causa da sua inadequação aritmética.
Em torno da idéia de calendário universal (que seria também um calendário perpétuo) gravitam muitos projetos e estudos, individuais ou coletivos no seio de numerosas comissões.
Uma das tentativas mais recentes foi a de Elisabeth Achelis, em 1930, sob o patronato da World Calendar Association, com sede em Nova Iorque, que continua a fazer uma abundante publicidade em todas as línguas. O calendário mundial proposto comporta doze meses de trinta e trinta e um dias e um dia intercalar no Ano-Novo. Este projeto, que tem como subtítulo "A matemática pura na vida cotidiana", pretende adaptar o calendário tradicional "às exigências da vida moderna"; declara-se de acordo com a natureza e com a religião, e oferece uma imagem simbólica que seria a da cidade ideal do Apocalipse. O tom da apresentação une o misticismo ao racionalismo, mas a menção do Apocalipse não é o único elemento que faz pensar na utopia.
Sabe-se que a multiplicidade dos calendários suscita um crescente embaraço para as nações que estão empenhadas em uma organização internacional sempre mais desenvolvida e constitui um obstáculo à adoção de um calendário universal, a qual pressuporia uma "noite de 4 de agosto" dos particularismos sobreviventes em matéria de medida e de controle do tempo.
A reforma juliana, a reforma gregoriana, as reformas chinesas provam que uma reforma do calendário é possível e que pode trazer inegáveis progressos. Mas o calendário empenha os homens e a sociedade em todos os aspectos da sua vida e, em primeiro lugar, na sua história individual e coletiva. Uma reforma do calendário, para ser bem sucedida, deve antes de mais nada respeitar a história, porque o calendário é a história [J. Le G.].
Tradução: Suzana Ferreira Borges