História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 40 de 74

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História e Memória

6. A renovação escatológica contemporânea

O século XVIII, século das Luzes, encontrou um lugar marginal, mas significativo, para idéias e movimentos animados em geral por místicos laicos, com um sistema de esoterismo (com pretensões mais ou menos científicas) e pensamento escatológico, como J. Lavater e Charles de Messe que esperavam o regresso de S. João que deveria abrir o Milênio; no Suécia, Emmanuel Swedenborg (1698-1772) que também anunciou a Nova Jerusalém (título de uma das suas obras) e foi considerado por alguns como o João Baptista da nova era.

Finalmente, o século XIX combinou escatologia, nacionalismo e romantismo e, conforme os casos, tradicionalismo ou socialismo, com utopias milenaristas. A título de exemplo, desses messianismos do século XIX citamos, por um lado, o milenarismo polaco e, por outro, a corrente tradicionalista francesa.

O mais célebre milenarista polaco foi o poeta e patriota Adam Mickiewicz (1792-1855) – influenciado primeiro por Swedenborg e Claude Saint-Martin (1803) – que acreditava que a Revolução Francesa era um fenômeno pré-milenarista e, depois, pelo seu compatriota André Towianski, que encontrou em 1841, no seu exílio em Paris. Foi subretudo o porta-palavra de Towianski na obra L'église officielle et le messianisme [1842-43] e nos seus cursos no Collège de France.

André Towianski (1799-1878) interpreta a história como manifestação da "Grande Obra de Deus". Até então, só individualmente os homens conseguiram participar na "Grande Obra". Daqui em diante essa participação será um fato para as Nações e Povos que, libertados por Napoleão, poderão trabalhar no próximo aparecimento de uma Igreja renovada. Três nações desempenham um papel de primeiro plano neste acordo: os Judeus, os Franceses e os Eslavos, entre os quais os Polacos que, por maior que seja o patriotismo de Towianski, apenas tocam uma "pequena melodia". Towianski apresentava-se a si próprio como o primeiro dos sete mensageiros do Apocalipse. Em contrapartida, Mickiewicz atribuía uma importância muito maior à nação polaca no seu Livre de Ia nation polonaise et de son pélerinage (1832): "A nação polaca não está morta para sempre. Ao terceiro dia ressuscitará e libertará da servidão todos os povos da Europa... E já dois dias são passados... e o terceiro dia virá, mas não acabará... Tal como com a ressurreição de Cristo, cessaram em toda a terra os sacrifícios sangrentos, assim com a ressurreição da nação polaca, acabarão as guerras na cristandade" [citado em Desroche, 1969, pp. 187-88 e 248-49].

A corrente escatológica tradicionalista francesa tem, em grande parte, origem numa personagem curiosa, Vintras, de morai duvidosa, defensor de um pseudo-Luís XVII (chamado Naundorf), a quem, desde 1839, aparece S. José, "que lhe dá a missão de anunciar o reino do Espírito Santo, reino do Amor, a renovação da Igreja e o aparecimento conjunto de um Santo Pontífice e de um forte monarca" [citado ibid., p. 255]. Obrigado a abandonar a França em 1852, Vintras fundou em Londres um santuário (capelle éliaque) e escreveu uma grande obra sobre o "Evangelho Eterno". Teve numerosos discípulos, através dos quais influenciou três dos maiores escritores tradicionalistas franceses, do fim do século XIX: Maurice Barrès, Huysman e principalmente, Léon Bloy que, durante toda a vida, espera (e profetizou) o eschàton ("Espero os cossacos e o Espírito Santo") e que identificou o Paracleto com Lúcifer [ibid., pp. 70-71].

 

6. A renovação escatológica contemporânea

 

Desde o fim do século XIX que existe nas religiões (e fora delas) uma grande renovação escatológica que, em linhas gerais, parece estar ligada à aceleração da história no mundo.

Nos países desenvolvidos, a revolução industrial, o salto tecnológico e a descristianização levaram as igrejas, as seitas e os indivíduos a reinterrogarem-se sobre o sentido da história e sobre a componente escatológica religiosa; nos países colonizados e, mais tarde, descolonizados, o encontro entre civilizações deu origem a um extraordinário florescimento milenarista e messiânico. As ideologias revolucionárias, incluindo as que se consideram fundamentadas nas bases mais científicas, integram, com maior ou menor consciência, elementos escatológicos, isto é, apocalípticos. Finalmente, a era atômica suscitou numa grande parte da humanidade uma angústia e uma mentalidade apocalípticas no sentido vulgar do termo, ou seja, catastróficas.

A laicização da escatologia é talvez a primeira e a mais inovadora das metamorfoses da escatologia. Na linha dos milenarismos igualitários, de Thomas Münzer às seitas inglesas, mas fora de qualquer referência religiosa explícita: no quadro do materialismo histórico ateu, apresentado como um rejuvenescimento científico, o marxismo, pela sua teoria da revolução e pela sua marcha inevitável para uma sociedade sem classes, é uma teoria escatológica. Ainda aqui, em luta com a realidade terrestre, o aparecimento da sociedade ideal, dado primeiro como próximo, recua pouco a pouco no futuro, enquanto que o grupo portador da potencialidade escatológica – neste caso a classe operária – vê o seu papel esboroar-se na prática e na teoria. Karl Mannheim já o tinha destacado: "Muitos elementos que constituíam a atitude chiliástica encontraram uma nova forma e um refúgio no sindicalismo e no bolchevismo e foram, deste modo, incorporados na atividade destes movimentos. Deste mo- – do, o bolchevismo assumiu a função de acelerar e catalisar, mas não de divinizar a ação revolucionária" [1929, p. 121].

Desde Joaquim da Fiore e Hegel e ao marxismo, as influências parecem ter sido contínuas e diretas, como disse Jakob Taubes [1947]. 0 anarquismo e, de certo modo, o "anarquismo radical", tal como Karl Mannheim se apercebeu [1929, p. 2111, com a espera da Grande Noite (equivalente ao Grande Dia, ao dia do Senhor) sendo o ideal de uma sociedade sem burocracia nem governo, "a forma relativamente mais pura da mentalidade chiliástica moderna" [ibid.].

Nestas concepções revolucionárias deve-se sublinhar um rejuvenescimento de perspectivas: a Idade do Ouro que a humanidade julgava ter deixado para trás, está agora perante nós. Mas, apesar da importância das idéias milenaristas que concebem o Milênio como um regresso ao paraíso originário, a definição de uma "nova" sociedade em sentido escatológico, situada num futuro que é também novo (e não renascido) é, como se viu, uma idéia antiga. Sob este e outros aspectos, o marxismo situa-se na tradição ocidental e judaico-cristã de um tempo linear, de um progresso irreversível da história.

O Sionismo foi, pelo seu lado, marcado por certas influências judaicas ("A própria vida de Theodor Herzl, o fundador do sionismo mundial, não está isenta de uma certa infiltração messiânica. E, ainda hoje, agrada recordar a David Ben Gurion como a restauração do Estado judaico se liga à tradição de Bar Kõkbã" [Desroche, 1969, p. 12]), enquanto que algumas seitas judaicas se recusam a ver no Estado de Israel a realização da promessa e continuam à espera do Messias. No mundo muçulmano, também o século XIX assistiu à multiplicação destas personagens político-religiosas, os Mahdi, que se erguiam contra a ordem estabelecida e os ocupantes estrangeiros. Outras sociedades da velha civilização, como por exemplo a China, viram também desenvolver-se movimentos de tipo milenarista [cf. Chesneaux e Boardman, 1962].

Mas a espera escatológica exprimiu-se acima de tudo através dos milenarismos melanésios da Oceânia e negros da África e da América, ligados ao colonialismo e à opressão dos brancos; forçados, para o melhor e para o pior, a esforços de aculturação com todas as formas de Cristianismo, confundindo, até o cúmulo da ambigüidade, os aspectos sociais, políticos e religiosos; envolvidos nas peripécias da colonização e da descolonização [cf. Guariglia, 1959; Lanternari, 1960; Mühlmann, 1961].

No contexto das Igrejas católica e reformada, a escatologia conheceu, no século XX, uma grande recrudescência de atualidade, principalmente nos protestantes. Enquanto que entre os católicos havia sobretudo uma afirmação da posição ortodoxa da Igreja, consolidada desde S. Paulo e Santo Agostinho, para os quais, desde a Encarnação, que a escatologia é já "uma escatologia começada" [Daniélou, 1953] e conduzida pela Igreja que é, ela própria, uma comunidade escatológica, as posições protestantes são mais diversificadas. Para Schweitzer [1929] e a sua escola, teóricos da "escatologia conseqüente", o fim dos tempos, unicamente situado no futuro, deve realizar-se numa catástrofe iminente. Para outros, a escatologia deve ser considerada "atemporal" ou "supratemporal". Karl Barth, por exemplo, considera que a escatologia realizada em Cristo ainda não entrou na vida dos homens e que a eternidade se mantém extrínseca ao tempo. A "escatologia desmitificada" de Bultmann [19571, que sofreu grande influência da filosofia existencial de Martin Heidegger, procurando fora do tempo e da história o sentido do "mito" da história da salvação, faz ressaltar, mais radicalmente ainda, a escatologia do tempo e da história.