História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 20 de 74

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História e Memória

4. Reflexões de caráter geral sobre passado/presente na consciência histórica

Nos Azanda "presente e futuro sobrepõem-se de tal modo que o presente participa, por assim dizer, do futuro" [Evans Pritchard, 1937]. Os seus oráculos, muito praticados, contêm já o futuro. Mas no seio do pensamento selvagem, profundamente sincrônico, está oculto o sentido de um passado histórico. LéviStrauss julga poder identificá-lo nos Aranda da Austrália Central, através dos churinga, "objetos em pedra ou madeira, de forma aproximadamente oval, com extremidades pontiagudas ou arredondadas, freqüentemente semeadas de signos simbólicos..." [Lévi-Strauss, 1962], nos quais vê notáveis analogias com os nossos documentos de arquivo. "Os churinga são os testemunhos palpáveis do período mítico... Se perdêssemos os arquivos, o nosso passado não seria, por isso, abolido: seria privado daquilo a que podemos chamar o seu sabor diacrônico. Continuaria ainda a existir como passado, mas preservado apenas nas reproduções, em livros, instituições, mesmo numa ou outra situação, todos contemporâneos ou recentes. Por conseguinte, também ele seria reduzido à sincronia" [ibid.].

Em certos povos da Costa do Marfim a consciência de um passado histórico já se encontra desenvolvida lado a lado com uma multiplicidade de tempos diversos. Os Guéré têm, assim, cinco categorias temporais: 1) o tempo mítico, tempo do antepassado mítico; entre ele e o primeiro avô real existe um abismo; 2) o tempo histórico, espécie de canção de gesta do clã; 3) o tempo genealógico, que pode abranger mais de dez gerações; 4) o tempo vivido, que se subdivide em tempo antigo, um tempo muito duro, de guerras tribais, fome, insânia; tempo da colonização, libertador e ao mesmo tempo escravizante; tempo da independência, paradoxalmente sentido como tempo de opressão, em conseqüência da modernização; 5) o tempo projetado, tempo da imaginação do futuro.

 

4. Reflexões de caráter geral sobre passado/presente na consciência histórica

 

Eric Hobsbawm [1972] levantou o problema da "função social do passado", entendendo por passado o período anterior aos acontecimentos de que um indivíduo se lembra diretamente.

A maior parte das sociedades considera o passado como modelo do presente. Nesta devoção pelo passado há, no entanto, fendas através das quais se insinuam a inovação e a mudança.

Qual a parte de inovação que as sociedades admitem na sua ligação com o passado? Só algumas seitas conseguem isolar-se e resistir totalmente à mudança. As sociedades ditas tradicionais, especialmente as camponesas, não são tão estáticas como se julga. Se a ligação ao passado pode admitir novidades e transformações, na maior parte dos casos o sentido da evolução é apercebido como decadência ou declínio. A inovação aparece em uma sociedade sob a forma de um regresso ao passado: é a idéia-força das "renascenças".

Muitos movimentos revolucionários tiveram como palavra de ordem e objetivo o regresso ao passado, por exemplo, a tentativa de Zapata de restaurar, no México, a sociedade camponesa de Morelos, no estado em que se encontrava quarenta anos antes, riscando a época de Porfírio Díaz e regressando ao status quo anterior. Não podemos deixar de referir as restaurações simbólicas, como a reconstrução da velha cidade de Varsóvia, tal como se encontrava antes das destruições da Segunda Guerra Mundial. A reivindicação de um regresso ao passado deriva novas iniciativas: o nome 'Gana' transfere a história de uma parte da África para outra, geograficamente afastada e historicamente diferente. O movimento sionista não deu origem à restauração da antiga Palestina judaica, mas a um estado completamente novo: Israel. Os movimentos nacionalistas, do nazismo ao fascismo, que tendem a instaurar uma ordem completamente nova, apresentam-se como arcaizantes e tradicionalistas. O passado só é rejeitado quando a inovação é considerada inevitável e socialmente desejável. Quando e como as palavras 'novo' e 'revolucionário' se tornaram sinônimas de 'melhor' e 'mais desejável'? Dois problemas específicos são os que se referem ao passado, como genealogia e cronologia. Os indivíduos que compõem uma sociedade sentem quase sempre a necessidade de ter antepassados; é esta uma das funções dos grandes homens. Os costumes e o gosto artístico do passado são muitas vezes adotados pelos revolucionários. A cronologia mantém-se essencial para o sentido moderno, histórico, do passado pois que a história é uma mudança orientada. Coexistem cronologias históricas e não-histórica e temos de admitir a persistência de formas diferentes de sentido do passado. Nadamos no passado como peixes na água e não podemos escapar-lhe [Hobsbawm, 1972]. François Châtelet, por seu lado, ao estudar o nascimento da história na Grécia antiga, definiu previamente os traços característicos do "espírito histórico". Começa por apresentar o passado e o presente como categorias idênticas e simultaneamente diferenciadas: