História e Memória
3. Passado/presente no pensamento selvagem
Émile Benveniste [1965] estabelece uma importante distinção entre: a) tempo físico, "contínuo, uniforme, infinito, linear, divisível à vontade"; b) tempo cronológico ou "tempo de acontecimentos" que, socializado, é o tempo do calendário; c) tempo lingüístico, que "tem o próprio centro no presente da instância da palavra", o tempo do locutor: "O único tempo inerente à língua e o presente axial do discurso e... tal presente é implícito. Isto determina outras duas referências temporais, que estão necessariamente explicitadas num significante e fazem aparecer o presente à sua volta como uma linha de separação entre o que já não é presente e o que irá sê-lo. Estas duas referências não são próprias do tempo, mas, de pontos de vista sobre ele, sendo projetadas para trás ou para frente, a partir do momento presente".
Ora, o tempo histórico, porque não se exprime 'á maior parte das vezes em termos narrativos, ao nível do historiador ou ao da memória coletiva, comporta uma referência constante ao presente, uma focalização implícita no presente. Isto é acima de tudo válido para a história tradicional, que durante muito tempo foi, preferencialmente, uma história-conto, uma narração. Daí a ambigüidade dos discursos históricos que parecem privilegiar o passado, como o programa de Michelet: a história como "ressurreição integral do passado".
3. Passado/presente no pensamento selvagem
A distinção passado/presente nas sociedades "frias", para retomar a linguagem de Claude Lévi-Strauss, é mais fraca que nas sociedades "quentes" e, ao mesmo tempo, de natureza diferente.
Mais fraca, porque a referência essencial ao passado é a de um tempo mítico, criação, idade do ouro (cf. o artigo "Idades míticas" neste volume da Enciclopédia) e o tempo que se supõe ter decorrido entre tal criação e o presente é em geral muito "simplificado".
Diferente, porque é "próprio do pensamento selvagem ser atemporal; ele quer apreender o mundo como totalidade simultaneamente sincrônica e diacrônica" [Lévi-Strauss, 1962, p. 348].
O pensamento selvagem, no que se refere a mitos e rituais, estabelece uma relação peculiar entre passado e presente: "A história mítica tem o paradoxo de ser ao mesmo tempo disjuntiva e conjuntiva, em relação ao presente... Graças ao ritual, o passado "disjunto" do mito articula-se, por um lado, com a periodicidade biológica e sazonal, e por outro, com o passado "conjunto" que, ao longo das gerações, une os mortos e os vivos" [ibid, p. 313].
A propósito de algumas tribos australianas distinguem-se os ritos histórico-comemorativos, que "recriam a atmosfera sagrada e benéfica dos tempos míticos – "época do sono', dizem os australianos –, que refletem, como num espelho, os protagonistas e os seus altos feitos e que transferem o passado para o presente" e os ritos de luto, que correspondem "a um procedimento inverso: em lugar de confiarem a homens vivos o encargo de personificarem longínquos antepassados, estes ritos asseguram a reconversão em antepassados de homens que acabaram de morrer" e, por conseqüência, transferem o "presente para o passado', [ibid., p. 314]. Nos Samo do Alto Volta os ritos da morte, que se procura atrasar mediante sacrifícios, revelam "uma certa concepção de um tempo imanente, não-sujeito às regras da subdivisão cronológica" [Héritier, 1977, p. 59], ou melhor, "de temporalidades relativas" [ibid., p. 78].
Nos Nuer, como em muitos "primitivos", o tempo é medido por classes de idade; um primeiro tipo de passado refere-se aos pequenos grupos e dilui-se rapidamente "em remotos tempos misteriosos, num outrora longínquo" [Evans-Pritchard, 1940]; um segundo tipo de passado constitui o "tempo histórico"... "seqüência de acontecimentos significantes para uma tribo" (inundações, epidemias, fomes, guerras) [ibid.], muito anterior ao tempo histórico dos pequenos grupos, mas que se limita, sem dúvida, a uma cinqüentena de anos; vem depois um. "plano das tradições, onde alguns elementos da realidade histórica se incorporam num complexo mitológico", e mais "estende-se o horizonte do mito puro", onde se confundem "o mundo, os povos, as civilizações que existiram todas ao mesmo tempo no mesmo passado imemoriável. Para os Nuer, a dimensão do tempo é pouco profunda. A história válida termina um século atrás e as tradições conduzem-nos, na melhor das hipóteses, até dez ou doze gerações na estrutura da linhagem... Poderemos avaliar a falta de profundidade do tempo Nuer se soubermos que a árvore, de quem a humanidade recebeu o ser, estava ainda viva, há alguns anos, a oeste do país Nuer!" [ibid., pp. 159-60].