História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 29 de 74

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História e Memória

Bibliografia

Talvez seja mais importante ainda a necessidade de termos de reconhecer, hoje, não só uma diversidade de domínio de progresso, mas também uma diversidade de processos de progresso. O antropólogo Marc Augé indicou-o recentemente, a propósito de Claude Lévi-Strauss: "Com o desenvolvimento dos conhecimentos pré-históricos e arqueológicos, tende-se cada vez mais para considerar que as diversas formas de civilização puderam coexistir no tempo e estender-se no espaço, em lugar de se escalonarem no tempo. O progresso pôde assim proceder por "saltos" ou "pulos", por "mutações", para usar a linguagem dos biólogos, sem que a história humana se traduza necessariamente por uma acumulação de aquisições: "só de tempos em tempos a história é cumulativa, ou seja, somando forma-se uma combinação favorável". Neste aspecto, o pensamento de Lévi-Strauss inclina-se para um certo relativismo cultural: a história cumulativa, diz-nos ele, não é privilégio de uma civilização ou de um período histórico, mas é por vezes difícil para nós percebê-la quando ela corresponde a uma cultura que desenvolve valores próprios, estranhos aos nossos, isto é, à civilização a partir da qual observamos a outra" [1979, pp. 98-99].

b) Distinguirei duas visões de conjunto de um sociólogo, e de um médico biólogo. Georges Friedmann, debruçando-se, num dos seus últimos livros, La puissance et la sagesse, sobre o que tinha escrito em La crise du progrès, livro que lhe parecia muito otimista, indica também os limites que é necessário impor à crítica inquietante da idéia de progresso: "Era e continua a ser inaceitável nessas críticas do "otimismo marxista", da "civilização quantitativa", do "espírito progressista", a condenação do progresso técnico como uma entidade, sem ver que ele pode, sob certas condições, dispensar admiráveis e indispensáveis benefícios. Ao atirarem fora a água da banheira atiram também o bebê" [1970, p. 155].

L Jacques Ruffié por sua vez preocupa-se com a necessidade da restauração de uma certa unidade da idéia de progresso: "A sociedade deveria ser altamente eficiente em função da especialização dos indivíduos, e ela o é no plano tecnológico. Infelizmente, os meios de integração social não seguiram o progresso da ciência e a humanidade permanece, atualmente, gravemente desequilibrada por falta de integração. Existem grupos a que se pode chamar "marginais" (estrangeiros, mulheres, velhos, jovens, deficientes), que não ocupam um lugar normal no seio da comunidade... Tal situação gera tensões, por vezes muito graves. Ao mesmo tempo, as estruturas tradicionais de integração (família, escola, igreja, pátria) revelam-se insuficientes ou ineficazes. Como não se poderia pôr a questão de renunciar à especialização, a própria base do progresso, e que se traduz no homem por um aumento dos conhecimentos, é necessário encarar a transformação dos quadros de integração hoje ultrapassados e a criação de novos" [Ruffié, 1976, p. 470].

c) Como não há progresso que não seja também moral, a principal tarefa dos nossos dias, no foral do século, na via de um progresso ridicularizado e duvidoso, mas pelo qual se deve mais do que nunca combater é o combate pelo progresso dos direitos humanos [J. Le G.]

Tradução: Irene Ferreira

 

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Quando se trata do tempo (cf. tempo/temporalidade) e em particular do tempo da história, põe-se logo o problema do seu caráter cíclico (cf. ciclo) ou linear e, no segundo caso, da sua orientação em relação aos valores. Há quem os situe no passado (cf. passado/presente), e quem os situe no presente ou num futuro (cf. também antigo/moderno) que muitas vezes se tinge de utopia. Os primeiros são partidários da reação, os segundos do progresso: uns baseiam a sua posição na constatação de uma decadência, sobretudo no campo da moral (cf. ética), os outros insistem por sua vez nos progressos da ciência, da técnica, da economia; daqui a afinidade do conceito de progresso com o de desenvolvimento (cf. desenvolvimento/subdesenvolvimento).

O conflito relativo à orientação do tempo na história (cf. periodização; mas também inovação/descoberta, revolução) opõe as ideologias (cf. ideologia) e as propagandas (cf. propaganda), divide os intelectuais, é explorado por partidos políticos, estados (cf. estado) e igrejas (cf. igreja).