História e Memória
5. A história hoje
No entanto, sobretudo fora da Alemanha, os perigos da erudição germânica tomaram-se evidentes, desde o fim do século XIX. Camille Jullian constatou em 1896: "Na Alemanha, a história reparte-se e desfaz-se", por vezes "perde-se pouco a pouco numa espécie de escolástica filológica: os grandes nomes desapareceram um atrás do outro; tememos ver juntarem-se os epígonos de Alexandre com os netos de Carlos Magno" [citado em Ehrard e Palmade, 1964, p. 77]. O historicismo erudito alemão iria degenerar, na Alemanha e na Europa, em duas tendências opostas: uma filosofia da história idealista, um ideal erudito positivista que fugia das idéias e bania da história a investigação das causas.
Caberá a dois universitários franceses dar a esta história positivista o seu estatuto: a Introduction aux études historiques [1898] de Langlois e Seignobos que, definindo-se como "breviário dos novos métodos", ia retomar simultaneamente os benefícios de uma erudição progressista e necessária e os germes de uma esterilização do espírito e dos métodos da história.
O balanço positivo desta história erudita do século XIX foi feito por Marc Bloch na Apologie pour l'histoire: "O consciencioso esforço do século XIX" permitiu que as "técnicas da crítica" deixassem de ser monopólio "de um punhado de eruditos, exegetas e curiosos" e "o historiador foi levado a voltar à mesa de trabalho". É preciso fazer triunfar "os mais elementares preceitos de uma moral da inteligência" e "as forças da razão" que operam "nas nossas humildes notas, [nas] nossas minuciosas referências, que tão brilhantes espíritos contemporâneos desprezam, sem as compreender" [1941-42, p. 78; cf. também Ehrard e Palmade, 1964, p. 78].
Assim, firmemente apoiada nas ciências auxiliares (arqueologia, numismática, sigilografia, filologia, epigrafia, papirologia, diplomática, onomástica, genealogia, heráldica), a história instalou-se no trono da erudição.
5. A história hoje
Sobre a história contemporânea gostaria de apresentar um esboço da sua renovação enquanto prática científica e, por outro lado, de evocar o seu papel na sociedade.
O primeiro ponto será relativamente breve, remetendo para outro estudo [Le Goff, 1978], no qual se apresenta a gênese e os principais aspectos da renovação da ciência histórica no último meio século.
Esta tendência parece-me sobretudo francesa, mas manifestou-se em outros locais, nomeadamente na Grã-Bretanha e na Itália, particularmente em torno das revistas "Past and Present" (depois de 1952) e "Quaderni storici" (depois de 1966).
Uma das suas mais antigas manifestações foi o desenvolvimento da história econômica e social; devemos também mencionar aqui o papel da ciência histórica alemã em torno da revista "Vierteljahrsschrift für Sozial-und Wirtschaftsgeschichte", fundada em 1903, e o do grande historiador belga Henri Pirenne, teórico da origem econômica das cidades na Europa Medieval. Na medida em que a sociologia e a antropologia desempenharam um papel importante na mutação da história no século XX, a influência de um grande espírito como Max Weber e dos sociólogos e antropólogos anglo-saxônicos foram notórias.
O sucesso da "história oral" foi grande e precoce nos países anglo-saxônicos. A história quantitativa esteve em voga um pouco por toda a parte, exceto talvez nos países mediterrâneos.
Ruggiero Romano, que criou uma imagem, precursora pela sua inteligência e pelas posições tomadas, da Storiografia italiana oggi [1978], indicou um grupo de países em que a participação da história e dos historiadores na vida social e política, e não na vida cultural, é muito viva: a Itália, a França; a Espanha, os países sul-americanos, a Polônia, não se verificando este fenômeno nos países anglo-saxônicos, russos e germânicos.
O trabalho histórico e a reflexão sobre a história desenvolvem-se hoje num clima de crítica e desencanto perante a ideologia do progresso e, mais recentemente, de repúdio pelo marxismo, pelo menos do marxismo vulgarizado. Toda uma produção sem valor científico que só podia iludir pela pressão da moda e de um certo terrorismo político-intelectual perdeu completamente o crédito. Assinalemos que, em sentido contrário e nas mesmas condições, se gerou uma produção de pseudo-história antimarxista que parece ter tomado como bandeira o tema gasto do irracional.
Como o marxismo, se excetuarmos Max Weber, foi o único pensamento coerente da história no século XX, é importante ver o que se produziu à luz da desafeição pela teoria marxista e a renovação das práticas históricas no Ocidente, não contra o marxismo mas fora dele, embora se concorde com Michel Foucault que alguns problemas capitais para o historiador ainda não podem ser postos, senão a partir do marxismo. No Ocidente, alguns historiadores de qualidade esforçaram-se por mostrar que não só o marxismo podia fazer uma boa aliança com "a história nova", como também estava próximo dessa história, por sua consideração pelas estruturas, a sua concepção de uma história total, o seu interesse pelo domínio das técnicas e das atividades materiais.
Pierre Vilar [1973] e Guy Bois [1978] exprimiram o desejo de que a renovação passasse por "um certo regresso às fontes" (pp. 375-93). Obras coletivas como Aujourd'hui l'histoire [Hincker e Casanova, 1974] e Ethnologie et histoire [Ethnologie, 1975], publicadas em Paris pelas Éditions Sociales, manifestaram um desejo de abertura. Uma interessante série de textos publicados há alguns anos por alguns historiadores marxistas italianos [Cecchi, 1974], mostrou a vitalidade e a evolução desta procura. Uma obra como Le féodalisme, un horizon théorique de Alain Guerreau [1980] manifesta, não obstante os seus excessos, a existência de um pensamento marxista, forte e novo.
No Ocidente conhece-se mal a produção histórica dos países do Leste. À exceção da Polônia e da Hungria, o que se conhece não é encorajante. Talvez haja trabalhos e correntes interessantes na Alemanha do Leste.
Já considerei alguns grandes historiadores do passado como antepassados da história nova, pelo seu gosto pela investigação das causas, a sua curiosidade pelas civilizações, o seu interesse pelo material, o cotidiano, a psicologia. De La Popelinière, no fim do século XVI, a Michelet, passando por Fénelon, Montesquieu, Voltaire, Chateaubriand e Guizot encontra-se uma impressionante linhagem de diversidade. Devemos acrescentar o holandês Huizinga (morto em 1945) cuja obra-prima O Outono da Idade Média [1919] fez entrar na história a sensibilidade e a psicologia coletiva.
Considera-se a fundação da revista "Annales" ("Annales d'histoire économique et sociale" em 1929, "Annales. Économies, Sociétés, Civilisations" em 1945), obra de Marc Bloch e Lucien Febvre, como o ato que fez nascer a nova história [cf. Revel e Chartier, 1978; Allegra e Torre, 1977; Cedronio e outros, 1977]. As idéias da revista inspiraram a fundação, em 1947, por Lucien Febvre (morto em 1956) (Marc Bloch, resistente, tinha sido fuzilado pelos alemães em 1944) de uma instituição de investigação e de ensino de investigação em ciências humanas e sociais, a sexta seção (das ciências econômicas e sociais) da École Pratique des Hautes Études, prevista por Victor Duruy no momento da fundação da escola, em 1868, mas que não tinha podido concretizar-se. Em 1975, transformado na École des Hautes Études en Sciences Sociales, este estabelecimento, em que a história tinha um lugar importante, ao lado da geografia, economia, sociologia, antropologia, psicologia, lingüística e semiologia, assegurou a difusão, na França e no estrangeiro, das idéias que tinham estado na origem dos "Annales".
Podemos resumir estas idéias pela crítica do fato histórico, da história événementielle, e, em especial, política; a procura de uma colaboração com as outras ciências sociais (o economista François Simiand – que tinha publicado em 1903 na "Revue de Synthèse Historique" (pioneira da nova ciência sob a orientação de Henri Berr) um artigo, Méthode historique et science sociale, em que denunciava os "ídolos" "políticos", "individuais" e "cronológicos", que inspirou o programa dos "Annales", cujo espírito foi inspirado pelo sociólogo Émile Durkheim e o sociólogo e antropólogo Marcel Mauss); a substituição da históriaconto pela história-problema, a atenção pela história do presente.
Fernand Braudel (n. 1902), autor de uma tese revolucionária sobre La Méditerranée et le monde méditerranéen à l'époque de Philippe II [1966], onde a história era decomposta em três planos sobrepostos, o "tempo geográfico", o "tempo social" e o "tempo individual" – o acontecimento situa-se na terceira parte –, publicou nos "Annales" o artigo sobre a "longa duração" [1958], que viria a inspirar uma parte importante da investigação histórica subseqüente.
Um pouco por toda a parte, nos anos 70, colóquios e obras, na sua maioria coletivas, fizeram o balanço das novas orientações da história. Um trabalho conjunto [Le Goff e Nora, 1974] apresentou, com o título Faire de l'histoire, os "novos problemas", as "novas abordagens" e os "novos objetivos" da história. Entre os primeiros, o quantitativo em história, a história conceitualizante, a história antes da escrita, a história dos povos sem história, a aculturação, a história ideológica, a história marxista, a nova história événementielle. Os segundos referem-se à economia, demografia, antropologia religiosa, os novos métodos da história da literatura, da arte, da ciência e da política. A escolha de novos objetos tinha-se fixado no clima, o inconsciente, o mito, a mentalidade, a língua, o livro, os jovens, o corpo, a cozinha, a opinião pública, o filme, a festa.
Quatro anos mais tarde, em 1978, um dicionário da La nouvelle histoire [Le Goff, Chartier e Revel, 1978], dirigindo-se a um público ainda mais vasto, dava testemunho dos progressos da vulgarização da nova história e das rápidas deslocações de interesses no interior do seu campo, destacando também alguns temas: antropologia histórica, cultura material, imaginário, história imediata, longa duração, marginais, mentalidades, estruturas.
O diálogo da história com as outras ciências prosseguia, aprofundava-se, concentrava-se e alargava-se simultaneamente.
Concentrava-se. A par da persistência das relações entre história e economia [atestada, por exemplo, por Lhomme, 1967], história e sociologia (um dos testemunhos é o do sociólogo Alain Touraine, que dizia [1977, p. 274]: "Não separo o trabalho da sociologia, da história de uma sociedade") estabeleceu-se uma relação privilegiada entre a história e a antropologia, desejada por alguns antropólogos, por Evans-Pritchard [1961], considerada com maior circunspecção por Lewis [1968], que insiste nos diferentes interesses das duas ciências (a história voltada para o passado, a antropologia para o presente; a primeira para os documentos, a segunda para a investigação direta; a primeira para a explicação dos acontecimentos, a segunda para os caracteres gerais das instituições sociais). Mas um historiador como Carr escreve [1961]: "Quanto mais a história se tomar sociológica e a sociologia, histórica, melhor será para ambas"; e um antropólogo como Marc Augé afirma: "O objeto da antropologia não é reconstituir sociedades desaparecidas, mas pôr em evidência lógicas sociais e históricas" [1979, p. 170].
Neste encontro entre história e antropologia, o historiador privilegiou alguns domínios e problemas. Por exemplo, o do homem selvagem e o do homem cotidiano [Furet, 1971b; Le Goff, 1971a] ou ainda as relações entre cultura erudita e cultura popular [cf. Ginzburg, 1976, p. XI: "No passado, podia acusar-se os historiadores de conhecerem apenas a "gesta dei rei". Hoje já não é assim..."]. Ou a história oral sobre a qual, entre abundante literatura, destacarei um número especial dos "Quademi storici" (1977) dedicado à Oral History: fra antropologia e storia, que coloca bem os problemas entre as várias classes sociais e as diferentes civilizações; o livrinho de Jean-Claude Bouvier e uma equipe de antropólogos, historiadores e lingüistas: Tradition orale et identité culturelle. Problèmes et méthodes (1980), porque valoriza as relações entre oralidade e discurso sobre o passado, define os etnotextos, assim como um método para os recolher e utilizar; e finalmente a relação de Dominique Aron-Schnapper e Danièle Hanet,Histoire orale ou archives orales? (1980), sobre a constituição de arquivos orais na história da segurança social que levanta o problema das relações entre um novo tipo de documentação e um novo tipo de história.
Destas experiências, destes contatos, destas conquistas, alguns historiadores – em cujo número me incluo – desejavam que se constituísse uma nova disciplina histórica, estritamente ligada à antropologia: a antropologia histórica.
No suplemento de 1980, a Encyclopaedia Universalis dedica um longo artigo à antropologia histórica [Burguière, 1980]. Burguière mostra que esta nova etiqueta, nascida do encontro entre etnologia e história, é mais uma redescoberta do que um fenômeno radicalmente novo. Coloca-se na tradição de uma concepção da história cujo pai é, sem dúvida, Heródoto, e que se exprime, na tradição francesa, no século XVI, em Pasquier, La Popelinière ou Bodin; no século XVII, nas mais importantes obras históricas das Luzes e domina a historiografia românica. É "mais analítica, apostada em traçar o itinerário e os progressos da civilização; interessa-se mais pelos destinos coletivos que pelos individuais, pela evolução das sociedades que pelas instituições, pelos costumes que pelos acontecimentos", face a outra concepção "mais narrativa, mais próxima dos poderes políticos", a que vai das grandes crônicas da Idade Média aos eruditos do século XVII e à história événementielle e positivista que se impôs no século XIX. Na linha dos fundadores dos "Annales" dá-se uma ampliação do domínio da história, "na intercepção dos três eixos principais que Marc Bloch e Lucien Febvre apontavam aos historiadores: a história econômica e social, a história das mentalidades, as investigações interdisciplinares". O seu modelo são Les rois thaumaturges de Marc Bloch [1924]. Uma das suas conseqüências é a obra de Fernand Braudel Civilisation matérielle et capitalisme, onde o historiador "descreve a maneira como os grandes equilí6rios econômicos, os circuitos de trocas criavam e modificavam a trama da vida biológica e social, a maneira como, por exemplo, o gosto se habituava a um novo produto alimentar" [Burguière, 1980, p. 159]. André Burguière dá como exemplo de um domínio que a antropologia histórica procura conquistar, o de uma história do corpo, sobre a qual o historiador alemão Norbert Elias, num livro [de 19391, cuja ressonância data dos anos 70, La civilisation des Noeurs (1974), levantou uma hipótese explicativa da evolução das relações com o corpo na civilização européia: "A ocultação e o distanciamento do corpo traduzem em nível individual a tendência para a remodelação do corpo social, imposta pelos estados burocráticos; integravam-se no mesmo processo a separação das classes por idades, o isolamento dos desviados, a segregação dos pobres e dos loucos e o declínio das solidariedades locais" [Burguière, 1980, p. 159]. Os quatro exemplos de Burguière que ilustram a antropologia histórica são: 1) história da alimentação, que "se ocupa em tentar encontrar, estudar e, eventualmente, quantificar tudo o que se refere a essa função biológica, essencial para a manutenção da vida: a nutrição"; 2) a história da sexualidade e da família, que fez entrar a demografia histórica numa nova era, com a utilização de fontes coletivas (os registros paroquiais) e uma problemática que tem em conta as mentalidades, como, por exemplo, a atitude perante a contracepção; 3) a história da infância, que mostrou que as atitudes para com a criança não se reduziam a um hipotético amor paterno mas dependiam de condições culturais complexas: por exemplo, na Idade Média, não existe uma especificidade da criança; 4) a história da morte que se revelou como o domínio mais fecundo da história das mentalidades.
Assim, o diálogo entre história e ciências sociais tem tendência para privilegiar as relações entre história e antropologia, embora também se pense que a história abrange a sociologia. Entretanto, a história começa a sair do seu território de maneira ainda mais audaciosa, invadindo as ciências da natureza [cf. Le Roy Ladurie, 1967] e as da vida, em especial a biologia.
Antes de mais nada é, contudo, necessário que os cientistas tenham desejo de fazer história, mas não uma história qualquer. Vejamos o que escreve um grande biólogo, o prêmio Nobel François Jacob [1970]: "Para um biólogo, há duas maneiras de considerar a história da ciência. Em primeiro lugar, podemos ver nela a sucessão das idéias e a sua genealogia. Procura-se então o fio que conduziu o pensamento até as teorias atuais. Esta história faz-se por assim dizer ao inverso, por extrapolação do presente no passado. Passo a passo, examina-se a hipótese hoje dominante, depois, a que a precedeu, etc. Por este processo, as idéias adquirem independência... Assiste-se agora a uma espécie de evolução das idéias, sujeita talvez a uma espécie de seleção natural, baseada num critério de interpretação teórica (e de reutilização prática) e à única teologia da razão...
Há uma outra maneira de encarar a história da biologia: procurar como os objetos desta ciência se tornaram acessíveis à análise, e como se abriram assim novos domínios de investigação. Trata-se então de precisar a natureza destes objetos, as atitudes dos que os estudam, a sua maneira de observar, os obstáculos levantados pela tradição oral ao investigador... Deixa de existir então uma filiação mais ou menos linear de idéias, engendradas uma na outra. Há um domínio que o seu pensamento procura explorar e no qual procura introduzir uma ordem; constituir um conjunto de relações abstratas de acordo, não só com as observações e as técnicas, mas também com as práticas, os valores e as interpretações dominantes".
Vemos claramente o que está aqui em questão. É a refutação de uma história idealista, onde as idéias se geram por uma espécie de partogênese, de uma história guiada pela concepção de um progresso linear, de uma história que interpreta o passado com os valores do presente. Pelo contrário, François Jacob propõe a história de urna ciência que dá conta das condições (materiais, sociais, mentais) da sua produção e que individualiza, em toda a sua complexidade, as etapas do saber.
Mas é preciso ir mais longe. Ruggiero Romano, baseando-se nos trabalhos sugestivos, indiscutivelmente bem fundamentados, de Jacques Ruffié [1976] e nos de Wilson [1975], estes mais discutíveis, afirma: "Lá onde a história tinha procurado impor-se à biologia servindo-se (mal e baixamente) dela para a história demográfica, hoje a biologia quer e pode ensinar qualquer coisa à história" [1978, p. 8].
Nitschke chamou a atenção para o interesse de uma colaboração entre historiadores e especialistas de etologia: "Múltiplos incitamentos à investigação histórica surgem de um confronto entre a etologia dos biólogos. Desejamos que este encontro entre as duas disciplinas, na perspectiva de uma etologia histórica, se torne frutuoso para ambas" [ 1974, p. 97].
Todas as mudanças profundas da metodologia histórica são acompanhadas de uma transformação importante da documentação. Neste campo, a nossa época conhece uma verdadeira revolução documental: é a irrupção do quantitativo e o recurso à informática. Chamado pelo interesse da nova história pelos grandes números, postulado pela utilização de documentos que permitem atingir as massas, como os registros paroquiais na França, base da nova demografia [cf. por exemplo Goubert, 1960], tornado necessário pelo desenvolvimento da nova história serial, o computador entrou na aparelhagem do historiador. O quantitativo que tinha aparecido na história com a história econômica, em especial com a história dos preços de que Ernest Labrousse [1933] foi um dos pioneiros, influenciado por François Simiand, invadiu a história demográfica, a história cultural. Depois de um período de entusiasmo ingênuo, foram identificados os serviços indispensáveis, prestados pelo computador em certos tipos de investigação histórica e os seus limites [cf. Furet, 1971a; Shorter, 1971; Arnold, 1974]. Também em história econômica, um dos principais responsáveis pela história quantitativa, Marczewski, escreveu: "A história quantitativa não é mais que um dos métodos de investigação no domínio da história econômica. Não exclui o recurso à história qualitativa. Esta traz-lhe um complemento indispensável" [1965, p. 48]. Um modelo inovador de investigação histórica, baseado na utilização inteligente do computador, é a obra de Herlihy e Klapisch-Zuber, Les Toscans et leurs familles, [1978].
O olhar do historiador sobre a história da sua disciplina desenvolveu recentemente um novo setor especialmente rico da historiografia: a história da história.
O filósofo e historiador polaco Krzysztof Pomian lançou um olhar penetrante sobre a história da história. Lembrou as condições históricas em que esta história tinha nascido no século XIX, sob a crítica do reinado da História: "Filósofos, sociólogos e mesmo historiadores demonstraram que a objetividade, os fatos dados de uma vez por todas, as leis de desenvolvimento, o progresso, todas as noções que até aí eram consideradas evidentes e que serviam de base às pretensões científicas da história não passavam de um logro... Os historiadores foram apresentados, na melhor das hipóteses, como ingênuos, cegos pelas ilusões que eles próprios tinham criado, ou então como charlatães" [1975, p. 936].
A história da historiografia toma como divisa a palavra de Croce: toda a história é história contemporânea e o historiador, de sábio que julgava ser, tomou-se um forjador de mitos, um político inconsciente. Mas, acrescenta Pomian, este pôr em questão não diz apenas respeito à história, mas "a toda a ciência e em especial ao seu núcleo, a física" [ibid.]. A história das ciências desenvolveu-se com o mesmo espírito crítico que a história da historiografia. Para Pomian, este tipo de história está hoje ultrapassado porque ignora o aspecto cognitivo da história e da ciência e deveria tomar-se uma ciência do conjunto de práticas do historiador e mais ainda uma história do conhecimento: "A história da historiografia teve o seu tempo. Aquilo de que hoje precisamos é de uma história da história que deveria colocar, no centro das suas investigações, as interações entre o conhecimento, as ideologias, as exigências da escrita, em resumo, os aspectos diversos e, por vezes, discordantes do trabalho do historiador. E, fazendo isto, permitiria lançar uma ponte entre a história das ciências e a da filosofia, da literatura e talvez da arte. Ou melhor, entre uma história do conhecimento e a dos diferentes usos que dele se faz" [ibid., p. 952].
Do alargamento do domínio da história dá testemunho a criação de novas revistas num quadro temático – enquanto que o grande movimento de nascimento de revistas históricas, no século XIX, se tinha sobretudo realizado num quadro nacional.
Gostaria de recordar entre as novas revistas: 1) as que se interessam pela história quantitativa, por exemplo, "Computers and the Humanities", publicada em 1966 no Queen's College da City University de Nova Iorque; 2) as que tratam da história oral e da etno-história, entre as quais "Oral History. The Journal of the British Oral History Society" (1973), "Ethnohistory", editada pela Universidade do Arizona em 1954, as "History Workshops" britânicas; 3) as que se dedicam à comparação e à interdisciplinaridade: os "Comparative Studies in Society and History" americanas, em 1959; a "Information sur les sciences sociales", bilíngüe (francesa e inglesa), publicada pela Maison des Sciences de l'Homme (Paris) em 1960; 4) as que se ocupam da teoria e da história da história, sendo a mais importante "History and Theory", fundada em 1960.
Há um alargamento do horizonte histórico que deve trazer uma verdadeira revolução da ciência histórica, pela necessidade de pôr fim ao etnocentrismo e de deseuropeizar a história.
As manifestações de etnocentrismo histórico foram registradas por Roy Preiswerk e Dominique Perrot [19751, que registraram dez formas desta colonização da história pelos Ocidentais: 1) a ambigüidade da noção de civilização. Haverá uma ou várias?; 2) o evolucionismo social, isto é, a concepção de uma evolução linear e única da história segundo o modelo ocidental. Sobre este assunto, a declaração de um antropólogo do século XIX é característica: "Sendo a humanidade uma só desde a sua origem, a sua evolução foi essencialmente a mesma, dirigida de modos diferentes, mas uniforme em todos os continentes, desenvolvendo-se de modo muito semelhante em todas as tribos e nações da humanidade até o mesmo estágio de desenvolvimento. Em conseqüência disso, a história e a experiência das tribos ameríndias equivalem mais ou menos à história e à experiência dos nossos próprios antepassados mais longínquos quando viviam nas mesmas condições" [Morgan, 1877, ed. 1964, pp. 6-7]; 3) o alfabetismo como critério de diferenciação entre superior e inferior; 4) a idéia que os contatos com o Ocidente são o fundamento da historicidade das outras culturas; 5) a afirmação do papel causal dos valores em história, confirmada pela especificidade do sistema de valores ocidentais: a unidade, a lei e a ordem, o imobilismo, a democracia, o sedentarismo e a industrialização; 6) a legitimação unilateral das ações ocidentais (escravatura, propagação do Cristianismo, necessidade de intervenção, etc.); 7) a transferência intercultural dos conceitos ocidentais (feudalismo, democracia, revolução, classe, estado, etc.); 8) o uso de estereótipos, como os bárbaros, o fanatismo muçulmano; 9) a seleção autocentrada das datas e dos acontecimentos importantes da história, impondo ao conjunto da história do mundo a periodização elaborada pelo Ocidente; 10) a escolha das ilustrações, as referências à raça, ao sangue, à cor.
É também através do estudo dos manuais escolares que Marc Ferro pôde ir mais longe, recentemente, "no pôr em questão da concepção tradicional da história universal". Analisando Comment on raconte l'histoire aux enfants d travers le monde entier, quanto aos exemplos da África do Sul, da África negra, das Antilhas (Trindade), das índias, do Islã, da Europa Ocidental (Espanha, Alemanha nazi, França), da URSS, da Armênia, da Polônia, da China, do Japão, dos Estados Unidos – com um relance para a história "proibida" (Mexicanos da América, Aborígenes da Austrália), Marc Ferro declara: "Já é tempo de confrontar todas as representações, pois, com o alargamento do mundo, a sua unificação econômica e desintegração política, o passado das sociedades é, mais do que nunca, uma trama de confrontações entre Estados, entre Nações, entre culturas e etnias" [1981, p. 7].
Ignoramos o que será uma história verdadeiramente universal. Talvez seja algo radicalmente diferente daquilo a que chamamos história. Deve, em primeiro lugar, fazer o inventário das diferenças e dos conflitos. Reduzi-la a uma história adocicada, docemente ecumênica, querendo dar prazer a toda a gente, não é bom caminho: daí a semifalência dos cinco volumes publicados pela UNESCO, em 1969, da Histoire du développement scientifique et culturel de l'humanité, cheia de boas intenções. Depois da Segunda Guerra Mundial, a história viu-se perante novos desafios. Apontarei três.
O primeiro é que ela deve, mais que nunca, responder ao pedido dos povos, das nações, dos estados, que esperam que ela, mais que uma mestra da vida, seja um espelho da sua idiossincrasia – um elemento essencial desta identidade individual e coletiva que eles procuram com angústia: antigos países colonizadores que perderam o seu império e se encerram no seu pequeno espaço europeu (Grã-Bretanha, França, Portugal), antigas nações que despertam do pesadelo nazi ou fascista (Alemanha, Itália), países da Europa do Leste em que a história não está de acordo com o que a União Soviética gostaria de lhes fazer crer, apanhada entre a história curta da sua unificação e as histórias longas das suas nacionalidades. Os Estados Unidos, que tinham pensado conquistar para si uma história no mundo inteiro e se encontram hesitantes entre o imperialismo e os direitos do homem, países oprimidos que lutam pela sua história como pela vida (América Latina), países novos que tateiam os meios para construir a sua história [cf., para a África negra, Assorodobraj, 1967].
Devemos escolher entre uma história-saber objetivo e uma história-militante? Devemos adotar os esquemas científicos forjados pelo Ocidente ou inventar uma metodologia histórica simultânea de uma história?
O Ocidente, pelo seu lado, interrogou-se durante as suas duras provações (a Segunda Guerra Mundial, a descolonização, o abalo de Maio de 68) se não seria mais sábio renunciar à história. Não faria ela parte dos valores que tinham levado à alienação e à infelicidade?
Jean Chesneaux respondeu aos nostálgicos de uma vida sem passado, lembrando a necessidade de dominar uma história, mas propôs fazer dela "uma história pela revolução". É um dos possíveis pontos de chegada da teoria marxista, de uma unificação do saber e da práxis. Se, como penso, a história, com a sua especificidade e os seus perigos, é uma fonte, ela deve escapar a uma identificação entre história e política, velho sonho da historiografia que deve ajudar o trabalho histórico a dominar o seu condicionamento pela sociedade, sem o qual a história será o pior instrumento de todo e qualquer poder.
Mais sutil foi a recusa intelectual que o estruturalismo pareceu encarnar. Antes de mais nada, quero dizer que o perigo me parece ter vindo – e não desapareceu totalmente – de um certo sociologismo. Gordon Leff observou, com precisão: "Os ataques de Karl Popper contra o que ele erradamente chamava o historicismo nas ciências sociais parece ter intimidado uma geração; conjugando-se com a influência de Talcott Parsons, abandonaram a teoria social, pelo menos na América, a uma condição a tal ponto an-histórica, que me parece muitas vezes já não ter relação com a terra dos homens" [1969, p. 2].
Philip Abrams, a dez anos de distância, definiu bem as relações entre a sociologia e a história [1971; 1972; 1980], aderindo à idéia de Runciman, para o qual não existe séria distinção entre história, sociologia e antropologia, mas com a condição de não a reduzir a pontos de vista limitativos: nem a uma espécie de psicologia, nem a um conjunto de técnicas, pois que as ciências sociais – como as outras – não devem subordinar os problemas às técnicas.
Em contrapartida, parece-me que só uma deformação do estruturalismo pode fazer dele um an-historicismo. Não é este o lugar próprio para estudar em detalhe as relações de Claude Lévi-Strauss. Sabe-se que são complexas. Devemos reler os grandes textos da Anthropologie structurale [1958, I, pp. 3-33], de La Pensée Sauvage [1962], de Du miel aux cendres [1966]. Claro que muitas vezes Lévi-Strauss pensou, referindo-se quer à disciplica histórica, quer à história vivida: "Podemos chorar o fato de existir história" [Backès-Clément, 1974, p. 141]; mas, penso que a experiência mais pertinente do seu pensamento é o tema das seguintes linhas da Anthropologie structurale [1958]: "Num caminho em que fazem o mesmo percurso, no mesmo sentido, só a sua orientação é diferente: a etnologia caminha para a frente, procurando atingir, através de uma zona consciente, que ela já não ignora, um âmbito cada vez mais vasto, inconsciente do fim para que se dirige; enquanto que o historiador avança cada vez mais, em marcha atrás, mantendo os olhos fixos em atividades concretas e particulares; só se afasta delas para as encarar numa perspectiva mais rica e completa. Verdadeiro Janus bifronte é, de certo modo, a solidariedade entre as duas disciplinas que permite abranger, com o olhar, a totalidade do percurso".
Há um estruturalismo extremamente caro aos historiadores: o estruturalismo genético do epistemólogo e psicólogo suíço Jean Piaget, segundo o qual as estruturas são intrinsecamente evolutivas.
Se, e penso que sim, a história pode vencer estes desafios, contudo ela continua hoje em dia a defrontar-se com sérios problemas. Evocarei dois: um geral e outro particular.
O grande problema é o da história global, geral, a tendência secular de uma história que não seja só universal e sintética – velho empreendimento, que vai do cristianismo antigo ao historicismo alemão do século XIX e às inúmeras histórias universais da vulgarização histórica do século XX –, mas integral ou perfeita, como dizia La Popelinière, ou global, total, como exigiam os "Annales" de Lucien Febvre ou Marc Bloch.
Assiste-se hoje a uma pan-historização que Paul Veyne considera a grande mutação do pensamento histórico da Antiguidade.
Depois de uma primeira mutação que, na própria Antiguidade, fez passar a história, do mito coletivo à procura de um conhecimento desinteressado da pura verdade, está a dar-se uma segunda mutação, na época atual, porque os historiadores "pouco a pouco tomaram consciência de que tudo era digno de história: nenhuma tribo, por minúscula que seja, nenhum gesto humano, por insignificante que pareça, é indigno da curiosidade histórica" [1968, p. 424].
Mas será esta história bulímica capaz de pensar e estruturar essa realidade? Há quem pense que o tempo da história esmigalhada chegou: "Vivemos o desagregar da história", escreveu Pierre Nora, ao fundar, em 1971, a coleção "Bibliothèque dês Histoires". Haveria histórias a fazer, não uma história. Penso que a legitimidade e os limites das "múltiplas abordagens em história" e o interesse de considerar temas de investigação e reflexão histórica objetos globalizantes, na ausência de globalidades, já foi referido [cf. Le Goff e Toubert, 1975].
O problema especial é o da necessidade experimentada por muitos – produtores ou consumidores de história – de um regresso à história política. Acredito nessa necessidade desde que esta nova história política seja enriquecida pela nova problemática da história, que seja uma antropologia histórica [Le Goff, 197lb].
Alain Dufour, tomando como modelo os trabalhos de Frederico Chabod sobre o Estado milanês no tempo de Carlos V, defendeu "uma história política mais moderna" cujo programa seria: "Compreender o nascimento dos estados – ou do Estado moderno – nos séculos XVI e XVII, sabendo desviar a nossa atenção do príncipe para a dirigir para o pessoal político, para a classe ascendente dos funcionários, com a sua ética de novo tipo, para as elites políticas em geral, cujas aspirações mais ou menos implícitas se revelaram em tal política à qual se dá tradicionalmente o nome do príncipe que é o seu porta-bandeira" [1966, p. 20].
Ultrapassando o problema de uma nova história política põe-se o do lugar a dar ao acontecimento na história, tomando-o no seu duplo sentido. Pierre Nora mostrou como os media contemporâneos criaram um novo acontecimento e um novo estatuto do acontecimento histórico: é o "regresso do acontecimento".
Mas este novo acontecimento não escapa à construção de que resultam todos os documentos históricos. Os problemas que daí resultam são hoje ainda mais graves.
Num estudo notável, Eliseu Verón analisou o modo como os media "constroem hoje o acontecimento". A propósito do acidente na central nuclear americana de Three Mile Island (março-abril de 1979), mostra como, neste caso, característico dos acontecimentos tecnológicos cada vez mais importantes e numerosos, "é difícil construir um acontecimento atual com bombas, válvulas, turbinas e sobretudo radiações, que não se veja". O que obriga a uma transcrição feita pelos media: "É o discurso didático, nomeadamente na televisão, que se encarrega de transcrever para a informação a linguagem das tecnologias". Mas o discurso da informação para os novos media contém perigos cada vez maiores pela constituição de memória que é uma das bases da história. "Se a imprensa é o lugar de uma multiplicidade de modos de construção, a rádio segue os acontecimentos e define-lhes o som, enquanto que a televisão fornece as imagens que ficarão na memória e assegurarão a homogeneização do imaginário social". Deparamos aqui com o que sempre foi o "acontecimento' em história – da história vivida e memorizada e da história científica com base em documentos (entre os quais, o acontecimento como documento ocupa, repito-o, um lugar essencial). É o produto de uma construção que compromete o sentido histórico das sociedades e a validade de uma verdade histórica e fundamento do trabalho histórico: "Na medida em que as nossas decisões e as nossas lutas diárias são, no que é fundamental, determinadas pelo discurso da informação, torna-se claro que o que está em jogo é, nada menos, que o futuro da nossa sociedade" [1981, p. 1701.
Neste contexto de desafios e interrogações, revelou-se recentemente uma crise no mundo dos historiadores, da qual podemos escolher como expressão exemplar um debate entre dois historiadores anglo-saxônicos, Lawrence Stone e Eric Hobsbawm, publicado na revista "Past and Present".
No ensaio The Revival of Narrative, Lawrence Stone verifica a existência de um regresso ao conto em história, baseado na falência do modelo determinista de explicação histórica, na decepção causada pelos magros resultados obtidos pela história quantitativa, nas desilusões provocadas pela análise estrutural, no caráter tradicional, ou seja, "reacionário" da noção de "mentalidade". Na sua conclusão, que é o vértice desta análise ambígua, Lawrence Stone parece reduzir os "novos historiadores" a operadores dos deslizes e das deslocações da história que, de uma história de tipo determinista teria regressado a história tradicional: "A história narrativa e a biografia individual parecem dar sinais de ressuscitar dentre os mortos" [1979, p. 23].
Eric Hobsbawm respondeu-lhe que os métodos, as orientações e os produtos da história "nova" não eram, de modo algum, renúncias às grandes questões nem um abandono da investigação das causas por uma ligação ao princípio de indeterminação, mas sim a "continuação de empreendimentos históricos do passado, por outros meios" [1980, p. 8].
Sublinhou, com razão, Eric Hobsbawm que a nova história tem, em primeiro lugar, objetivos de alargamento e aprofundamento da história científica. Sem dúvida que ela encontrou problemas, limites e talvez impasses. Mas continua a alargar o campo e os métodos da história e, o que é mais importante, Stone não teve em conta o que podia ser verdadeiramente novo, "revolucionário", nas novas orientações da história: a crítica do documento, o novo tratamento dado ao tempo, as novas relações entre material e "espiritual", as análises do fenômeno do poder sob todas as suas formas e não só do político.
Considerando as novas orientações da história como modos em vias de extinção e abandono, mesmo pelos seus defensores, Stone não só se manteve à superfície do fenômeno, como apoiou de maneira ambígua os que queriam reconduzir a história ao vibrionismo e ao positivismo limitado a um tempo anterior. Os que levantam a cabeça no meio dos historiadores e à sua volta, eis o verdadeiro problema da crise. É um problema da sociedade, um problema histórico, no sentido "objetivo" do termo.
Gostaria de concluir este artigo com uma profissão de fé e com a constatação de um paradoxo.
A reivindicação dos historiadores – não obstante a diversidade das suas concepções e práticas – é, ao mesmo tempo, imensa e modesta. Eles pretendem que todo o fenômeno da atividade humana seja estudado e posto em prática, tendo em conta as condições históricas em que existe ou existiu. Por "condições históricas" devemos entender o dar forma cognitiva à história concreta, um conhecimento da coerência científica relativamente ao qual se estabeleça um consenso suficiente no meio profissional dos historiadores (existem também desacordos quanto às conseqüências a tirar). Não se trata de modo algum de explicar o fenômeno em questão através destas condições históricas, de invocar uma causalidade histórica pura, e nisto deve consistir a modéstia da atuação histórica. Mas também esta atuação pretende recusar a validade de qualquer explicação e de toda a prática que negligenciasse estas condições históricas. Devemos repudiar qualquer forma imperialista de historicismo – quer se apresente como idealista, quer como materialista ou possa ser considerado como tal –, mas reivindicar com força a necessidade da presença do saber histórico em toda a ação científica ou em toda a práxis. No domínio da ciência, da ação social ou política, da religião ou da arte – para considerar alguns dos domínios fundamentais –, esta presença do saber histórico é indispensável. De formas diversas, evidentemente. Cada ciência tem o seu horizonte de verdade que a história deve respeitar; a ação social ou política não deve ter a sua espontaneidade entravada pela história que já não é incompatível com a exigência de eternidade e de transcendência do religioso, nem com as pulsões da criação artística. Mas, ciência do tempo, a história é uma componente indispensável de toda a atividade temporal. Mais do que sê-lo inconscientemente, sob a forma de uma memória manipulada e deformada, não é melhor que o seja sob a forma de um saber falível, imperfeito, discutível, nunca totalmente inocente, mas cujas normas de verdade e condições profissionais de elaboração e exercício permitam que se chame científico?
De certo modo, parece ser uma exigência da humanidade de hoje, segundo os diversos tipos de sociedade, cultura, relação com o passado, orientação para o futuro, que ela conhece. Talvez não aconteça o mesmo num futuro mais ou menos longínquo, não porque não exista necessidade de uma ciência do tempo, mas porque este saber poderia adquirir outras formas, diferentes daquelas a que convém o termo 'histórico'. O saber histórico está ele próprio na história, isto é, na imprevisibilidade, o que só o torna mais real e mais verdadeiro.
Girolamo Arnaldi, retomando uma idéia de Croce, na sua Storie come pensiero e come azione (1938), mostrou a sua confiança na "historiografia como meio de libertação do passado", no fato de a "historiografia abrir o caminho para uma verdadeira libertação da história" [1974, 1553]. Sem partilhar do seu otimismo, julgo que cabe ao historiador transformar a história (res gestae) de fardo – como dizia Hegel – numa historia rerum gestarum que faça do conhecimento do passado um instrumento de libertação. Não estou a reivindicar nenhum papel imperialista para o saber histórico. Julgo ser indispensável o recurso à história, no conjunto das práticas do conhecimento humano e da consciência das sociedades; penso também que este saber não deve ser uma religião, nem uma demissão. Devemos rejeitar o "culto integralista da história" [Bourdieu, 1979, p. 124]. Faça minhas as palavras do grande escritor polaco Witold Kula: "O historiador deve – paradoxalmente – lutar contra a fetichização da história... A deificação das forças históricas, que conduz a um sentimento generalizado de impotência e indiferença, torna-se num verdadeiro perigo social; o historiador deve reagir, mostrando que nada está inscrito antecipadamente na realidade e que o homem pode modificar as condições que lhe são postas" [1961, p. 173].
O paradoxo surge do contraste entre o sucesso que a história tem na sociedade e a crise do mundo dos historiadores.
O sucesso explica-se pela necessidade que as sociedades têm de alimentarem a sua procura de identidade, de se alimentarem num imaginário real; e as solicitações dos media fizeram entrar a produção histórica no movimento da sociedade de consumo. Seria aliás importante estudar as condições e as conseqüências do que Arthur Marwick chamou "a indústria da história" [1970, pp. 240-43].
A crise do mundo dos historiadores nasce dos limites e das incertezas da nova história, do desencanto dos homens face às durezas da história vivida. Todo o esforço para racionalizar a história, oferecer-lhe melhores pontos de vista sobre o seu desenvolvimento, se choca com a incoerência e a tragicidade dos fatos, das situações e das evoluções aparentes. Sentimos necessidade de repetir com Lucien Febvre [1947]: "A história historicizante pede pouco. Muito pouco. Demasiado pouco para o meu gosto e também para o dos outros". Pertence à própria natureza da ciência histórica, estar estritamente ligada à história vivida, de que faz parte. Mas pode-se e deve-se – e, em primeiro lugar, o historiador – trabalhar, lutar para que a história, nos dois sentidos da palavra, seja outra. [J. Le G.].
Tradução: Irene Ferreira