História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 57 de 74

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História e Memória

6. Conclusão: o valor da memória

Mas aquela manifesta-se sobretudo pela constituição de arquivos profundamente novos em que os mais característicos são os arquivos orais.

Goy [1978] definiu e colocou esta história oral, nascida sem dúvida nos Estados Unidos onde, entre 1952 e 1959, grandes departamentos de "oral history" foram criados nas universidades de Columbia, Berkeley, Los Angeles, desenvolvida em seguida no Canadá, em Quebec, na Inglaterra e na França. O caso da Grã-Bretanha é exemplar. A Universidade de Essex constitui unia coleta de "histórias de vidas", funda-se uma sociedade, a Oral History Society, criam-se numerosos boletins e revistas, como "History Workshops", que é um dos principais resultados e uma brilhante renovação da história social e, antes de mais, da história operária, através de uma tomada de consciência do passado industrial, urbano e operário da maior parte da população. Memória coletiva operária em busca da qual colaboram sobretudo historiadores e sociólogos. Mas historiadores e antropólogos encontram-se noutros campos da memória coletiva, na África como na Europa, onde novos métodos de rememoração, como o das "histórias de vidas", começam a dar os seus frutos.

No domínio da história, sob a influência das novas concepções do tempo histórico, desenvolve-se uma nova forma de historiografia – a "históriz da história" – que, de fato, é na maioria das vezes o estudo da manipulação pela memória coletiva de um fenômeno histórico que só a história tradicional tinha até então estudado.

Encontram-se, na historiografia francesa recente, quatro exemplos notáveis. O fenômeno histórico que foi objeto da memória coletiva é, em dois casos, um grande personagem: Folz [1950] estuda a recordação e a lenda de Carlos Magno, obra pioneira; Tullard [1971] analisa o mito de Napoleão. Mais perto das tendências da nova história, Duby renova a história de uma batalha, primeiro porque vê no acontecimento a pequena ponta de um iceberg e depois porque vê "esta batalha e a memória que ela deixou, como antropólogo' e segue, "ao longo de uma série de comemorações, o destino de uma lembrança no seio de um conjunto móvel de representações mentais".

Finalmente, Joutard [1977] reencontra no próprio seio de uma comunidade histórica, através dos documentos escritos do passado, e depois através dos testemunhos orais do presente, como ela viveu e vive o seu passado, como constituiu a sua memória coletiva e como esta memória lhe permite fazer face a acontecimentos muito diferentes daqueles que fundam a sua memória numa mesma linha e encontrar ainda hoje a sua identidade. Os protestantes de Cevenne, depois das provas das grandes guerras religiosas dos séculos XVI e XVII, reagem face à Revolução de 1784, face à República, face ao caso Dreyfus, face às opções ideológicas de hoje, com a sua memória de camisardos, fiel e móvel, como toda memória.

 

6. Conclusão: o valor da memória

 

A evolução das sociedades na segunda metade do século XX clarifica a importância do papel que a memória coletiva desempenha. Exorbitando a história como ciência e como culto público, ao mesmo tempo a montante enquanto reservatório (móvel) da história, rico em arquivos e em documentos/monumentos, e a aval, eco sonoro (e vivo) do trabalho histórico, a memória coletiva faz parte das grandes questões das sociedades desenvolvidas e das sociedades em vias de desenvolvimento, das classes dominantes e das classes dominadas, lutando todas pelo poder ou pela vida, pela sobrevivência e pela promoção.

Mais do que nunca, são verdadeiras as palavras de Leroi-Gourhan: "A partir do Homo sapiens, a constituição de um aparato da memória social domina todos os problemas da evolução humana" [1964-65, p. 24]; e ainda: "A tradição é biologicamente tão indispensável à espécie humana como o condicionamento genético o é às sociedades de insetos: a sobrevivência étnica funda-se na rotina, o diálogo que se estabelece suscita o equilíbrio entre rotina e progresso, simbolizando a rotina o capital necessário à sobrevivência do grupo, o progresso, a intervenção das inovações individuais para uma sobrevivência melhorada" [ibid.]. A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia.

Mas a memória coletiva é não somente uma conquista, é também um instrumento e um objeto de poder. São as sociedades cuja memória social é sobretudo oral ou que estão em vias de constituir uma memória coletiva escrita que melhor permitem compreender esta luta pela dominação da recordação e da tradição, esta manifestação da memória.

O caso da historiografia etrusca constitui talvez a ilustração de uma memória coletiva tão estreitamente ligada a uma classe social dominante que a identificação dessa classe com a nação significou ausência de memória, quando a nação desapareceu: "Não conhecemos os Etruscos, no plano literário, a não ser por intermédio dos Gregos e dos Romanos: não nos chegou nenhuma relação histórica, admitindo que esta tenha existido. Talvez as suas tradições históricas ou para-históricas nacionais tenham desaparecido com a aristocracia que parece ter sido a depositária do patrimônio mural, jurídico e religioso da sua nação. Quando esta deixou de existir enquanto nação autônoma, os Etruscos perderam, ao que parece, a consciência do seu passado, ou seja, de si mesmos" [Mansuelli, 1967, pp. 139-40].

Veyne, estudando o evergetismo grego e romano, mostrou admiravelmente como os ricos "sacrificaram então uma parte da sua fortuna para deixar uma recordação do seu papel" [1973, p. 272], e como, no Império Romano, o imperador monopolizou o evergetismo e, ao mesmo tempo, a memória coletiva: "sozinho, manda construir todos os edifícios públicos (à exceção dos monumentos que o senado e o povo romano erguem em sua honra)" [ibid., p. 688]. E o senado vingar-se-á por vezes pela destruição desta memória imperial.

Balandier fornece o exemplo dos Beti dos Camarões, para evocar a manipulação das "genealogias" cujo papel na memória coletiva dos povos sem escrita se conhece: "Num estudo inédito consagrado aos Beti dos Camarões meridionais, o escritor Mongo Beti relata e ilustra a estratégia que permite aos indivíduos ambiciosos e empreendedores "adaptar" as genealogias a fim de legalizar uma preponderância contestável" [1974, p. 195].

Nas sociedades desenvolvidas, os novos arquivos (arquivos orais e audiovisuais) não escaparam à vigilância dos governantes, mesmo se podem controlar esta memória tão estreitamente como os novos utensílios de produção desta memória, nomeadamente a do rádio e a da televisão.

Cabe, com efeito, aos profissionais científicos da memória, antropólogos, historiadores, jornalistas, sociólogos, fazer da luta pela democratização da memória social um dos imperativos prioritários da sua objetividade científica. Inspirando-se em Ranger [1977], que denunciou a subordinação da antropologia africana tradicional às fontes "elitistas" e nomeadamente às "genealogias" manipuladas pelos clãs dominantes, Triulzi convidou à pesquisa da memória do "homem comum" africano. Desejou o recurso, na África, como na Europa, "às recordações familiares, às histórias locais, de clã, de famílias, de aldeias, às recordações pessoais..:, a todo aquele vasto complexo de conhecimentos não-oficiais, não-institucionalizados, que ainda não se cristalizaram em tradições formais... que de algum modo representam a consciência coletiva de grupos inteiros (famílias, aldeias) ou de indivíduos (recordações e experiências pessoais), contrapondo-se a um conhecimento privatizado e monopolizado por grupos precisos em defesa de interesses constituídos" [1977, p. 477].

A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de forma a que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens.[J. Le G.].

Tradução: Bernardo Leitão e Irene Ferreira