História e Memória
10. História e calendário
Mais recentemente, a revolução francesa durante treze anos e o fascismo italiano durante vinte e um, impuseram na França e na Itália duas eras que sublinhavam a vontade de uma renovação fundamental. Todavia, enquanto no primeiro caso, não obstante um recurso muitas vezes inconsciente a dados franceses, existia a aspiração ou, em todo o caso, a esperança de fundar uma era para todos os povos, a era fascista, pelo contrário, fechava-se no mais estrito nacionalismo.
Muitos povos inseriram um tempo cíclico dentro do seu tempo linear. Este tempo é geralmente sagrado, ritual, religioso em todo o caso. Os Gregos tinham períodos de quatro anos que separavam duas celebrações de jogos olímpicos: as Olimpíadas. Os Romanos contaram às vezes por lustros, períodos de cinco anos que separavam as cerimônias purificadoras que os censores ofereciam no campo de Marte, quando deixavam as funções. Os Astecas tinham ciclos de cinqüenta e dois anos, o "século" indígena, o xiuhmolpilli 'ligadura dos anos'. No último dia do último ano do ciclo, à meia-noite deve acender-se o fogo novo, senão o mundo perecerá num grande cataclismo. Para os budistas existe, como vimos, um ciclo zodiacal de doze anos. Certos povos africanos têm ciclos de sete anos: por exemplo, os Abidji veneram o deus Miesi, muito poderoso, todos os sete anos. Os Baulé todos os sete anos "tiram para fora" a máscara da pantera (Goli). Havia também uma cerimônia que tinha lugar todos os setenta anos e que consistia em demolir todas as habitações de uma geração. Os Dogon do Mali celebram cerimônias semelhantes todos os sessenta anos.
O tempo dos ciclos é aparentemente um templo circular. Isto é particularmente evidente no caso dos Astecas que representam o ciclo de cinqüenta e dois anos em calendários circulares, e para os índios que têm também calendários circulares. Mas o tempo linear apodera-se na maior parte das vezes deste tempo circular. Na Grécia, as Olimpíadas eram ordenadas de maneira a formar uma sucessão dos tempos. Os antigos Mexicanos têm (como, por exemplo, no Codex Telleriano-Remensis da Biblioteca Nacional de Paris), ao lado de um calendário das festas fixas, um tonaldmatl (isto é, um calendário ritual e divinatório que comporta o ciclo de duzentos e sessenta dias, repartidos em vinte períodos de treze dias e o ciclo de cinqüenta e dois anos), em que se observa uma cronologia que descreve, ano a ano, os grandes acontecimentos da história asteca.
A grande conquista em matéria de unidade do calendário superior ao ano é o século, período de cem anos. A palavra latina saeculum era aplicada pelos Romanos a períodos de duração variável, ligada muitas vezes à idéia de uma geração humana. Os cristãos, embora conservassem a palavra na sua antiga acepção, conferiram-lhe também o sentido derivado de vida humana, vida terrena, em oposição ao além. Mas, no século XVI, certos historiadores e eruditos tiveram a idéia de dividir os tempos em porções de cem anos. A unidade era bastante longa, a cifra 100 simples, a palavra conservava o prestígio do termo latino, e no entanto levou algum tempo a impor-se.
O primeiro século em que verdadeiramente se aplicaram o conceito e a palavra foi o século XVIII: a partir daí, esta cômoda noção abstrata ia impor a sua tirania à história. Doravante, tudo deveria entrar nesta forma artificial, como se os séculos fossem dotados de uma existência, tivessem uma unidade como se as coisas 'mudassem de um século ao outro. Para os historiadores, o sentido da verdadeira duração histórica teve de passar pela destruição desta dominação do século.
Mas o século (talvez preparado na Idade Média pelo jubileu de 1300, celebrado pela primeira vez pelo papa Bonifácio VIII e que, em princípio, deveria celebrar-se todos os cinqüenta anos) favoreceu todo um renovar-se de comemorações: os centenários, que podem ser múltiplos. O século é um bom instrumento de uma humanidade que domina porções cada vez maiores do tempo e da história.
10. História e calendário