História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 67 de 74

Páginas do PDF

História e Memória

9. Para além do ano: era, ciclo, século

Novembro, mandam-se os porcos às bolotas

Dezembro, mata-se o porco.

Na França antiga, "as cerimônias do calendário, encontram fácil disposição no âmbito das estações: ciclo do Carnaval e Quaresma no fim do Inverno, da Páscoa e de maio na Primavera, de S. João no solstício de Verão, do Outono, dos Doze dias (do Natal à Epifânia) no Inverno" [Belmont, 1973, p. 67]. Sobre a persistência das crenças ligadas à lenta história das técnicas e das mentalidades e sobre a pressão que exercem no sentido de um conservadorismo do calendário, ou sobre a permeabilidade do calendário às grandes evoluções históricas, convém não fazer juízos precipitados. Por exemplo, Nicole Belmont não aceita a hipótese de continuidade entre as festas do calendário celta e as do calendário cristão, enquanto que Claude Gaignebet [1974] a defende e pensa pode demonstrá-la.

A experiência de Jack Chen numa aldeia chinesa do Honan, durante a revolução cultural, é instrutiva. Os camponeses davam pouca importância ao calendário solar oficial e ao Ano-Novo do 1º de janeiro, e continuavam a preparar as festividades para o tradicional Ano-Novo lunar, que em 1970 acontecia a 6 de fevereiro e em 1971 a 27 de janeiro. Celebravam a Festa da luz e da claridade de 5 de abril, comemoração tradicional dos antepassados. O seu calendário continha ainda os vinte e quatro "nós" solares, as nove novenas de mitigação do frio, as três dezenas do Tempo quente do Tigre de Outono e, por fim, a Festa do Ano-Novo lunar. Mas uma festa de família de três dias tinha substituído a anterior quinzena festiva e a festa do meio do Outono, durante o Ano-Novo.

Esta última, ligada ao pagamento das rendas e das dívidas suprimidas, desaparecera completamente.

A longa duração e a adaptação do calendário atestam a existência de uma história lenta mas não-imóvel das sociedades, mesmo nos seus aspectos ligados à ordem natural.

 

9. Para além do ano: era, ciclo, século

 

Para além do sistema essencial dia/semana/mês/ano (comum a toda a humanidade), os sábios e os governantes sentiram a necessidade de ver mais longe, de dominar mais amplamente o tempo do calendário.

O calendário necessita apenas de uma data de Ano-Novo, mas a história e todos os atos e documentos que exigem uma datação põem o problema da data do início do tempo oficial. Este ponto fixo, a partir do qual se inicia a numeração dos anos, introduz no calendário um elemento linear. Este conduz a uma idéia de evolução positiva ou negativa: progresso ou decadência. O ponto fixo é a era, que é também o sistema de datação do tempo a partir de uma era dada e finalmente do próprio tempo. As eras são em geral acontecimentos considerados como fundadores, criadores, com um valor mais ou menos mágico. Até os revolucionários franceses consideravam o início da nova era que queriam instaurar, um "talismã". Tais acontecimentos são às vezes míticos, outras vezes históricos.

Em 260 a.C. foi fixada na Grécia antiga a origem da datação a partir de 776 a.C., data em que começaram a ser conservados os registros com os nomes dos vencedores dos jogos

olímpicos. No século I a.C. os Romanos adotaram o cômputo de Varone, segundo o qual a fundação de Roma, origem dos tempos romanos, teria tido lugar em 753 a.C.

Quando os Cristãos puderam exprimir o seu ponto de vista, adotaram em primeiro lugar a era dos mártires ou era de Diocleciano, que começava em 284. Em 232, um monge, Dionísio, o Pequeno, não suportando ver o nome do perseguidor Diocleciano ligado aos novos tempos e constatando a impotência dos cristãos quanto a entenderem-se sobre a data da criação do mundo, propôs que se iniciasse a era cristã com o nascimento de Cristo, que ele situava no ano 753 de Roma. A sua proposta foi adotada por toda a cristandade e hoje a era cristã é a mais usada no mundo.

Os muçulmanos têm como início da sua era a data da fuga de Maomé de Meca para Medina, a 16 de julho de 622. É a Hégira (a fuga).