História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 2 de 74

Páginas do PDF

História e Memória

História

 

Estamos quase todos convencidos de que a história não é uma ciência como as outras – sem contar com aqueles que não a consideram uma ciência. Falar de história não é fácil, mas estas dificuldades de linguagem introduzem-nos no próprio âmago das ambigüidades da história.

Neste ensaio, tentaremos centrar a reflexão sobre a história na temporalidade, situar a própria ciência histórica nas periodizações da história e não a reduzir à visão européia, ocidental, mesmo que, por ignorância e em virtude de deficiências importantes de documentação, sejamos levados a falar sobretudo da ciência histórica européia.

A palavra 'história' (em todas as línguas românicas e em inglês) vem do grego antigo historie, em dialeto jônico [Keuck, 1934]. Esta forma deriva da raiz indo-européia wid-, weid 'ver'. Daí o sânscrito vettas 'testemunha' e o grego histor 'testemunha' no sentido de 'aquele que vê'. Esta concepção da visão como fonte essencial de conhecimento leva-nos à idéia que histor 'aquele que vê' é também aquele que sabe; historein em grego antigo é 'procurar saber', 'informar-se'. Historie significa pois "procurar". É este o sentido da palavra em Heródoto, no início das suas Histórias, que são "investigações", "procuras" [cf. Benveniste, 1969, t. II, pp. 173-74; Hartog, 1980]. Ver, logo saber, é um primeiro problema.

Mas nas línguas românicas (e noutras), 'história' exprime dois, senão três, conceitos diferentes. Significa: 1) esta "procura das ações realizadas pelos homens" (Heródoto) que se esforça por se constituir em ciência, a ciência histórica; 2) o objeto de procura é o que os homens realizaram. Como diz Paul Veyne, "a história é quer uma série de acontecimentos, quer a narração desta série de acontecimentos" [1968, p. 423]. Mas a história pode ter ainda um terceiro sentido, o de narração. Uma história é uma narração, verdadeira ou falsa, com base na "realidade histórica" ou puramente imaginária – pode ser uma narração histórica ou uma fábula. O inglês escapa a esta última confusão porque distingue entre history e story (história e conto). As outras línguas européias esforçam-se por evitar esta ambigüidade. O italiano tem tendência para designar se não a ciência histórica, pelo menos as produções desta ciência pela palavra 'storiografia'; o alemão estabelece a diferença entre a atividade "científica", Geschichtschreibung, e a ciência histórica propriamente dita, Geschichtswissenschaft. Este jogo de espelhos e de equívocos manteve-se ao longo das épocas. O século XIX, século da história, inventa ao mesmo tempo as doutrinas que privilegiam a história dentro do saber – falando, como veremos, de 'historismo' ou de 'historicismo' – e uma função, ou melhor, uma categoria do real, a 'historicidade' (a palavra aparece em 1872, em francês). Charles Morazé define-a assim: "Devemos procurar para além da geopolítica, do comércio, das artes e da própria ciência, aquilo que justifica a atitude de obscura certeza dos homens que se unem, arrastados pelo enorme fluxo do progresso que os especifica, opondo-os. Sente-se que esta solidariedade está ligada à existência implícita que cada um experimenta em si, duma certa função comum a todos. Chamamos a esta função historicidade" [1967, p. 59].

O conceito de historicidade desligou-se das suas origens "históricas", ligadas ao historicismo do século XIX, para desempenhar um papel de primeiro plano na renovação epistemológica da segunda metade do século XX. A 'historicidade' permite, por exemplo, refutar no plano teórico a noção de "sociedade sem história", refutada por outro lado pelo estudo empírico das sociedades estudadas pela etnologia [Lefort, 1952]. Ela obriga a inserir a própria história numa perspectiva histórica: "Há uma historicidade da história que implica o movimento que liga uma prática interpretativa a uma práxis social" [Certeau, 1970, p. 484]. Um filósofo como Paul Ricoeur vê na supressão da historicidade através da história da filosofia o paradoxo do fundamento epistemológico da história. De fato, segundo Ricoeur, o discurso filosófico faz desdobrar a história em dois modelos de inteligibilidade, um modelo de acontecimentos (événementiel) e um modelo estrutural, o que leva ao desaparecimento da historicidade: "O sistema é o fim da história porque ela se anula na lógica; a singularidade é também o fim da história porque toda a história se nega nela. Chegamos a este resultado paradoxal: é sempre na fronteira da história, no fim da história que se compreendem os traços mais gerais da historicidade" [1961, pp. 224-25].

Finalmente, Paul Veyne tira uma dupla lição do fundamento do conceito de historicidade. A historicidade permite a inclusão no campo da ciência histórica de novos objetos da história: o non-événementiel; trata-se de acontecimentos ainda não reconhecidos como tais: história rural, das mentalidades, da loucura ou da procura de segurança através das épocas. Chamaremos non-événementiel à historicidade de que não temos consciência enquanto tal [1971, p. 31]. Por outro' lado, a historicidade exclui a idealização da história, a existência da História com H maiúsculo: "Tudo é histórico, logo a história não existe".

Temos porém de viver e pensar com este duplo ou triplo sentido de 'história'. Lutar contra as confusões grosseiras e mistificadoras entre os diferentes significados, não confundir ciência histórica e filosofia da história. Partilho a desconfiança da maior parte dos historiadores de ofício, perante essa filosofia da história "tenaz e insidiosa" [Lefebvre, 1945-46] que tem tendência, nas suas diversas formas, para levar a explicação histórica à descoberta ou à aplicação de uma causa única e original, para substituir o estudo pelas técnicas científicas de evolução das sociedades, sendo essa evolução concebida como abstração baseada no apriorismo ou num conhecimento muito sumário dos trabalhos científicos. É para mim surpreendente a ressonância que teve – fora dos ambientes históricos, é certo – o panfleto de Karl Popper The Poverty of Historicism [1966]. Nem um só historiador profissional é nele citado. Esta desconfiança perante a filosofia da história não deve servir de justificação para recusar este tipo de reflexão. A própria ambigüidade do vocabulário revela que a fronteira entre as duas disciplinas, as duas orientações, não está estritamente traçada nem é traçável (em última hipótese). O historiador não pode concluir que deve evitar uma reflexão teórica, necessária ao trabalho histórico. É fácil ver que os historiadores mais inclinados a reclamarem-se dos fatos não só ignoram que um fato histórico resulta duma montagem e que estabelecê-lo exige um trabalho técnico e teórico, mas também estão, acima de tudo, cegos por uma filosofia da história.inconsciente, muitas vezes sumária e incoerente. É certo, repito-o, que a ignorância dos trabalhos históricos pela maior parte dos filósofos da história – correspondente ao desprezo dos historiadores pela filosofia – não facilitou o diálogo. Mas a existência de uma revista de grande qualidade como "History and Theory Studies in the philosophy of History", publicada desde 1960 pela Wesleyan University em Middletown (Connecticut, U.S.A.) prova a possibilidade e o interesse duma reflexão comum de filósofos e historiadores, assim como da formação de especialistas informados, no campo da reflexão teórica sobre a história.

Penso – pois – que a brilhante demonstração de Paul Veyne ultrapassa um pouco a realidade. Ele pensa que não se trata dum gênero morto ou que apenas sobrevive "nos epígonos de tom um tanto popular" ou que seja um "falso gênero". De fato, "a menos que seja uma filosofia revelada, uma filosofia da história será um duplo da explicação concreta dos fatos e remeterá para as leis e mecanismos que explicam esses fatos. Só os dois extremos são viáveis: o providencialismo da Cidade de Deus ou então a epistemologia histórica. Todo o resto é bastardo" [1971, p. 40].

Sem chegar ao ponto de dizer, com Raymond Aron, que "a ausência e a necessidade de uma filosofia da história são elementos igualmente característicos do nosso tempo" [1961a, p. 38], diremos que é legítimo que nas margens da ciência histórica se desenvolva uma filosofia da história, como outro ramo do saber. Será desejável que ela não ignore a história dos historiadores da mesma maneira que estes devem admitir que ela possa ter como o objeto da história relações de conhecimento diferentes das suas.

A dualidade da história como história-realidade e história-estudo desta realidade explica, segundo me parece, as ambigüidades de algumas declarações de Lévi-Strauss sobre a história. Assim, numa discussão com Maurice Godelier, o qual, tendo declarado que a homenagem prestada, em Du miel aux cendres, à história como contingência, irredutível, se voltava contra a própria história e que equivalia a "dar à ciência da história um estatuto... impossível, conduzi-la a um impasse", Lévi-Strauss replicou: "Não sei a que chamais ciência da história. Contentarme-ei em dizer simplesmente a história; e a história é algo que não podemos dispensar, precisamente porque esta história nos põe constantemente perante fenômenos irredutíveis" [Lévi-Strauss, Augé e Godelier, 1975, pp. 182-83]. Toda a ambigüidade da palavra 'história' está contida nesta declaração.