História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 62 de 74

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História e Memória

4. As estações

O ano tornou-se portanto a medida da vida humana. Os demógrafos calculam em anos a esperança de vida. A introdução do estado civil limita hoje, a poucas populações, a existência de fabulosos anciãos, aos quais se possa atribuir sem controle uma idade comparável à dos patriarcas bíblicos. O dia do aniversário natalício tornou-se uma ocorrência significativa na vida individual e familiar.

Georges Niangoran-Bouah conta-nos, com graça, a alegria, misturada com confusão, dos estudantes negros da África francesa que, em 1946, foram admitidos a receber a mesma instrução dos estudantes da metrópole. Antes, o jovem africano podia entrar para a escola quando sabia construir uma paliçada, cultivar uma horta, confeccionar esteiras, etc.; agora, é preciso declarar um número de anos medidos por um calendário escrito. Ainda hoje "a imprecisão em que vive a elite escolarizada africana provoca uma situação de embaraço cada vez que é necessário definir uma idade" [Niangoran-Bouah, 1964, pp. 19-23].

Finalmente, a propósito de anais e de datas, ver-se-á posteriormente a importância do ano na relação que existe entre calendário e história.

 

4. As estações

 

Veremos em seguida as estações e os meses como quadro dos trabalhos e das festas do calendário. Mas antes de mais nada é necessário considerá-las enquanto personagens ou entidades do calendário, divisões ou fragmentos do ano, tempos de uma sinfonia. A estação, como fundo de um calendário articulado sobre o sistema dia/semana/mês/ano, é um bom observatório para o estudo dos aspectos tradicionais do calendário, relativamente independentes do cálculo astronômico.

O domínio cultural dos povos que vivem nos climas temperados difundiu um esquema quadripartido das estações. Em muitas grandes civilizações, a Primavera e o Outono emanaram uma aura que os impõe à sensibilidade e à arte, de tal modo que a sua expulsão do calendário aparece como impossível. Todavia, os povos antigos conheceram muitas vezes o alternar-se de duas únicas estações, a quente e a fria, e os habitantes dos climas não temperados vivem a maior parte das vezes num sistema de calendário articulado sobre duas estações, em geral uma úmida e outra seca.

Na China, o ano foi inicialmente dividido em duas estações, a Primavera e o Outorno, e terminava com a colheita. No século III a.C., o desenvolvimento da economia levou à invenção do Inverno e do Verão, e sucessivamente o ano começou com a Primavera, uma Primavera precoce que correspondia ao início de fevereiro.

Todavia, o quente e o frio permanecem sendo elementos essenciais dos calendários populares. Na China antiga, contava-se um período de nove vezes nove dias depois do solstício de Inverno e traçavam-se "quadros da diminuição gradual do frio durante as nove novenas". Uma coluna datada de 1488 conta, através de pequenos desenhos comentados por quadras, o progresso das nove novenas. Esta pequena obra, atenta aos sinais da vegetação e dos pássaros, tem um fio condutor filosófico, ao testemunhar o progressivo reforço do yang, princípio masculino do Sol, do calor do Verão, da força, da vida, face ao yin, princípio feminino da Lua, do frio, do Inverno, da fraqueza, da morte. Marcel Granet retratou bem o modo como as festas da estação invernal tinham na China um caráter dramático, louco, orgíaco e consistiam "num longo concurso de despesas, propício à constituição de uma hierarquia masculina" [Granet, 1968, p. 192].

Jack Chen, que na época da "revolução cultural", em 1969-70, passou um ano numa aldeia chinesa, encontrou aí a mesma espera febril pelo desaparecimento do frio e os preparativos para as celebrações da Primavera, com muitas semanas de antecedência, com a confecção das roupas para tais festividades, desde dezembro.

Nos índios Pueblo, onde existe uma estreita vinculação entre tempo e espaço, desde o mito das origens que as estações são criadas contemporaneamente aos quatro pontos cardeais: Iatiku, "criou, com a terra que se encontrava no seu cesto, Shakako, o espírito do Inverno, que mandou viver sobre a montanha do Norte; Morityema, o espírito da Primavera, que foi residir para o Oeste; Maiyoshina, o espírito do Verão, que vive no Sul; Shruisthia, o espírito do Outono, que mora nas montanhas do Leste... O espírito do Inverno devia trazer a neve; o espírito da Primavera devia temperar o mundo; o do Verão devia aquecê-lo o bastante para que a vegetação vivesse; o do Outono, enfim, não devia gostar do cheiro das plantas e dos frutos e teria feito desaparecer este cheiro suprimindo os vegetais. latiku ensinou depois aos homens a rezar a estes espíritos para obter a umidade, o calor, a maturação e o gelo" [Sebag, 1971, p. 78].