História e Memória
8. Os trabalhos e as festas
Na Teogonia, Hesíodo faz da noite a mãe de todos os males: "A noite gerou a Sorte odiosa, e a negra Kere, e a Morte...(vv. 211-12) e também Sarcasmo, Miséria, as Parcas, Nemésis, Engano, Velhice, Luto, Pena, etc.
O Ocidente medieval, que tinha em relação à noite um grande temor (praticar crimes ou más ações durante a noite constituía uma circunstância agravante), contou por vezes os períodos de tempo tanto em noites como em dias. O mesmo faziam os antigos Germanos. A noite foi e ainda é o tempo de certas festas: a noite de Natal, de Páscoa, de S. João...
Os Pueblo consideram ideal o equilíbrio entre o dia e a noite. Já o demonstra o mito das origens: "Ao cair da noite, as duas irmãs ficaram muito assustadas; não sabiam que o movimento do sol era ordenado e pensaram que Tsichtinako as tivesse traído. Mas este explicou-lhes que seria sempre assim e que o sol reaparecia no dia seguinte a este".
"Quando a noite chega deveis repousar-vos e dormir tal como fazíeis quando tudo estava imerso na obscuridade". Tranqüilizadas, elas adormeceram e levantaram-se no dia seguinte, felizes, para acolher o sol" [Sebag, 1971, p. 45]. No mito são também castigados os animais que rompem a alternância entre o dia e a noite: a pega, o escaravelho, o coiote.
Na cultura popular há certos dias que se individualizam. Isto é óbvio para aqueles dias cujo significado foi reforçado pela religião oficial, como a terça-feira ou quarta-feira de cinzas no calendário cristão, mas também dias mais tradicionais ou folclóricos, tais como a segunda-feira de festa do Ocidente medieval, chamada "bon lundi" ou, a partir do século XVI, blaue Montag 'segunda-feira azul' nas regiões germânicas.
O dia de vinte e quatro horas, que começa à meia-noite, O hora, não se difundiu ainda por toda a parte. Para muitos povos (Hebreus, Muçulmanos, Africanos, etc.), o dia vai de um pôr-do-sol ao pôr do sol seguinte. Os calendários dos povos que adotaram o dia do calendário juliano-gregoriano exibem ainda traços do corte que marca a passagem da luz às trevas e viceversa: versa: habitualmente vem indicada a hora a que o Sol se levanta e se põe. A civilização industrial não conseguiu ainda separar o dia de vinte e quatro horas do dia natural, com a sua dupla face de luz e sombra. Todavia, os turnos contínuos de oito horas em certas fábricas e o funcionamento de alguns serviços vinte e quatro horas sobre vinte e quatro, são a negação da noite.
Enfim, é preciso não esquecer que para alguns povos o dia é ainda hoje uma fonte de inspiração para os nomes dos filhos. Por exemplo, na Costa do Marfim as crianças têm por vezes o nome do dia em que nasceram. Para os Abé tem-no a primeira criança viva nascida depois de vários natimortos; os Baulé dão o nome do dia do nascimento, segundo um calendário ritual particular.
8. Os trabalhos e as festas
Uma função essencial do calendário é a de ritmar a dialética do trabalho e do tempo livre, o entrecruzamento dos dois tempos: o tempo regular, mas linear do trabalho, mais sensível às mutações históricas, e o tempo cíclico da festa, mais tradicional, mas permeável às mudanças da história.
Já tivemos ocasião de salientar os laços do calendário com os dois sistemas, aliás muitas vezes ligados, dos trabalhos e das festas.
Os calendários astecas, reproduzidos em manuscritos, comportam muitas vezes um calendário de festas fixas.
Por exemplo, o Codex Ixtlilxóchitl da Bibliothèque Nationale de Paris contém um calendário ritual das cerimônias anuais celebradas no teocalli de Tenochtitlán.
Sob os Shang, na China, o ano civil e o agrícola coincidiam e nien significava ao mesmo tempo 'ano' e 'ceifa': as festas da ceifa eram também as festas do fim do ano. Marcel Granet descreveu muito bem o desenrolar do ano no calendário chinês ao ritmo dos trabalhos dos campos: "O ano agrícola iniciava-se no primeiro mês de Primavera, quando os animais em hibernação começavam a dar os primeiros sinais de despertar e os peixes se deixavam ver, subindo até o gelo que o vento do Leste tornara mais fino: preparavam-se então os arados e os camponeses associavam-se aos pares. No segundo mês, as andorinhas que voltavam assinalavam o equinócio, os pessegueiros floriam de novo, o verdilhão cantava, sabia-se então que se avizinhavam as primeiras chuvas, e ia-se logo trabalhar a terra e semear. O arco-íris reaparecia, o trovão soava de novo, milhares de animais surgiam ao mesmo tempo saindo da terra, a poupa pousava nas amoreiras: era o tempo de preparar as gradezinhas para os bichos-da-seda..." E conclui: "No tempo em que se escreveram os rituais, as observações dos camponeses serviram para ilustrar eruditos calendários de base astronômica, que foram depois apresentados como emanados da sabedoria dos príncipes, da mesma maneira que se admita que "a próspera fortuna dos trabalhadores dos campos" era um efeito da virtude do senhor" [Granet, 1929, pp. 170-71].
Para os Kulango da Costa do Marfim, para quem a mesma palavra oroko designa o ano e o campo, as festas estão muitas vezes ligadas ao ciclo das culturas, como as festas propiciatórias do novo inhame e a festa do milho novo.
Este calendário dos trabalhos, em que predomina a economia rural, parece votado ao tempo cíclico do eterno recomeço. É todavia sensível à lenta evolução da economia e das técnicas. No antigo calendário romano pré-juliano podia distinguir-se uma estratificação arcaica de divindades e de festas de origem itálica com influências etruscas, onde predominavam as divindades da criação e das culturas: Liber, deus da geração (17 de março); Ceres, deusa do crescimento da vegetação (15 de abril); em maio, Pales que protegia os rebanhos, Robigus que afastava a ferrugem das espigas, Flora que fazia com que os cereais florissem; em Agosto, Consus que os guardava nos celeiros e Ops, a abundância. O ano acabava a 15, 17 e 19 de dezembro com o aparecimento de Ops e de Consus, que enquadravam Saturno que presidia às festas de fim de ano. Mas uma segunda estratificação evoca uma época "em que a agricultura tomou nitidamente a dianteira sobre a criação", o ciclo de abril – início de maio dos Cerialia, Parilia, Vinalia, Robigalia, Floralia. O ciclo dos Ambarvalia do fim de maio protegia os campos, com uma procissão ao longo do seu perímetro, etc. Trata-se de um ciclo do calendário em que se exprimem também o estilo econômico e a mentalidade religiosa de um povo. Jean Bayet [1957, p. 96] observou que os antigos Latinos não se inspiravam na "patética mitologia (grega) de Perséfone, do cereal seco que desaparece para renascer milagrosamente", mas contentavam-se em organizar a abundância rural.
Neste incunábulo editado em Lyon em 1485 (Le Propriétaire des choses, de Barthélemy de Glauville) está retratado o ciclo dos trabalhos e dos dias:
Janeiro, olha para o ano passado e para o que está por vir
Fevereiro, o mês mais duro em que a vida parece parar
Março, em que começam os trabalhos da vinha
Abril, colhem-se as primeiras flores
Maio, "o tempo está belo e amoroso"
Junho, os trabalhos das terras
Julho, o corte do feno
Agosto, a ceifa
Setembro, a sementeira
Outubro, a vindima