História e Memória
Decadência
1. Um conceito confuso
Um dos conceitos mais confusos aplicados ao domínio da história é o de decadência. Em primeiro lugar, a evolução do vocábulo (sobre o qual não existem estudos válidos) é difícil de seguir. Parece não ter existido nem em grego, nem em latim, para nos cingirmos ao Ocidente, equivalente do que mais tarde irá significar a palavra decadência, embora se concorde em atribuir a invenção deste conceito aos historiadores e pensadores da Antiguidade greco-romana. Para exprimir uma idéia próxima, Gregos e Romanos recorreram com mais freqüência a formas gramaticais concretas (verbos, particípios) do que a termos abstratos. No prefácio à "História de Roma", Tito Lívio oferece-nos um exemplo: "Labente deinde paulatim disciplina velut desidentes primo mores sequatur animo, deinde ut magis magisque lapsi sint tum, ire coeperint praecipites, donec ad haec tempora, quibus nec vitia nostra nec remedia pati possumus perventum est ". 'À medida que a disciplina moral abrandava, os costumes foram-se relaxando pouco a pouco; decaíram cada vez mais e, finalmente, quase à beira do abismo, chegamos aos nossos dias incapazes já de suportar os vícios e de lhes dar remédio'. A "decadência" dos costumes romanos exprime-se aqui por um movimento d e deslize (labente), seguido de queda (lapsi) e finalmente de aniquilamento (praecipites). Os termos latinos que melhor exprimem a idéia de decadência são muito concretos: labes e ruína 'queda' e 'ruína'. A palavra 'decadência' aparece na Idade Média sob a forma latina decadentia em condições ainda pouco esclarecidas. Como Starn [1975] e Burke [1976] demonstraram, o campo semântico da idéia de decadência, entre o século XV e o século XVIII, foi ocupado por toda uma série de termos mais ou menos semelhantes, em obras escritas num latim entremeado de elementos antigos, medievais e humanistas: declinatio e inclinado, sinônimos de submissão e desmoronamento; decadentia, lapsus e vacillatio, que invocam a instabilidade ou queda; eversio ou conversio, com o sentido de viragem, assumindo uma tonalidade pejorativa com perversio ou subversio, e ainda no sentido de corrupção moral, a corruptio. No latim clássico inclinato (de onde nascerá déclin 'declínio') é o termo que parece prevalecer: em Cícero e em Salústio encontramos a expressão inclinata res publica 'o declínio do Estado'.
Enquanto o termo 'decadência', a partir do Renascimento, é usado preferencialmente em francês e italiano
(decadence, decadenza, apesar da relativa concorrência de déclin e de tramonto), em inglês prevalece o termo decline, mais ou menos equivalente e o alemão parece hesitar entre vários termos dos quais se destacam Verfall e Untergang. Este último termo ('ocaso') evoca uma segunda confusão: o sistema metafísico de referência consciente ou inconsciente para a qual a palavra e a idéia remetem. Hesita-se entre dois tipos de sistemas "naturais": o sistema biológico dos seres vivos (e a idéia de decadência ligar
se-á à de envelhecimento e de morte) ou o sistema astronômico do Universo (e decadência evocará o declínio, o pôr-do-sol ou a "decadência" do ano, o Outono. Huizinga deu à sua obra sobre o fim da Idade Média o título significativo O Outono da Idade Média [1919] que, na primeira tradução francesa, com inexatidão não menos significativa, intitulava-se Le déclin du Moyen Age e na tradução inglesa, de expressão ainda mais nebulosa, se chamava The Waning of the Middle Ages). O conceito de decadência nem sempre ocupa o mesmo lugar, nem tem o mesmo significado no interior de um sistema e nem sempre se opõe às mesmas palavras (e idéias correspondentes), o que é outro sinal e fonte de confusão.
Na Antiguidade, em que o sentimento e a idéia de progresso são praticamente inexistentes, o conceito de
decadência não tem um contraponto verdadeiro mas, numa perspectiva religiosa pode, como acontece em várias épocas do Império Romano, transformar-se, por exemplo, em base e inspiração de um programa político; a idéia de renovatio aparece por vezes como antídoto de ruína.