História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 3 de 74

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História e Memória

1. Paradoxos e ambigüidades da história

Irei pois abordar a história pedindo a um filósofo a idéia de base:

"A história só é história na medida em que não consente nem no discurso absoluto, nem na singularidade absoluta, na medida em que o seu sentido se mantém confuso, misturado... A história é essencialmente equívoca, no sentido de que é virtualmente événementielle e virtualmente estrutural. A história é na verdade o reino do inexato. Esta descoberta não é inútil; justifica o historiador. Justifica todas as suas incertezas. O método histórico só pode ser um método inexato... A história quer ser objetiva e não pode sê-lo. Quer fazer reviver e só pode reconstruir. Ela quer tomar as coisas contemporâneas, mas ao mesmo tempo tem de reconstituir a distância e a profundidade da lonjura histórica. Finalmente, esta reflexão procura justificar todas as aporias do ofício de historiador, as que Marc Bloch tinha assinalado na sua apologia da história e do ofício de historiador. Estas dificuldades não são vícios do método, são equívocos bem fundamentados" [Ricoeur, 1961, p. 226].

Este discurso, excessivamente pessimista sob certos aspectos, parece-me no entanto verdadeiro. Apresentarei em primeiro lugar os paradoxos e ambigüidades da história, para melhor a definir como ciência, ciência original, mas fundamental.

Tratarei em seguida dos aspectos fundamentais da história, muitas vezes misturados, mas que é necessário distinguir: a cultura histórica, a filosofia da história, o ofício de historiador.

Fa-lo-ei numa perspectiva histórica, no sentido cronológico do termo. A crítica feita na primeira parte, da concepção linear e teleológica da história, afastará a suposição de que identifico a cronologia e o progresso qualitativo, mesmo que sublinhe efeitos cumulativos do conhecimento e aquilo a que Inácio Meyerson chamou o "aumento de consciência histórica" [1956, p. 354].

Não tentarei ser exaustivo. O que importa é mostrar, na primeira perspectiva, através de alguns exemplos, o tipo de relações que as sociedades históricas mantiveram com o seu passado e o lugar que a história ocupa no seu presente. Na ótica da filosofia da história gostaria de mostrar, através de alguns grandes espíritos e de algumas correntes de pensamento importantes, como, para além ou fora da prática disciplinar da história, em certos meios e em certas épocas, a história se conceituou e ideologizou.

O horizonte profissional da história dará, paradoxalmente, maior lugar à noção de evolução e aperfeiçoamento. É que, colocando-se na perspectiva da tecnologia e da ciência, aí encontrará a inevitável idéia do progresso técnico.

A última parte, consagrada à situação atual da história, retomará alguns dos temas fundamentais deste artigo e alguns aspectos novos. A ciência histórica conheceu, desde há meio século, um avanço prodigioso: renovação, enriquecimento das técnicas e dos métodos, dos horizontes e dos domínios. Mas, mantendo com as sociedades globais relações mais intensas que nunca, a história profissional e científica vive uma crise profunda. O saber da história é tanto mais confuso quanto mais o seu poder aumenta.

 

1. Paradoxos e ambigüidades da história

 

1.1 A história é uma ciência do passado ou "só há história contemporânea"?

Marc Bloch não gostava da definição "A história é a ciência do passado" e considerava absurda "a própria idéia de que o passado, enquanto-tal, possa ser objeto da ciência" [1941-42, pp. 32-331. Ele propunha que se definisse a história como "a ciência dos homens no tempo" [ibid.]. Pretendia com isso sublinhar três caracteres da história. O primeiro é o seu caráter humano. Embora a investigação histórica englobe hoje alguns domínios da natureza [cf. Le Roy Ladurie, 1967], admite-se geralmente que a história é a história humana e Paul Veyne sublinhou que uma "enorme diferença" separa a história humana da história natural: "O homem delibera, a natureza não; a história humana tornar-se-ia sem sentido se negligenciássemos o fato de os homens terem objetivos, fins, intenções" [1968, p. 424].

Esta concepção da história humana convida muitos historiadores a pensarem que a parte central e essencial da história é a história social. Charles-Edmond Perrin escreveu sobre Marc Bloch: "À história ele atribui como objeto o estudo do homem, enquanto integrado num grupo social" [em Labrousse, 1967, p. 3]; e Lucien Febvre acrescenta: "Não o homem, mais uma vez, não o homem, nunca o homem. As sociedades humanas, os grupos organizados" [ibid.]. Em seguida, Marc Bloch pensava nas relações que o passado e o presente entretecem ao longo da história. Considerava que a história não só deve permitir compreender o "presente pelo passado" – atitude tradicional – mas também compreender o "passado pelo presente" [1941, p. 44-50]. Confirmando resolutamente o caráter científico e abstrato do trabalho histórico, Marc Bloch não aceitava que esse trabalho fosse estritamente tributário da cronologia: seria um erro grave pensar que a ordem adotada pelos historiadores nas suas investigações devesse necessariamente modelar-se pela dos acontecimentos. Para restituírem à história o seu movimento verdadeiro, seria muitas vezes vantajoso lerem-na, como dizia Maitland, "ao contrário" [ibid., pp. 48-49]. Daí o interesse de "um método prudentemente regressivo" [ibid., p. 55]. Prudentemente, isto é, que não transporte ingenuamente o presente para o passado e que não procure por outras vias um trajeto linear que seria tão ilusório como o sentido contrário. Há rupturas e descontinuidades inultrapassáveis quer num sentido quer noutro.

A idéia da história dominada pelo presente baseia-se numa célebre frase de Benedetto Croce em La stone come pensiero e cone azione,, que considera que "toda a história" é "história contemporânea". Croce entende por isso que "por mais afastados no tempo que pareçam os acontecimentos de que trata, na realidade, a história liga-se às necessidades e às situações presentes nas quais esses acontecimentos têm ressonância" [1938, p. 5]. De fato, Croce pensa que, a partir do momento em que os acontecimentos históricos podem ser repensados constantemente, deixam de estar "no tempo"; a história é o "conhecimento do eterno presente" [Gardiner, 1952]. Esta forma extrema de idealismo é a negação da história. Como E.H. Carr notou, Croce inspirou a tese de Collingwood em The Idea of History [1932], recolha de artigos póstuma, onde o historiador britânico afirma – misturando os dois sentidos de história, a investigação do historiador e as séries de acontecimentos passados, sobre os quais investiga – que ia "história não trata nem "do passado enquanto tal" nem, das "concepções do historiador enquanto tais", mas da "inter-relação entre os dois aspectos" [Carr, 1961, pp. 15-16]. Concepção simultaneamente fecunda e perigosa. Fecunda, porque é verdade que o historiador parte do presente para pôr questões ao passado. Perigosa, porque se o passado tem, apesar de tudo, uma existência na sua relação com o presente, é inútil acreditar num passado independente daquele que o historiador constrói (veja-se o suplemento 16 de "History and Theory", The constitution of the historical past, 1977). Esta consideração condena todas as concepções dum passado "ontológico" como é expresso, por exemplo, na definição de história de Émile Callot: "Uma narração inteligível de um passado definitivamente esgotado" [1962, p. 32]. O passado é uma construção e uma reinterpretação constante e tem um futuro que é parte integrante e significativa da história. Isto é verdadeiro em dois sentidos. Primeiro, porque o progresso dos métodos e das técnicas permite pensar que uma parte importante dos documentos do passado está ainda por se descobrir. Parte material: a arqueologia decorre sem cessar dos monumentos desconhecidos do passado; os arquivos do passado continuam incessantemente a enriquecer-se. Novas leituras de documentos, frutos de um presente que nascerá no futuro, devem também assegurar ao passado uma sobrevivência – ou melhor, uma vida –, que deixa de ser "definitivamente passado". À relação essencial presente-passado devemos pois acrescentar o horizonte do futuro. Ainda aqui os sentidos são múltiplos. As teologias da história subordinaram-na a um objetivo definido como o seu fim, o seu cumprimento e a sua revelação. Isto é verdadeiro na história cristã, absorvida pela escatologia; mas também o é no materialismo histórico (na sua versão ideológica) que se baseia numa ciência do passado, um desejo de futuro não dependente apenas da fusão duma análise científica da história passada e duma prática revolucionária, esclarecida por essa análise. Uma das tarefas da ciência histórica consiste em introduzir, por outras vias que não a ideologia e respeitando-a imprevisibilidade do futuro, o horizonte do futuro na sua reflexão [Erdmann, 1964; Schulin, 1973]. Pense-se simplesmente nesta constatação banal mas cheia de conseqüências um elemento fundamental dos historiadores dos períodos antigos é o fato de saberem o que se passou depois.

Os historiadores do contemporâneo, do tempo presente, ignoram-no. A história contemporânea difere assim (há outras razões para esta diferença) da história das épocas anteriores.

Esta dependência da história do passado em relação ao presente deve levar o historiador a tomar certas precauções. Ela é inevitável e legitima, na medida em que o passado não deixa de viver e de se tomar presente. Esta longa duração do passado não deve, no entanto, impedir o historiador de se distanciar do passado, uma distância reverente, necessária para o respeitar e evitar o anacronismo.

Penso que a história é bem a ciência do passado, com a condição de saber que este passado se torna objeto da história, por uma reconstrução incessantemente reposta em causa – não podemos falar das cruzadas como o teríamos feito antes do colonialismo do século XIX, mas devemos interrogar-nos sobre se, e em que perspectivas, o termo "colonialismo" pode ser aplicado à instalação dos Cruzados da Idade Média, na Palestina [Prawer, 1969-701.

Esta interação entre passado e presente é aquilo a que se chamou a função social do passado ou da história. Também Lucien Febvre [1949]: "A história recolhe sistematicamente, classificando e agrupando os fatos passados, em função das suas necessidades atuais. É em função da vida que ela interroga a morte. Organizar o passado em função do presente: assim se poderia definira função social da história' (1949, p. 438). E Eric Hobsbawm interrogou-se sobre a "função social do passado" [1972; veja-se também o artigo "Passado/presente" neste volume da Enciclopédia].

Daremos ainda alguns exemplos de como cada época fabrica mentalmente a sua representação do passado histórico.

Georges Duby [ 1973] ressuscitou, recriou a batalha de Bouvines (27 de julho de 1214), vitória decisiva do rei da França Filipe Augusto sobre o imperador Otão IV e os seus aliados. Orquestrada pelos historiógrafos franceses e tornada lendária, a batalha, depois do século XIII, caiu no esquecimento; conheceu depois uma ressurreição no século XVII, porque exaltava a recordação da monarquia francesa, sob a Monarquia de Julho, porque os historiadores liberais e burgueses (Guizot, Augustin Thierry) vêem nela uma aliança benéfica entre a realeza e o povo, e entre 1871 e 1914, – como uma primeira vitória dos franceses sobre os alemães"! Depois de 1945, Bouvines cai no desprezo da história-batalha.

Nicole Loraux e Pierre Vidal-Naquet mostraram como na França, de 1750 a 1850, de Montesquieu a Victor Duruy, se monta uma imagem "burguesa" de Atenas antiga,cujas principais pais características teriam sido o "respeito pela propriedade, respeito pela vida privada, expansão do comércio, do trabalho e da indústria" e onde se reencontram as mesmas hesitações da burguesia do século XIX: "República ou Império? Império autoritário? Império liberal? Atenas assume simultaneamente todas estas figurações" [Loraux e Vidal-Naquet, 1979, pp. 207-8, 222]. Entretanto, Zvi Yavetz, interrogando-se sobre as razões pelas quais Roma teria sido o modelo histórico da Alemanha no início do século XIX respondia: "Porque o conflito entre senhores e camponeses prussianos arbitrado depois de Jena (1806) pela intervenção reformista do Estado, sob o controle de estadistas prussianos, fornecia um modelo que se julgava reencontrar na história de Roma antiga: Niebuhr, autor da Rómische Geschichte, aparecida em 1811-12, era íntimo colaborador do ministro prussiano Stein" [1976, pp. 289-90].

Philippe Joutard [ 1977] seguiu a par e passo a memória do levantamento popular dos camisards huguenotes nas Cevenas, no início do século XVIII. Na historiografia escrita apareceu, em 1840, uma viragem. Até então, os historiadores, católicos ou protestantes, só nutriam desprezo por esta revolta de camponeses. Mas com a Histoire des pasteurs du désert de Napoléon Peyrat (1843), Les Prophètes protestants de Ami Bost (1842) e depois com a Histoire de France de Michelet (1833-67), desenvolveu-se a lenda dourada dos "Camisards", à qual se opõe uma lenda católica. Esta oposição alimenta-se explicitamente com as paixões políticas da segunda metade do século XIX, levando ao confronto entre partidários do movimento e defensores da ordem, erigindo estes os "camisards" em antepassados de todas as revoltas do século XIX, pioneiros do "eterno exército da desordem", "os primeiros precursores dos demolidores da Bastilha", os precursores dos "Convnunards" (partidários da Comuna de Paris) e dos "atuais socialistas, os seus descendentes diretos", com os quais "teriam aprendido o direito à pilhagem, ao homicídio e ao incêndio, em nome da liberdade da greve". Entretanto, num outro registro de memória, transmitida pela tradição oral e segregada por uma "outra história", Philippe Joutard encontrou uma lenda positiva e viva dos "Camisards", mas que também funciona em relação ao presente e faz dos revoltosos de 1702 "os laicos e os republicanos" do final do reinado de Luís XIV. Mais tarde, o despertar regionalista transforma-os em rebeldes occitanos e a Resistência, em maquisards.

Foi também em função de posições e idéias contemporâneas que nasceu na Itália, após a Primeira Guerra Mundial, uma polêmica sobre a Idade Média (Falco, Severino). Ainda recentemente, o medievalista Ovidio Capitani evocou a distância e a proximidade da Idade Média, numa recolha de ensaios com um título significativo, Medioevo passato prossimo: "A atualidade da Idade Média é esta: saber que nada pode fazer, exceto procurar Deus lá onde ele não se encontra... A Idade Média é "atual", porque é passado: mas passado enquanto elemento que se ligou à nossa história de maneira definitiva, para sempre, e que obriga a ter em conta, grande complexo de respostas que o homem já deu e das quais não pode esquecer-se, mesmo que tenha verificado a sua inadequação. A única seria abolir a história..." [1979, p. 276].

Dessa forma, a historiografia surge como seqüência de novas leituras do passado, plena de perdas e ressurreições, falhas de memória e revisões. Estas atualizações também podem afetar o vocabulário do historiador, introduzindo-lhe anacronismos conceituais e verbais, que falseiam gravemente a qualidade do seu trabalho. É o que acontece em exemplos relativos à história inglesa e européia entre 1450 e 1650 e, a propósito de termos como "partido", "classe", etc., Hexter reclamou uma grande e rigorosa revisão do vocabulário histórico.

Collingwood viu nesta relação entre passado e presente o objeto privilegiado da reflexão do historiador sobre o seu trabalho: "O passado é um aspecto ou uma função do presente; é sempre assim que ele deve aparecer ao historiador que reflete inteligentemente sobre o seu próprio trabalho ou, dito de outro modo, visa uma filosofia da história" [cf. Debbins, 1965, p. 139].

Esta relação entre presente e passado no discurso sobre a história é sempre um aspecto essencial do problema tradicional da objetividade em história.

1.2 Saber e poder: objetividade e manipulação do passado

Segundo Heidegger, a história seria não só a projeção que o homem faz do presente no passado, mas a projeção da parte mais imaginária do seu presente, a projeção no passado do futuro que ele escolheu, uma história-ficção, uma história-desejo às avessas. Paul Veyne tem razão em condenar este ponto de vista e em dizer que Heidegger "mais não faz do que erigir em filosofia antiintelectualista a historiografia nacionalista do século passado". Mas não revela grande otimismo ao acrescentar: "Entretanto, tal como a ave de Minerva, despertou um pouco tarde demais" [1968, p. 424]?

Em primeiro lugar, porque há pelo menos duas histórias e voltarei a este ponto: a da memória coletiva e a dos historiadores. A primeira é essencialmente mítica, deformada, anacrônica, mas constitui o vivido desta relação nunca acabada entre o presente e o passado. É desejável que a informação histórica, fornecida pelos historiadores de ofício, vulgarizada pela escola (ou pelo menos deveria sê-lo) e os mass media, corrija esta história tradicional falseada. A história deve esclarecer a memória e ajudá-la a retificar os seus erros. Mas estará o historiador imunizado contra uma doença senão do passado, pelo menos do presente e, talvez, uma imagem inconsciente de um futuro sonhado?

Deve estabelecer-se uma primeira distinção entre objetividade e imparcialidade: "A imparcialidade é deliberada, a objetividade inconsciente. O historiador não tem o direito de prosseguir uma demonstração, de defender uma causa, seja ela qual, for, a despeito dos testemunhos. Deve estabelecer e evidenciar a verdade ou o que julga' ser a verdade. Mas é-lhe impossível ser objetivo, abstrair das suas concepções de homem, nomeadamente quando se trata de avaliar a importância dos fatos e as suas relações causais" [Génicot, 1980, p. 112].

É preciso ir mais longe. Se esta distinção bastasse, o problema da objetividade não seria, segundo a expressão de Carr, a "famous crux" que fez correr muita tinta. [Veja-se especialmente Junker e Reisinger, 1974; Leff, 1969; Passmore, 1598; Blake, 1959].

Assinalemos para começar as incidências do meio social sobre as idéias e métodos do historiador. Wolfgang Mommsen destacou três elementos desta pressão social: 1) A imagem que tem de si próprio (self-image) o grupo social que o historiador interpreta, ao qual pertence ou está enfeudado; 2) A sua concepção das causas da mudança social; 3) A perspectiva de mudanças sociais futuras que o historiador julga prováveis ou'possíveis e que orientam'a sua interpretação histórica" [1978, p. 23].

Mas se não podemos evitar todo o "pressentimento" – toda a influência deformante do presente na leitura do passado –, podemos limitar as conseqüências nefastas para a objetividade. Primeiro – e voltarei a este fato capital – porque existe um corpo de especialistas habilitados a examinar e a julgar a produção dos seus colegas –"Tucídides não é um colega", disse judiciosamente Nicole Loraux mostrando que a Guerra do Peloponeso, embora se nos apresente como um documento que dá todas as garantias de seriedade ao discurso histórico, não é um documento no sentido moderno do termo, mas um texto, um texto antigo, que é, antes de mais nada, um discurso e que pertence ao domínio da retórica [Loraux, 1980]. Mostrarei mais tarde – como Nicole Loraux bem sabe – que todo o documento é um monumento ou um texto, e nunca é "puro", isto é, puramente objetivo. Falta referir que desde que há história, há entrada no mundo de profissionais, exposição à crítica dos outros historiadores. Quando um pintor diz do quadro de um outro pintor: "está mal feito", um escritor da obra de um outro escritor: "está mal escrito", ninguém se engana com esse comentário, que significa: "não gosto disso". Mas quando um historiador critica a obra de um "colega" pode certamente enganar-se a si mesmo e uma parte do seu juízo pode ter origem no seu gosto pessoal, mas a sua crítica deverá basear-se, pelo menos em parte, em critérios "científicos". Desde o alvorecer da história que se julga o historiador pela medida da verdade. Com razão ou sem ela, Heródoto passa durante muito tempo por "mentiroso" [Momigliano, 1958; cf. também Hartog, 1980] e Políbio, no livro XII das suas Histórias, ataca sobretudo um confrade, Timeu.

Como disse Wolfgang Mommsen, as obras históricas, os juízos históricos são "intersubjetivamente compreensíveis" e "intersubjetivamente verificáveis". Esta intersubjetividade é constituída pelo juízo dos outros e, em primeiro lugar, dos historiadores. Mommsen indica três modos de verificação: a) Foram as fontes pertinentes utilizadas e o último estágio de investigação foi tomado em consideração? b) Até que ponto estes juízos históricos se aproximaram de uma integração ótima de todos os dados históricos possíveis? c) Os modelos explícitos ou subjacentes de explicação são rigorosos, coerentes e não-contraditórios?" [1978, p. 33]. Poder-se-ia encontrar outros critérios, mas a possibilidade de um largo acordo entre os especialistas sobre o valor de uma grande parte de toda a obra histórica é a primeira prova da "cientificidade" da história e a pedra de toque da objetividade histórica.

No entanto, se quisermos aplicar à história a máxima do grande jornalista liberal, Scott: "os fatos são sagrados, a opinião é livre" [citado em Carr, 1961, p. 4], devemos fazer duas observações. A primeira é que em história o campo de opinião é menos vasto do que o profano julga, se nos mantivermos no campo da história científica (falarei posteriormente da história dos amadores). A segunda é que, em contrapartida, os fatos são por vezes menos sagrados do que se pensa, pois, se fatos bem-estabelecidos não podem ser negados (por exemplo, a morte de Joana d'Arc na fogueira em Rouen em 1431, de que só duvidam os mistificadores e os ignorantes inqualificáveis), o fato não é em história a base essencial de objetividade ao mesmo tempo porque os fatos históricos são fabricados e não dados e porque, em história, a objetividade não é a pura submissão aos fatos.

Sobre a construção do fato histórico encontraremos esclarecimentos em todos os tratados de metodologia histórica [por exemplo, Salmon, 1969, ed. 1976, pp. 46-48; Carr, 1961, pp. 1-24; Topolski, 1973, parte V]. Citarei apenas Lucien Febvre na sua célebre sessão inaugural no Collège de France, a 13 de dezembro de 1933: "Dado? Não, criado pelo historiador e, quantas vezes? Inventado e fabricado, com a ajuda de hipóteses e conjecturas, por um trabalho delicado e apaixonante... Elaborar um fato é construí-lo. Se quisermos, uma questão dá-nos uma resposta. E, se não há questão, não fica mais que o nada" [1933, pp. 7-91. Só há fato ou fato histórico no interior de uma história-problema.

Daremos em seguida dois testemunhos de que a objetividade histórica não é a pura submissão aos fatos: "Toda a tentativa de compreender a realidade (histórica) sem hipóteses subjetivas só conseguiria chegar a um caos de "juízos existenciais" sobre inúmeros acontecimentos isolados" [Max Weber, 1904, 3ª ed., 1958, p. 177]. Carr fala com humor do "fetichismo dos fatos" dos historiadores positivistas do século XIX: "Ranke acreditava piamente que a divina Providência cuidaria do sentido da História, se ele próprio cuidasse dos fatos... A concepção liberal da história do século XIX tinha uma estrita afinidade com a doutrina econômica do laissez faire... Estava-se na idade da inocência e os historiadores passeavam-se no Jardim do Éden... nus e sem vergonha, perante o deus da história. Depois, conhecemos o Pecado e fizemos a experiência da queda e os historiadores que hoje pretendem dispensar uma filosofia da história (tomada aqui no sentido de uma reflexão crítica sobre a prática histórica) tentam simplesmente e em vão, como os membros duma colônia de nudistas, recriar o Jardim do Éden, no seu jardim de arrabalde" [1961, pp. 13-14].

Se a imparcialidade só exige do historiador honestidade, a objetividade supõe mais. Se a memória faz parte do jogo do poder, se autoriza manipulações conscientes ou inconscientes, se obedece aos interesses individuais ou coletivos, a história, como todas as ciências, tem como norma a verdade. Os abusos da história só são um fato do historiador, quando este se torna um partidário, um político ou um lacaio do poder político [Schieder, 1978; Faber, 1978]. Quando Paul Valéry declara: "A história é o ,produto mais perigoso que a química do intelecto elaborou... A história justifica o que se quiser. Não ensina rigorosamente nada, pois tudo contém e de tudo dá exemplos" [1931, pp. 63-64]. Este espírito, aliás tão agudo, confunde a história humana com a história científica e revela a sua ignorância sobre o trabalho histórico.

Embora sendo um pouco otimista, Paul Veyne tem razão ao escrever: "É não compreender nada do conhecimento histórico e da ciência em geral não ver que nela está subentendida uma norma de veracidade... Identificar a história científica com as recordações nacionais de onde ela veio é confundir a essência de uma coisa com a sua origem; é já não distinguir a alquimia da química, a astronomia da astrologia... Desde o primeiro momento... que a história dos historiadores se define contra a função social das recordações históricas e se considera a si mesma como participando de um ideal de verdade e de um interesse de pura curiosidade" [1968, p. 424].

A objetividade histórica – objetivo ambicioso – constrói-se pouco a pouco através de revisões incessantes do trabalho histórico, laboriosas verificações sucessivas e acumulação de verdades parciais. Quem talvez tenha exprimido melhor esta lenta marcha da história para a objetividade foram dois filósofos.

Paul Ricoeur na Histoire et Vérité: "Esperamos da história uma certa objetividade, a objetividade que lhe compete; a maneira como a história nasce e renasce, no-lo demonstra; ela procede sempre pela retificação das sistematizações oficiais e pragmáticas do seu passado, operadas pelas sociedades tradicionais. Esta retificação tem o mesmo espírito que a das ciências físicas no confronto das suas primeiras sistematizações com a aparência da percepção e com as cosmologias que ainda lhe são tributárias [1955, pp. 24-25].

E Adam Schaft: "O nosso conhecimento adquiriu necessariamente a forma de um processo infinito que, aperfeiçoando o saber sobre diversos aspectos da realidade, analisada sob diferentes prismas e acumulando verdades parciais, não produz uma simples soma de conhecimentos, nem modificações puramente quantitativas do saber, mas transformações qualitativas da nossa visão da história" [1970, pp. 338 ss.].

1.3 O singular e o universal: generalizações e singularidades da história

A contradição mais flagrante da história é sem dúvida o fato do seu objeto ser singular, um acontecimento, uma série de acontecimentos, de personagens que só existem uma vez, enquanto que o seu objetivo, como o de todas as ciências, é atingir o universal, o geral, o regular.

Já Aristóteles tinha afastado a história do mundo das ciências, precisamente porque ela se ocupa do particular que não é um objeto da ciência – cada fato histórico só aconteceu e só acontecerá uma vez. Esta singularidade constitui, para muitos, produtores ou consumidores de história, a sua principal atração: "Amar o que nunca se verá duas vezes".

A explicação histórica deve tratar dos objetos "únicos" [Gardiner, 1952, II, 3]. As conseqüências deste reconhecimento da singularidade do fato histórico podem ser reduzidas a três que tiveram um enorme papel na história da história.

A primeira é a primazia do acontecimento. Se pensamos que, de fato, o trabalho histórico consiste em estabelecer acontecimentos, basta aplicar aos documentos um método que deles os faça sair. Assim, Dibble [1963] distinguiu quatro tipos de inferências, que levam dos documentos aos acontecimentos, em função – da natureza dos documentos que possam existir: testemunhos individuais (testimony), fontes coletivas (social bookkeeping), indicadores diretos (direct indicators), correlatos (correlates). Este método excelente só tem o defeito de definir um objetivo contestável. Em primeiro lugar, confunde acontecimento e fato histórico e sabemos hoje que o fim da história não é estabelecer esses dados falsamente "reais" batizados de acontecimentos ou fatos históricos.

A segunda conseqüência da limitação da história ao singular consiste em privilegiar o papel dos indivíduos e, em especial, dos grandes homens. Edward H. Carr mostrou como, na tradição ocidental, esta tendência remonta aos Gregos, que atribuíram as suas mais antigas epopéias e as suas primeiras leis a indivíduos hipotéticos (Homero, Licurgo e Sólon), renovou-se no Renascimento com a voga de Plutarco; Carr reencontra o que chama jocosamente "a teoria da história do "mau rei João" [Sem Terra]" (the bad king John theory of history) na obra de Isaiah Berlin Historical Inevitability (1954) [Carr, 1961]. Esta concepção, que desapareceu praticamente da história científica, infelizmente continua a ser espalhada por vulgarizadores e pelos media, a começar pelos editores. Não confundo esta explicação vulgar da história feita por indivíduos, com o gênero biográfico que – apesar dos seus erros e mediocridades – é um gênero maior da história e produziu obras-primas historiográficas como o Frederico II (Kaiser Friedrich der Zweite) de Ernest Kantorowicz (1927-31). Carr tem razão em lembrar o que Hegel dizia dos grandes homens: "Os indivíduos históricos são os que cumpriram e quiseram, não um objeto imaginado e presumido, mas uma realidade justa e necessária e que a cumpriram porque tiveram a revelação interior do que pertence realmente ao tempo e às necessidades" [Hegel, 1805-31].

De fato, como Michel de Certeau bem disse [19751, a especialidade da história é o particular, mas o particular, como o mostrou Elton [1967], é diferente do individual e o particular especifica quer a atenção, quer a investigação histórica, não enquanto objeto pensado, mas, pelo contrário, porque é o limite do pensável.

A terceira conseqüência abusiva que se extraiu do papel do particular em história consiste em reduzi-la a uma narração, a um conto. Augustin Thierry, como nos recorda Roland Barthes, foi um dos defensores – aparentemente dos mais ingênuos – desta crença nas virtudes do conto histórico: "Disse-se que o objeto da história era contar, não provar; não o sei, mas estou certo de que, em história, o melhor gênero de prova, o mais capaz de tocar e convencer os espíritos, o que inspira menor desconfiança e deixa menos dúvidas, é a narração completa..." [1840, ed. 1851, II, p. 227]. Mas o que significa completa? Passemos por cima do fato de um conto – histórico ou não – ser uma construção e, sob a sua aparência honesta e objetiva, proceder a toda uma série de escolhas não-explícitas. Toda a concepção da história que a identifica com o conto afigura-se-me hoje como inaceitável. Certamente que a sucessividade que constitui o estofo do material histórico obriga a dar ao conto um lugar que me parece fundamentalmente de ordem pedagógica. Corresponde simplesmente à necessidade que há, em história, de expor o como, antes de procurar o porquê, o que coloca o conto na base da lógica do trabalho histórico. O conto não é mais que uma fase preliminar, mesmo tendo exigido um longo trabalho prévio por parte do historiador. Mas este reconhecimento de uma retórica indispensável em história não deve conduzir-nos à negação do caráter científico da história.

Num livro sedutor, Hayden White [1973] estudou a obra dos principais historiadores do século XIX, entendendo-a como uma pura forma retórica, um discurso narrativo em prosa. Para conseguirem explicar, ou melhor, para obterem um "efeito de explicação", os historiadores podem escolher entre três estratégias: explicação por argumento formal, por intriga (emplotment) ou por implicação ideológica. No interior dessas três estratégias há quatro modos possíveis de articulação, para atingir o efeito explicativo: para os argumentos há o formalismo, o organicismo, o mecanicismo e o contextualismo; para as intrigas há o romance, a comédia, a tragédia e a sátira; para a implicação ideológica há o anarquismo, o conservadorismo, o radicalismo e o liberalismo. A combinação específica dos modos de articulação tem como resultado o "style" historiográfico dos autores individuais. Este estilo é atingido por um ato essencialmente poético, no qual Hayden White utiliza as categorias aristotélicas da metáfora, da metonímia, da sinédoque e da ironia. Aplicou esta trama a quatro historiadores: Michelet, Ranke, Tocqueville e Burckhardt e a quatro filósofos da história: Hegel, Marx, Nietzsche e Croce.

O resultado desta investigação é, em primeiro lugar, a constatação que as obras dos principais filósofos da história do século XIX só diferem das dos seus correspondentes no campo da "história propriamente dita", pela ênfase e não pelo conteúdo. Responderei de imediato a esta constatação que Hayden White mais não fez que descobrir a relativa unidade de estilo de uma época e reencontrar o que Taine tinha posto em relevo numa perspectiva ainda mais vasta, relativamente ao século XVII: "Entre uma aléia de Versailles, um raciocínio filosófico de Malebranche, uma regra de verificação de Boileau, uma lei de Colbert sobre as hipotecas, uma máxima de Bossuet sobre o reino de Deus, parece existir uma distância infinita. Os fatos são tão diferentes entre si que à primeira vista os julgamos isolados e separados. Mas os fatos comunicam entre si pela definição dos grupos em que estão integrados" [citado em Ehrard e Palmade, 1964, p. 72].

Segue-se a caracterização dos oito autores escolhidos da seguinte maneira: Michelet é o realismo histórico, entendido como romance; Ranke, o realismo histórico, como comédia; Tocqueville, o realismo histórico, como tragédia; Burckhardt, o realismo histórico, como sátira; Hegel, a poética da história, e da vida para além da ironia; Marx, a defesa filosófica da história em termos metonímicos; Nietzsche, a defesa poética da história em termos metafísicos; e Croce, a defesa filosófica da história em termos irônicos.

As sete conclusões gerais sobre a consciência histórica no século XIX, propostas por Hayden White, podem resumir-se em três idéias: 1) Não existe diferença fundamental entre história e filosofia da história; 2) A escolha das estratégias de explicação histórica é mais de ordem moral ou estética do que epistemológica; 3) A reivindicação duma cientificidade da história não é mais que o disfarce de uma preferência por esta ou aquela modalidade de conceitualização histórica.

E por fim, a conclusão mais geral – mesmo para além da concepção de história no século XIX – é que a obra do historiador é uma forma de atividade simultaneamente poética, científica e filosófica.

Seria demasiado fácil ironizar – sobretudo a partir do esquelético resumo que dei de um livro recheado de sugestivas análises detalhadas – sobre esta concepção de "meta-história", os seus a priori e os seus simplismos.

Vejo aqui duas possibilidades interessantes de reflexão. A primeira é a que contribui para esclarecer a crise do historicismo no fim do século XIX, da qual falarei mais adiante. A segunda é que ele permite pôr – com base num exemplo histórico – o problema das relações entre a história como ciência, como arte e como filosofia.

Parece-me que estas relações se exprimem antes de mais nada historicamente e que, onde Hayden White vê uma espécie de natureza intrínseca, há a situação histórica de uma disciplina; podemos dizer, em resumo, que a história, intimamente misturada até o fim do século XIX com a arte e com a filosofia, se esforça (o que consegue parcialmente) por se tornar mais específica, técnica e científica e menos literária e filosófica.

Devemos no entanto notar que alguns dos maiores historiadores contemporâneos reivindicam ainda para a história o caráter de arte. Para Georges Duby, "a história é acima de tudo uma arte, uma arte essencialmente literária. A história só existe pelo discurso. Para que seja boa, é preciso que o discurso seja bom" [Duby e Lardreau, 1980, p. 50]. Mas, como ele próprio afirma: "A história, se deve existir, não deve ser livre: ela pode muito bem ser um modo do discurso político, mas não deve ser propaganda; pode muito bem ser um gênero literário, mas não deve ser literatura" [ibid., pp. 15-16]. Torna-se pois claro que a obra histórica não é uma obra de arte como as outras, que o discurso histórico tem a sua especificidade.

A questão foi bem posta por Roland Barthes: "A narração dos acontecimentos passados, submetida vulgarmente, na nossa cultura, desde os Gregos, à sanção da "ciência" histórica, colocada sob a caução imperiosa do "real", justificada por princípios de exposição "racional", diferirá esta narração realmente, por algum traço específico, por uma indubitável pertinência, da narração imaginária, tal como a podemos encontrar na epopéia, o romance ou o drama?" [1967, p. 65]. Também Émile Benveniste tinha respondido a esta questão, insistindo na intenção do historiador: "O enunciado histórico dos acontecimentos é independente da sua verdade "objetiva". Só conta o desígnio "histórico" do escritor" [1959, p. 240].

A resposta de Roland Banhes, em termos lingüísticos, é que "na história "objetiva" o "real" não é mais que um significado não-formulado, abrigado à sombra da aparente onipotência do referente. Essa situação define aquilo a que se poderia chamar o efeito do real.... o discurso histórico não segue o real, apenas o significa, sem deixar de repetir aconteceu, sem que esta asserção possa ser mais que o significado inverso de toda a narração histórica" [1967, p. 74]. Barthes acaba o seu estudo esclarecendo a atual decadência da história-conto pela procura de uma maior cientificidade: "Assim se compreende que o esbater (senão o desaparecer) da narração na ciência histórica atual, que procura falar mais de estruturas que de cronologias, mais que uma simples mudança de escola, implica uma verdadeira transformação ideológica: a narração histórica morre porque o signo da história é, daqui em diante, menos o real que o inteligível" [ibid., p. 75].

Sobre uma outra ambigüidade do termo "história" que, na maior parte das línguas designa a ciência histórica e um conto imaginário, a história e uma história (o inglês distingue story e history [cf. Gallie, 1963, pp. 150-72]), Paul Veyne estabeleceu uma visão original da história.

Para ele a história é um conto, uma narração, mas "um conto de acontecimentos verdadeiros" [1971, p. 16]. Ela interessa-se por uma forma particular de singularidade, de individualidade, que é o específico: "A história interessa-se por acontecimentos individualizados dos quais nenhum é a inútil repetição do outro, mas não é a sua individualidade enquanto tal que a interessa: ela procura compreendê-los, isto é, reencontrar neles uma espécie de generalidade ou mais precisamente de especificidade" [ibid., p. 72]. E ainda: "A história é a descrição do que é específico, isto é, compreensível, nos acontecimentos humanos" [ibid., p. 75]. A história assemelha-se então a um romance. É feita de intrigas. Vemos o que esta noção tem de interessante, na medida em que preserva a singularidade sem a fazer cair na desordem, que recusa o determinismo mas implica uma certa lógica, que valoriza o papel do historiador que "constrói" o seu estudo histórico, como um romancista constrói a sua "história". Esta noção tem, aos meus olhos, o defeito de fazer crer que o historiador tem a mesma liberdade que o romancista e que a história não é uma ciência, mas – por muitas precauções que Veyne tome – um gênero literário; enquanto que ela me aparece como uma ciência – o que é banal, mas deve ser dito – que tem ao mesmo tempo o caráter de todas as ciências e caracteres específicos.

Uma primeira precisão. Face aos defensores da história positivista que julgam poder banir toda a imaginação e, até, toda a "idéia" do trabalho histórico, muitos historiadores e teóricos da história reivindicaram e continuam a reivindicar o direito à imaginação.

William Dray definiu a "representação imaginativa" (imaginative re-enactment) do passado como uma forma de explicação racional. A "simpatia" que permite sentir e fazer sentir um fenômeno histórico não seria mais que uma técnica de exposição [Dray, 1957; cf. Beer, 1963]. Gordon Leff opôs a reconstrução imaginativa do historiador ao procedimento do especialista das ciências da natureza: "O historiador, ao contrário do "natural scientist", deve criar o seu próprio quadro para avaliar os acontecimentos de que trata; ele deve fazer uma reconstrução imaginativa do que, por natureza, não era real, mas estava contido em acontecimentos individuais. Deve abstrair do complexo de atitudes, valores, intenções e convenções que faz parte das nossas ações, para lhe apreender a significação" [1969, pp. 117- 18].

Esta apreciação da imaginação do historiador parece-me insuficiente. Há duas espécies de imaginação a que o historiador pode recorrer: a que consiste em animar o que está morto nos documentos e faz parte do trabalho histórico, pois que este mostra e explica as ações dos homens. É desejável encontar esta capacidade de imaginação que torna o passado concreto – tal como Georges Duby desejava encontrar talento literário no historiador. Mas é ainda mais desejável, pois é necessário que o historiador revele essa outra forma de imaginação, a imaginação científica que, pelo contrário, se manifesta pelo poder de abstração. Nada aqui distingue, nem deve distinguir, o historiador dos outros homens de ciência. Ele deve trabalhar nos seus documentos com a mesma imaginação que o matemático nos seus cálculos, ou o físico e o químico nas suas experiências. É uma questão de estado de espírito e resta-nos aqui seguir Huizinga quando declara que a história não é apenas um ramo do saber, mas também "uma forma intelectual para compreender o mundo" [1936].

Em contrapartida, deploro que um espírito tão fino como Raymond Aron, na sua paixão empirista, tenha afirmado que os conceitos do historiador são vagos porque "na medida em que nos ligamos ao concreto eliminamos a generalidade" [1938a, p. 206]. Os conceitos do historiador são, com efeito, não vagos, mas por vezes metafóricos, precisamente porque devem remeter ao mesmo tempo para o concreto e para o abstrato, sendo a história – como as outras ciências humanas ou sociais – uma ciência, não tanto do complexo, como se gosta de dizer, mas do específico, como o diz com razão Paul Veyne.

A história, como todas as ciências, deve generalizar e explicar. Faz isso de modo original. Como diz Gordon Leff, tal como muitos outros, o método de explicação em história é essencialmente dedutivo.

"Não haveria história nem discurso conceitual sem generalização... A compreensão histórica não difere pelos processos mentais que são inerentes a qualquer raciocínio humano, mas pelo seu estatuto que é mais o de um saber dedutivo que demonstrável" [1969, pp. 79-80]. A significação em história tanto se faz tornando inteligível um conjunto de dados inicialmente separados, como através da lógica interna de cada elemento: "A significação em história é essencialmente contextual" [ibid., p. 57].

Finalmente, em história as explicações são mais avaliações do que demonstrações, mas incluem a opinião do historiador em termos racionais, inerentes ao processo intelectual de explicação: "Algumas formas de análise causal são nitidamente indispensáveis para qualquer tentativa de estabelecer relações entre acontecimentos; tal como temos de distinguir entre acaso e necessidade, o historiador tem de decidir se cada situação é regulada por fatores de longo termo ou curto termo. Mas, tal como as suas categorias, esses fatores são conceituais. Não correspondem a entidades empiricamente confirmadas ou infirmadas. E, por isso, as explicações da história são avaliações" [ibid., pp. 97-98].

Os teóricos da história esforçaram-se, ao longo dos séculos, por introduzir grandes princípios suscetíveis de fornecer chaves gerais da evolução histórica. As duas principais noções avançadas foram, por um lado, a do sentido da história e, por outro, a das leis da história.

A noção de um sentido da história pode decompor-se em três tipos de explicação: a crença em grandes m0ovimentos cíclicos, a idéia de um fim da história consistindo na perfeição deste mundo, a teoria de um fim da história situado fora dela [Beglar, 1975]. Podemos considerar que as concepções astecas ou, de certo modo, as de Arnold Toynbee, se integram na primeira opinião, o marxismo na segunda e o cristianismo na terceira.

No interior do Cristianismo estabelece-se uma grande clivagem entre os que, com Santo Agostinho e a ortodoxia católica, baseados na idéia das duas cidades, a terrestre e a celeste, exposta na De civitate Dei, sublinham a ambivalência do tempo da história, presente tanto no caos aparente da história humana (Roma não é eterna e não é o fim da história) como no fluxo escatológico da história divina e os que, com os milenaristas e Joaquim da Fiore, procuram conciliar a segunda e a terceira concepções do sentido da história. A história acabaria uma primeira vez com o aparecimento de uma terceira idade, reino dos santos na terra, antes de acabar com a ressurreição da carne e o juízo final. É esta, no século XIII, a opinião de Joaquim da Fiore e dos seus discípulos que, não só nos faz sair da teoria da história, como também da filosofia da história, para nos fazer entrar na teologia da história. No século XX, a renovação religiosa gerou em alguns pensadores uma recuperação da teologia da história. O russo Berdjaev [1923] profetizou que as contradições da história contemporânea dariam lugar a uma nova criação conjunta do homem e de Deus. O protestantismo do século XX viu defrontarem-se diversas correntes escatológicas: a da "escatologia conseqüente" de Schweizer, a da "escatologia desmitificada" de Baltmann, a da "escatologia realizada" de Dodd, a da "escatologia antecipada" de Cullmann, entre outras (veja-se o artigo "Escatologia", neste volume da Enciclopédia). Retomando a análise de Santo Agostinho, o historiador católico Henri-Irénée Marrou [1968] desenvolveu a idéia da ambigüidade do tempo da história: "O tempo da história está carregado de uma ambigüidade, de uma ambivalência radical: ele é certamente, mas não só, como o imaginava uma doutrina superficial, um "fator de progresso"; a história tem também uma face sinistra e sombria: este acontecimento que se cumpre misteriosamente, traça um caminho através do sofrimento, da morte, e da degradação" [1968].

Sobre a concepção cíclica e a idéia de decadência, já escrevi noutro lado (veja-se o artigo "Decadência", neste volume da Enciclopédia) e exporei mais adiante uma amostragem desta concepção, a filosofia da história de Spengler.

Sobre a idéia do fim da história, consistindo na perfeição deste mundo, a lei mais coerente que foi avançada foi a de progresso (ver artigo "Progresso/reação", neste volume da Enciclopédia. Nesse artigo mostrei o nascimento, triunfo e crítica da noção de progresso; apenas exporei aqui algumas observações sobre o progresso tecnológico) [cf. Gallie, 1963, pp. 191-93]. Gordon Childe, depois de ter afirmado que o trabalho do historiador consistia em encontrar uma ordem no processo da história humana [1953, p. 5] e defendido que não havia leis em história mas uma "seqüência de ordem", tomou como exemplo desta ordem a tecnologia. Para ele, há um progresso tecnológico "desde a Pré-história à Idade do Carvão", que consiste numa seqüência ordenada de acontecimentos históricos. Mas Gordon Childe lembra que, em cada fase, o progresso técnico é um "produto social" e, se procurarmos analisá-lo desse ponto de vista, apercebemo-nos que o que parecia linear é irregular (erratic) e, para explicar estas "irregularidades e estas flutuações", temos de nos voltar para as instituições sociais, econômicas, políticas, jurídicas, teológicas, mágicas, os costumes e as crenças – que agiram como estímulos ou como freios – em resumo, para toda a história na sua complexidade. Mas será legítimo isolar o domínio da tecnologia e considerar que o resto da história não age sobre ele senão do exterior? Não é a tecnologia uma componente de um conjunto mais vasto, cujas partes só existem pela decomposição mais ou menos arbitrária feita pelo historiador?

Este problema foi posto de uma maneira notável por Bertrand Gille [1978, pp. VIII ss.], que dá a noção de sistema técnico, como um conjunto coerente de estruturas compatíveis umas com as outras. Os sistemas técnicos históricos revelam uma ordem técnica. Este "modo de abordar o fenômeno técnico" obriga a um diálogo com os especialistas dos outros sistemas: o economista, o lingüista, o sociólogo, o político, o jurista, o sábio, o filósofo... Desta concepção sai a necessidade de uma periodização, no momento em que os sistemas técnicos se sucedem uns aos outros, sendo o mais importante compreender, senão explicar totalmente, a passagem de um sistema técnico a outro. Assim, põe-se o problema do progresso técnico, no qual Gille distingue "progresso da técnica" e "progresso técnico", iniciando-se este com a entrada das invenções na vida industrial ou cotidiana.

Gille nota ainda que "a dinâmica dos sistemas", assim concebida, dá um novo valor àquilo a que se chama (expressão simultaneamente vaga e ambígua) as "revoluções industriais".

Assim fica posto o problema a que chamarei, mais geralmente de o problema da revolução em história. Ele pôs-se à historiografia quer no domínio cultural (revolução da imprensa [cf. McLuhan, 1962; Eisenstein, 1966], revolução científica [cf. Kuhn, 1957]), quer na historiografia [Fussner, 1962; cf. Nadel, 1963], quer no campo político (Revoluções: Inglesa de 1940, Francesa de 1789, Russa de 1917).

Estes acontecimentos e a própria noção de revolução foram ainda recentemente objeto de vivas controvérsias. Parece-me que a tendência atual consiste por um lado em repor o problema em correlação com a problemática da longa duração [Voyelle, 1978] e, por outro, ver nas controvérsias em tomo "da" revolução ou "das" revoluções um campo privilegiado para os pressupostos ideológicos e as escolhas políticas do presente. "É um dos terrenos mais "sensíveis" de toda a historiografia" [Chartier, 1978, p. 497].

A minha opinião é que não há em história leis comparáveis às que foram descobertas no domínio das ciências da natureza – opinião largamente divulgada hoje com a refutação do historicismo e do marxismo vulgar e a desconfiança perante os filósofos da história. Muito depende, aliás, do sentido que se atribui às palavras. Reconhece-se hoje, por exemplo, que Marx não formulou leis gerais da história mas que apenas conceitualizou o processo histórico, unificando teoria (crítica) e prática (revolucionária) [Lichtheim, 1973]. Runciman disse, com justiça, que a história, tal como a sociologia e a antropologia, é "uma consumidora e não uma produtora de leis" [1970, p. 10].

Mas, face às acusações muitas vezes mais provocatórias que convincentes da irracionalidade da história, a minha convicção é que o trabalho histórico tem por fim tomar inteligível o processo histórico e que esta inteligibilidade conduz ao reconhecimento da regularidade na evolução histórica.

É o que reconhecem os marxistas abertos mesmo se têm tendência para fazer pender o termo 'regularidades' para o termo 'leis' [cf. Topolski, 1973, pp. 275-304].

Estas regularidades devem ser reconhecidas primeiro no interior de cada série estudada pelo historiador, que a toma inteligível descobrindo nela uma lógica, um sistema, termo que prefiro a intriga, pois ele insiste mais no caráter objetivo da operação histórica. Há um provérbio que diz "Comparação não é razão", mas o caráter científico da história reside tanto na valorização das diferenças como das semelhanças, enquanto que as ciências da natureza procuram eliminar as diferenças.

O acaso tem naturalmente um lugar no processo da história e não perturba as regularidades, pois que o acaso é um elemento constitutivo do processo histórico e da sua inteligibilidade.

Montesquieu declarou que "se uma causa particular, como o resultado acidental de uma batalha, conduziu um estado à ruína, é porque existia uma causa geral que fez com que a queda desse estado dependesse duma só batalha"; e Marx escreveu numa carta: "A história universal teria um caráter muito místico se excluísse o acaso. Este acaso, bem entendido, faz parte do processo geral de desenvolvimento e é compensado por outras formas de acaso. Mas a aceleração ou o atraso do processo dependem desses "acidentes", incluindo o caráter "fortuito" dos indivíduos que estão à cabeça do movimento na sua fase inicial" [citado em Carr, 1961, p. 95].

Recentemente, tentou-se avaliar a parte do acaso em certos episódios históricos. Assim, Jorge Basadre [1973] estudou a série de probabilidades na emancipação do Peru. Utilizou os trabalhos de Vendryès [1952] e de Bousquet [1967]. Este último defende que o esforço para matematizar o acaso exclui quer o providencialismo, quer a crença num determinismo universal. Segundo ele, o acaso não participa nem no processo científico, nem na evolução econômica, e manifesta-se como tendência para um equilíbrio que elimina, não o próprio acaso mas as suas conseqüências. As formas de acaso mais "eficazes" em história seriam o acaso meteorológico, o assassinato, o nascimento de gênios.

Esboçada assim a questão das regularidades e da racionalidade em história, resta-me evocar os problemas da unidade e da diversidade, da continuidade e da descontinuidade em história. Como estes problemas estão no âmago da crise atual da história, voltarei a eles no final deste ensaio.

Limitar-me-ei a dizer que, se o objetivo da verdadeira história foi sempre o de ser uma história global ou total – integral, perfeita como diziam os grandes historiadores do fim do século XVI –, a história, à medida que se constitui como corpo de disciplina científica e escolar, deve encarnar-se em categorias que, pragmaticamente, a fracionam. Estas categorias dependem da própria evolução histórica: a primeira parte do século XX viu nascer a história econômica e social, a segunda, a história das mentalidades. Alguns, como Perelman [1969, p. 13], privilegiam a história periodológica, outros, as categorias sistemáticas. Cada uma tem a sua utilidade, a sua necessidade. São instrumentos de trabalho e exposição. Não têm qualquer realidade objetiva, substancial. Por isso, a aspiração dos historiadores à totalidade histórica pode e deve adquirir formas diferentes que, também elas, evoluem com o tempo. O quadro pode ser constituído por uma realidade geográfica ou por um conceito: assim fez Fernand Braudel, primeiro, com o Mediterrâneo no tempo de Filipe II e, depois, com a civilização material e o capitalismo. Jacques Le Goff e Pierre Toubert [1975] procuraram, no quadro da história medieval, mostrar como o objetivo de uma história total parece hoje acessível, de modo pertinente, através de objetos globalizantes, construídos pelo historiador; por exemplo, o incastellamento, a pobreza, a marginalidade, a idéia de trabalho, etc. Não penso que o método das aproximações múltiplas – se não se alimentar de uma ideologia eclética superada – seja prejudicial ao trabalho do historiador. Ele é por vezes mais ou menos imposto pelo estado da documentação, dado que cada tipo de fonte exige um tratamento diferente, no interior de uma problemática de conjunto.