História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 46 de 74

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História e Memória

4. Das outras civilizações

Após o declínio, marcado pela falência da autodeterminação, intervém a desagregação (disintegration) que se

manifesta por duas rupturas: uma cisão no corpo social e outra na alma.

A cisão no corpo social manifesta-se, em primeiro lugar, pelo aparecimento de minorias dominantes como, por

exemplo, os militaristas, tal como Alexandre, "o militarista em todo o seu esplendor", na história helênica, ou os exploradores, como Verre, em Roma. Um sinal ainda mais evidente é o aparecimento de dois proletariados no seio das sociedades históricas: um proletariado interno (como, por exemplo, os ronin japoneses, homens de armas, sem senhor e sem trabalho) e um proletariado externo (como, por exemplo, os bárbaros ao serviço de Roma, no Baixo Império).

Ainda mais grave é a cisão na alma: religiões do isolamento (como, por exemplo, o nirvãna budista), filosofias

do abandono (como a dos seguidores de Rousseau), condutas de deserção (como a trahison des clercs, denunciada por Julien Benda), o espírito de promiscuidade, etc. Tudo isto conduz à uniformidade, que é para Toynbee o último grau da decadência.

 

4. Das outras civilizações

 

Se olharmos para outras civilizações que não a ocidental reencontramos o mesmo "leit-motiv" de decadência,

como autoleitura da história que as sociedades fazem de si próprias.

É provável que este tema se tome mais intenso quando estas sociedades ou civilizações estão sob a influência

dominante de uma religião, pois, como escreveu Leeuw [1956], o homem recebe normalmente da região uma explicação da sua própria "história" em ligação com um tempo original, antes da criação, o princípio (Urzeit), e com um tempo escatológico (Endzeit), depois do fim do mundo. "A descrição do estado original, onde ainda não havia o que conhecemos como existente, é freqüente nos mitos dos diferentes povos e comporta habitualmente o pressuposto de um estado melhor, mais próximo do divino".

Assim, quanto mais se afasta das origens sagradas de uma história peculiar, mais se enfraquece a energia própria

de uma sociedade. No plano das gerações, a tentação – cultivada por ideologias que servem freqüentemente à reprodução dos sistemas dominantes – de ver a história declinar, conduz muitas vezes a uma visão dos "bons velhos tempos", que faz incessantemente renascer a impressão de pequenas decadências no interior de uma deterioração mais ou menos contínua, interrompida, de vez em quando, por períodos-luz, os séculos de Voltaire, os Blütezeiter, freqüentemente dominados por figuras míticas de grandes homens.

Esta ideologia da decadência encontra-se em geral na maior parte dos mitos da origem dos povos. Sebag [1971]

refere que o mito da origem nos índios Pueblo, entre outras lógicas gerais, "descreve o aparecimento de uma realidade originária dada inicialmente de forma sintética".