História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 18 de 74

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História e Memória

1. A oposição passado/presente em psicologia

 

Seria errado transpor os dados da psicologia individual para o campo da psicologia coletiva e, mais ainda, comparar a aquisição do domínio do tempo pela criança com a evolução dos conceitos de tempo através da história. A evocação destes domínios pode, no entanto, fornecer algumas indicações gerais, que esclarecem, metaforicamente, alguns aspectos da oposição passado/presente a nível histórico e coletivo.

Para a criança, "compreender o tempo é libertar-se do presente(...)"; "não só antecipar o futuro, em função de regularidades inconscientemente estabelecidas no passado, mas desenvolver uma sucessão de estádios, nenhum dos quais é semelhante aos outros e cuja conexão só se poderia estabelecer por movimentos cada vez mais próximos, sem fixação nem repouso" [Piaget, 1946].

Compreender o tempo "é essencialmente dar provas de reversibilidade". Nas sociedades, a distinção do presente e do passado (e do futuro) implica essa escalada na memória e essa libertação do presente que pressupõem a educação e, para além disso, a instituição de uma memória coletiva, a par da memória individual. Com efeito, a grande diferença é que a criança – não obstante as pressões do ambiente exterior – forma em grande parte a sua memória pessoal, enquanto que a memória social histórica recebe os seus dados da tradição e do ensino, aproximando-se porém do passado coletivo (cf. o artigo "Memória", neste volume da Enciclopédia) enquanto construção organizada: "Através do jogo desta organização, o nosso horizonte temporal consegue desenvolver-se muito além das dimensões da nossa própria vida. Tratamos os acontecimentos que a história do nosso grupo social nos fornece, tal como tínhamos tratado a nossa própria história. Ambas se confundem: a história da nossa infância e a das nossas primeiras recordações, mas também a das recordações dos nossos pais, e é a partir de umas e outras que se desenvolve esta parte das nossas perspectivas temporais" [Fraisse, 1967, p. 170].

Finalmente – o que não é automaticamente transponível ao domínio da memória coletiva, mas mostra bem que a divisão do tempo pelo homem é um sistema de três direções e não apenas duas –, a criança progride simultaneamente no processo de localização no passado e no futuro [Malrieu, 1953].

A patologia das atitudes individuais em face do tempo mostra que o comportamento "normal" é um equilíbrio entre a consciência do passado, do presente e do futuro, com algum predomínio da polarização para o futuro, temido ou desejado.

A polarização no presente, típica da criança muito pequena, que "reconstitui o próprio passado em função do presente" [Piaget, em Bringuier, 1977, p. 178], do débil mental, do maníaco, do ex-deportado cuja personalidade foi perturbada, encontra-se em geral nos velhos e nos indivíduos que sofrem da mania de perseguição e temem o futuro. O exemplo mais clássico é o de Rousseau, ao recordar nas Confessions que a sua imaginação exaltada, que só lhe fazia prever cruéis futuros, o levava a refugiar-se no presente: "O meu coração, inteiramente mergulhado no presente, não preenche toda a sua capacidade, todo o seu espaço" [1765-76].

A oposição entre orientação para o presente e orientação para o passado serve de base a uma das grandes clivagens da caracteriologia de Heymans e Le Senne, que consideram a primariedade, no primeiro caso, e, no segundo caso, a secundariedade, estruturas do caráter humano [Fraisse, 1967, p. 199].

Em outros doentes, a angústia face ao tempo assume a forma de uma fuga para o futuro, ou de um refúgio no passado. O caso de Marcel Proust é exemplar na literatura.

 

2. Passado/presente à luz da linguística

O estudo das línguas oferece-nos outro testemunho cujo valor reside, por um lado, no fato de a distinção passado/presente (futuro), que tem um caráter natural, nelas desempenhar um papel importante, sobretudo nos verbos, e, por outro lado, no fato de a língua ser um fenômeno duplamente originado na história coletiva: ela evolui – inclusive na própria expressão das relações de tempo através das épocas – e está estritamente ligada à tomada de consciência da identidade nacional no passado. Segundo Michelet, a história da França "começa com a língua francesa".

Primeira constatação: a distinção passado/presente (futuro), embora pareça natural, não é, de fato, universal em lingüística. Ferdinand de Saussure já o notara: "A distinção dos tempos, que nos é familiar, é estranha a certas línguas; o hebreu nem sequer conhece o que existe entre passado, presente e futuro. O protogermânico não tem forma própria para o futuro... As línguas eslavas distinguem regularmente dois aspectos do verbo: o perfeito, que representa a ação na sua totalidade, como um ponto fora de todo o devir, e o imperfeito, que a mostra enquanto se faz e na linha do tempo" [1906, II, p. 162]. A lingüística moderna retoma a constatação: "Parte-se do falso princípio de que a tríplice oposição dos tempos é um traço universal da linguagem" [Lyons, 1968].

Alguns lingüistas insistem na construção do tempo na expressão verbal, que vai muito além dos aspectos verbais e diz respeito ao vocabulário, à frase e ao estilo. Fala-se por vezes de cronogênese [Guillaume, 1929]. Reencontra-se a idéia fundamental do passado e do presente como construção, organização lógica, e não como dado bruto.

Joseph Vendriès insistiu muito nas insuficiências da categoria gramatical do tempo e nas inconseqüências que o uso dos tempos manifesta em todas as línguas. Faz notar que, por exemplo, "é tendência geral da linguagem empregar o presente com a função de futuro ['vou lá' = 'irei lá']... O passado pode também ser expresso pelo presente. Nas narrações usa-se com freqüência o que se designa por presente histórico [e também o futuro histórico: "Em 410 os bárbaros chegarão a Roma"]... Inversamente, o passado pode servir para exprimir o presente [é o caso do aoristo no grego antigo: aoristo gnômico]... Em francês, o condicional passado pode ser usado com sentido de futuro: "Se me tivesse sido confiado este trabalho, depressa o teria acabado" [Vendriès, 1921, ed. 1968, pp. 118-21]. A distinção passado/presente (futuro) é maleável e está sujeita a múltiplas manipulações.

O tempo da narração constitui um local de observação particularmente interessante. Harold Weinrich [1971] sublinhou a importância de se pôr em relevo este ou aquele tempo, na narração. Utilizando um estudo de De Felice [1957] sobre textos da Idade Média, chamou a atenção para l'attaco di racconto, distinguindo, por exemplo, um início em Foi (Houve) de um início em Era (Havia). O passado não é só passado, é também, no seu funcionamento textual, anterior a toda a exegese, portador de valores religiosos, morais, civis, etc... É o passado fabuloso do conto "Era uma vez..." ou "Naquele tempo...", ou o passado sacralizado dos Evangelhos: "In illo tempore...".

André Miquel ao estudar, à luz das idéias de Weinrich, a expressão do tempo num conto de As mil e uma noites, verifica que aí é posto em destaque um tempo do árabe, o mudi, que exprime o passado, o perfeito, o acabado, em relação a um tempo subordinado, o mudari, tempo da concomitância do hábito, que exprime o presente ou o imperfeito.

Pois que o passado é uma autoridade, Miquel [1977] pode servir-se dessa análise para mostrar que este conto tem como função contar aos árabes desapossados uma história de árabes triunfantes, e apresentar-lhes um passado concebido como fonte, fundamento, garantia de eternidade.

A gramática histórica pode também evidenciar a evolução do emprego dos tempos do verbo e das expressões lingüísticas temporais, como elementos reveladores da evolução das atitudes coletivas perante o passado, enquanto fator social ou histórico. Brunot [1905] tinha assinalado que, por exemplo, no francês antigo (século IX-XIII) havia uma grande confusão entre os tempos; de uma certa indistinção entre passado, presente e futuro, dos séculos XI a XIII, assiste-se ao progredir do imperfeito e que, em contrapartida, no francês médio (séculos XIV-XV) existia uma determinação mais nítida da função exata dos tempos. Também Paul Imbs [1956] sublinha que a linguagem, ao longo da Idade Média, pelo menos na França, torna-se cada vez mais clara, cada vez mais diferenciada relativamente à expressão da coincidência, da simultaneidade, da posterioridade, da anterioridade, etc. Refere também diferentes maneiras de conhecer e exprimir a relação passado/presente, variável com as classes sociais; o tempo dos filósofos, teólogos e poetas oscila entre o fascínio do passado e o impulso para a salvação futura – tempo de decadência e de esperança; o tempo do cavaleiro é um tempo de velocidade, mas que facilmente se torna circular, confundindo os tempos; o do camponês é um tempo de regularidade e de paciência, de um passado em que se procura manter o presente; sendo o tempo dos burgueses, como é natural, aquele que, para além de distinguir passado/presente (futuro), se orienta deliberadamente para o futuro.