História e Memória
5. Os desenvolvimentos contemporâneos da memória
O segundo é a fotografia, que revoluciona a memória: multiplica-a e democratiza-a, dá-lhe uma precisão e uma verdade visuais nunca antes atingidas, permitindo assim guardar a memória do tempo e da evolução cronológica.
Pierre Bourdieu e a sua equipe puseram bem em evidência o significado do "álbum de família": "A Galeria de Retratos democratizou-se e cada família tem, na pessoa do seu chefe, o seu retratista. Fotografar as suas crianças é fazer-se historiógrafo da sua infância e preparar-lhes, como um legado, a imagem do que foram... O álbum de família exprime a verdade da recordação social. Nada se parece menos com a busca artística do tempo perdido que estas apresentações comentadas das fotografias de família, ritos de integração a que a família sujeita os seus novos membros. As imagens do passado dispostas em ordem
cronológica, "ordem das estações" da memória social, evocam e transmitem a recordação dos acontecimentos que merecem ser conservados porque o grupo vê um fator de unificação nos monumentos da sua unidade passada ou, o que é equivalente, porque retém do seu passado as confirmações da sua unidade presente. É por isso que não há nada que seja mais decente, que estabeleça mais a confiança e seja mais edificante que um álbum de família: todas as aventuras singulares que a recordação individual encerra na particularidade de um segredo são banidas e o passado comum ou, se se quiser, o menor denominador comum do passado, de nitidez quase coquetista de um monumento funerário freqüentado assiduamente" [1965, pp. 53-54].
Acrescentemos a estas linhas penetrantes uma correção e uma adição. O pai nem sempre é retratista da família: a mãe o é muitas vezes. Devemos ver aí um vestígio da função feminina de conservação da lembrança ou, pelo contrário, uma conquista da memória do grupo pelo feminismo?
Às fotografias tiradas pessoalmente junta-se a compra de postais. Tanto as fotos quanto os postais constituem os novos arquivos familiares, a iconoteca da memória familiar.
5. Os desenvolvimentos contemporâneos da memória
Concentrando-se nos processos de constituição da memória coletiva, Leroi-Gourhan dividiu a sua história em cinco períodos: "o da transmissão oral, o da transmissão escrita com tábuas ou índices, o das fichas simples, o da mecanografia e o da seriação eletrônica" [ 1964-65, p. 65].
Acabamos de verificar o salto realizado pela memória coletiva no século XIX, que a memória em fichas mais não faz que prolongar, tal como a imprensa, fora a conclusão culminante da acumulação da memória desde a Antiguidade. Aliás, Leroi-Gourhan definiu bem os progressos da memória em fichas e os seus limites. "A memória coletiva tomou, no século XIX, um volume tal que se tornou impossível pedir à memória individual que recebesse o conteúdo das bibliotecas... O século XVIII e uma parte importante do XIX viveram ainda sob cadernos de notas e catálogos de obras; entrou-se em seguida na documentação por fichas que realmente apenas se organiza no início do século XX. Na sua forma mais rudimentar corresponde já à constituição de um verdadeiro córtex cerebral exteriorizado, já que um simples fichário bibliográfico se presta, nas mãos do utilizador, a arranjos múltiplos... A imagem do córtex é até certo ponto errada, pois se um fichário é uma memória em sentido estrito, é contudo uma memória sem meios próprios de rememoração e a sua animação requer a introdução no campo operatório, visual e manual, do investigador" [ibid., pp. 72-73].
Mas os desenvolvimentos da memória no século XX, sobretudo depois de 1950, constituem uma verdadeira revolução da memória e a memória eletrônica não é senão um elemento, sem dúvida o mais espetacular.
O aparecimento, no decurso da Segunda Guerra Mundial, das grandes máquinas de calcular, que deve ser introduzido na enorme aceleração da história, e mais particularmente da história técnica e científica a partir de 1860, pode ser recolocado numa longa história da memória automática. Pode-se evocar, a propósito dos computadores, a máquina aritmética inventada por Pascal no século XVII que, em relação ao ábaco, acrescenta à "faculdade de memória" uma "faculdade de cálculo".
A função da memória situa-se da seguinte forma num computador que compreende: a) meios de entrada para os dados e para o programa; b) elementos dados de memória, constituídos por dispositivos magnéticos que conservam as informações introduzidas na máquina e os resultados parciais obtidos no decurso do trabalho; c) meios de cálculo muito rápido; d) meios de controle; e) meios de saída para os resultados.
Distinguem-se as memórias "fatoriais" que registram os dados a tratar e as memórias "gerais" que conservam temporariamente os resultados intermediários e certas constantes [cf. Demarne e Rouquerol, 1959, p. 13]. Encontra-se, em qualquer espécie de computador, a distinção dos psicólogos entre "memória a curto prazo" e "memória a longo prazo".
Em definitivo, a memória é uma das três operações fundamentais realizadas por um computador que pode ser decomposta em "escrita", "memória", "leitura" [cf. ibid., p. 26, fig. 10]. Esta memória pode em certos casos ser "ilimitada".
A esta primeira distinção na duração entre memória humana e memória eletrônica é necessário acrescentar "que a memória humana é particularmente instável e maleável (crítica hoje clássica na psicologia do testemunho judiciário, por exemplo), enquanto que a memória das máquinas se impõe pela sua grande estabilidade, algo semelhante ao tipo de memória que representa o livro, mas combinada, no entanto, com uma facilidade de evocação até então desconhecida" [ibid., p. 76].
É claro que o fabrico de cérebros artificiais, que apenas está no seu começo, conduz à existência de "máquinas que ultrapassam o cérebro humano nas operações remetidas à memória e ao juízo racional" e à constatação de que "o córtex cerebral, por muito admirável que seja, é insuficiente, como a mão ou a vista" [Leroi-Gourhan, 1964-65, p. 75]. No termo (provisório) de um longo processo, do qual tentei esboçar a história, constata-se que "o homem é conduzido progressivamente a exteriorizar faculdades cada vez mais elevadas" [ibid., p. 76]. Mas torna-se necessário constatar que a memória eletrônica só age sob a ordem e segundo o programa do homem, que a memória humana conserva um grande setor não-"informatizável" e que, como todas as outras formas de memória automáticas aparecidas na história, a memória eletrônica não é senão um auxiliar, um servidor da memória e do espírito humano.
Para além dos serviços prestados nos diferentes domínios técnicos e administrativos onde a informática encontra as suas primeiras e principais informações, é necessário aos nossos fins observar duas conseqüências importantes do aparecimento da memória eletrônica.
A primeira é a utilização dos calculadores no domínios das ciências sociais e, em particular, daquela em que a memória constitui, ao mesmo tempo, o material e o objeto: a história. A história viveu uma verdadeira revolução documental – aliás, o computador também aqui não é mais que um elemento e a memória arquivista foi revolucionada pelo aparecimento de um novo tipo de memória: o banco de dados (cf. o artigo "Documento/monumento" neste volume da Enciclopédia).
A segunda conseqüência é o efeito "metafórico" da extensão do conceito de memória e da importância da influência por analogia da memória eletrônica sobre outros tipos de memória.
O mais espantoso destes exemplos é o da biologia. O nosso guia será aqui o prêmio Nobel François Jacob no seu livro La logique du vivant, une histoire de l'hérédité [1970].
Entre os pontos de partida da descoberta da memória biológica, da "memória da hereditariedade", encontra-se o calculador. "Com o desenvolvimento da eletrônica e o aparecimento da cibernética, a organização transforma-se em um objeto de estudo da física e da tecnologia" [1970, p. 267]. Esta impõe-se cedo à biologia molecular, que descobre que "a hereditariedade funciona como a memória de um calculador" [ibid., p. 274].
A investigação da memória biológica remonta pelo menos ao século XVIII. Maupertuis e Buffon entrevêem o problema: "Uma organização constituída por um conjunto de unidades elementares exige, para se reproduzir, a transmissão de uma "memória" de uma geração para outra" [ibid., p. 142]. Para o leibniziano Maupertuis, "a memória que dirige as partículas vivas para formar o embrião não se distingue da memória psíquica" (ibid., p. 92). Para o materialista Buffon, "o molde interior representa uma estrutura escondida, uma "memória" que organiza a matéria de forma a produzir a criança à imagem dos pais (ibid., p. 94). O século XIX descobre que "quaisquer que sejam o nome e a natureza das forças responsáveis pela transmissão da organização de pais para filhos, é agora claro que é na célula que devem ser localizadas" [ibid., p. 142]. Mas na primeira metade do século XIX, "apenas o 'movimento vital' pôde desempenhar o papel de memória e assegurar a fidelidade da reprodução" [ibid., p. 142]. Como Buffon, Claude Bernard ainda "coloca a memória, não nas partículas constituintes do organismo, mas num sistema particular que guia a multiplicação das células, a sua diferenciação, a formação progressiva do organismo", enquanto que Darwin e Haeckel "fazem da memória uma propriedade das partículas constituintes do organismo". Mendel descobre a partir de 1865 a grande lei da hereditariedade. Para explicá-la "é necessário fazer apelo a uma estrutura de ordem mais elevada, mais escondida ainda, mais profundamente encerrada no interior do organismo. É numa estrutura de ordem três que está alojada a memória da hereditariedade" [ibid., p. 226], mas a sua descoberta será por muito tempo ignorada. É necessário esperar pelo século XX e pela genética para descobrir que essa estrutura organizadora está encerrada no núcleo da célula e que "é nela que se aloja a "memória" da hereditariedade" [ibid., p. 198]. Finalmente, a biologia molecular encontra a solução. "A memória da hereditariedade está encerrada na organização de uma macromolécula, na 'mensagem' constituída pela disposição de 'motivos' químicos ao longo de um polímero. Esta organização toma-se a estrutura de ordem quatro que determina a forma de um ser vivo, as suas propriedades, o seu funcionamento" [ibid., p. 269].
Curiosamente, a memória biológica parece-se mais com a ,memória eletrônica que com a memória nervosa, cerebral. Por um lado, ela define-se também por um programa onde se vêem fundir duas noções: "a memória e o projeto" [ibid., p. 10]. Por outro lado, é rígida "pela elasticidade dos seus mecanismos; a memória nervosa presta-se particularmente bem à transmissão dos caracteres adquiridos. Pela sua rigidez, a de hereditariedade opõe-se a tal" [ibid., p. 11]. E mesmo, contrariamente aos computadores, "a mensagem da hereditariedade não permite a mínima intervenção concebida do exterior. Aí, não pode haver mudança do programa, nem sob a ação do homem, nem sob a do meio" [ibid., p. 11].
Para voltar à memória social, as convulsões que se vão conhecer no século XX foram, parece, preparadas pela expansão da memória no campo da filosofia e da literatura. Em 1896 Bergson publica Matière et Mémoire. Considera central a noção de "imagem", na encruzilhada da memória e da percepção. No termo de uma longa análise das deficiências da memória (amnésia da linguagem ou afasia) descobre, sob uma memória superficial, anônima, assimilável ao hábito, uma memória profunda, pessoal, "pura", que não é analisável em termos de "coisas" mas de "progresso". Esta teoria que realça os laços da memória com o espírito, senão com a alma, tem uma grande influência na literatura. Marca o ciclo narrativo de Marcel Proust, À Ia recherche du temps perdu (1913-27). Nasceu uma nova memória romanesca, a recolocar na cadeia "mito-história-romance".
O surrealismo, modelado pelo sonho, é levado a interrogar-se sobre a memória. Em 1822, André Breton anotou nos seus Carnets: "E se a memória mais não fosse que um produto da imaginação?" Para saber mais sobre o sonho, o homem deve poder confiar cada vez mais na memória, normalmente tão frágil e enganadora. Daí a importância no Manifeste du Surréalisme (1924) da teoria da "memória educável", nova metamorfose das Artes memoriae.
Aqui é necessário, certamente, evocar Freud como inspirador, em especial o Freud da Interpretação dos sonhos, onde afirma que "o comportamento da memória durante o sonho é certamente significativo para toda a teoria da memória". A partir do capítulo II, Freud trata da "memória no sonho" onde, retomando uma expressão de Scholz, crê notar que "nada do que possuímos intelectualmente pode ser inteiramente perdido". Mas critica "a idéia de reduzir o fenômeno do sonho ao da rememoração", pois existe uma escolha específica do sonho na memória, uma memória específica do sonho. Esta memória, também aqui, é escolha. Porém, Freud não tem a tentação de tratar a memória como uma coisa, como um vaso reservatório. Mas, ligando o sonho à memória latente e não à memória consciente e insistindo na importância da infância na constituição desta memória, contribui, ao mesmo tempo que Bergson, para aprofundar o domínio da memória e para esclarecer, pelo menos ao nível da memória individual, esta censura da memória, tão importante nas manifestações da memória coletiva.
A memória coletiva sofreu grandes transformações com a constituição das ciências sociais e desempenha um papel importante na interdisciplinaridade que tende a instalar-se entre elas.
A sociologia representou um estímulo para explorar este novo conceito, assim como para o conceito do tempo. Em 1950 .
Maurice Halbwachs publicou o seu livro sobre as memórias coletivas. A psicologia social, na medida em que esta memória está ligada aos comportamentos, às mentalidades, novo objeto da nova história, traz a sua colaboração. A antropologia, na medida em que o termo "memória" lhe oferece um conceito melhor adaptado às realidades das sociedades "selvagens" que esta estuda do que o termo "história", acolheu a noção e explora-a com a história, nomeadamente no seio dessa etno-história ou antropologia histórica que constitui um dos desenvolvimentos recentes mais interessantes da ciência histórica.
Pesquisa, salvamento, exaltação da memória coletiva não mais nos acontecimentos mas ao longo do tempo, busca dessa memória menos nos textos do que nas palavras, nas imagens, nos gestos, nos ritos e nas festas; é uma conversão do olhar histórico. Conversão partilhada pelo grande público, obcecado pelo medo de uma perda de memória, de uma amnésia coletiva, que se exprime desajeitadamente na moda retro, explorada sem vergonha pelos mercadores de memória desde que a memória se tornou um dos objetos da sociedade de consumo que se vendem bem.
Pierre Nora nota que a memória coletiva, definida como "o que fica do passado no vivido dos grupos, ou o que os grupos fazem do passado", pode à primeira vista opor-se quase termo a termo à memória histórica como se opunha antes memória afetiva e memória intelectual. Até os nossos dias "história e memória" confundiram-se praticamente e a história parece ter-se desenvolvido "sobre o modelo da rememoração, da anamnese e da memorização". Os historiadores davam a fórmula das "grandes mitologias coletivas", "ia-se da história à memória coletiva". Mas toda a evolução do mundo contemporâneo, sob a pressão da história imediata em grande parte fabricada ao acaso pelo media, caminha na direção de um mundo acrescido de memórias coletivas e a história estaria, muito mais que antes ou recentemente, sob a pressão dessas memórias coletivas. A história dita "nova", que se esforça por criar uma história científica a partir da memória coletiva, pode ser interpretada como "uma revolução da memória" fazendo-a cumprir uma "rotação" em torno de alguns eixos fundamentais: "Uma problemática abertamente contemporânea... e uma iniciativa decididamente retrospectiva", "a renúncia a uma temporalidade linear" em proveito dos tempos vividos múltiplos "nos níveis em que o individual se enraíza no social e no coletivo" (lingüística, demografia, economia, biologia, cultura). História que fermenta a partir do estudo dos "lugares" da memória coletiva. "Lugares topográficos, como os arquivos, as bibliotecas e os museus; lugares monumentais como os cemitérios ou as arquiteturas; lugares simbólicos como as comemorações, as peregrinações, os aniversários ou os emblemas; lugares funcionais como os manuais, as autobiografias ou as associações: estes memoriais têm a sua história". Mas não podemos esquecer os verdadeiros lugares da história, aqueles onde se deve procurar, não a sua elaboração, não a produção, mas os criadores e os denominadores da memória coletiva: 'Estados, meios sociais e políticos, comunidades de experiências históricas ou de gerações, levadas a constituir os seus arquivos em função dos usos diferentes que fazem da memória".
Certamente que esta nova memória coletiva constitui em parte o seu saber com os instrumentos tradicionais, mas diferentemente concebidos. Compare-se a Enciclopédia Einaudi ou a Enciclopédia Universalis com a venerável Encyclopaedia Britannica! Em definitivo, talvez se encontre melhor na primeira o espírito da Grande Encyclopédie de d'Alembert e Diderot, também ela fruto de um período de recolha e de mutação da memória coletiva.