História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 15 de 74

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História e Memória

8. Ambigüidade da modernidade

Finalmente, a afirmação de modernidade, mesmo que ultrapasse o domínio da cultura, refere-se antes de mais nada a um meio restrito, de intelectuais e tecnocratas. Fenômeno da tomada de consciência de um progresso, por vezes contemporânea da democratização da vida social e política, a modernidade mantém-se no plano da elaboração, de uma elite, de grupos, de capelas. Mesmo quando a modernidade tem tendência, como atualmente, para se integrar na cultura de massas, como esclarece Edgar Morin, os que elaboram esta cultura, na televisão, no cartaz, no desenho, nas histórias em quadrinhos, etc., formam meios restritos de intelectuais. Esta é uma das ambigüidades da modernidade.

 

8. Ambigüidade da modernidade

 

O moderno tende, acima de tudo, a se negar e destruir.

Da Idade Média ao século XVIII um dos argumentos do moderno era o de que os Antigos tinham sido modernos no seu tempo. Fontenelle lembrava que os Latinos tinham sido modernos em relação aos Gregos. Definindo o moderno como um presente, chega-se a fazer dele um futuro passado. Já não se valoriza um conteúdo, mas um continente efêmero.

Por isso, o moderno não está de modo algum associado à moda ("Moda e moderno ligam-se ao tempo e ao instante, misteriosamente ligados ao eterno, imagens móveis da imóvel eternidade" diz Henri Lefebvre, comentando Baudelaire [1962, p. 172]), que, no entanto, dificilmente pode fugir ao esnobismo.

Tende a valorizar o novo pelo novo, esvaziar o conteúdo da obra, do objeto e da idéia. "Uma vez que o único interesse pela arte moderna – escreve Rosenberg [1959, p. 37] – é o de que uma obra seja nova, pois que a sua novidade não é determinada por uma análise, mas pelo poder social e a pedagogia, o pintor de vanguarda exerce a sua atividade num meio totalmente indiferente ao conteúdo da sua obra".

Levando as coisas ao extremo limite, moderno pode significar qualquer coisa e, nomeadamente, antigo. "Todos sabem – escreve ainda Rosenberg – que o rótulo 'arte moderna' já não tem relação nenhuma com as palavras que o formam. Para pertencer à arte moderna, uma obra não precisa ser moderna, nem ser de arte, nem mesmo ser uma obra. Uma máscara do Sul do Pacífico, com três mil anos de idade, responde à definição de moderno e um bocado de madeira encontrado numa praia, transforma-se em arte" [ibid., p. 35].

O moderno adquiriu um ritmo de aceleração desenfreado. Deve ser cada vez mais moderno: daí um vertiginoso turbilhão de modernidade.

Outro paradoxo, ou ambigüidade: o "moderno", à beira do abismo do presente, volta-se para o passado. Se, por um lado, recusa o antigo, tende a refugiar-se na história. Modernidade e moda retro caminham lado a lado. Este período, que se diz e quer totalmente novo, deixa-se obcecar pelo passado: memória, história.

Jeanne Favret mostrou bem, a propósito da política local da Argélia rural, como se pode cair no tradicionalismo "por excesso de modernidade". Nos Kabilas, especificamente, a penetração da revolução industrial destruiu as estruturas tradicionais, mas cem anos depois o tradicionalismo reaparece não para preencher uma das suas antigas funções que já não encontra modo de se exercer, mas como uma nova função requerida à modernização.

As ambigüidades da modernidade jogam principalmente em relação à revolução. Como Henri Lefebvre disse, a modernidade é a "sombra da revolução, o seu dispersar e, por vezes, a sua caricatura". Esta ruptura dos indivíduos e das sociedades com o passado, esta leitura não-revolucionária mas irreverente da história, talvez por estar impregnada de vida cultural e cotidiana constituem também e paradoxalmente um instrumento de adiamento, de mudança e de integração [J. Le G.].