História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 10 de 74

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História e Memória

2. A asbigüidade de antigo: a Antiguidade greco-romana e as outras

Mas o par e o seu jogo dialético é gerado por 'moderno' e a consciência da modernidade nasce do sentimento de ruptura com o passado. Será legítimo que o historiador reconheça como moderno o que as pessoas do passado não sentiram como tal?

De fato, as sociedades históricas, mesmo que não se tenham apercebido da amplitude das mutações que viviam, experimentaram o sentimento de moderno e forjaram o vocabulário da modernidade nas grandes viragens da sua história. A palavra 'moderno' nasceu com a queda do Império Romano no século V; a periodização da história em antiga, medieval e moderna instaura-se no século XVI, cuja "modernidade" foi assinalada por Henri Hauser [1930]; Théophile Gautier e Baudelaire lançam o conceito de modernidade na França do Segundo Império, quando a Revolução Industrial está se impondo; economistas, sociólogos e politólogos definem e discutem a idéia de modernização logo após a Segunda Guerra Mundial, no contexto da descolonização e da emergência do Terceiro Mundo. O estudo do par antigo/moderno passa pela análise de um momento histórico que segrega a idéia de 'modernidade' e, ao mesmo tempo, a cria para denegrir ou exaltar – ou simplesmente, para distinguir e afastar – uma 'antiguidade', pois que tanto se destaca uma modernidade para promovê-la como para vilipendiá-la.

 

2. A asbigüidade de antigo: a Antiguidade greco-romana e as outras

 

Embora o essencial se jogue do lado do 'moderno', o conteúdo histórico adquirido pelo 'antigo' no mundo da cultura ocidental teve muito peso na luta travada pela emergência dos novos valores 'modernos'.

Na verdade, tal como o 'moderno' pode ter o sentido neutro de 'recente', o 'antigo' pode ter o sentido neutro de longínquo ou remeter a outro período que não a Antiguidade grecoromana, ora sublimado ora depreciado.

Assim, a Idade Média e o Renascimento falarão de "antico serpente" em relação ao Diabo e de "madre antica" em relação à Terra, num sentido aparentemente neutro, que apenas remete às origens da humanidade, mas tendo uma carga pejorativa no primeiro caso, pois que a antiguidade do Maligno reforça a sua malignidade e nocividade, enquanto que a da Terra lhe confere, pelo contrário, virtudes mais elevadas.

Para o Cristianismo, o "antigo testamento", a "antiga legge" (onde 'antigo'/a' se opõe a 'novo/a' e não a 'moderno/ a'), explica-se pela anterioridade do Antigo Testamento em relação ao Novo, mas contém uma carga ambivalente. À primeira vista, como a nova lei substitui a antiga e a caridade (caritas 'amor') substituiu a justiça, à qual é superior, a "antiga legge" é inferior à "nuova", mas está imbuída do prestígio da antiguidade e das origens. Os gigantes do Antigo Testamento ultrapassam os homens do Novo, mesmo quando estes não são rebaixados à categoria de anões, como fez no século XII um novo tópos, cuja paternidade Jean de Salisbury atribui a Bernardo, mestre da Escola de Chartres ("nós sumus sicut nanus positus super humeros gigantis" [cf. Klibanski, 1936]) e que no século XIII um vitral da Catedral de Chartres ilustra, colocando os pequenos evangelistas aos ombros de grandes profetas.

Na mesma época em que 'antigo' designa definitivamente a Antiguidade greco-romana e incorpora todos os valores que os homens do Renascimento nela investiram, os humanistas chamam "escrita antiga" à escrita dita carolina, dos séculos X e XI. Salutati, por exemplo, procura manuscritos de Abelardo em "antiga". Assim, no século XVI, segundo Robert Estienne, a expressão à l'antigue é pejorativa em francês, pois se refere à antiguidade "grosseira", isto é, à antiguidade gótica, à Idade Média.

Em geral, a partir do Renascimento, principalmente na Itália, o termo 'antico' remete à uma época remota e exemplar, infelizmente ultrapassada. O Grande dizionario della lingua italiana, no artigo "Antico", dá as seguintes citações de Petrarca, bastante significativas: "Vertú contra furore / prenderá l'arme, e fia '1 combatter corto, / ché 1' antiquo valore / ne l'italici cor non è ancor morto"; de Ariosto "oh! gran bontà de' cavallieri antiqui!"; de Vasari: "È di bellissima architettura in tutte le parti, per avere assai imitato l'antico"; de Leopardi: "Quella dignità che s'ammira in tutte quelle prose che sanno d'antico".

Com efeito, na maior parte das línguas européias, 'antigo' distanciou-se de todos os termos semelhantes que podiam valorizar a antiguidade e, em especial, de 'velho' que, pelo contrário, oscilou para o lado pejorativo. Na França do século XVI, segundo La Curne de Sainte-Palaye, no seu Dictionnaire historique de l'ancien langage françois, estabeleceu-se uma curiosa hierarquia, cifrada entre antique, ancien e vieux: "antique sobrepõe-se a ancien e, este, a vieux: para ser antique era preciso ter mil anos, ancien, duzentos, vieux, mais de cem".

Mais precisamente, o jogo conceitual oculto pela oposição antigo/moderno transformou-se, quando, no Renascimento, 'antigo' passou a designar a Antiguidade greco-romana, uma antiguidade que os humanistas consideram um modelo a imitar. Petrarca, na Apologia contra cuiusdam anonymi Galli calumnias exclama: "Quid est enim aliud omnis historia quam Romana laus?"

O fato de antigo designar um período, uma civilização que não só tem o prestígio do passado, mas também a auréola do Renascimento, de que foi o ídolo e o instrumento, vai conferir um caráter de luta quase sacrílega ao conflito entre antigo e moderno. O combate entre 'antigo' e 'moderno' será menos o combate entre o passado e o presente, a tradição e a novidade do que o contraste entre duas formas de progresso: o do eterno retorno, circular, que põe a Antiguidade nos píncaros e o progresso por evolução retilínea, linear, que privilegia o que se desvia da antiguidade. Foi no antigo que o Renascimento e o Humanismo se apoiaram para fazer a "modernidade" do século XVI, que se erguerá contra as ambições do moderno. Esta idade moderna acabará por se tornar "anti-humanista", dada a quaseidentidade entre humanismo e amor pela única antiguidade válida, a greco-romana. Também o moderno, na sua luta contra o antigo, será levado a aliar-se às outras antiguidades, precisamente aquelas que a Antiguidade greco-romana tinha substituído, destruído ou condenado: os primitivos e os bárbaros.

Mas, enquanto que o 'antigo' triunfa facilmente dos seus vizinhos no campo semântico da antiguidade, o 'moderno' con- tinua, durante muito tempo, presa dos seus concorrentes: a novidade e o progresso.

3. Moderno e os seus concorrentes: Moderno e novidade, moderno e progresso

Se, por um lado, o termo 'moderno' assinala a tomada de consciência de uma ruptura com o passado, por outro, não está carregado de tantos sentidos como os seus semelhantes 'novo' e (o substantivo) 'progresso'.

'Novo' implica um nascimento, um começo que, com o Cristianismo, assume o caráter quase sagrado de batismo. É o Novo Testamento, a Vita Nuova de um Dante, que nasce com o amor. Mais do que uma ruptura com o passado, 'novo' significa um esquecimento, uma ausência de passado. É certo que a palavra pode assumir uma acepção quase pejorativa como, por exemplo, na Roma antiga, no caso dos homines novi, homens sem passado, isto é, nascidos de desconhecidos na hierarquia social, não-nobres, novos-ricos. O latim cristão medieval acentua, em certas expressões, este sentido de uma novidade sacrílega que não se liga aos valores primordiais das origens. Os novos apóstolos, de quem Abelardo, no século XII, fala com desprezo, na Historia Calamitatum, são os eremitas, pregadores itinerantes, clérigos regulares, reformadores da vida monástica, que, aos olhos do intelectual que ele é, cheio de leituras e memórias, nada da mais são que caricaturas selvagens e incultas dos verdadeiros apóstolos, os do passado, das verdadeiras origens. Desde a Antiguidade que o superlativo de novus, novissimus adquiriu o sentido de último, de catastrófico. O Cristianismo elevou este superlativo a um paroxismo de fim do mundo. O tratado sobre os perigos das calamidades do fim dos tempos (De periculus novissimorum temporum) do parisiense Guillaume de Saint-Amour, em meados do século XIII, joga com o duplo sentido de novissimus, que designa, ao mesmo tempo, a atualidade mais recente e o fim do mundo. Mas 'novo' tem, antes de mais nada, o sentido de recém-aparecido, de nascido, de puro.