História e Memória
3. O ano
Se do ponto de vista do calendário, o ano é sobretudo a sucessão das estações, e logo dos trabalhos e das festas (cf. § 8), comporta também quatro aspectos essenciais dos problemas do tempo: 1) o problema do início do ano, isto é, do Ano Novo; 2) o problema do ritmo anual enquanto ritmo orçamental das sociedades modernas; 3) o problema do ano como unidade no cômputo da vida humana; 4) o problema do ano enquanto data, como ponto de referência de fatos históricos.
O ano é a unidade fundamental do calendário. Os calendários-objeto, de que se falará mais tarde (§ 11), são calendários anuais (excluindo os calendários perpétuos).
Nos povos cujos calendários comportam ciclos plurianuais, cada ano é representado por um glifo ou por uma encarnação símbolo. No caso dos Astecas, por exemplo, cujo calendário compreende um ciclo de cinqüenta e dois anos, os anos desenrolavam-se em grupos de quatro, cada um situado num dos pontos cardeais: com efeito, os antigos Mexicanos não separavam nas suas crenças o espaço do tempo. Os pontos cardeais são representados por quatro glifos "portadores de anos": acatl 'vime' para Este, tecpatl 'sílex' para o Norte, calli 'casa' para o Oeste, tochtli 'coelho' para o Sul. Podem observar-se nos calendários circulares tradicionais, como por exemplo os de Veytia da Bibliothèque Nationale de Paris.
Nos calendários de inspiração budista, como na China e no Japão, encontra-se um ciclo zodiacal de doze anos, transposição do ciclo zodiacal de doze meses da antiga Caldéia. Este sistema baseia-se na história segundo a qual Buda convidou, no Ano Novo, os animais para que lhe rendessem homenagem. Em troca, ter-lhes-ia feito dom de um ano que tivesse o seu nome. Apareceram só doze animais, a cada um dos quais foi atribuído um ano por ordem da sua chegada: o rato, o boi (o búfalo), o tigre, o coelho, o dragão, a serpente, o cavalo, a cabra, o macaco, o galo, o cão, o javali (o porco). Ver-se-á que estes anos são personalizados por influências fastas ou nefastas particulares.
Porém, o ano é sobretudo um ciclo completo de morte e de renascimento: se existem festas ligadas ao fim do ano, o grande problema, visto o simbolismo que encerra, é o da data do Ano Novo. Esta data está geralmente ligada ao ciclo vegetal e lunar.
Para os povos africanos da Costa do Marfim, o ano começa no início da grande estação seca (em dezembro para os Gueré, em janeiro para os Baulé), mas para os Alladian começa com a curta estação seca em julho. O ano inicia-se com as cerimônias d'Angbanji, festas da riqueza, e com as festas do inhame, a única planta da região que para produzir precisa do ciclo completo das quatro estações e dá uma única colheita. Para os Baulé, enquanto que o ano profano começa em janeiro, no momento da colheita dos inhames tardios, o ano ritual começa em agosto com a oferta das primícias dos inhames aos Manes dos antepassados e à terra.
Na Grécia antiga, onde na época arcaica parece terem existido duas únicas estações, a quente e a fria, o ano começava geralmente no início da estação quente. Em Atenas, por exemplo, o Ano-Novo tinha lugar na Lua Nova depois do solstício de Verão (fim de junho – princípio de julho), quando os magistrados entravam em funções. Mas em Delos o ano começava depois do solstício de Inverno e em Delfos depois do equinócio de Outono.
Em Roma, até 153 a.C., o ano começava a 1 de março e era festejado por ocasião do primeiro plenilúnio seguinte sob a proteção da deusa Anna Perenna. Em 153, o início do ano foi fixado em 1 de janeiro, data de entrada em função dos cônsules.
O cristianismo manteve o calendário juliano, mas deslocou o início do ano, dando lugar à maior anarquia. Enquanto os Bizantinos faziam começar o ano a 1 de setembro, os Latinos adotaram variados estilos ligados a festas religiosas. O estilo da Circuncisão (1° de janeiro; prosseguimento cristianizado do calendário juliano) foi conservado apenas na Espanha. O 1º de março, início do ano religioso romano, conservou-se aqui e ali e em particular foi adotado pelos Venezianos. O estilo da Encarnação (25 de março) foi usado sobretudo no sul da França, na Alemanha, na Inglaterra, enquanto os Florentinos lhe permaneceram fiéis durante toda a Idade Média. O estilo da Natividade (25 de dezembro), muito em uso na Alta Idade Média, conservou-se na Espanha juntamente com o estilo da Circuncisão e foi adotado pelos papas de Avignon no século XIV. A maior complicação veio da adoção, no século XII, por grande parte da cristandade (e em especial pela França) do estilo pascal, que fazia começar o ano com uma festa móvel.
Esta anarquia do calendário é muito típica da igreja medieval: vontade de fazer desaparecer os costumes pagãos, impotência para dominar os particularismos regionais e locais, desejo de impor as grandes festas cristãs como ponto de referência ou, melhor, como ponto de partida.
Foi necessária a reforma de Gregário XIII em 1582 para que, pouco a pouco, a velha cristandade medieval adotasse a data de 1° de janeiro como início do ano. Certos países precederam todavia à reforma gregoriana: assim, na França, um édito de Carlos IX de 1564 – que entrou em vigor no ano de 1567 – tornou obrigatória a adoção do 1° de janeiro como início do ano.
O mais espantoso é que durante toda a Idade Média o 1° de janeiro continuou a ser festejado pelo povo como o início do ano e os negociantes adotaram-no muitas vezes como ponto de partida da sua contabilidade anual. Um bom exemplo – a que voltaremos – da coexistência não só de um calendário civil e de um calendário religioso, mas muitas vezes também – e talvez sobretudo – de um calendário oficial (e culto) e de um popular. Assim, no Ocidente medieval perpetuou-se o uso, derivado em particular da Antiguidade romana e dos ritos tradicionais camponeses, dos presentes, dos cantos, dos carnavais do Ano-Novo, ritos de passagem e de renovação [cf. Muller, 1881].
Às vezes o Ano Velho, manequim queimado, enterrado, afogado ou enforcado, ou um rapaz vestido de velha, acompanhado por um cortejo zombeteiro (como a Vecchia di Natali na Sicília), encarnava a morte do passado no limiar da renovação.
Na China, a datação do Ano-Novo foi sempre um elemento essencial das reformas do calendário e um sinal do poder do imperador. As Memórias históricas de Ssuma Ch'ien (século HI a.C.) dizem de T'ang, o Vitorioso, fundador dos Yin: "Ele mudou o mês inicial e o primeiro dia". O imperador Wu, de que se viu a importância pela reforma do calendário, teve a sua apoteose em 113 a.C., ano em que o solstício de Inverno coincidiu com o primeiro dia do mês. Celebrou o sacrifício Kiao, houve uma luminosidade maravilhosa durante a noite e, no alvorecer do primeiro dia do mês, uma nuvem amarela subiu até o céu. O assistente do imperador proclamou: "O primeiro do mês tornou a ser o primeiro do mês! A série esgotou-se! Ela recomeça".
Por ocasião da coroação de um novo faraó no antigo Egito, uma maldição ritual comparava os eventuais inimigos do rei a Apófis, a serpente das trevas que o deus Rã destruiu de madrugada: "Eles serão parecidos com a serpente Apófis na manhã do Ano-Novo". Frankfort [1948, p. 150] comenta assim esta fórmula: "A precisão "na manhã do Ano-Novo" explica-se apenas no sentido de uma intensificação: a serpente é destruída todos os nascer do Sol, mas o Ano-Novo celebra a criação, a renovação noturna assim como a abertura do novo ciclo anual". Mircea Eliade acrescenta [1963, p. 56]: "Vê-se através de que mecanismo o cenário cosmogônico do Ano-Novo pode ser integrado na consagração de um rei; os dois sistemas rituais almejam ao mesmo fim: a renovação cósmica".
Veremos agora mais rapidamente os outros três aspectos importantes do ano.
A tendência para um ano estável e profano, sempre que existia um calendário ritual, explica-se em grande parte por motivos de governo, de gestão, separados dos ritmos naturais e agrícolas. Viu-se a importância do início do ano na antiga Grécia e em Roma, para a entrada em funções dos magistrados e a sua duração. Viu-se como o governo turco teve de adotar o calendário juliano-gregoriano face ao problema do pagamento dos funcionários e da cobrança dos impostos. Além disso, nas sociedades contemporâneas, o ano torna-se cada vez mais o quadro de referência das finanças e do fisco: o ano financeiro e o fiscal cadenciam a vida das nações ditas evoluídas. Viram-se parlamentares parar o relógio no último minuto de um ano para votar de maneira fictícia o orçamento do ano seguinte antes do seu começo. Nasce um novo ritual burocrático do calendário, mas neste processo de racionalização burocrática há sobrevivências e defasagens. Nos Estados Unidos, o orçamento entra em vigor a partir de 1 de julho. Nos países em que as universidades são "autônomas", como na França, as autoridades acadêmicas têm de conciliar um orçamento nacional enquadrado no ano civil com um orçamento universitário inserido no ano universitário, que normalmente começa por volta de 1 de outubro.