História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 65 de 74

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História e Memória

7. O dia e a noite

A semana é testemunhada no Antigo Testamento pelos sete dias da Criação na Gênese. Dos Hebreus passou para a Grécia e para Alexandria, mas só se difundiu no Ocidente depois do século III d.C. Da Ásia Central a semana penetrou no Extremo Oriente, na China e depois no Japão, na época dos T'ang (século VII-IX d.C.).

A grande virtude da semana é introduzir no calendário uma interrupção regular do trabalho e da vida cotidiana, um período fixo de repouso e tempo livre. A sua periodicidade pareceu adaptar-se muito bem ao ritmo biológico dos indivíduos e também às necessidades econômicas das sociedades.

O dia de repouso, que ainda hoje tem a marca das prescrições religiosas que legitimaram a sua instauração, no entanto põe alguns problemas (interdição de trabalhar, proibição de desenvolver certas atividades, não-coincidência do dia de repouso nas grandes religiões). Os Hebreus tinham estabelecido o sábado como dia de repouso e mantiveram este repouso do shabbãt, que vai desde o pôr-do-sol de sexta-feira até o dia seguinte. Os cristãos escolheram o domingo para dia de repouso, dia da ressurreição de Cristo. Os muçulmanos anteciparam-no para sexta-feira, e começa ao pôr-do-sol de quinta-feira.

Nas sociedades urbanizadas contemporâneas o dia de repouso tende a transformar-se num fim-de-semana de dois dias, o sábado e o domingo: o week-end inaugurado pelos Ingleses, primeira nação industrializada. Este corresponde hoje a um fenômeno sócio-econômico típico dos países desenvolvidos: a segunda casa das famílias abastadas que vivem na cidade.

A semana tornou-se a articulação mais importante do calendário, divisão artificial que se insere facilmente nos anos e nos meses do calendário tradicional. Um astrônomo contemporâneo, membro de uma comissão de reforma do calendário atual, declarou ter descoberto durante os trabalhos desta comissão a utilidade de uma ligação contínua nos problemas de cronologia: esta ligação é feita pela semana.

 

7. O dia e a noite

 

O sistema do calendário é constituído essencialmente pelo conjunto dia (de vinte e quatro horas no nosso sistema atual)/semana/mês/ano. A organização do tempo que compõe o dia não é o objeto deste artigo. O dia interessa-nos aqui enquanto célula mínima do tempo do calendário, Jano com duas faces: uma diurna e uma noturna, a que o calendário dá pouco relevo.

Enquanto unidade mínima do calendário, evidente pela experiência de cada um, o dia é um elemento facilmente manipulável. Por esta razão, foi mais sobre ele, do que sobre os anos e sobre os meses, que se exerceu a manipulação religiosa do fasto e do nefasto. Nos Celtas, por exemplo, cujos sacerdotes tinham essencialmente a função de estabelecer e controlar o calendário, os druidas, como o irlandês Cathba, ensinavam aos discípulos as técnicas para determinar os dias fastos e nefastos. Um calendário romano pré-juliano gravado em pedra, encontrado em Anzio, indica 109 dias nefastos, 235 fastos e 11 mistos. Se o direito sobre o ano pertencia sobretudo aos reis, o direito sobre o dia pertencia sobretudo aos sacerdotes. Em Roma, por exemplo, os áugures podiam adiar "para um outro dia" a consulta dos presságios, de que dependiam as decisões públicas mais importantes.

O conceito de dia, por mais evidente que seja, é sempre complexo. Os povos Abure da Costa do Marfim têm, por exemplo, cinco termos para a palavra "dia": ayen, o dia de vinte e quatro horas; oyewe, para designar o dia aliado à noite; alyen, para indicar o dia em oposição à noite; étin, para falar de uma data ou de um aniversário; alié, finalmente, para indicar a luminosidade diurna. Para os Baulé, os dias nefastos, em que não se pode trabalhar, não têm o mesmo nome (dia negro ou mau) dos dias fastos, em que se pode tocar na terra (dia belo ou gracioso).

A outra ambigüidade do dia é a de conter uma parte de luz e uma parte de sombra. Para os Astecas, como se pode ver no Codex Borbonicus, cada dia tem um número de ordem, um glifo e duas divindades cotidianas, uma diurna e outra noturna, acompanhadas por dois pássaros. Para certos povos africanos, a noite é como se fosse excluída, afastada do dia. Para os Baulé, o dia começa ao amanhecer e acaba ao crepúsculo. A criança que tiver nascido depois do pôr-do-sol será chamada segundo o nome do dia seguinte. Para os Kulango a palavra 'dia', bireko, significa também 'Sol' e é absolutamente oposta a dérégé 'noite'.