História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 53 de 74

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História e Memória

2. O desenvolvimento da memória: da oralidade à escrita, da Pré-história à Antiguidade

Nestas sociedades sem escrita há especialistas da memória, homens-memória: "genealogistas", guardiões dos códices reais, historiadores da corte, "tradicionalistas", dos quais Balandier [1974, p. 207] diz que são "a memória da sociedade" e que são simultaneamente os depositários da história "objetiva" e da história "ideológica", para retomar o vocabulário de Nadel. Mas também "chefes de família idosos, bardos, sacerdotes", segundo a lista de Leroi-Gourhan que reconhece a esses personagens "na humanidade tradicional, o importantíssimo papel de manter a coesão do grupo" [1964-65, p. 66].

Mas é necessário sublinhar que, contrariamente ao que em geral se crê, a memória transmitida pela aprendizagem nas sociedades sem escrita não é uma memória "palavra por palavra". Goody provou-o estudando o mito do Bagre recolhido entre os LoDagaa do norte do Gana. Observou as numerosas variantes nas diversas versões do mito, mesmo nos fragmentos mais estereotipados. Os homens-memória, na ocorrência narradores, não

desempenham o mesmo papel que os mestres-escolas (e a escola não aparece senão com a escrita). Não se desenvolve em torno deles uma aprendizagem mecânica automática. Mas, segundo Goody, nas sociedades sem escrita não há unicamente dificuldades objetivas na memorização integral, palavra por palavra, mas também o fato de que "este gênero de atividade raramente é sentido como necessário"; "o produto de uma rememoração exata" aparece nestas sociedades como "menos útil, menos apreciável que o fruto de uma evocação inexata" [1977a, p. 38]. Assim, constata-se raramente a existência de procedimentos mnemotécnicos nestas sociedades (um dos casos raros é o quipo peruano, clássico na literatura etnológica). A memória coletiva parece, portanto, funcionar nestas sociedades segundo uma "reconstrução generativa" e não segundo uma memorização mecânica. Assim, segundo Goody, "o suporte da rememorização não se situa ao nível superficial em que opera a memória da "palavra por palavra", nem ao nível das estruturas "profundas" que numerosos mitólogos encontram... Parece pelo contrário que o papel importante cabe à dimensão narrativa e a outras estruturas da história cronológica dos acontecimentos" ("événementielles") [ibid., p. 34].

Assim, enquanto que a reprodução mnemônica palavra por f palavra estaria ligada à escrita, as sociedades sem escrita, excetuando certas práticas de memorização ne varietur, das quais a principal é o canto, atribuem à memória mais liberdade e mais possibilidades criativas.

Talvez esta hipótese explicasse uma notação surpreendente de César no De Bello Gallico. A propósito dos druidas gauleses junto dos quais muitos jovens vêm instruir-se, César escreve: "Aí, aprendem de cor, segundo o que se diz, um grande número de versos. Por isso, alguns permanecem vinte anos nessa aprendizagem. Não crêem porém lícito transcrever os dogmas da sua ciência, enquanto que para as restantes coisas em geral, para as normas públicas e privadas, se servem do alfabeto grego. Parece-me que estabeleceram este uso por duas razões: porque não querem nem divulgar a sua doutrina nem ver os seus alunos negligenciar, a memória confiando na escrita; porque acontece quase sempre que a ajuda dos textos tem por conseqüência um menor zelo em aprender de cor e uma diminuição da memória" [De Bello Gallico, VI, 14, 3-4].

Transmissão de conhecimentos considerados como secretos, vontade de manter em boa forma uma memória mais criadora que repetitiva; não estarão aqui duas das principais razões da vitalidade da memória coletiva nas sociedades sem escrita?

 

2. O desenvolvimento da memória: da oralidade à escrita, da Pré-história à Antiguidade

 

Nas sociedades sem escrita a memória coletiva parece ordenar-se em torno de três grandes interesses: a idade coletiva do grupo que se funda em certos mitos, mais precisamente nos mitos de origem, o prestígio das famílias dominantes que se exprime pelas genealogias, e o saber técnico que se transmite por fórmulas práticas fortemente ligadas à magia religiosa.

O aparecimento da escrita está ligado a uma profunda transformação da memória coletiva. Desde a "Idade Média ao Paleolítico" aparecem figuras onde se propôs ver "mitogramas" paralelos à "mitologia" que se desenvolve na ordem verbal. A escrita permite à memória coletiva um duplo progresso, o desenvolvimento de duas formas de memória. A primeira é a comemoração, a celebração através de um monumento comemorativo de um acontecimento memorável. A memória assume então a forma de inscrição e suscitou na época moderna uma ciência auxiliar da história, a epigrafia. Certamente que o mundo das inscrições é muito diverso. Robert sublinhou a sua heterogeneidade: "São coisas muito diferentes entre si a runa, a epigrafia turca do Orkhon, as epigrafias fenícia ou neopúnica ou hebraica ou sabeana ou iraniana, ou a epigrafia árabe ou as inscrições khmer" [1961, p. 453].

No Oriente antigo, por exemplo, as inscrições comemorativas deram lugar à multiplicação de monumentos como as estetas e os obeliscos. Na Mesopotâmia predominaram as estelas onde os reis quiseram imortalizar os seus feitos através de representações figuradas, acompanhadas de uma inscrição, desde o III milênio, como o atesta a estela dos Abutres (Paris, Museu do Louvre) onde o rei Eannatum de Lagash (cerva de 2470) fez conservar através de imagens e de inscrições a lembrança de uma vitória. Foram sobretudo os reis acádios que recorreram a esta forma comemorativa. A mais célebre das suas estelas é a de Narãm-Sin, em Susa, onde o rei quis que fosse perpetuada a imagem de um triunfo obtido sobre os povos do Zagros (Paris, Museu do Louvre). Na época assíria, a estela tomou a forma de obelisco, tais como o de Assurbelkala (final do H milênio) em Nínive (Londres, British Museum) e o obelisco negro de Salmanassar III, proveniente de Nimrird, que imortaliza uma vitória do rei no país de Nousri (cerca de 892; Londres, British Museum). Por vezes o monumento comemorativo não possui inscrições e o seu significado permanece obscuro como no caso dos obeliscos de Biblos (início do II milênio) [cf. Deshayes, 1969, pp. 587 e 613; Búdge e King, 1902; Luckenbill, 1924; Ebeling, Meissner e Weidner, 1926]. No Egito antigo, as estelas desempenharam múltiplas funções de perpetuação de uma memória: estelas funerárias comemorando, como em Abidos, uma peregrinação a um túmulo familiar; narrando a vida do morto, como a de Amenemhet sob Tutmosi III; estelas reais comemorando vitórias como a de Israel sob Mineptah (cerca de 1230), único documento egípcio que menciona Israel, provavelmente no momento do êxodo; estelas jurídicas, como as de Karnak (recorde-se que a mais célebre destas estelas jurídicas da Antiguidade é a de Hammurabi, rei da 1á dinastia da Babilônia, entre 1792 e 1750 a.C., que nela fez inscrever o seu código, conservada no Museu do Louvre, em Paris); estelas sacerdotais onde os sacerdotes faziam inscrever os seus privilégios [cf. Daumas, 1965, p. 639]. Mas a época áurea das inscrições foi a da Grécia e a da Roma antigas, a propósito das quais Robert disse: "Poder-se-ia falar para os países gregos e romanos de uma civilização da epigrafia" [1961, p. 454]. Nos templos, cemitérios, praças e avenidas das cidades, ao longo das estradas até "o mais profundo da montanha, na grande solidão", as inscrições acumulavam-se e obrigavam o mundo greco-romano a um esforço extraordinário de comemoração e de perpetuação da lembrança. A pedra e o mármore serviam na maioria das vezes de suporte a uma sobrecarga de memória. Os "arquivos de pedra" acrescentavam à função de arquivos propriamente ditos um caráter de publicidade insistente, apostando na ostentação e na durabilidade dessa memória lapidar e marmórea.

A outra forma de memória ligada à escrita é o documento escrito num suporte especialmente destinado à escrita (depois de tentativas sobre osso, estofo, pele, como na Rússia antiga; folhas de palmeira, como na índia; carapaça de tartaruga, como na China; e finalmente papiro, pergaminho e papel). Mas importa salientar que (cf. o artigo "Documento/monumento", neste volume da Enciclopédia) todo documento tem em si um caráter de monumento e não existe memória coletiva bruta.

Neste tipo de documento a escrita tem duas funções principais: "Uma é o armazenamento de informações, que permite comunicar através do tempo e do espaço, e fornece ao homem um processo de marcação, memorização e registro"; a outra, "ao assegurar a passagem da esfera auditiva à visual", permite "reexaminar, reordenar, retificar frases e até palavras isoladas" [Goody, 1977b, p. 78].

Para Leroi-Gourhan, a evolução da memória, ligada ao aparecimento e à difusão da escrita, depende essencialmente da evolução social e especialmente do desenvolvimento urbano: "A memória coletiva, no início da escrita, não deve romper o seu movimento tradicional a não ser pelo interesse que tem em se fixar de modo excepcional num sistema social nascente. Não é pois pura coincidência o fato de a escrita anotar o que não se fabrica nem se vive cotidianamente, mas sim o que constitui a ossatura duma sociedade urbanizada, para a qual o nó do sistema vegetativo está numa economia de circulação entre produtos, celestes e humanos, e dirigentes. A inovação diz respeito ao vértice do sistema e engloba seletivamente os atos financeiros e religiosos, as dedicatórias, as genealogias, o calendário, tudo o que nas novas estruturas das cidades não é fixável na memória de modo completo, nem em cadeias de gestos, nem em produtos" [1964-65, pp. 67-8].

As grandes civilizações, na Mesopotâmia, no Egito, na China e na América pré-colombiana, civilizaram em primeiro lugar a memória escrita no calendário e nas distâncias. "A soma dos fatos que devem ultrapassar as gerações imediatamente seguintes" limita-se à religião, à história e à geografia. "O triplo problema do tempo, do espaço e do homem constitui a matéria memorável" [ibid.].

Memória urbana, memória real também. Não só "a cidade capital se torna o eixo do mundo celeste e da superfície humanizada" [ibid.] (e o ponto focal de uma política da memória), mas o rei em pessoa desdobra um programa de memoração, de que ele constitui o centro, sobre toda a extensão na qual tem autoridade.

Os 'reis criam instituições-memória: arquivos, bibliotecas, museus. Zimrilim (cerca de 1782-59 a.C) faz do seu palácio de Mari, onde foram encontradas numerosas tabuletas, um centro arquivístico. Em Rãs Shamra, na Síria, as escavações do edifício dos arquivos reais de Ougarit permitiram encontrar três depósitos de arquivos no palácio: arquivos diplomáticos, financeiros e administrativos. Nesse mesmo palácio havia uma biblioteca no II milênio antes da nossa %ra e no século VII a.C. era célebre a biblioteca de Assurbanipal em Nínive. Na época helenística brilham a grande biblioteca de Pergamo e a célebre biblioteca de Alexandria, combinada com o famoso museu, criação dos Ptolomeu.

Memória real, pois os reis fazem compor e, por vezes, gravar na pedra anais (ou pelo menos extratos deles) onde estão sobretudo narrados os seus feitos – e que nos levam à fronteira onde a memória se torna "história".

No Oriente antigo, antes de meados do II milênio, não há senão listas dinásticas e narrações lendárias de heróis reais como Sargon ou Narãm-Sin. Mais tarde os soberanos fazem redigir pelos seus escribas relatos mais detalhados dos seus reinados onde emergem vitórias militares, benefícios da sua justiça e progressos do direito, os três domínios dignos de fornecer exemplos memoráveis aos homens do futuro. No Egito, parece, desde a invenção da escrita (um pouco antes do início do III milênio) e até o fim da realeza indígena na época romana, anais reais foram redigidos continuamente. Mas o exemplar único, conservado em frágil papiro desapareceu. Só nos restam alguns extratos gravados na pedra [cf. Daumas, 1965, p. 579].

Na China, os antigos anais reais em bambu datam, sem dúvida, do século IX antes da nossa era, comportando sobretudo perguntas e respostas dos oráculos que formaram um "vasto repertório de receitas de governo" e "a qualidade de arquivista acabou pouco a pouco por vir a pertencer aos adivinhos: eles eram os guardiões dos acontecimentos memoráveis próprios de cada reinado" [Elisseeff, 1979, p. 50].

Memória funerária, enfim, como o testemunham, entre outras, as estelas gregas e os sarcófagos romanos; memória que desempenhou um papel central na evolução do retrato.

Com a passagem da oralidade à escrita, a memória coletiva e mais particularmente a "memória artificial" é profundamente transformada. Goody pensa que o aparecimento de processos mnemotécnicos, permitindo a memorização "palavra por palavra", está ligado à escrita. Mas entende que a existência de escrita "implica também modificações no próprio interior do psiquismo" e "que não se trata simplesmente de um novo saber-fazer técnico, de qualquer coisa comparável, por exemplo, a um processo mnemotécnico, mas de uma nova aptidão intelectual [1977b, pp. 108-9]. No coração desta nova atividade do espírito, Goody coloca a lista, a sucessão de palavras, de conceitos, de gestos, de operações a efetuar numa certa ordem e que permite "descontextualizar" e "recontextualizar" um dado verbal, segundo uma "recodificação lingüística". Em apoio a esta tese, lembra a importância, nas civilizações antigas, das listas lexicais, dos glossários, dos tratados de onomástica assentando na idéia de que nomear é conhecer. Sublinha o alcance das listas sumérias ditas Proto-lzi, e vê nelas um dos instrumentos da irradiação mesopotâmica: "Este gênero de método educacional baseando-se na memorização de listas lexicais teve uma área de extensão que ultrapassava largamente a Mesopotâmia e desempenhou um papel importante na difusão da cultura mesopotâmica e na influência que ela exerceu nas zonas limítrofes: Irã, Armênia, Asia Menor, Síria, Palestina e mesmo o Egito na época do Novo Império" [ibid., p. 99].

Acrescentemos que este modelo deve ser precisado de acordo com o tipo de sociedade e o momento histórico em que se faz a passagem de um tipo de memória para outro. Não se pode aplicar sem especificações à passagem do oral para o escrito nas sociedades antigas, às sociedades "selvagens" modernas ou contemporâneas, ou às sociedades muçulmanas. Eickelmann [1978] mostrou que no mundo muçulmano permanece um tipo de memória fundado na memorização de uma cultura ao mesmo tempo oral e escrita até cerca de 1430; depois muda e faz lembrar os laços fundamentais entre escola e memória em todas as sociedades.

Os mais antigos tratados egípcios de onomástica, talvez inspirados por modelos sumérios, não datam senão de cerca de 1100 a.C. [cf. Gardiner, 1947, p. 38].

Deve-se com efeito perguntar a que está por seu turno ligada esta transformação da atividade intelectual revelada pela "memória artificial" escrita. Pensou-se na necessidade de memorização dos valores numéricos (entalhes regulares, cordas com nós, etc.) como também numa ligação com o desenvolvimento mento do comércio. É necessário ir mais longe e relacionar esta expansão das listas com a instalação do poder monárquico. A memorização pelo inventário, pela lista hierarquizada não é unicamente uma atividade nova de organização do saber, mas um aspecto da organização de um poder novo.

É também ao período da realeza que é preciso fazer remontar, na Grécia antiga, estas listas das quais se encontra um eco nos poemas homéricos. No Canto II da Ilíada acham-se, sucessivamente, o catálogo dos navios, depois o catálogo dos melhores guerreiros e dos melhores cavalos aqueus, e, logo em seguida, o catálogo do exército troiano. "O conjunto forma aproximadamente metade do Canto II, cerca de 400 versos compostos quase exclusivamente por uma sucessão de nomes próprios, o que supõe um verdadeiro exercício de memória" [Vemant, 1965, pp. 55-56].

Com os Gregos, percebe-se, de forma clara, a evolução para uma história da memória coletiva. Transpondo um estudo de Ignace Meyerson sobre a memória individual para a memória coletiva, tal como ela aparece na Grécia antiga, Vernant sublinha: "A memória, distinguindo-se do hábito, representa uma difícil invenção, a conquista progressiva pelo homem do seu passado individual; como a história constitui para o grupo social a conquista do seu passado coletivo" [ibid., p. 41]. Mas entre os Gregos, da mesma forma que a memória escrita se vem acrescentar à memória oral, transformando-a, a, história vem substituir a memória coletiva, transformando-a, mas sem a destruir. Divinização e, depois, laicização da memória, nascimento da mnemotécnica: tal é o rico quadro que oferece a memória coletiva grega entre Hesíodo e Aristóteles, entre os séculos VIII e IV.

A passagem da memória oral à memória escrita é certamente difícil de compreender. Mas uma instituição e um texto podem talvez ajudar-nos a reconstruir o que se deve ter passado na Grécia arcaica.

A instituição é a do mnemon que "permite observar o aparecimento, no direito, de uma função social da memória" [Gernet, 1968, p. 285]. O mnemon é uma pessoa que guarda a lembrança do passado em vista de uma decisão de justiça. Pode ser uma pessoa cujo papel de "memória" está limitado a uma operação ocasional. Por exemplo, Teofrasto assinala que na lei de Thurium os três vizinhos mais próximos da propriedade vendida recebem uma peça de moeda "em vista de lembranças e de testemunho". Mas pode ser também uma função durável. O aparecimento destes funcionários da memória lembra os fenômenos que já evocamos: a relação com o mito, com a urbanização. Na mitologia e na lenda, o mnemon é o servidor de um herói que o acompanha sem cessar para lhe lembrar uma ordem divina cujo esqueçimento traria a morte. Os mnemones são utilizados pelas cidades como magistrados encarregados de conservar na sua memória o que é útil em matéria religiosa (nomeadamente para o calendário) e jurídica. Com o desenvolvimento da escrita estas "memórias vivas" transformam-se em arquivistas.

Por outro lado, Platão, no Fedro [274c-275b], coloca na boca de Sócrates a lenda do deus egípcio Thot, patrono dos escribas e dos funcionários letrados, inventor dos números, do cálculo, da geometria e da astronomia, do jogo de dados e do alfabeto. E sublinha que, fazendo isso, o deus transformou a memória, mas contribuiu sem dúvida mais para enfraquece-la do que para a desenvolvê-la: o alfabeto "engendrará esquecimento nas almas de quem o aprender: estas cessarão de exercitar a memória porque, confiando no que está escrito, chamarão as coisas à mente não já do seu próprio interior, mas do exterior, através de sinais estranhos. Tudo aquilo que encontraste não é uma receita para a memória, mas para trazer as coisas à mente[ibid., 275a]. Pensou-se que este passo reevoca uma sobrevivência das tradições da memória oral [cf. Notopoulos, 1938, p. 476].

A coisa mais notável é sem dúvida "a divinização da memória e a elaboração de uma vasta mitologia da reminiscência na Grécia arcaica" como diz com propriedade Vernant, que generaliza a sua observação: "Nas diversas épocas e nas diversas culturas, há solidariedade entre as técnicas de rememoração praticadas, a organização interna da função, o seu lugar no sistema do eu e a imagem que os homens fazem da memória" [1965, p. 51].

Os Gregos da época arcaica fizeram da Memória uma deusa, Mnemosine. É a mãe das nove musas que ela procriou no decurso de nove noites passadas com Zeus. Lembra aos homens a recordação dos heróis e dos seu altos feitos, preside a poesia lírica. O poeta é pois um homem possuído pela memória, o aedo é um adivinho do passado, como o adivinho o é6 do futuro. E a testemunha inspirada dos "tempos antigos", da idade heróica e, por isso, da idade das origens.

A poesia, identificada com a memória, faz desta um saber e mesmo uma sageza, ima sophia. O poeta tem o seu lugar entre os "mestres da verdade" [cf. Detienne, 1967] e, nas origens da poética grega, a palavra poética é uma inscrição viva que se inscreve na memória como no mármore [cf. Svenbro, 1976]. Dissese que, para Homero, versejar era lembrar.

Mnemosine, revelando ao poeta os segredos do passado, o introduz nos mistérios do além. A memória aparece então como um dom para iniciados e a anamnesis, a reminiscência, como uma técnica ascética e mística. Também a memória joga um papel de primeiro plano nas doutrinas órficas e pitagóricas. Ela é o antídoto do Esquecimento. No inferno órfico, o morto deve evitar a fonte do esquecimento, não deve beber no Letes, mas, pelo contrário, nutrir-se da fonte da Memória, que é uma fonte de imortalidade.

Nos pitagóricos, estas crenças combinam-se com unia doutrina da reencarnação das almas e a via da perfeição é a que conduz à lembrança de todas as vidas anteriores. Aquilo que fazia de Pitágoras, aos olhos dos adeptos destas seitas, um ser intermediário entre o homem e Deus, pelo fato de ter conservado a lembrança das suas reencarnações sucessivas, nomeadamente da sua existência durante a guerra de Tróia sob a figura de Buforba que Menelau tinha morto. Empédocles também lembrava: "Vagabundo exilado da divina existência... fui outrora um rapaz e uma rapariga, um arbusto e um pássaro, um peixe que salta para fora domar..." [em Diels e Kranz, 1915, 31, B.115 e 117].

Assim, na aprendizagem pitagórica, os "exercícios da memória" ocupavam um lugar muito importante. Epiniênides, segundo Aristóteles [Retórica, 1418a, 27] alcançava um êxtase rememorante.

Mas, como Vernant observa com profundidade, "a transposição de Mnemosine e do plano da cosmologia para o da escatologia modifica todo o equilíbrio dos mitos da memória" [1965, p. 61].

Esta colocação da memória fora do tempo separa radicalmente a memória, da história. "O esforço de rememorização, predicado e exaltado no mito, não manifesta o vestígio de um interesse pelo passado, nem uma tentativa de exploração do tempo humano" [ibid., pp. 73-74]. Assim, segundo a sua orientação, a memória pode conduzir à história ou distanciar-se dela. Quando posta ao serviço da escatologia, nutre-se também ela de um verdadeiro ódio pela história (cf. o artigo "Escatologia", neste volume da Enciclopédia).

A filosofia grega, nos seus maiores pensadores, não reconciliou a memória e a história. Se, em Platão e em Aristóteles, â memória é uma componente da alma, não se manifesta contudo ao nível da sua parte intelectual mas, unicamente, da sua parte sensível. Numa passagem célebre do Teeteto [191c-d] de Platão, Sócrates fala do bloco de cera que existe na nossa alma e que é "uma dádiva de Mnemosine, mãe da Musa" e que nos permite guardar as impressões nele feitas com um estilete. A memória platônica perdeu o seu aspecto mítico, mas não procura fazer do passado um conhecimento: quer subtrair-se à experiência temporal.

Para Aristóteles – que distingue a memória propriamente dita, a mnernê, mera faculdade de conservar o passado, e a reminiscência, a mcannesi, faculdade de evocar voluntariamente esse passado –, a memória, dessacralizada, laicizada, está "agora incluída no tempo, mas num tempo que permanece, também para Aristóteles, rebelde à inteligibilidade" [Vernant, 1965, p. 78]. Mas o seu tratado De memoria et reminiscentia aparecerá aos grandes escolásticos da Idade Média, Alberto, o Grande e Tomás de Aquino, como uma Arte da memória comparável à Rhetorica ad Herennium, atribuída a Cícero.

Esta laicização da memória combinada com a invenção da escrita permite à Grécia criar novas técnicas de memória: a mnemotecnia. Atribuiu-se tal invenção ao poeta Simônides de Céos (cerca de 556-468). A Cronaca di Paro, incisa numa tábua de mármore cerca de 264 a.C., precisa mesmo que em 477 "Simônides de Céos, filho de Leoprepe, o inventor do sistema dos auxílios mnemônicos, ganha o prêmio do coro em Atenas" [citado em Yates, 1966]. Simônides estava ainda próximo da memória mítica e poética, compondo cantos de elogio aos heróis vitoriosos e cantos fúnebres, por exemplo, à memória dos soldados caídos nas Termópilas. Cícero, no seu De oratore [2, 86], contou, sob a forma de uma lenda religiosa, a invenção da ninemotecnia por Simônides. Durante um banquete oferecido por um nobre da Tessália, Scopa, Simônides cantou um poema em honra de Castor e Pólux. Scopa disse ao poeta que não lhe pagaria senão metade do preço estabelecido e que os próprios Dióscuros lhe pagassem a outra metade. Pouco depois vieram buscar Simônides dizendo-lhe que dois jovens . o chamavam. Ele saiu e não viu ninguém. Mas enquanto estava lá fora o teto da casa afundou-se sobre Scopa e seus convidados, cujos cadáveres esmagados ficaram irreconhecíveis. Simônides, lembrando-se da ordem em que estavam sentados, identificou-os e puderam ser remetidos aos seus respectivos parentes [cf. Yates, 1966, pp. 3 e 27].

Simônides fixava assim dois princípios da memória artificial, segundo os antigos: a lembrança das imagens, necessária à memória, e o recurso a uma organização, uma ordem, essencial para uma boa memória. Sinônides acelerou a dessacralização da memória e acentuou o seu caráter técnico e profissional, aperfeiçoando o alfabeto e sendo o primeiro que se fez pagar pela sua poesia [cf. Vemant, 1965, pp. 78 e 98].

A Simônides seria devida uma distinção capital na mnemotecnia, a distinção entre os lugares da memória, onde se pode por associação dispor os objetos da memória (o zodíaco forneceria em breve um tal quadro à memória, enquanto que a memória artificial se constituía como um edifício dividido em "câmaras de memória") e as imagens, formas, traços característicos, símbolos que permitem a recordação mnemônica.

Depois dele, apareceria uma outra grande distinção da mnemotecnia tradicional, a distinção entre "memória para as coisas" e "memória para as palavras" que se encontra, por exemplo, num texto de aproximadamente 40 a.C., a Dialexeis [cf. Yates, 1966, p. 29].

Curiosamente, nenhum tratado de mnemotécnica da Grécia antiga nos chegou: nem o do sofista Hípias, que, segundo Platão [Hípias Menor, 368d ss.], inculcava nos seus alunos um saber enciclopédico, graças a técnicas de rememoração com caráter puramente positivo; nem o de Metrodoro de Scepsi que vivia no século I a.C. na corte de Mitridato, rei de Ponto, ele mesmo dotado de uma memória artificial baseada no zodíaco.

Estamos sobretudo informados sobre a mnemotecnia grega pelos três textos latinos que, durante séculos, constituíram a teoria clássica da memória artificial (expressão que a eles se deve: memória artificiosa), a Rhetorica ad Herennium, compilada por um mestre anônimo de Roma entre 86 e 82 a.C. e que a Idade Média atribuía a Cícero, o De oratore de Cícero (55 a.C.) e o Institutio oratoria de Quintiliano, no fim do primeiro século da nossa era.