História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 33 de 74

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História e Memória

4. Do Renascimento até hoje: fim das Idades Míticas? As etapas da cronologia mítica

A Índia e o Oceano Índico – quase desconhecidos – foram objeto de sonho. Sonho de riqueza e exuberância fantástica. Sonho de um mundo diferente, "onde os tabus são destruidos ou substituídos por outros, onde a estranheza dá uma sensação de libertação, de liberdade. Face à moral restrita, imposta pela Igreja, liberta-se a sedução perturbadora de um mundo de aberração alimentar, onde se pratica coprofagia e canibalismo, um mundo de inocência corporal onde o homem, liberto do pudor do vestuário, reencontra o nudismo e a liberdade sexual; onde o homem, liberto da pobre monografia e das barreiras familiares, se entrega à poligamia, ao incesto e ao erotismo" [Le Goff, 1970, p. 272]. "O Paraíso Terrestre indiano transforma-se no mundo primitivo da Idade do Ouro, sonho de uma humanidade feliz e inocente, anterior ao pecado original e ao Cristianismo" [ibid., p. 274].

O Islamismo que, tal como o Judaico-cristianismo, tem uma escatologia e uma apocalíptica [cf. Massignon, 1947] e, como o Cristianismo, tem um ponto cronológico central na história, a Hégira, dá lugar de destaque ao Paraíso. No fim do mundo, depois do julgamento universal, os eleitos voltarão a esse paraíso primitivo, lugar de felicidade, onde se encontra a quintessência dos prazeres terrestres [cf. Horovitz, 19231. Este paraíso situa-se geralmente no sétimo céu. O Corão e a tradição islâmica fornecem numerosos detalhes sobre a vida no Paraíso. Por exemplo: "Entre os bem-aventurados circularão pratos e taças de ouro; lá existirá o que é desejado e deleita os olhos e lá vivereis eternamente... Haverá frutos abundantes que comereis" [Corão, 3, 133]. Estes bem-aventurados do djanna têm a idade de Jesus (33 anos), o rosto de José, o coração de Abraão, a grande estatura de Adão, a bela voz de David e a eloqüência de Maomé. Levam uma existência plena de prazeres sexuais e gastronômicos. Não conhecem a morte nem o sonho, seu irmão. No paraíso, o tempo é uma eterna aurora, sem sol, lua, noite, ou dia. A luz eterna inunda os bem-aventurados" [Naissance, 1959, p. 252].

Se procurarmos hoje sistematizar os traços característicos da Idade do Ouro, da Antiguidade ao Renascimento, oscilando entre um pólo "natural" em que a vida feliz é uma vida selvagem e simples, e um pólo "cultural" em que a felicidade reside numa vida de abundância e riqueza, podemos sintetizar da seguinte forma, simplificando: o Paraíso ou a Idade do Ouro, diga-se a Idade do Ouro paradisíaca, tem caráter essencialmente rural. Há tendência para a colheita, a nudez, a alimentação crua, existindo, no entanto, nos Gregos, o mito rival da tecnologia, o de Prometeu, inventor do fogo. Não há comércio, nem indústria (exploração mineira), nem dinheiro, nem pesos, nem medidas. Reina a paz e a juventude, a própria imortalidade. Tudo é abundante; a necessidade, e sobretudo, a fome são banidas. Mas o traço dominante reside no fato do trabalho ser desconhecido. Cioranescu bem o notou quando escreveu, a propósito da máxima expressão da Idade do Ouro, o País da Abundância: "Para o problema do trabalho, foi encontrada a solução tão radical quanto possível, na lenda do País da Abundância. Se bem que a superabundância seja o detalhe mais visível deste país, a lei fundamental não é a que manda encher a pança, mas a que obriga a fazê-lo sem trabalhar... De todo o conteúdo do conto, esta fantasia constitui, sem dúvida, o traço materialista mais claramente anticristão. A religião e a moral cristãs admitem o prazer, mas só como recompensa do trabalho. Desde o dia em que o nosso pai comum foi condenado a ganhar o pão com o suor do seu rosto, e apesar da remissão (posterior) da humanidade, pelo sacrifício de Cristo, a consciência desta ação necessária nunca se atenuou. No País da Abundância a gratuidade e o abuso fazem lei" [1971, pp. 9497]. Não podemos esquecer-nos que o fascínio exercido pelo mito da Idade do Ouro e pela fábula do País da Abundância devem muito (tal como em outra perspectiva da história mítica, o Apocalipse) às imagens populares ou criadas por grandes artistas, que os ilustraram. Um estudo completo das Idades Míticas exigiria uma pesquisa iconográfica apurada.

 

4. Do Renascimento até hoje: fim das Idades Míticas? As etapas da cronologia mítica

O florescimento do tema da Idade do Ouro no Renascimento não deve criar-nos ilusões. Primeiro, porque a Reforma e a Contra-Reforma vão ter maior respeito pela concepção cristã do tempo, que exclui o tempo circular, o tempo cíclico, o eterno retorno. A idéia do Milênio só se conservará, talvez um pouco, nas seitas. Depois, porque a periodização da história se encaminha para a imposição da idéia de progresso, que triunfará com o iluminismo do século XVIII.

4.1 A concepção da Idade do Ouro no Renascimento

Cioranescu [1971] exagera, sem dúvida, quando escreve: "A partir do Renascimento, a tradição clássica reduz-se a um simples motivo literário, que sobrevive artificialmente, tal como as ninfas de Ronsard ou os temas pedidos à mitologia. Esta tradição não se liga a nenhuma realidade presente ou previsão de futuro, porque a visão circular do tempo histórico se tornou também numa simples imagem sem profundidade; talvez porque, a partir do momento em que já não dependia da dura necessidade de trabalhar, o mito só punha problemas, sem apontar soluções. A tendência continua, no entanto, bem presente. É certo que a concepção da Idade do Ouro revela, no Renascimento, características originais interessantes, mas que alteram profundamente o tema tradicional. Para os humanistas, o retorno da Idade do Ouro não é o regresso a um estado de natureza, mas, pelo contrário, depois da barbárie da media aetas (Idade Média, o termo e a idéia acabam de nascer), um renascimento do mundo que é, sobretudo, o das letras e das artes [cf. Reeves, 1969, pp. 429-452]. É a exclamação de Rabelais: "Estão já constituídas todas as disciplinas!", que é um eco da de Marsilio Ficcino, na sua famosa carta de 1492, sobre a Idade do Ouro: "Se é legítimo apelidar o nosso século de Idade do Ouro, é porque ele produz espíritos de ouro (aurea ingenia). Este século, à semelhança do ouro, trouxe para a luz as artes liberais quase extintas, a gramática, a poesia, a oratória, a pintura, a escultura, a arquitetura, a música, os cânticos sagrados da antiga tradição de Orfeu. E isto em Florença... E sobretudo na corte do muito poderoso duque de Urbino... E, na Alemanha, foi no nosso tempo que se inventou a imprensa".

Savonarola passará desta concepção humanista da Idade do Ouro a uma concepção ascética e virá a queimar na praça pública, o que antes tinha adorado.

Do mesmo modo, um século mais tarde, Tomasso Campanella – cuja obra supõe várias leituras, mas surge como fruto de um homem de transição entre a Idade Média e o Renascimento, atrasado em relação a Galileu e Descartes – na Monarchia Messiae (1605) escreve que, no saeculum aureum, o das suas esperanças, ver-se-á o desenvolvimento da sabedoria humana através da difusão da paz, a ciência multiplicar-se pela segurança da navegação, as viagens, o comércio, a informação.

A segunda grande originalidade, proveniente do tema da Idade do Ouro, refere-se à América. Mas, também aqui, o tema é ambíguo. Se é verdade que durante muito tempo a idéia de um retorno a um paraíso natural, a descoberta do índio, "bom selvagem", a crença de que as Américas eram as "Ilhas Afortunadas" [cf. Eliade, 1969, pp. 182-2031, é também certo o que Cioranescu observou sobre o contato com os índios das Antilhas que não semeavam e não trabalhavam, faziam as colheitas em comum e, no entanto, conheciam a guerra e o ódio e viviam num século de ferro, "a idéia de uma Idade do Ouro frugal e pura, primitiva e modesta, tinha-se desfeito e o seu esquema não resistia à análise" [1971, p. 88]. Apresenta como exemplo desta evolução do tema da Idade do Ouro, Antonio de Guevara, que no seu Libro Llamado Relox de príncipes (1529) evoca uma Idade do Ouro da felicidade "singularmente limitada", onde o trabalho é necessário e, sobretudo, onde existe, pela primeira vez, a propriedade privada [cf. Levin, 1969].

Também os esforços de alguns exegetas católicos, para conciliar as perspectivas cristãs da história e o tema da Idade do Ouro e para dar crédito à espera de um papa angélico (Papa angelicus), na tradição do joaquinismo do século XIII, não chegam muito longe. Coelius Pannonius (Francisco Gregário) no comentário do Apocalipse, de 1571, ao considerar a sétima idade sabática como o retorno dos aurea saecula, só encontra, para defini-la, a alusão a dias mais felizes, a um sol mais brilhante, ao desaparecimento do raio e do trovão.

Bartolomeu Holzhauser, na interpretação do Apocalipse, no princípio do século XVII, define a próxima idade da felicidade essencialmente pelo desaparecimento dos hereges e pela realização na terra da palavra evangélica: "Haverá um só pastor e um só rebanho, graças à constituição de uma monarquia católica, que reúne todos os homens" [Reeves, 1969, p. 463].

O calabrês Tommaso Campanella, na Monarchia Messiae, no De Monarchia Hispanica, nos Aforismi identifica também "a Idade do Ouro socialista" – que julgou ver na Cidade do Sol – com a monarquia universal única, como tinha anunciado Guillaume Postei e, na linha da politização joaquinista e medieval do milenarismo, designa a Espanha e, depois, desiludido, a França, como sendo a monarquia do século da felicidade; já no fim da vida (1639) verá no futuro Luís XIV, que acabava de nascer, o monarca universal da Idade do Ouro.

4.2 As ideologias do século XVIII e XIX

A partir da revolução científica do século XVII, as Idades Míticas e a Idade do Ouro parecem não passar de termos literários, metafóricos, que vão ao encontro das velhas luas da mitologia, como diz Cioranescu. Podemos no entanto perguntar se nas ideologias dos séculos XVIII e XIX não estiveram sempre presentes, mais ou menos camufladas, as velhas ideologias cronológicas. A teoria de Rousseau, principalmente no Discours sur l'origine de l'inégalité parmi les hommes, assemelha-se muito a uma ideologia da Idade do Ouro [cf. Lovejoy, 1923; Whitney, 1934].

O romantismo, sobretudo o alemão, por oposição ao "progressismo" das Luzes, muitas vezes virou os olhos para um retomo à Idade do Ouro [cf. Mãhl, 1965]. O socialismo, lançando por terra o sentido da cronologia mítica e proclamando que "a Idade do Ouro que se julgava estar para trás está na nossa frente", marca, tal como já acontecera com o judaísmo e o cristianismo, uma viragem na concepção da história, mas nada inclui da ideologia cronológica, no seu milenarismo materialista.

A teoria das três idades do positivista Auguste Comte nada tem que ver com as velhas concepções dos três estados, como, por exemplo, as de Da Fiore?

Se a teoria das Idades Míticas continua, de modo subjacente, a ser fascinante, é porque, para lá do conteúdo atraente de temas como a Idade do Ouro, o País da Abundância ou Milênio, estas teorias hoje extravagantes foram um dos primeiros esforços – um esforço plurissecular – para pensar e domesticar a história.

A escatologia dá sentido à história, as Idades Míticas dão-lhe conteúdo e ritmo no interior desse sentido. O que está em causa, em primeiro lugar, nas Idades Míticas, é a idéia de progresso. Tudo era, realmente, melhor no início? Podemos ser felizes na história e no tempo, sem os negarmos? Simultaneamente com a idéia de progresso está também em jogo a de civilização. Será que a felicidade, a justiça e a virtude se situam numa idade primitiva da natureza selvagem ou que, como na escatologia, reencontramos o conteúdo revolucionário na idéia de igualdade e de inexistência da propriedade privada? Ou será que o progresso não está, pelo contrário, no desenvolvimento das técnicas, artes, costumes, em suma, na cultura?

As teorias das Idades Míticas introduziram, no tempo e na história, a idéia de período e, ainda, a idéia de uma coerência na sucessão dos períodos, a noção de periodização. Como corolário, uma questão: como e por que razão se passa de um período a outro? Daí decorre toda uma série de problemas essenciais: os da transição, do motor da história e, evidentemente, do sentido da história. É certo que as concepções das Idades Míticas pejaram o pensamento histórico de dados tão mistificadores ou demolidores como revolucionários. Do ponto de vista científico, conseguiu-se um grande progresso quando a periodização deixou de estar ligada às idades, miticamente valorizadas ou desvalorizadas. Foi no século XVI que apareceram dois sistemas de periodização que marcaram uma viragem na ciência histórica. Um, é a divisão tripartida da história da humanidade em história antiga, história medieval e história moderna. Outro, é a definição aritmética do século em cem anos, por oposição à noção sagrada, mítica, de saeculum.