História e Memória
2 Escatologias não-judaico-cristãs
2.1 Escatologias "primitivas"
Segundo Eliade, "poderíamos dizer numa fórmula sumária que, para os primitivos, o Fim do Mundo já existiu, embora se deva repetir num futuro mais ou menos próximo" [1963, p. 71]. Com efeito, as cosmogonias dos primitivos foram muitas vezes completadas por mitos sobre cataclismos cósmicos (tremores de terra, incêndios, desabamentos de montanhas, epidemias), os mais freqüentes dos quais são os mitos do Dilúvio. Por outro lado, em comparação com os mitos que narram o fim do mundo no passado, os mitos que se referem a um fim futuro são inesperadamente pouco numerosos, entre os primitivos. Segundo Lehmann [1931], esta pretensa raridade de uma escatologia propriamente dita, entre os primitivos, provém talvez de erros de etnólogos que raramente puseram a questão no seu trabalho de campo e que, além disso, interpretaram mal o fato das línguas dos primitivos ignorarem o tempo futuro.
As condições do fim do mundo são geralmente concebidas de três formas principais pelas sociedades "primitivas": ou é por culpa dos homens que cometeram pecados ou faltas rituais (por exemplo, uma etnia de uma das Ilhas Carolinas, Namolut pensa que um dia o Criador aniquilará a humanidade, por causa dos seus pecados, continuando, no entanto, os deuses a existir); ou será a pura vontade de Deus, que porá fim ao mundo (este Deus pode ser bom ou mau; para os Kai da Nova Guiné, o Criador, Mãlenfung, que adormeceu depois de ter criado o Universo, despertará para destruir o céu que há de cair sobre a terra, fazendo desaparecer toda a vida; os Negritos da Península da Malaca acreditam que o deus Kurei, a quem chamam "mau", destruirá um dia homens e mundo, sem distinção entre bons e maus; ou, como para os habitantes das Ilhas Andaman, o deus Puluga destruirá a terra e a abóbada celeste por um tremor de terra, mas ressuscitará os homens, corpo e alma reunidos, que viverão eternamente felizes, ignorando a doença, a morte e o casamento.
Finalmente, a causa do fim do mundo pode ser apenas a sua decadência, por um processo de degradação contínua.
Por exemplo, para os índios Cherokees da América do Norte, "quando o mundo estiver velho e usado, os homens morrerão, as cordas que ligam a terra ao céu quebrar-se-ão, a terra afundar-se-á no Oceano" [Alexander, 1916, p. 223].
Para alguns povos, o fim dos tempos verá o regresso de uma personagem benevolente, que reporá a prosperidade e a felicidade dos primeiros tempos. Os Pigmeus do Gabão, por exemplo, esperam o regresso de Kmvum, o primeiro homem. Os Tártaros dos Altai pensam que o Imperador dos Céus, Tengere Kaira Khãn (que no princípio dos tempos vivia na terra com os homens e os deixou, depois, por causa de seus pecados), depois da derrota do Mal voltará à terra para julgar os homens. Os índios Salish, a Noroeste da América do Norte, acreditam que, quando o mundo envelhecer, um coiote anunciará o regresso do "chefe" à terra e o fim do mundo, seguido de uma recriação e da ressurreição dos homens, que viverão para sempre felizes. Esta espera de um salvador no fim dos tempos aproxima algumas destas escatologias "primitivas" do milenarismo e do messianismo judaico-cristão.
Especialmente entre os índios da América, a "maioria dos mitos do Fim implica uma teoria cíclica (como para os Árticos) ou a crença de que uma catástrofe será seguida de uma nova criação, ou ainda, a crença numa regeneração universal, realizada sem cataclismo" [Eliade, 1963, p. 76]. Estas crenças aproximam a escatologia destes povos da das religiões orientais, que professam o mito do eterno retorno e, em definitivo, da eternidade do mundo, dado que a todas as destruições se sucede uma recriação.
A escatologia espetacular de uma etnia indígena, os Guarani, deu origem a vários estudos [a referência aos mais importantes encontra-se em Eliade, 1969].
Desde o princípio do século XVI que se conhece uma série de migrações destes índios através da América do Sul, sem que esses movimentos possam ser postos em relação com a chegada dos Espanhóis, a não ser pelo fato de o contato com os brancos ter tornado mais sombria e exacerbada a escatologia dos Guarani. Parece que estas migrações foram, em primeiro lugar, orientadas para Este, onde estava situado o paraíso escatológico, mas que atualmente a principal direção é a procura do centro da terra e do zênite.
Estas migrações foram bem estudadas pelo etnólogo brasileiro Kurt Nimuendajú que, em 1912, encontrou perto de São Paulo um grupo de Guaranis vindos do Oeste, que regressaram com a consciência de que a sua derrota, na procura do Paraíso, era devida ao fato de terem adotado o vestuário e a alimentação dos brancos. Estes índios acreditam que uma catástrofe natural, incêndio ou dilúvio, destruiu um mundo anterior e estão convencidos de que isto se reproduzirá. A única oportunidade de escapar a este cataclismo final é refugiarem-se a tempo na "Terra sem Mal" ou "Céu", fora do tempo e da história, sem dor, sem doenças, sem injustiças.
Estas migrações assentam na idéia de que o mundo conhece um desgaste, uma fadiga cósmica tais, que aspira ao seu fim, e pede ao Criador que realize uma nova criação. Para encontrar a "Terra sem Mal", os Guarani entregam-se a danças prolongadas que têm por fim acelerar a destruição do mundo decrépito e revelar o "caminho" que conduz ao Paraíso. Em todas estas crenças e práticas, os feiticeiros (ñanderu), que são especialistas do "caminho" e mestres em escatologia, desempenham um papel importante.
2.2 Escatologias do Eterno Retorno
Estas doutrinas predominam no Oriente e no Extremo Oriente, através de numerosas variantes em cujos detalhes não se pode entrar aqui.
Quer o mundo tenha sido ou não criado, quer o Criador seja um Deus ou uma Deusa, um homem (o Primeiro, o Primogênito) ou o poder impessoal do destino, ele passa, segundo ritmos e processos diferentes, através de fases de declínio, morte e regeneração: os fins do mundo são fins provisórios.
Este conceito exprime-se através de um duplo sistema cíclico, o ciclo anual, que é um processo de morte e, ao mesmo tempo, de ressurreição; daí a importância do Ano-Novo, tempo de renascimento e de recriação [cf. Eliade, 1949; Le Goff, 1977].
A religião chinesa antiga defende que o mundo sofre uma alternância de longos ciclos de atividade e de hibernação pelo jogo entre o princípio masculino yang e o princípio feminino yin, que estão também em ação durante o ciclo anual. Quando domina o yang é a atividade, a fecundidade, a luz, o calor, a riqueza (Primavera e Verão); quando é o yin que domina, é a passividade, a obscuridade, o frio, a umidade (Outono e Inverno). Um mundo submetido ao ciclo eterno não tem princípio nem fim.
Também no Hinduísmo o mundo, que não tem princípio nem fim, passa por ciclos que acabam com o desaparecimento do mundo atual, seguido da criação de um novo mundo, por um novo demiurgo. Cada mundo passa por quatro idades (yuga), mil yuga formam um kalpa que representa um dia do deus Brahmã, atual delegado do Deus supremo, que é eterno. Brahmã adormece entre cada yuga, e o universo fica latente entre o fim de um mundo e o aparecimento de outro. A vida de Brahmã deve durar cem kalpa. O mundo atual está na última fase, na decadência (má yuga de Kali). Os homens individuais vivem durante uma certa fase de um ciclo, ao longo do qual passam do estado humano ao estado animal ou vegetal, por metempsicose. A duração desta vida múltipla e a forma das reencarnações individuais dependem dos atos e méritos do indivíduo (karman). No fim desta existência, que acontece quer pelo esgotamento do seu karnan, quer pela graça divina, a alma individual volta à terra ou, se for salva, é acolhida no céu divino, onde leva uma vida feliz, segundo o modelo da vida terrestre.
Também no Budismo há, em cada mundo que compõe o macrocosmo, uma sucessão de períodos de subsistência e de destruição, seguidos de uma nova geração. Todos passam por períodos de progresso e períodos de decadência. Finalmente, os últimos homens matam-se uns aos outros numa batalha final, com exceção de alguns sobreviventes refugiados na floresta, que se tornam antepassados da humanidade sobrevivente. Ao fim de vinte períodos de crescimento e declínio, o mundo é destruído pela água, o fogo e o vento, enquanto espera a criação de um outro mundo. Ao longo da sua vida, os homens podem merecer escapar a estes ciclos eternos, pela entrada na vida eterna e sem perturbação do nirvana, que é indescritível. Nesta redenção, o preço do sofrimento ocupa um lugar importante.
Duas religiões – que acolhem a concepção do eterno retorno, embora a escatologia não ocupe nelas um lugar importante – exerceram uma certa influência na escatologia judaico-cristã. Em rigor, são mais movimentos ou idéias religiosas do que religiões propriamente ditas: a religião da Grécia antiga e a gnose.
As religiões da Antiguidade – com poucas exceções – tiveram pouco interesse pela escatologia, pois que acreditavam na solidez da ordem do mundo, estabelecida pela criação divina. Quando muito, pode notar-se o interesse pelo aparecimento da ordem cósmica e pelo desencadear de um cataclismo natural, que arrastaria consigo a destruição do mundo: nos Celtas, nos Lapões e nos Esquimós temia-se .a queda do céu; nos povos indo-germânicos existia o temor de um inverno terrível; nas populações da Europa Atlântica, o da submersão da terra pelo Oceano. Mas, da Babilônia ao Extremo Ocidente, do Egito ao Ártico, não aparece o medo do fim do mundo nem o desejo de um mundo melhor. No célebre poema grego de Hesiodo, Os trabalhos e os dias (meados do século VII a.C.), cujo tema é a sucessão declinante das idades do mundo, não se refere ao fim do mundo. Nestes povos da Antiguidade há apenas um interesse maior ou menor, como se viu, pelo destino individual dos homens, depois da morte. Esta preocupação é muito viva nos antigos Egípcios, em quem se julgou poder distinguir traços de escatologia incertos e difíceis de interpretar [Lanczkowski, 1960].
Há, no entanto, duas exceções assinaláveis. Uma, no quadro da mitologia germânica, a profecia de Ragnararök, no poema do Edda intitulado Völuspd, e uma descrição do mundo, desde a criação até o fim. O último episódio põe os Deuses em luta com as forças demoníacas (por exemplo, o combate de Thor com a serpente). Matam-se um ao outro, a terra abisma-se no mar e o mundo desaparece por entre fogo e fumaça. Do Oceano ressurge, porém, um novo mundo, verde e jovem, onde as Asi fazem de novo reinar a justiça e os deuses se reconciliam.
A outra exceção é a célebre Écloga IV de Virgílio. Deve ser posta na linha dos oráculos atribuídos às Sibilas – literatura de profecias com caráter escatológico, muito viva no meio oriental helenizado, por exemplo em Alexandria –, os célebres versos onde se fala de uma última idade (ultima aetas), do regresso da Virgem (iam redit et Virgo) e de um menino salvador que, nada tendo que ver com a Virgem Maria e Cristo, ou com a família do Imperador Augusto, fazem no entanto referência a um regresso à Idade do Ouro [cf. Carcopino, 1930; Jeanmaire, 1930, 1939].
É – tal como nos povos primitivos – uma escatologia voltada para o passado. Esta literatura sibilina veicula a concepção grega de um "tempo circular", exatamente aquele com que o Cristianismo e o Judaísmo vão romper, substituindo pela idéia de um tempo linear. Oscar Culmann insistiu muito nesta mudança essencial: "Devemos partir da verdade fundamental de que para o Cristianismo primitivo tal como para o Judaísmo bíblico e a religião iraniana, a expressão simbólica do tempo é a linha ascendente, enquanto que, para o helenismo, é o círculo" [1946, p. 36].
Ora, a concepção cristã do tempo foi desde muito cedo contaminada, senão "reprimida", pela concepção grega e, como se verá, uma das principais tendências da renovação escatológica cristã atual e, principalmente, da "desmistificação" de R. Bultman, consiste em eliminar a contaminação helênica.
E, tal como a helênica, também a gnóstica. É o que constata Oscar Culmann: "A primeira alteração da concepção do tempo, tal como existia no Cristianismo primitivo, não aparece, nem na Epístola aos Hebreus, nem nos escritos joaninos... aparece, contudo, no gnosticismo" [ibid., p. 38]. Também Henri Jeanmaire concorda com este comentário, mas acrescenta que estas influências são anteriores ao Cristianismo primitivo, que a concepção de tempo voltada para as origens e não para o futuro foi introduzida no apocalipse judaico-cristão, pela gnose pré-cristã helenizada.