História e Memória

Jacques Le Goff · Capítulo 55 de 74

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História e Memória

4. Os progressos da memória escrita e figurada da Renascença aos nossos dias

Pouco depois, um outro dominicano do convento de Pisa, Bartolomeo da San Concordio (1262-1347), retomou as regras tomistas da memória nos seus Armnaestramenti degli antichi, a primeira obra a tratar da arte da memória em língua vulgar, em italiano, pois que era destinada aos laicos.

Entre as numerosas artes memoriae da Baixa Idade Média, a sua época de florescimento (como para os artes moriendi), pode-se citar a Phoenix sive artificiosa memoria (1491) de Pietro da Ravenna, que foi, parece, o mais difundido destes tratados. Conheceu diversas edições no século XVI e foi traduzido em diversas línguas, por exemplo, por Robert Copland, em Londres, aproximadamente em 1548, sob o título The Art of Memory that is Otherwise Called the Phoenix.

Erasmo, no De ratione studii (1512), não é favorável à ciência mnemônica: "Se bem que não negue que a memória pode ser ajudada por simulacros (lugares) e imagens (imagens), a melhor memória funda-se em três coisas da máxima importância: estudo, ordem e cuidado" [citado ibid., p. 466].

Erasmo considera no fundo a arte da memória como um exemplo da barbárie intelectual medieval e escolástica, e se põe particularmente em guarda contra as práticas mágicas da memória.

Melanchton nas suas Rhetorica elementa (1534) interditará aos estudantes as técnicas, os "truques" mnemônicos. Para ele a memória confunde-se com a aprendizagem normal do saber.

Não podemos deixar a Idade Média sem evocar um teórico, também muito original neste domínio da memória: Raimundo Lúlio (+ 1316). Depois de ter estudado a memória em vários tratados, Lúlio acaba por compor três tratados: De memoria, De intellectu e De voluntate (portanto a partir da Trindade agostiniana), sem contar com o Liber ad memoriam conf rmandam. Diferentíssimo do ars memoriae dominicano, o ars memoriae de Lúlio é "um método de pesquisa e um método de pesquisa lógica" [ibid., p. 170] que é esclarecido pelo Liber septem planetarum do mesmo Lúlio. Os segredos do ars memorandi estão escondidos nos sete planetas. A interpretação neoplatônica do lullismo na Florença do Quattrocento (Pico della Mirandola) leva a ver na ars memoriae uma doutrina cabalística, astrológica e mágica, que iria ter, assim, grande influência na Renascença.

 

4. Os progressos da memória escrita e figurada da Renascença aos nossos dias

 

A imprensa revoluciona, embora lentamente, a memória ocidental. Revoluciona-a ainda mais lentamente na China onde, apesar de a imprensa ter sido descoberta no século IX da nossa era, se ignoraram os caracteres móveis, a tipografia; até à introdução, no século XIX, dos processos mecânicos ocidentais, a China limitou-se à xilografia, impressão de pranchas gravadas em relevo. A imprensa não pôde agir de forma massiva na China, mas os seus efeitos sobre a memória, pelo menos entre as camadas cultas, foi importante, pois imprimiram-se sobretudo tratados científicos e técnicos que aceleraram e alargaram a memorização do saber.

As coisas passaram-se de forma diferente no Ocidente. Leroi-Gourhan caracterizou bem esta revolução da memória pela imprensa: "Até o aparecimento da imprensa... dificilmente se distingue entre a transmissão oral e a transmissão escrita. A massa do conhecido está mergulhada nas práticas orais e nas técnicas; a área culminante do saber, com um quadro imutável desde a Antiguidade, é fixada no manuscrito para ser aprendida de cor... Com o impresso... não só o leitor é colocado em presença de uma memória coletiva enorme, cuja matéria não é mais capaz de fixar integralmente, mas é freqüentemente colocado em situação de explorar textos novos. Assiste-se então à exteriorização progressiva da memória individual; é do exterior que se faz o trabalho de orientação que está escrito no escrito" [196465, pp. 69-70].

É durante este período que separa o fim da idade Média e os inícios da imprensa e o começo do século XVIII que Yates situou a longa agonia da arte da memória.

Ao século XVI "parece que a arte da memória se afasta dos grandes centros nevrálgicos da tradição européia para se tornar marginal" [Yates, 1966, p. 114].

Se bem que os opúsculos Como melhorar a sua memória não tenham cessado de ser editados (o que continuou até os nossos dias), a teoria clássica da memória formada na Antiguidade greco-romana é modificada pela escolástica, que tivera um lugar central na vida escolar, literária (que se pense novamente na Divina Comédia) e artística da Idade Média, desaparecendo quase completamente no movimento humanista. Mas a corrente hermética de que Lúlio foi um dos fundadores e que Marsilio Ficino e Pico della Mirandola impulsionaram definitivamente, desenvolveu-se consideravelmente até o início do século XVII.

Ela inspirou, em primeiro lugar, um personagem curioso, célebre no seu tempo, na Itália e na França, e depois esquecido, Giulio Camillo Delminio, "o divino Camillo" [cf. ibid., pp. 121-59]. Este veneziano, nascido cerca' de 1480 e falecido em Milão em 1544, construiu em Veneza, e depois em Paris, um teatro em madeira de que não se possui nenhuma descrição mas que se,pode supor assemelhar-se ao teatro ideal descrito por Giulio Camillo na Idea del teatro publicada depois de sua morte, em 1550, em Veneza e Florença. Construído com base nos princípios da ciência mnemônica clássica, este teatro é de fato uma representação do universo que se desenvolve a partir das causas primeiras, passando pelas diversas fases da criação. As suas bases são os planetas, os signos do zodíaco e os supostos tratados de Hermes Trismegisto: o Asclepius na tradução latina conhecida na Idade Média e o Corpus Hermeticum na versão latina de Marsilio Ficino. O Teatro de Camillo deve ser situado na Renascença veneziana do primeiro Cinquecento e, por sua vez, a arte di memoria deve ser recolocada nessa Renascença, nomeadamente na sua arquitetura. Se, influenciado por Vitrúvio, Palladio (nomeadamente no Teatro Olímpico de Vicenza), provavelmente influenciado por Camillo, não foi até o extremo da arquitetura teatral fundada numa teoria hermética da memória, foi talvez na Inglaterra que estas teorias conheceram o seu maior desenvolvimento. De 1617 a 1619 foram publicados em Oppenheim na Alemanha os dois volumes (tomo I, O Macrocosmo, tomo II, O Microcosmo) do Utriusque cosmi maioris scilicet et minoras metaphysica, physica arque technica historia de Robert Fludd, onde se encontra a teoria hermética do teatro da memória, transformado desta vez de retangular em circular (ars rotunda em vez de ars quadrata), e do qual Yates pensa que encarnou, provavelmente no Globe Theater de Londres, o teatro de Shakespeare [ibid., pp. 317-41].

Giordano Bruno (1548-1600) foi o maior teórico das teorias ocultistas da memória que tiveram um papel decisivo nas perseguições, na condenação eclesiástica e na execução do célebre dominicano. Poder-se-á ler no belo livro de Yates os detalhes de teorias que se exprimem nomeadamente nos De umris idearum (1582), no Cantus Circaeus (1582), no Ars reminiscendi, explicatio triginta sigUlorum ad omnium scientiarum et artium inventionem, dispositionem et memoriam (1583), na Lampas triginta statuarwn (1587), no De imaginum, signorum et idearum compositione (1591). Basta dizer que, para Bruno, as rodas da memória funcionavam por magia e que "tal memória seria a memória de um homem divino, de um mago provido de poderes divinos, graças a uma imaginação imbricada na ação dos poderes cósmicos. E tal tentativa devia apoiar-se no pressuposto hermético de que a mens do homem é divina, ligada na origem aos governantes das estrelas, capaz de refletir e dominar o universo" [Yates, 1966, p. 207].

Finalmente, em Leão, no ano de 1617, um certo Johannes Paepp revelava, no seu Schenkelius detectus: seu memoria artificialis hactenus occultata, que o seu mestre Lambert Schenkel (1547-c.1603), que tinha publicado dois tratados sobre a memória (De memoria, 1593, e o Gazophylacium, 1610), aparentemente fiéis às teorias antigas e escolásticas da memória, era na realidade um adepto oculto do hermetismo. Foi o canto do cisne do hermetismo mnemônico. O método científico que o século XVIII iria elaborar devia destruir este segundo ramo da ars memoriae medieval.

Já o protestante Pierre de Ia Ramée, nascido em 1515 e vítima em 1572 da matança de S. Bartolomeu, nos seus Scholae in liberales artes, pedira a substituição das antigas técnicas de memorização por novas, fundadas na "ordem dialética", num "método". Reivindicação da inteligência contra a memória que até os nossos dias não deixou de inspirar uma corrente "antimemória", que reclama, por exemplo, uma dispersão ou diminuição das matérias ditas "de memória" tios programas escolares, enquanto que os psicólogos da criança, como Jean Piaget, demonstraram, como se viu, que memória e inteligência, longe de se combater, se apóiam mutuamente.

Em todo o caso, Francis Bacon escreve no Novum Organum, em 1620: "Também eu elaborei e pus em prática um método que, na realidade, não é um método legítimo, mas um método de impostura: consiste em comunicar o conhecimento de tal forma que quem não tenha cultura pode rapidamente pôr-se em condições de poder mostrar que a tem. Foi este o trabalho de Raimundo Lúlio..." [citado ibid., p. 348].

Na mesma época, Descartes nas Cogitationes privatae (1619-21) polemiza com a "inútil inépcia de Schenkel (no livro De arte memoriae)" e propõe dois "métodos" lógicos para dominar a imaginação: "Atua-se através da redução das coisas às causas. E como todas podem ser reduzidas a uma, é evidente que não é preciso memória para se reter toda a ciência" [citado ibid., p. 347].

Talvez só Leibniz tenha tentado reconciliar nos seus manuscritos ainda inéditos, conservados em Hannover [cf. ibid., p. 353], a arte di memoria de Lúlio, qualificada por ele de "combinatória", com a ciência moderna. As rodas da memória de Lúlio, retomadas por Giordano Bruno, são movidas por sinais, notas, caracteres, selos. Basta, parece pensar Leibniz, fazer das notas a linguagem matemática universal: matematização da memória, ainda hoje impressionante, entre o sistema lulliano medieval e a cibernética moderna.

Sobre este período da "memória em expansão", como designou Leroi-Gourhan, verifiquemos o testemunho do vocabulário, considerando na língua francesa os dois campos semânticos saídos da mneme e da memoria.

A Idade Média criou a palavra central mémoire, aparecida desde os primeiros monumentos da língua, no século XI. No século XIII é acrescentada mémorial (que diz respeito, como vimos, a contas financeiras), e em 1320, mémoire, no masculino, designando um "mémoire" um dossiê administrativo. A memória toma-se burocrática ao serviço do centralismo monárquico que então surge. O século XV vê o aparecimento de mémorable nesta época de apogeu das artes memoriae e de renovação da literatura antiga – memória tradicionalista. No século XVI, em 1552, aparecem os mémoires escritos por um personagem, em geral de qualidade; é o século em que a história nasce e o indivíduo se afirma. O século XVIII cria, em 1726, o termo mémorialiste e, em 1777, memorandum derivado do latim através do inglês. Memória jornalística e diplomática: é a entrada em cena da opinião pública, nacional e internacional, que constrói também a sua própria memória. Na primeira metade do século XIX, presencia-se um conjunto massivo de criações verbais: amnésie, introduzido em 1803 pela ciência médica, mnémonique (1800), mnémotechnie (1836) e mémorisation, criados em 1847 pelos pedagogos suíços, conjunto de termos que testemunha os progressos do ensino e da pedagogia; finalmente, aidemémoire que, em 1853, mostra que a vida cotidiana foi penetrada pela necessidade de memória. Finalmente, em 1907 o pedante mémoriser parece resumir a influência adquirida pela memória em expansão.

No entanto, ó século XVIII, conforme assinalou Leroi-Gourhan, joga um papel decisivo neste alargamento da memória coletiva: "Os dicionários atingem os seus limites nas enciclopédias de toda a espécie que são publicadas, para o uso das fábricas ou dos artesãos, como dos eruditos puros. O primeiro verdadeiro grande salto da literatura técnica situa-se na segunda metade do século XVIII... O dicionário constitui uma forma muito evoluída de memória exterior, mas em que o pensamento se encontra fragmentado até o infinito; a Grande Enciclopédie de 1751 constitui uma série de pequenos manuais reunidos no dicionário... a enciclopédia é uma memória alfabética parcelar na qual cada engrenagem isolada contém uma parte animada da memória total. Há entre o autômato de Vaucanson e a Enciclopédie, que lhe é contemporânea, a mesma relação que há entre a máquina eletrônica e o integrador dotado de memórias dos nossos dias" [964-65, pp. 70-71].

A memória até então acumulada vai explodir na Revolução de 1789: não terá sido ela o seu grande detonador?

Enquanto que os vivos podem dispor de uma memória técnica, científica e intelectual cada vez mais rica, a memória parece afastar-se dos mortos. Do final do século XVII até o fim do século XVIII, assim como na França de Philippe Ariès e de Michel Voyelle, a comemoração dos mortos entra em declínio. Os túmulos, incluindo os dos reis, tornam-se muito simples. As sepulturas são abandonadas à natureza e os cemitérios desertos e mal cuidados. O francês Pierre Muret nas suas Cérémonies funèbres de toutes les nations [1675] acha particularmente chocante o esquecimento dos mortos na Inglaterra e o atribui ao protestantismo: "Antigamente lembrava-se, em cada ano, a memória dos defuntos. Hoje não se fala mais deles, pois que isso poderia parecer papismo". Michel Voyelle [1974] julga descobrir que se quer, na Idade das Luzes, "eliminar a morte".

Imediatamente em seguida à Revolução Francesa, assiste-se a um retorno da memória dos mortos na França, como nos outros países da Europa. A grande época dos cemitérios começa, com novos tipos de monumentos, inscrições funerárias e rito da visita ao cemitério. O túmulo separado da igreja voltou a ser centro de lembrança. O romantismo acentua a atração do cemitério ligado à memória.

O século XIX vê, não mais tanto na ordem do saber como o século XVIII, mas na ordem dos sentimentos e também, diga-se em abono da verdade, da educação, uma explosão do espírito comemorativo.

Foi a Revolução Francesa a dar o exemplo? Mona Ozouf descreveu bem esta utilização da festa revolucionária ao serviço da memória. "Comemorar" faz parte do programa revolucionário: "Todos os que fazem calendários de festas concordam com a necessidade de alimentar através da festa a recordação da revolução" [1976, p. 199].

No final do seu título I, a Constituição de 1791 declara: "Serão estabelecidas festas nacionais para conservar a recordação da Revolução Francesa".

Mas cedo aparece a manipulação da memória. Depois do 9 de Termidor se é sensível aos massacres e às exceções do Terror, decidindo-se subtrair à memória coletiva "a multiplicidade das vítimas" e "nas festas comemorativas, a censura irá disputá-la com a memória" [ibid., p. 202]. É necessário, aliás, escolher. Apenas três jornadas revolucionárias parecem aos termidoreanos dignas de serem comemoradas: o 14 de julho, o 1º Vindimário, dia do ano republicano que não foi manchado por nenhuma gota de sangue e, com mais hesitação, o 10 de agosto, data da queda da monarquia. Em contrapartida, a comemoração do 21 de janeiro, dia da execução de Luís XVI, não terá êxito: é a "comemoração impossível".

O romantismo reencontra, de um modo mais literário que dogmático, a sedução da memória. Na tradução do tratado de Vico, De antiquíssima Italorum sapientia (17 10), Michelet pôde ler este parágrafo Memoria et phantasia: "Os Latinos designam a memória por memoria quando ela reúne as percepções dos sentidos, e por reminiscentia quando os restitui. Mas designavam da mesma forma a faculdade pela qual formamos imagens, a que os Gregos chamavam phantasia, e nós imaginativa, e os Latinos meemorare... Os Gregos contam também na sua mitologia que as Musas, as virtudes da imaginação, são filhas da memória" [1835, ed. 1971, I, pp. 410-11]. Ele encontra aí a ligação entre memória e imaginação, memória e poesia.

Contudo, a laicização das festas e do calendário facilita em muitos países a multiplicação das comemorações. Na França, a memória da Revolução deixa-se reduzir à celebração do 14 de julho, cujas vicissitudes Rosemonde Sanson [1976] narrou. Suprimida por Napoleão, a festa é restabelecida, por proposta de Benjamim Raspail, no 6 de julho de 1880. O relator da proposta de lei declarara: "A organização de uma série de festas nacionais, lembrando ao povo recordações que se ligam à instituição política existente, é uma necessidade reconhecida e posta em prática por todos os governos". No final de 1872, Gambetta escreveu na "La République Française" de 15 de julho: "Uma nação livre tem necessidade de festas nacionais".

Nos Estados Unidos da América, em seguida à Guerra de Secessão, os estados do norte estabelecem um dia comemorativo, festejando a partir de 30 de maio de 1868. Em 1882, deu-se a esse dia o nome de "Memorial Day".

Se os revolucionários querem festas comemorando a revolução, a maré da comemoração é sobretudo um apanágio dos conservadores e ainda mais dos nacionalistas, para quem a memória é um objetivo e um instrumento de governo. Ao 14 de julho republicano a França católica e nacionalista acrescenta a celebração de Joana d'Arc. A comemoração do passado atinge o auge na Alemanha nazista e na Itália fascista.

A comemoração apropria-se de novos instrumentos de suporte: moedas, medalhas, selos de correio multiplicam-se. A partir de meados do século XIX, aproximadamente, uma nova vaga de estatuária, uma nova civilização da inscrição (monumentos, placas de paredes, placas comemorativas nas casas de mortos ilustres) submerge as nações européias. Grande domínio em que a política, a sensibilidade e o folclore se misturam e que espera os seus historiadores. A França do século XIX encontra em Maurice Agulhon, autor de estudos sobre a estatuomania, o seu historiador das imagens e dos símbolos republicanos. O desenvolvimento do turismo dá um impulso notável ao comércio de souvenirs.

Ao mesmo tempo, o movimento científico, destinado a fornecer à memória coletiva das nações os monumentos de lembrança, acelera-se.

Na França a Revolução cria os Arquivos nacionais (decreto de 7 de setembro de 1790). O decreto de 25 de junho de 1794, que ordena a publicidade dos arquivos, abre uma nova fase, a da pública disponibilidade dos documentos da memória nacional.

O século XVIII criara os depósitos centrais de arquivo (a casa de Savóia em Turim nos primeiros anos do século; Pedro, o Grande, em 1720 em São Petersburgo; Maria-Teresa em Viena em 1749; a Polônia em Varsóvia em 1765; Veneza em 1770; Florença em 1778, etc.).

Depois da França, a Inglaterra organiza em 1838 o "Public Record Office" em Londres. O papa Leão XIII abre ao público, em 1881, o Arquivo secreto do Vaticano, criado em 1611. São criadas instituições especializadas, com o fim de formarem especialistas do estudo desses fundos: a "École des Chartes" em Paris em 1821 (reorganizada em 1829); o "Institur für Osterreichische Geschichtsforschung", fundado em Viena em 1854 por obra de Sickel; a "Scuola di Paleografia e Diplomatica", instituída em Florença por Bonaini em 1857.

O mesmo aconteceu com os museus: depois de tímidas tentativas de abertura ao público no século XVIII (o Louvre entre 1750 e 1773, o Museu público de Cassel criado em 1779 pelo landgrave da Assia) e da instalação de grandes coleções em edifícios especiais (o Ermitage em São Petersburgo com Catarina II em 1764, o Museu Clementino do Vaticano em 1773, o Prado em Madri em 1785), começou finalmente a era dos museus públicos e nacionais. A Grande Galeria do Louvre foi inaugurada em 10 de agosto de 1793; a Convenção criou um Museu técnico com o nome significativo de Conservatoire des Arts et des Métiers; Luís-Filipe fundou em 1833 o Museu de Versailles consagrado a todas as glórias da França. A memória nacional francesa orienta-se para a Idade Média com a instalação da coleção Du Sommerard no Museu de Cluny, para a Pré-história com o Museu de Saint-Germain, criado por Napoleão III em 1862.

Os alemães criaram o Museu das Antiguidades nacionais de Berlim (1830) e o Museu germânico de Nuremberg (1852). Na Itália, a Casa de Savóia, ao mesmo tempo que se realizava a unidade nacional, cria em 1859 o Museu Nacional do Bargello em Florença.

A memória coletiva, nos países escandinavos, acolhe a memória "popular", pois que se abrem museus de folclore na Dinamarca desde 1807; em Bergen, na Noruega, em 1828; em Helsinque, na Finlândia, em 1849; esperando o museu mais completo: o Skansen de Estocolmo, em 1891.

A atenção à memória técnica que d'Alembert invocara na Enciclopédie manifesta-se pela criação, em 1852, do Museu das Manufaturas em Marlborough House em Londres.

As bibliotecas conhecem um desenvolvimento e uma abertura paralelos. Nos Estados Unidos, Benjamim Franklin tinha aberto desde 1731 uma biblioteca de Associações em Filadélfia.

Entre as manifestações importantes ou significativas da memória coletiva, encontra-se o aparecimento, no século XIX e no início do século XX, de dois fenômenos. O primeiro, em seguida a Primeira Guerra Mundial, é a construção de monumentos aos mortos. A comemoração funerária encontra aí um novo desenvolvimento. Em numerosos países é erigido um Túmulo ao Soldado Desconhecido, procurando ultrapassar os limites da memória, associada ao anonimato, proclamando sobre um cadáver sem nome a coesão da nação em tomo da memória comum.