História e Memória
11. A cultura dos calendários e dos almanaques
Constatou-se ou sentiu-se a cada passo que o calendário é o resultado de um diálogo complexo entre a natureza e a história. É chegado o momento de retomar a ação da história sobre o calendário, acrescentando algumas considerações suplementares.
O calendário, órgão de um tempo que recomeça sempre, conduz paradoxalmente à instituição de uma história cronológica dos acontecimentos. À data, ao ano e possivelmente também ao mês e ao dia agarram-se os acontecimentos. No livro-almanaque europeu e sobretudo francês, a partir do século XVII e sobretudo do século XVIII, a história toma-se cada vez mais importante, interrompendo "a monotonia das predições astrológicas".
A história dos almanaques e dos calendários é uma história de reis e de grandes personagens, de heróis e, antes de mais nada, de heróis nacionais. Nos séculos XVII e XVIII, Turenne é muitas vezes representado nos almanaques franceses. É também uma história romanesca e anedótica. Geneviève Bollème, no seu estudo sobre um almanaque francês do século XVII [1969] conclui observando que, se recorrermos à nossa sumária mnemônica histórica, constatar-se-á que os assuntos evocados são pobres e que a sua escolha está longe de ser guiada por motivos de ordem científica. Seria necessário estudar mais a fundo a escolha dos fatos recordados, estes curiosos caprichos devidos ou não ao acaso, e também as omissões, os subentendidos. É graças ao "Messager boiteux", que se afirma na França do século XVIII a dimensão histórica do almanaque.
Na Antiguidade, o calendário foi suporte de um desenvolvimento da história no quadro anual: é o tempo dos anais, que reencontramos, de forma ilustrada, em certos calendários astecas. Hoje, curiosamente, o ano reencontra em parte o seu papel de quadro referencial da história. As grandes enciclopédias publicam um panorama dos principais acontecimentos do ano precedente: o Book of the Year da Encyclopaedia Britannica, o Universalia da Encyclopaedia Universalis.
Se no passado o calendário misturou a grande e a pequena história, segundo uma lógica que os historiadores de hoje recusam, o mesmo calendário pode hoje, sobretudo se tem em atenção as festas, na sua dupla roupagem de sistema e de objeto, oferecer aos historiadores etnológos ou aos etno-historiadores aquela história do cotidiano, da cultura material, da festa, através da qual estes procuram renovar a sua disciplina. .
História com tempos e ritmos diferentes, ora linear ora repetitiva, que volta a ser do nosso tempo.
11. A cultura dos calendários e dos almanaques
Até aqui falamos do calendário sobretudo enquanto sistema. Convém agora que nos ocupemos dele enquanto objeto. Trata-se de um objeto eminentemente cultural, um campo privilegiado de encontro entre cultura popular e cultura erudita. Referir-nos-emos sobretudo ao calendário e ao almanaque francês, baseando-os nos trabalhos de John Grand-Carteret e de Geneviève Bollème.
Os calendários e os almanaques deram lugar a obras de valor muito variado. Na Idade Média, os calendários aparecem nas miniaturas e nas esculturas; concebidos para a coletividade, tornam-se o deleite dispendioso dos grandes senhores e dos ricos burgueses que podiam comprar iluminuras. No reinado de Luís XIV, magníficos calendários-estampas, preciosamente gravados, atingem tiragens notáveis e são vendidos pelos seus autores. Alguns são levados para o exterior, como presentes, pelos embaixadores e pelos cônsules reais, costume que recorda o dos imperadores chineses que ofereciam calendários aos vassalos para lhes lembrar o próprio poder sobre o tempo e o pagamento dos tributos.
A partir do século XV fabricam-se calendários volantes pelos processos da xilogravura. Estes contêm as indicações astronômicas do cálculo e são estampados a negro e a vermelho, com pequenas vinhetas alegóricas sobre cada mês, muitas vezes em forma de medalha. Conhecem um particular sucesso na Alemanha, onde são decorados com molduras de uma riqueza e fantasia extremas, com personagens curiosamente enfeitados. Na França, são usados pela propaganda régia, sobretudo em glória de Luís XIV, sob forma histórica, militar, política. Mas exprimem também a contestação: um almanaque de 1653, publicado por confrarias de misteres, denuncia "a pobreza, a miséria". Num almanaque de 1662 vêem-se, ao lado de grandes senhores, animais falantes. Um pássaro diz: "Tudo se pagará"; um cão: "Quando? quando? quando?"; um galo: "Devemos tanto"; um carneiro: "Jamais". A polêmica sobre o sistema de Law aparece também nos almanaques. Através destes pode-se seguir a evolução da cultura e do gosto do século XVIII: das "luzes" ao "rococó".
A Revolução Francesa altera o almanaque. Invadem-no símbolos e alegorias revolucionárias: a Liberdade, a Igualdade, a Justiça, a Lei, o Gênio da República, etc. Celebram as grandes vítimas da contra-revolução como Marat – ou os heróis, como o jovem Barras. A inspiração antiga encontra aí também o seu lugar.
No tempo do Império triunfam os calendários de gabinete, de formato médio, impressos em duas folhas, colados sobre cartão. São decorados com pequenos motivos variados, muito raramente com retratos de Napoleão e da imperatriz. Durante a restauração, almanaques monárquicos e bonapartistas estão em conflito. Em 1818 sai o almanaque dos carteiros. A monarquia de julho vê aparecerem os calendários de parede, com ilustrações: os mistérios de Paris, Robert Macaire; a atualidade encontra aí o seu lugar, e especialmente a guerra com a Argélia. Os almanaques tornam-se também utilitários: publicam os horários das diligências, dos barcos a vapor, dos ônibus. A fantasia reencontra os seus direitos: são pintados calendários sobre o corpo de personagens. Na segunda metade do século o almanaque cede lugar face à agenda de bolso. No século XX, a fotografia restitui-lhe parte do antigo sucesso.
Geneviève Bollème demonstrou que os almanaques apareciam a par com os livros sagrados. A Bíblia e o calendário são os dois alimentos culturais do povo.
O primeiro almanaque é impresso na Alemanha em 1455; em 1464, com um almanaque de barbeiros, começam a publicar-se os almanaques das corporações; em 1471 aparece o almanaque anual. No século XVII, a literatura popular de divulgação acolhe e difunde os almanaques.
Ilustrado com signos, figuras, imagens, o almanaque dirige-se aos analfabetos e a quem lê pouco. Reúne e oferece um saber para todos: astronômico, com os eclipses e as fases da Lua; religioso e social, com as festas e especialmente as festas dos santos que dão lugar aos aniversários no seio das famílias; científico e técnico, com conselhos sobre os trabalhos agrícolas, a medicina, a higiene; histórico, com as cronologias, os grandes personagens, os acontecimentos históricos ou anedóticos; utilitário, com a indicação das feiras, das chegadas e partidas dos correios; literário, com anedotas, fábulas, contos; e, finalmente, astrológico.
Na sua forma popular interessa sobretudo ao pastor e ao camponês. Em 1491 aparece a obra-prima dos almanaques: Le Grand calendrier compost des bergers. É um "vasto calendário da vida humana" e "oferece as grandes estruturas da atividade humana". Assim, os calendários e os almanaques são locais de encontro privilegiados entre cultura erudita e cultura popular. Por um lado, o saber popular, no campo meteorológico, médico, narrativo, atinge os citadinos e os letrados, por outro, a ciência dos eruditos penetra nos ambientes populares. Este fato não é especificamente europeu: por exemplo, na China dos Sung, uma compilação popular, composta em 1222 e feita de citações de outras obras, é simultaneamente um calendário, um manual de botânica e um livro de receitas farmacêuticas.
Em particular, os calendários e os almanaques veiculam, conservam e difundem um saber de tipo astrológico, que nas sociedades evoluídas atuais conhece um novo e extraordinário sucesso. O calendário zodiacal volta a ter o seu auge: os horóscopos instituem-se, propagam-se e têm uma enorme saída. No Ocidente baseiam-se no dia do nascimento, no Extremo Oriente no ano: lá são vendidos aos milhares às portas dos templos, nas lojas, nas ruas. The Japanese Fortune Calender, editado pela primeira vez em 1965, em 1976 já se encontrava na vigésima terceira reimpressão. Para ter uma idéia do caráter desta produção, que de resto não é muito diferente da correspondente ocidental, bastará ler os seguintes conselhos: "O melhor casamento para uma pessoa nascida no ano do dragão será com uma pessoa do ano do rato, da serpente, do macaco ou do galo. Como segunda alternativa, são preferíveis as pessoas do ano do tigre, do cavalo, da cabra ou do javali. O casamento com alguém do ano do cão seria destinado ao insucesso".